Entrevista com Marjorie Sá Entrevista

Hoje temos a entrevista que fizemos à Doula Marjorie Sá! Com uma experiência de vida e um caminho muito focado no feminino, na Mulher e na maternidade, temos a certeza que ler estas respostas tão cheias de verdade irá aquecer o vosso coração!
Boas leituras!

Quando comecei a preparar a entrevista, encontrei – na tua página – este excerto da já falecida escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol: “Não existe só as pedras, as plantas, os animais, os humanos e os anjos. Há também relações, tensão e sentido que é onde esse meu tu existe. É disso que o mundo é feito, feito de vários mundos e de encontros de figuras”.

Porquê esta frase? O que é que estas palavras dizem sobre ti?

Esta frase muito me alegra! Vejo que tudo o que eu faço está diretamente e tão intimamente ligado às pessoas, à matéria do corpo, à natureza humana, mas sempre em consideração à  interligação com o todo, com o ambiente, os elementos, com as relações, com o invisível. Quando eu encontro com alguém (ou algo), encontro também com tudo o que se é, faz, acredita, encontro também com a sua parte que reverbera em mim, e eu me envolvo com seu mundo e, de alguma forma, também ela com o meu. Não sou um ser que separa ou que já “chega junto” com os limites definidos, existe uma plasticidade no meu relacionar e eu me permito viver esta brincadeira, descobrir o terreno e achar uma forma de existir naquela relação, naquele momento. Somos todos algo bem vasto, imenso, eu me interesso muito pela imensidão de cada um e cada coisa que existe. Gosto da idéia de conectar, de ver a individualidade do outro, de considerar sua história e sua forma própria de comunicar, de enxergar, de integrar. Eu não sei ficar indiferente, vibro na tensão dos encontros onde acabo por me perceber melhor também, concordar e divergir, viver esta diversidade onde somos todos tão únicos, tão próprios e também tão parte do todo, tão igual. Faz parte do meu serviço, com o que eu vim fazer aqui, me relacionar com estes vários mundos, com estes vários encontros e aprender com todos eles! 

Aos 14 anos recebeste o livro “Aprenda a Nascer e a Viver com Índios – Parto de Cócoras, desempenho sexual e ginástica indígena”, do Dr. Moyses Paciornik. Como achas que te mudou?

Eu recebi este livro de minha terapeuta na época, nós fazíamos um trabalho de corpo com massagem, meditação e estudo dos arquétipos do tarot. Eu já era muito comprometida com a dança, com o yoga e a ancestralidade e foi por isso que ela me ofereceu. Falávamos muito sobre os hábitos, sexualidade e a sabedoria natural do corpo, e ela mesma havia parido 3 dos seus 4 filhos de cócoras e em casa. Algo ali reverberou profundamente em mim, fazia uma síntese e amarrava vários dos meus interesses. Este livro, o seu autor e a mulher que mo ofereceu foram grandes inspirações no meu caminho!

És professora e terapeuta corporal. Dedicada à medicina tradicional Tailadesa. Como foi o teu percurso até aqui? E em que consiste a Massagem Thai Yoga?

13631670_10153606072402611_8154840641744757952_nSim, sou uma professora ou instrutora por vontade do destino, não planejei isso, sou na verdade uma eterna aprendiz e  tenho aqui um dom qualquer da comunicação e da atração, acredito porque muitas vezes não caibo em mim e tenho mesmo o ímpeto de comunicar, de passar para frente o que eu vivi e aprendi e então me vejo rodeada de pessoas que querem ou podem receber esta partilha.

Ainda bem jovem tive a oportunidade de ir viver na Ásia, eu achava que estava indo buscar mais sobre danças tradicionais e rituais, mas fui engolida pelo universo da meditação, abriu-se um infinito em mim, entretanto, meu corpo estava já habituado a práticas corporais vigorosas e muito frequentes e foi no sentido de me cuidar que eu comecei a praticar a massagem.

A massagem aliava dois grandes interesses, dança e meditação, então me abri totalmente a ela e, logo, ao seu contexto maior; fui estudar as raízes e o que é a Medicina, as Artes de Cura, na visão oriental. Me apaixonei pela medicina tradicional tailandesa, porque ela é uma pérola. Une elementos do Ayurveda e do Tao, é o fruto de um casamento de dois gigantes, porém mantem-se leve e simples.
A Thai Yoga Massagem é uma prática de cura muito antiga, que teve origem na índia e se estabeleceu na Tailândia na época que o budismo chegou àquela região. Faz parte de todo um sistema de tratamentos e prevenção em saúde que engloba meditação, práticas corporais e o uso dos elementos da natureza, de ervas e de nutrição terapêutica. A prática se fundamenta em virtudes e ela pretende beneficiar quem faz tanto quanto quem recebe, promovendo estados elevados (meditativos ) de consciência e um relaxamento profundo. Massagens, de forma geral, têm um papel fundamental em todas as medicinas tradicionais, atuam fisicamente com grande precisão e sempre respeitando os ciclos e o todo, harmonizando não só o corpo, mas também a mente e o espírito.  

Eu ensino porque sinto-me, pessoalmente, totalmente tocada pelos princípios da Massagem Thai que são Metta, o exercício do amor, a Amorosidade, que permite acolher e dar vazão a Karuna, a Compaixão, que cuida do outro e que brota no coração quando compreendemos a verdade de Upekha, a Equanimidade e a aceitação do outro, igual ou diferente de mim e com Mudita, a Alegria contagiante, tornamos capazes de vivenciar nossas relações com prazer e satisfação. Isso é também um grande ensinamento do Budismo e está presente em diversas filosofias e religiões, só que com outro nome, isso é espiritualidade na ação… E também porque existe a técnica, que é lógica, traz entendimento, move a  razão, uma polaridade muito valorizada na nossa cultura, e de muito valor, evidentemente, porém a desvalorização do hemisfério oposto, o plástico, artístico, intuitivo, sensorial é algo que mexe comigo. Como toda prática oriental de saúde e cura, a Massagem é o caminho do meio, o equilíbrio das polaridades e portanto, vai contra a tendência e condicionamento que vivemos desde cedo, logo na infância, a desenvolver o lado “forte” e abafar o lado “sensível”. Por isso eu proponho estudos de corpo e saúde integral onde deixamos aflorar sensibilidade, as vivências e experimentações para depois, nos articularmos em formas mentais e orientações. 

Fazes massagem (e Yoga) para Gestação, Parto e Pós Parto. Porquê este caminho?

Eu acredito fortemente que a massagem (também o Yoga e outras artes do corpo) é uma ferramenta de cura, cura profunda, que abre espaço para criar e manifestar o Amor.

Massagem é movimento, é dança, é algo a sentir com emoção, deixar-se nutrir na troca. Eu sou naturalmente uma entusiasta do bem viver, considero que a vida é muito curta para não viver o prazer, não sentir-me um com o todo, não comover-me e não manifestar o amor no presente. Para mim, estar no corpo é uma dádiva, logo, poder gerar vida no ventre é ainda mais. Poder assistir de perto, com olhos e mãos este fenómeno que é a dádiva da vida, é um privilégio sem igual.

Poder receber uma pessoa e acolhê-la em meu colo-mãos é um presente, sempre. Por mais duro que tenha sido ou esteja aquele dia ou momento, a massagem abre, para mim, o portal do eterno agora. Não há o que pague o sentimento verdadeiro de gratidão que brota desta entrega mútua, por isso massagem neste (gestação/parto/pós) e em todo e qualquer momento da vida.

Sinto que a Gravidez é o momento ideal para refletir e iniciar as transformações que se almeja e criar novas possibilidades dentro, desde as sementes. E, aliás, este é um grande desafio da maternidade. E nada melhor que estar na própria pele, em sintonia fina com o próprio corpo, para manifestar a novidade que se almeja ser e criar. Neste caminho nos deparamos usualmente com mulheres em transformações profundas e estas transformações tocam-me, literalmente, e por isso também tocar. É a troca silenciosa que nada fala mas tudo quer dizer.

Durante a gestação o corpo da mulher passa por muitas alterações que vão desde o aumento do volume sanguíneo até a mudança do eixo corporal e isso mexe com tudo! O fato da massagem contemplar alongamentos em conjunto com pressão, ou seja, combinar contato e movimento, a tornam uma ferramenta ímpar para o conforto e bem estar na gravidez como um todo, que inclui naturalmente a preparação para o parto, o parto o pós parto, as perdas gestacionais, a pré concepção, os primeiros tempos do bebê e tudo o que mais está relacionado a esfera da sexualidade. O trabalho psicoemocional da massagem, que acolhe e nutre, é assim como um colo materno ou carinho do parceiro, mas soma ainda muitos benefícios e em alguns casos pode, inclusive, tratar traumas relacionados à própria gestação e nascimento da mulher, relações de intimidade e sexualidade, e outros conflitos internos de forma suave e não verbal, fazendo fluir memórias e expressões ao longo das respirações profundas que a massagem proporciona. Uma verdadeira limpeza física e energética que coloca a mulher mais à vontade no próprio corpo e logo mais à vontade e estimulada a tocar, aninhar e vincular-se ao seu filho.

Neste percurso outras práticas foram acontecendo e ganhando espaços importantes no meu trabalho. Hoje, além de formadora, eu atuo no cuidar diretamente, como doula e terapeuta, e disponibilizo uma ferramenta que estou desenvolvendo desde a pré concepção da minha última filha, que é um útero-labirinto, um oráculo onde fazemos travessias e nos abrimos às manifestações mais sutis e seus sentidos. Faço-o em vários formatos e circunstâncias, algumas vezes só e outras com minhas parceiras. Aliás, eu adoro parcerias e fazer parte de equipes, estes assuntos da maternidade são tão amplos que trabalhar junto é bom e necessário!

Antes de seres mãe já te sentias tão apaixonada pelo feminino e pela maternidade ou isso foi uma (re)descoberta posterior?

Sim, a conexão com os diversos arquétipos e os mistérios femininos existe e é alimentada desde a tenra idade. Lembro-me de ter uma enorme certeza que a maternidade chegaria cedo para mim e, de fato ela veio. Aos 21 anos, eu engravidei da minha primeira filha, e sei também que herdei esta paixão da minha mãe, que sempre adorou e participou ativamente com assistência e cuidados maternos com as mulheres da família e com as amigas.

És doula autodidata. Como descobriste o que faz uma doula? E como foi o teu caminho de aprendizagem pessoal, neste sentido?

13653247_10153606075727611_6398136864852464597_oDigo que sou autodidata pois tenho uma enorme sede de saber e o meu caminho agrega diferentes abordagens. Como doula não assumo nenhuma escola ou não digo que sigo esta ou aquela linha de atuação. O meu compromisso é com a cada mulher, em cada situação, contemplando toda a multiplicidade de conteúdos que pode necessitar este encontro e buscando oferecer o meu melhor, criar formas de estabelecer a nossa comunicação e ser a parceira, conselheira, testemunha, apoio, amiga, irmã para esta mulher que gera, lembrando-a sempre do seu potencial inato de dar a luz, da sua sabedoria, do valor e da sacralidade desta experiência-parto.

Fui descobrindo-me doula na ação. Como estou há anos dedicada às artes de cura e com muito interesse pessoal e profissional nos temas relacionados com a saúde da mulher, fui somando meus estudos e formações e continuo sempre alerta à procura de oportunidades, mestres e professores para aprender mais.

Eu comecei cedo, na adolescência. Era aquela amiga que estava ali disponível e interessada em ajudar outras as amigas grávidas, as que tinham bebés pequeninos e também as que passavam por perdas naturais ou provocadas, com massagem, banhos, compressas, homeopatias, ou lavando a roupa, fazendo a comida, oferecendo o ombro e os ouvidos. Já era doula! Mais tarde, quando comecei a atender com massagem, atraía sempre muitas grávidas e fui ampliando meu leque de técnicas e minha capacidade de escuta. Juntei, então, mais conhecimentos em herbologia, mais compromisso com o yoga, passei a acompanhar muitos puerpérios, levar outros cuidados naturais para mães e bebés, prestar assistência em abortos e busquei desenvolver algumas outras práticas mais específicas para auxiliar melhor cada situação, como o Watsu, que é massagem em água; a massagem abdominal Chi Nei Tsang; o Chavutti Thiruamal, uma prática de massagem profunda e algumas técnicas com panos, como o Rebozo.

Na altura da minha primeira gestação, eu fiz uma formação à distância em Educação Perinatal, numa escola americana pois, na época, mesmo no Brasil, haviam pouquíssimos cursos na área. Logo vi que era exatamente o que eu mais gostava de fazer. Ao mesmo tempo praticava Kundalini Yoga, para meu próprio bem estar na gravidez e como proposta de especialização. E fazia o pré-natal com uma parteira, também massagista de Shiatsu. Este período de primeira gestação foi de grande aprendizagem, uma experiência fantástica que me fez viver em primeira pessoa muitos dos efeitos e validar o caminho que estou. Vejo claramente que a linguagem que mais me faz sentido é aquela que inclui muita prática e compromisso pessoal e também a que traz consigo a  bagagem das antigas tradições, pois sou muito ligadas as raízes do saber. Minha melhor escola como doula, foi e ainda é o contato próximo com minhas parteiras, aquelas que me assistiram nos meus partos, grandes mestras, e com quem tive o privilégio em trabalhar junto e também com outras parteiras, obstetrizes, enfermeiras, médicas, terapeutas e doulas, professores com quem tenho o prazer de estudar, em cursos ou de aprender, em partos. Para mim ser doula é um ofício sempre em aprimoramento!

A atuação no parto só começou a acontecer mesmo cerca de um ano e meio após dar à luz pela primeira vez, e comecei a estar nos partos das comadres e de clientes que eu já assistia como terapeuta na gestação. A  doula é aquela que está ao lado da mulher durante todo o percurso, então, naturalmente foram surgindo os convites para estar nos partos, conforme eu dedicava-me mais aos cuidados na gravidez e em oferecer um apoio integral. Desde o início eu busco comprometer-me conforme sinto que a situação está dentro das minhas possibilidades. Foi assim que comecei e é assim que sigo e, quando não está, busco apoio e orientação com alguém com mais estrada e experiências, para me supervisionar e me orientar ou, em alguns casos, “passo a bola” para outro profissional mais qualificado.
Foi a partir das necessidades que senti, que decidi fazer algumas especializações e a minha própria investigação foi se construindo, somando e formando o meu repertório atual. Minhas experiências em partos são mesmo diversas: eu já estive em partos com inúmeros desfechos; em parto rurais, em lugares ermos, em partos em casa, nas cidades e com equipes de todo jeito, com transferências ou mesmo sem intervenção de espécie alguma; em partos hospitalares também, em contextos bem distintos, desde maternidades super mega luxuosas até hospitais escolas, maternidade filantrópica, casas de parto e centros de saúde de vilarejos; já assisti partos onde a religião e suas tradições estavam muito presentes, com mulheres e famílias de diversas nacionalidades, idades, idéias e crenças, com pessoas com pouquíssimos recursos e com outras de alto poder aquisitivo, e montes de recursos. Multiculturalismo intergeracional, sinto que sou flexível e disposta a permear todos estes lugares, com presença, com intimidade, de deixar minhas próprias ideias e crenças de lado e abraçar o outro com carinho e também com a discrição e a invisibilidade da doula!

Como entra a dança na tua vida? Associa-la ao teu Ser Mulher?

A dança desde a infância foi minha escola, minha disciplina, meu sacerdócio, minha meditação, meu desafio, a forma mais natural e também intrigante de conectar-me com o divino e com a matéria. Movimento e contato fazem parte do meu ser,  e logo do Ser Mulher. Dançar é também celebrar, é exercitar, é viver o prazer de estar no corpo e brincar com ele. Meu interesse pela massagem só aconteceu porque eu vi a dança nela e, aí, tudo fez muito mais sentido! Tornar a dança algo bem palpável e aplicá-la ao benéficio do outro.  Mas a dança está sempre aqui, intimamente, na minha forma de ser e espero poder me dedicar novamente mais ao corpo performático-intérprete-criador, ainda nesta vida!!

Ainda estás ligada à Associação de Ecologia Feminina? Em que consiste o teu trabalho lá?

Sim e, finalmente, vamos mover novos projetos em Portugal. A Associação Ecologia Feminina surgiu em 2007, a partir de um projeto com mulheres grávidas em situação de risco. De lá para cá já movemos várias ações, dentro do seu campo de atuação. O seu objetivo é valorizar  e promover a cultura dos ciclos naturais nas mulheres e em todos que as rodeiam, fortalecendo assim a conexão humana ancestral, aliada à tecnologia dos novos tempos.  Ela é também uma plataforma de pesquisa que tem como meta difundir e praticar o que reverencia a integração do homem e resgata o poder do feminino que cria, nutre, sustenta e faz florescer, buscando unificar Espiritualidade e Valores Humanos com Saúde e Educação.
Nós somos um coletivo que está aberto a receber projetos diversos na sua temática e o meu trabalho ali é bem versátil, tipo “pau para toda obra”, o que for preciso fazer para manifestar um projeto, se eu puder, eu abraço!

Lembras-te do primeiro parto a que assististe? E do primeiro em que auxiliaste?

Com certeza! O primeiro parto que assisti foi de uma gata e lembro-me de achar incrível a sabedoria daquele pequeno ser. Eu estava grávida, na altura, e observar a natureza agir foi inspirador e fortalecedor. O primeiro parto que auxiliei foi de uma comadre minha, numa casa de partos, muito humanizado e num ambiente singelo. Coisa linda! Senti-me abençoada por poder testemunhar tal evento e colaborar de alguma forma com o bem estar daquela irmã! A partir dali percebi que era um caminho sem volta, que precisaria desenvolver os talentos e recursos necessários para poder estar adequadamente naquele ambiente mas que ele era totalmente natural para mim: os cheiros, o sons, o silêncio, o sangue, as emoções, as catarses, o orgasmo, o choro, a frustração, a alegria, a imprevisibilidade. Sinto-me desafiada e, ao mesmo, tempo muito à vontade no ambiente-parto.

És mãe de quantos filhos?

Sou mãe de duas meninas, uma nascida em 2006 outra em 2013.

Foram partos naturais, na água? Aconteceram como tu imaginaste?

13603254_10153606069092611_3771667462300711866_oForam partos em casa, em ambos partos a água foi um bálsamo, ajudando a relaxar e a conectar com a fluidez, no duche e, no segundo parto, também no expulsivo dentro da água, na piscina.

Mas eu já vivi quatro gestações e busquei acompanhamento “alternativo” em todas. Não fiz nunca um pré-natal nos moldes convencionais. Tive dois partos naturais e vivi duas perdas, também em casa, sem exames invasivos ou abuso de fármacos e com boa assistência, a não interventiva. Creio que fui bem sucedida nas minhas escolhas, porque elas partiam de dentro e reuniam conhecimento, entrega e apoio necessários, e algumas atitudes que pratico no meu dia a dia e venho ajardinando ao longo dos anos, como os hábitos holísticos presentes desde a minha infância. Não tenho nada contra a medicina moderna ocidental, apenas assusta-me o movimento contra natura e a dependência desacerbada de fármacos. Digo isso somente para ilustrar que esta foi minha possibilidade de autonomia responsável, sem pretensão de dizer o que é certo, errado, melhor ou pior e porque vejo muitas pessoas querendo mudar e criar novos hábitos somente na gravidez, em busca talvez de uma experiência idealizada de gestação e de parto enquanto, na realidade, esta passagem vai mesmo realçar o que a pessoa já é, faz e acredita.
O que se transformou dentro de ti depois de seres mãe?

Eu fui mãe muito cedo. Foi na hora certa; na minha hora. Estava muito disponível e consciente para exercer esse serviço. Eu sinto que o que mudou em mim foi, talvez, uma maior tranquilidade; ser mãe despertou aquele amor incondicional em mim; e aumentou muito a minha tolerância; a minha aceitação; a aceitação da imperfeição; a aceitação da humanidade, do erro. Ser mãe me fez e me faz reconhecer os limites, aprender onde estão e também ampliar, reconhecer o quanto ainda tenho para crescer; me ensina, diariamente, a buscar o momento presente, a responder com dedicação, com sinceridade, com verdade. Ser mãe me permite vivenciar uma alegria que é indescritível, essa alegria de assistir, tão de perto, o crescimento, a descoberta, o florescimento de alguém e se espelhar nessa relação. 

É muita responsabilidade; é muita dedicação, compromisso, mas me faz muito feliz!

Defines-te como menina, mulher selvagem e mãe. Sentes que tens trilhado o caminho certo enquanto Mulher?

13603815_10153606072092611_4385667153993570111_oEu gosto de assumir essa definição, porque são três aspetos que eu sinto muito presentes em mim, na minha personalidade. Menina, porque tenho toda a minha jovialidade, que reflete na minha aparência (rs), a minha não-idade. A menina me lembra da espontaneidade, da inocência, da alegria, da brincadeira, do jogo que é a vida. Do não-tempo, criança que vive no tempo da magia. Então, eu sinto que essa é a minha menina, muito viva!

Mulher selvagem, porque eu estou muito ligada aos meus instintos, a um espírito indomável, que está, sim, disponível a adaptar-se, a vivenciar esse lugar e esse contexto, na sociedade, mas continua intimamente ligada à sua natureza, aos seus impulsos, à sua conexão. Acho que a mulher selvagem é essa conexão com a natureza íntima, com a força de dentro e que não se assusta, que não tem medo. 

A mãe é algo muito presente em mim, também natural. Sinto-me extremamente maternal, tenho um colo muito disponível, gosto de cuidar, de zelar. Estou, realmente, disponível a acolher, a agregar. Eu digo sempre: na minha casa sempre cabe mais um! Um coração de mãe está sempre aberto! 

Sentes que tens trilhado o “caminho certo” enquanto Mulher?

Se eu estou no caminho certo? Eu estou no meu caminho. Ele é o certo, porque ele é o meu; ele é o possível e é também o que eu escolho. Então, eu sinto que sim, que eu estou alinhando, que eu estou num lugar coerente, que tem a ver, que eu tenho afinidade, que eu estou exercendo o meu potencial e também oferecendo o meu dom. E recebo! Eu acho que quando a gente recebe a gratidão, quando você é tocado pela gratidão com aquele que você atuou, cuidou, se prestou, esta  é a melhor forma de dizer “sim”, que o caminho é o certo. Com todos os seus percalços, com todas as suas falhas, tudo o que ainda tem para crescer, para desenvolver, para melhorar, eu sinto que estou no caminho certo, porque é o caminho do coração; é o caminho do meu coração!

Podes encontrar a Marjorie aqui: 

Mãos de Doula

Ciranda da Maternidade

Massagem e Gravidez

 

Porque há histórias que nos marcam e pessoas que têm encanto na voz e encanto nas suas palavras.
Muito grata, Marjorie, pela disponibilidade de responderes a estas perguntas, pelo facto de não “desistires”, apesar da dificuldade em conseguirmos comunicar (coisas da tecnologia… :-D).
Muito grata por te conhecer assim, sem capas… só tu! ☼

 

Fotos gentilmente cedidas pela Marjorie


Sou a Liliana, mas todos me conhecem por Lili. Sou dança, sou Sol, sou música... sou riso, sou lágrimas, estações... sou o dia, sou a noite... sou um eclipse de sentimentos e sensações. Filha da Terra, Mãe d'Água de Coração! ☼