Entrevista com Soraia Rosa Coelho Entrevista

(Imagem de capa por Bless)

Quando preencheu os “círculos mágicos” do impresso que a levaria à Universidade, Soraia hesitou. Esteve para escolher um curso relacionado com sexologia, mas a insegurança em relação ao futuro levou-a a optar por fisioterapia “convencional” com especialização (pós graduação) em Fisioterapia na Saúde da Mulher. Mais tarde, como não poderia deixar de ser (estamos sempre a cruzar-nos com o nosso verdadeiro “destino”) acabou por fazer formações na área da sexualidade. Frequenta o Mestrado na área da Sexologia humana, estando a efectuar a sua tese na área da imagem corporal da grávida em relação à sexualidade. Trabalha em duas clínicas onde acompanha mulheres na preparação do corpo para o parto e recuperação pós-parto, incontinência urinária, disfunções sexuais, entre outros.
O seu trabalho assenta essencialmente em reabilitar o pavimento pélvico (já vamos explicar o que é). Mas não só. É muito importante recuperar a confiança e a Soraia também é protagonista dessa mudança. Esta foi uma entrevista muito “visual”, pois as explicações da Soraia são acompanhadas de movimentos para explicar melhor o que acontece no corpo. Os seus utentes são maioritariamente mulheres, mas também acompanha homens e crianças. A Saúde da Mulher é, no entanto, o seu foco.

Marina – Soraia, como é o teu dia a dia profissional? Que tipo de pessoas acompanhas?

Soraia – Eu trabalho com mulheres essencialmente na fase de vida pré e pós-parto, mas não só. Incontinência urinária, disfunções sexuais. Muitas disfunções sexuais…

M – Ah sim?

S – Tenho pacientes com dores pélvicas. Por exemplo… Neuralgias do pudendo, que são dores intensas …

M – Do pudendo? Explica-me, o que é isso?

S – É um nervo que tu tens que tem origem na zona do sacro e que depois inerva a área genital. Quando está afectado, dá dores intensas a nível vaginal, anal, dificuldade em ficar sentada por longos períodos de tempo, incapacidade de vida normal, incapacidade de ir à casa de banho…

M – Porque urinar é doloroso?

S – Quem sofre de neuralgia do nervo pudendo pode ter desconforto quando urina, na defecação ou na relação sexual. Os sintomas podem envolver a bexiga com incontinência, sensação de não conseguir esvaziar a bexiga, urgência de micção. Durante e após a evacuação intestinal, podem sentir dor e pode sofrer de prisão de ventre, incontinência ou hemorróidas. As relações sexuais são dolorosas e esse sintoma permanece mesmo após o final da relação sexual.

M – Bolas… Pensava eu que o pior cenário seria, após um parto, as lacerações… quando afinal há aqui uma panóplia de situações mais graves ainda. Estas condições de debilidade são sempre consequência de um parto ou podem ser disfunções com outra origem?

S – Não! Esta pode ser por via de acidente, alguma queda… nem sempre está relacionado com o parto. No pós-parto o mais comum, o que eu mais vejo, são alterações a nível de episotomia (aquele corte lateral), dores pélvicas relacionadas com a passagem do bebé (se houve necessidade de fórceps ou ventosas), muitos casos de alterações ao nível da postura e da maneira de estar por causa da cicatriz da cesariana… Porque altera tudo… A maneira de andar… Há mulheres que ficam com dor ao nível da zona pélvica por causa dessa cicatriz.

M – Aparentemente parece que não tem nada a ver mas tem, não é? O corpo está todo ligado…

S – Sim! Imagina a cicatriz da cesariana… é uma cicatriz que colou.
Para ajudar a acompanhar esta explicação da Soraia estas imagens podem ajudar:

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(Fonte da image)

S – Tens uma estrutura toda colada, aqui no peritoneu, que é o saco onde estão as tuas vísceras, que cola à cicatriz. Toda esta estrutura está esticada. Tu queres mover-te e tudo é mais desagradável porque esta estrutura está interligada com a tua parte pélvica.

M – Podemos assumir que o pós-parto mais complicado é o das cesarianas?

S – Cada um pode trazer os seus problemas. Vai depender sempre de como correu o parto e que cuidados foram fornecidos à Mãe no pós-parto. Muitas vezes passa pela falta de informação. Os profissionais não passam a informação correcta às Mães. Não ensinam como massajar uma cicatriz, por exemplo. Não ensinam a importância de a massajar. A Mãe é um pouco “deixada ao abandono”.

M – Porque se assume que vai curar naturalmente…

S – Sim! A dor é “normal”. Considera-se que a incontinência urinária seis meses após o parto é normal, não há necessidade de preocupar.

M – E não é verdade! Quando se assume essa normalidade não se apontam soluções alternativas, é isso?

S – Repara! Quando se passaram duas ou três semanas de um parto, aí sim é normal. O corpo está magoado, toda a estrutura pélvica ainda está… macerada. Mas estava a falar de mulheres às vezes com três, quatro, seis… oito meses após o parto ainda com perdas urinárias. Não se justifica. Não se justifica não apontar um caminho, uma solução a essas mulheres.

M – Estamos a falar de perdas urinárias com esforço físico, por impacto da prática de desporto, por exemplo? Ou perdas em situações mais “banais”, sem este esforço?

S – É sempre incontinência!

M – E abdominais hipopressivos, muitas vezes anunciado como ginástica pós-parto, ajuda?

S – Ajuda mas não trata um problema. É um complemento. Por vezes tenho pacientes que fazem um trabalho de recuperação da zona pélvica comigo e eu depois aconselho, se tiverem interesse, em fazer “lower pressure fitness”, com outra colega minha especializada nessa área. Eu trabalho sempre com referência a outros profissionais.

M – E para se compreender melhor a história de cada mulher é necessário saber como correu o parto, é isso?

S – Sim, por exemplo. Foste Mãe há quanto tempo?

M – Quase três anos.

S – Que tipo de parto?

M – Parto normal, na água.

S – Quanto tempo de fase de dilatação tiveste?

M – Trabalho activo de parto ou todo o trabalho de parto? Trabalho activo três horas e tempo total quinze horas, desde que se romperam as águas.

É considerado trabalho activo de parto quando a mulher atinge os 4 cm de dilatação.

S – E o trabalho de expulsão em si?

M – Ui, não me lembro. O que estás a considerar? Desde que se começa a ter vontade de fazer força e “ir à casinha”…?

E por breves instantes tive ali um pequeno momento de avaliação. Onde percebi novamente que, por todos os motivos e mais alguns, é importante dar e respeitar o devido tempo de cada mulher no seu trabalho de parto.

M – Ui… Nem sei bem! Uma meia hora mas não tenho a certeza…

S – Ok… Então! Tu tens o teu canal vaginal, certo? À volta do teu canal vaginal, que forma quase um chão na parte da tua anca tens os músculos pélvicos.

M – O períneo?

S – O períneo. Esses músculos só conseguem ser testados com toque vaginal. Não há outra forma de o fazer.

M – Ok…

S – Posso estar a olhar, dizer-te que tens um períneo lindíssimo mas não te estou a testar a parte muscular. Tens três camadas. Se pensares nas três articulações de um dedo (falange, falanginha, falangeta), na primeira camada estás na primeira articulação, mais ao nível dos esfíncteres, mais sexual, que envolve por exemplo o nível do clitóris… a sua cabeça, os esfíncteres ao nível da uretra e do ânus. Depois tens a segunda camada, com um bocadinho de tudo. A última camada, é a mais utilizada ao nível do parto. Tem os músculos mais utilizados. E um dos que fica mais magoado, com mais alterações é o ileococcigeo, que só tocas mesmo lá ao fundo (imaginando o dedo a fazer o toque), na zona do cóccix. E nesse, eu costumo dizer, que as Mães trazem sempre lembranças do seu bebé, como uma assinatura.

M – Ahahahaha! É uma boa forma de ver a coisa…

S – É!! Trazem um bocadinho de faixa… um bocadinho de ligamento. Ou deixam lá uma marcazinha, como que a dizer “Eu estive aqui”… E esse músculo realmente fica magoado, fica fraco, portanto. Às vezes quando contrai esses músculos devia contrair assim e baixar assim.… Estás a ver as asas de uma gaivota? A voar de forma pausada… isso quer dizer que os músculos estão fracos e caem. Isto é, ao fazer o toque vaginal a uma mulher, testas a primeira camada, está fantástica; testas a segunda, menos mas está razoável; chegas à terceira camada, o teu dado cai e consegues ancorar mesmo os teus dedos. Não sentes contracção por parte dos músculos, como anteriormente, os músculos não têm força.

M – Estou a VER a tua explicação… é tão visualmente rica… será que podemos concretizá-la numa entrevista escrita? Vou pedir-te ajuda nesse sentido!!

S – Claro! Portanto, imagina… este é o cenário mais comum que eu trato. Se passado este tempo todo, eu ao fazer a avaliação verificasse esta situação… bom, incontinência urinária implica perdas frequentes de urina durante seis meses, pode ser apenas uma gota, duas gotas, três gotas, não importa. Perda é perda! Às vezes o que acontece é… como a própria comunidade médica menospreza a situação (o tal “é normal, não preocupe”), a mulher vai tendo esse problema anos e anos…

M – Tanto tempo?

S – …e anos. Sim, porque “é normal”. Mas não é!! Seja uma Mãe no pós-parto, seja uma mulher com menopausa, seja qual for a idade da mulher, não há justificativa alguma para uma mulher andar a ter perdas urinárias e não ter ajuda por parte da comunidade dos profissionais de saúde que deveriam dar ajuda.

M – Mas porque é que achas que isso acontece? Falta de informação? Puro desconhecimento?

S – Sim mas não só. É quase um “catch 22“.

M – Explica lá isso!!

S – É uma dualidade. Os médicos sabem que existe ajuda mas são muito apologistas da cirurgia como terapêutica. Então deixam andar e protelam até que “não há mais nada a fazer” e o único recurso que aquela mulher tem é a cirurgia. Outra coisa… já existem alguns hospitais estatais a fornecer o serviço de reabilitação para o pavimento pélvico, ainda não são muitos mas já existem. O Hospital Amadora – Sintra, tem uma unidade fantástica. Só que depois parte essencialmente dos profissionais saberem encaminhar. Deviam falar entre si. Não comunicam.

M – Pois…

S – Eu apanho mulheres, para te dar exemplos mais mirabolantes, com três anos com dor sexual de pós parto… Três anos!

M – (eu… olhar incrédulo)

S – Horrível. Dores horríveis. Uma mulher que, cada vez que tinha uma relação sexual e havia penetração, sentia a rasgar, sentia dor intensa… portanto, já tinha um quadro de dispareunia que podia prosseguir para um vaginismo. Qual é que é a diferença? Na dispareunia a mulher consegue ter relação sexual, consegue haver penetração.

M – Consegue mas não quer dizer que tenha prazer.

S – Não, poderá não ter prazer. No vaginismo não consegue mesmo ter a relação sexual. Está encerrado. Pode, ou não, haver dor.

M – O que queres dizer com estar encerrado? Está de tal maneira contraído que não permite mesmo que aconteça a relação?

S – Está fechado.

M – Nem há lubrificação suficiente que “facilite”…

S – Não! Não… É uma mulher que não consegue fazer o simples exame ginecológico, muito menos ter relações. Pode ou não haver dor, entendes? Porque aqui no vaginismo é a ansiedade perante a dor e o corpo… fecha!! Esta mulher procurou ajuda e o que o médico de família lhe disse foi:  “Sabe, isto é muito simples! A senhora bebe um copo de whisky antes de ir para a cama que, geralmente resolve a situação”

M – Que horror! (olhar incrédulo)

S – E o problema é que não são exemplos únicos, acontece-me com mais mulheres receberem este tipo de indicação.

M – Por parte de um médico de família!

S – Esta semana tive uma Mãe, de pós-parto já de um ano, já com um caso de vaginismo mas relacionado com alterações físicas que ocorreram no parto… foi ao médico, pediu ajuda e o médico, um ginecologista, disse-lhe: “O que a senhora tem é um vaginismo” ao que ela perguntou o que era isso, pois queria saber mais e ele respondeu: “Chega a casa, coloca a palavra no Google e procura”.

M – (olhar incrédulo mais uma vez)

S – Portanto… esta falta de apoio à mulher e à saúde da mulher faz-me muita confusão.

M – E por isso aqui estás! Todos os dias na tentativa de deixar o mundo um pouco melhor nesse aspecto.

S – Sim! E sabes, quando falo com outros profissionais da área dou muitas vezes este exemplo… existem campanhas de sensibilização para a disfunção eréctil, temos milhares de euros gastos em campanhas  para a saúde sexual masculina… mas tu não vês nada para a mulher.

M – Mas isso não será reflexo de uma sociedade machista que ainda temos?

S – Sim e isso é preocupante! Porque depois as mulheres não procuram ajuda… porque para elas vai ser tudo “normal”. A dor é “normal”, a incontinência é “normal”, a disfunção é normal. E o problema está comigo (mulher) e com mais ninguém. Esta é a mentalidade mais comum que encontro nas minhas pacientes.

M – Há portanto, todo um trabalho psicológico que também é importante fazer.

S – Sim, importantíssimo! E por isso é que trabalho em equipas multidisciplinares, não trabalho isolada. Médicas, psicólogas, preparadoras físicas, enfermeiras… assim é que faz sentido. Pessoas da minha confiança, para quem encaminho algumas Mães e que eu sei que não vão recriminadas por exemplo, por terem uma amamentação prolongada. Esta Mãe que eu te falei anteriormente… amamenta há um ano e tem discussões com o ginecologista que são absurdas!! Estas Mães já estão melindradas, já se sentem atacadas… é preciso muito tacto e atenção, ao serem encaminhadas. E eu gosto de ter este núcleo de pessoas em quem confio.

M – Excelente!

S – Outra “crítica”… as aulas de parentalidade, vulgo preparação para o parto. Já existem alguns, óptimos mas… acabam por não falar deste tipo de situações. Não é falado que tem de tratar das cicatrizes… Não é falado que o períneo deve ser massajado… ou se fala é numa aula que se mostra isso, num quadro, de forma expositiva e não demonstrativa. Estamos a falar de mulheres, a maioria das vezes já com 30 e tal semanas (a frequentar as aulas de pré e pós parto) mas que já o poderiam fazer desde as 28 semanas.

M – Tão cedo?

S – Sim! Desde que não haja contracções de parto, a saúde esteja normal… pode-se começar logo.

M – E massajar… como?

S – Massajar. Alongar. Puxar. Alongar.

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S – E não é trabalhar só o alongar… mas também o fortalecer. Eu digo sempre… o períneo é uma bailarina. Precisa de ser forte e flexível.

M – Adoro estas tuas comparações!

S – (sorriso) É verdade!! A mulher tem que ser forte para fazer a expulsão do bebé mas extremamente flexível para não causar danos a si própria. E por isso eu acho que as sessões de parentalidade deviam ter incorporadas sessões de preparação do corpo para o parto. O corpo da Mãe tem que ser preparado. E cuidado depois. A partir das 26, 28 semanas… é a altura que eu costumo dizer às Mamãs com quem trabalho que podem iniciar esta preparação. Como é que eu trabalho as minhas Mamãs…? Ao nível do períneo, fortalecendo-o, alongar e massajar. Ensino a fazer. Ensino a Mãe e o(a) companheiro(a) que queira estar presente e sinta conforto. Eles acabam por gostar… “aquilo” envolve uns jogos mais sensuais entre o casal que é bem recebido, desenvolvem mais esse contacto de intimidade.

M – E a regularidade destes exercícios? Uma vez por dia? Quanto tempo?

S – Dez minutos, três a quatro vezes por semana. Depende, consoante a mulher vai reagindo ao processo.

M – Porque ao início pode ser ligeiramente doloroso, não é?

S – Existe uma coisa óptima, que é o epi -no. Todas as Mães deviam ter…

M – Conta!!

S – Vocês até já partilharam na vossa página de facebook um artigo que eu escrevi sobre o epi-no…

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S – O Epi-No vende-se em Espanha, em Portugal não há. Tem um custo elevado, cerca de €100. E o que é o Epi-No? É, para mim, um instrumento extraordinário para trabalhar o períneo. Tens este balãozinho que a Mãe insere a nível vaginal e vai enchendo até sentir a alongar e ser confortável.

M – À medida do que cada corpo permite/consegue…

S – Exacto! E deixa-se estar 10 minutos com o balão. É possível fazer alguns exercícios com o balão, que não há problema nenhum. O objectivo depois é conseguir tirar o balão ainda cheio. O que é que isto faz? Para além de trabalhar o alongamento, vai começar a simular a passagem do bebé. O que é que isso permite? Que a mulher esteja mais preparada para o parto em si, apesar de não se comparar ao nível do parto (que vai ser muito superior) e ajuda a “controlar” a expectativa sobre o que vai acontecer.

M – Porque já há uma memória corporal…

S – Sim! A própria empresa já fez artigos sobre a eficácia do epi-no e indica que a utilização deste aparelho fez diminuir em cerca de 40% a necessidade de realizar a episiotomia.

M – 40%?!

S – É brutal!! Por exemplo, não percebo porque não há mais referências a este aparelho aqui em Portugal. Reino Unido, países nórdicos… é de uso “comum” no Brasil… Este aparelho também é muito bom para utilizar no pós-parto.

M – E dá para utilizar numa segunda ou terceira gravidez.

S – Sim, claro! E no pós parto, assim que se sinta conforto em fazer a inserção, pode-se começar a treinar as contracções de fortalecimento do pavimento pélvico. O aparelho tem este manómetro, este visor, que te vai mostrando valores das contracções. Se estás a aumentar a força, ou não.

M – Saber trabalhar estes músculos implica um grande conhecimento do corpo que, pergunto-me, se será do domínio da maioria das mulheres… diz-me tu!

S – Os últimos estudos indicam que apenas 30% das mulheres sabem contrair o pavimento pélvico. O resto das mulheres contrai glúteos (o rabiosque), contrai as pernas, contrai a barriga… ou então, em vez de contrair, está a fazer como quando vai à casa de banho, faz muita força para baixo.
São muito poucas as que conseguem contrair o pavimento pélvico.

M – Domínio muscular que até a nível sexual pode ser uma vantagem, verdade?

S – Sim! Eu sou muito aberta na sexualidade com as minhas pacientes e tenho feito caminho com elas nesse campo. Quando elas começam a ter alta da fisioterapia, depois de tratarem uma disfunção sexual, faço-lhes várias perguntas e até lhes dou um livrinho com algumas posições sexuais e pergunto quais é que gostaria de experimentar. E ponho as minhas pacientes nessas posições, ligadas a uma máquina que monitoriza o movimento do períneo para elas perceberem como é que esse músculo vai contrair, se fica muito activo, o que lhe pode causar dor…

M – Essas “intervenções” são bem recebidas?

S – Sim, são. Porque já se criou uma confiança muito grande entre nós… e como elas me vêem sempre com muita liberdade a falar sobre isto, elas próprias vêm muitas vezes pedir mais informações porque sabem que não se vão sentir recriminadas por estarem interessadas na sua sexualidade. Outra coisa que trabalho com elas é a contracção. Porque sempre que tu contrais o pavimento pélvico activas o sistema simpático que é quem controla o orgasmo. Portanto, isto é uma boa forma para teres orgasmos múltiplos.

M – Estou a ver que esse é todo um outro tema de entrevista.  A revolução do períneo!

S – É!

Fica a promessa de um artigo escrito aqui nas Mães d’Água, a duas mãos, sobre os “segredos” da sexualidade. Escrito sem pudor ou vergonha, que já é mais que tempo de libertar as amarras e soltar o “grito do ipiranga” deste nosso músculo.

M – Sexualidade após um parto? Vamos falar sobre isso?

S – Amamentar diminui um pouco a líbido, tens menos lubrificação, devido à parte hormonal. Porque o teu corpo fica vocacionado para amamentar aquele ser que precisa de ti. Daí algumas Mamãs estarem um ano ou mais sem a menstruação, enquanto amamentam. Chegam a ficar irritadas vaginalmente e um lubrificador à base de água é o suficiente, e parece a nossa lubrificação natural. É confortável e escusam de ter problemas durante o acto sexual.

M – Quanto tempo até tudo voltar ao “normal”? Valores médios? Estatística, enfim! Vale o que vale…

S – Quase um ano após o parto até o corpo voltar ao seu estado mais ou menos normal. O útero leva sensivelmente oito meses a fazer a sua involução. E depois há as questões da paranóia do corpo… mães que tiveram o bebé há um mês e meio e já sentem pressão para estarem a emagrecer. Às vezes não curtem a gravidez, nem curtem a Lua de Leite, a interação com o seu bebé… e não percebem que quando se amamenta este percurso do corpo voltar ao sítio leeeeva tempo!

M – E cada uma no seu tempo, não é?

S – As próprias hormonas que libertamos durante a amamentação não nos permite que o corpo trabalhe da mesma forma. A mentalidade ao nível dos MEDIA também precisa de uma mudança. Mas está na mulher dizer o “basta”. Até ao nível da comunidade médica. Chegam-me tantos relatos sobre médicos que dizem “vou-lhe fazer uma maldade” e quando eu pergunto “você deixa fazer, sem o médico lhe explicar melhor o que vai fazer?” e a resposta já estás a imaginar qual é.

M – Muitas mulheres, só muito mais tarde percebem o que lhe foi feito…

S – Mas isto tem que ser dito à mulher, explicar os efeitos, as consequências… e pedir autorização para fazer. Acima de tudo o consentimento informado.

M – Há uma reverência excessiva a esta figura do “Doutor” que se instalou entre nós.

S – O médico sempre foi visto com reverência, poder… e saber. É, de facto, uma pessoa de saber, com conhecimento. Assim como um arquitecto, um engenheiro, um fisioterapeuta… cada um nas suas áreas. Mas nós damos demasiado poder ao médico. Basta começar por coisas simples como a prescrição de uma panóplia de medicamentos, e tu perguntas o motivo de estar a fazer determinado terapêutica e a resposta que ouves é “Não sei, o senhor doutor passou…”

M – Há muito caminho a fazer ainda… não é?

S – Passa pelo tempo de atendimento que têm com um utente, pela mentalidade de maior ou menor arrogância… mas temos que se nós a dizer “isto não está correcto”!

M – É urgente uma mudança da sociedade civil!

S – Sim! Um médico de família deve ser a porta para tudo o que eu precisar. Para me encaminhar para os melhores profissionais. Para isso tem que ter tempo para me atender e ouvir. Geralmente só têm quinze minutos por utente. Só que nós também nos acomodamos e encolhemos os ombros. E não pode ser. Começa-se pequenino, com as autarquias locais… e depois maior. Acaba por ser um pouco o que vocês, Mães d’Água, estão a fazer com o vosso Movimento. Dá muito trabalho e vocês sabem bem que sim. Há muitas críticas de todos os lados… mas temos que nos unir e dizer “Chega!”.

Falámos muito mais… Apontámos problemas e discutimos soluções. Puerpério e cuidados de saúde pós-parto. A necessidade de adequar a linguagem no trato com os utentes, ter mais sensibilidade. O desfasamento entre a formação e a prática. Não precipitar os momentos, nem desvalorizar as queixas. Juntas, cheias de opiniões, deixassem-nos e mudávamos radicalmente o dia-a-dia na Saúde da Mulher. Amamentação prolongada e parentalidade com apego.

Foi uma tarde muito bem passada. Despedi-me com um grande sorriso e uma pergunta.

M – Para quando um projecto pessoal na área da Saúde da Mulher… em equipa…? Em breve?

S – Quem sabe…

A resposta ficou em aberto… nota-se pela forma como Soraia descreveu vários episódios, que a Saúde da Mulher é um tema preocupante para ela e, apesar de ir fazendo a diferença no seu dia-a-dia, nós Mães d’Água torcemos para que as mulheres possam estar sempre bem acompanhadas, como quando estão na suas mãos.
A Soraia é uma mulher que inspira confiança. Ainda bem. Afinal ela vê-nos literalmente nuas e conhece os nossos recantos mais íntimos. Vísceras, intelecto e emoção.

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Podes  saber mais sobre a Soraia e o trabalho que desenvolve na Clinica das Conchas e no Centro de Fisioterapia Dr. Rasgado Rodrigues.

(imagem por Bless)


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)