Entrevista com Yolanda Castillo Entrevista

Quem era a Yolanda antes de ser doula?

A nível profissional, terapeuta. Desde os 18 anos que trabalho com terapias alternativas, mas sempre me foquei no trabalho com as grávidas e crianças. De todas as áreas que experimentei, é esta onde me sinto mais confortável. São mundos muito bonitos para se mimar, para se cuidar, onde há muito por onde explorar.

Quando sentiste que querias ser doula?

Ora bem, eu vou-te confessar que o mundo das Doulas era um bocado desconhecido para mim há cerca de três anos atrás. Foi nesse tempo que uma amiga me pediu para assistir ao parto dela. Coisas do Universo! (risos)
Para mim, o meu trabalho enquanto terapeuta baseava-se no tempo durante e após a gravidez, nunca no momento do parto. Quando ela me convidou para assistir, eu perguntei: “Eu? A fazer o quê?” (risos). E claro que fui, e quando saí de lá… por um lado saí muito contente, mas por outro senti que havia coisas que não faziam muito sentido para mim… Havia qualquer coisa que não estava bem… não me pareceu haver trato humano, com respeito… aí comecei a investigar um pouco sobre o assunto, e encontrei a Rede Portuguesa de Doulas, conheci a Luísa Condeço, e foi aí quando decidi a aventurar-me no mundo das Doulas. De forma tranquila, a informar-me, a pesquisar, e a continuar o meu trabalho com as grávidas.

Depois desta história tão bonita, o que te motivou para ser Doula?

Senti que realmente é preciso mudar. Muitas mulheres não têm conhecimento nem informação sobre o processo da gravidez até ao pós parto, e acreditam que determinados procedimentos são normais e fazem parte. E eu acredito que a forma como nascemos, a forma como damos início à nossa vida, provoca uma mudança na sociedade. Uma mulher com um parto traumático, dificilmente pode voltar a vivenciar uma outra gravidez de forma saudável e de bem com ela própria, pois poderá ter sempre esses medos e receios. E existem muitos partos traumáticos e em silêncio. Porque supostamente é “normal”.

E onde achas que poderia começar uma “nova educação” para a mulher?

Eu acho que essa educação já deveria começar quando somos meninas. Deixar de falar da sexualidade com tabus. É quando somos meninas que somos esponjas de informação, com a qual vamos construindo a nossa personalidade. Sobretudo acho que as crianças poderiam ser educadas sem mentiras, educá-las de forma diferente, sem as respostas comuns de que os bébés vêm da cegonha, ou da semente – o que as confunde. Ora, se nos construímos com esses tabus enquanto crianças, depois levamos isso para a adolescência, uma etapa na qual deveria haver muita informação, sobretudo por ser uma fase em que muitas adolescentes engravidam. Qualquer mulher que procure engravidar, pode hoje procurar a ajuda de uma doula de forma a mostrar-lhes apoio com toda a informação desde a pré-concepção até ao parto. Eu trabalho com mulheres que querem ou estão a tentar engravidar, no entanto, ajudo-as a curar alguns traumas e feridas emocionais que elas tenham, para poderem engravidar e viver uma gravidez como elas desejam.

É curioso como o teu trabalho acaba por ser complementar. Como terapeuta sobretudo de mulheres, e depois doula. Queres falar um pouco sobre esta complementaridade?

Sim. Eu no fundo acho-me uma privilegiada! (risos) Porque muitos momentos na gravidez têm origem emocional, e da minha experiência já levo uma grande bagagem no que toca a esse assunto. Por essa razão é-me já fácil trabalhar esse factor. Também porque essas mulheres são o meu espelho e acabo por me trabalhar também a mim, por outra lado o meu trabalho como doula, vendo outras mulheres e assistindo aos partos, também me faz olhar de outra forma para elas, e tentar resgatar a confiança que elas têm dentro.

Além da importância do parto humanizado, será sem dúvida importante haver mais mães conscientes?

Sim, sem dúvida, e sobretudo aqui no Norte, existe esse “handicap”. A mulher está muito mais fechada e muito mais enraizada na tradição cultural. Felizmente, já começa a haver uma procura por “algo diferente”, porque se sentem insatisfeitas. Mas sim, acho que termos mais mães conscientes que vivenciem a gravidez de uma forma mais presente é muito importante. No final da gravidez, finaliza uma parte do processo de desenvolviento do bebé, mas também se transforma no processo de desenvolvimento de uma nova mulher. A mulher não vai ser a mesma desde que engravida, até ao final. Surgem várias etapas, diferentes estágios que darão origem a uma nova mulher. E quando todo esse processo é vivenciado de uma forma mais consciente, a mulher consegue estar mais confiante, mais confortável, mais tranquila, mais segura de ela própria.

Qual é para ti o papel de uma Doula ? Podes diferenciar o trabalho da doula na gravidez e no parto?

O nosso papel é prestar informação e apoio emocional à mulher nas diferentes etapas da gravidez, consistindo também em trabalhos diferentes.
No trabalho de parto, o nosso papel é estar presente e proporcionar aquelas condições – ainda que em ambiente hospitalar, por exemplo, seja difícil – mas é proporcionar-lhe as condições para que o seu parto seja mais humanizado, em que ela se sinta mais confiante. Ou seja, reunirmos todos os requisitos para que o parto aconteça da melhor forma possível.

Uma vez que vives no Norte de Portugal (mais propriamente em Viana do Castelo), como é a realidade relativamente ao mundo do parto humanizado, e da presença de Doulas em ambiente hospitalar?

De forma geral em ambiente hospitalar, ainda faz muita confusão às equipas médicas quando a acompanhante não é o pai da criança, e, pela idade vêm que pode não ser a mãe da parturiente, a equipa não vê muito bem a nossa presença. Nesses casos não digo que sou doula, digo que sou uma familiar. Porque de forma geral este desconforto que a equipa sente pode gerar um entrave desde o início no trabalho de parto da mulher…

Ainda em ambiente hospitalar, por exemplo o Hospital da Póvoa tem uma equipa fantástica, onde permitem a presença das doulas e que é, posso falar por experiência própria, o único no Norte de Portugal onde se pratica o parto humanizado, respeitado, onde a mulher tem o seu tempo, e a equipa faz tudo o que pode para que não seja um parto interventivo. E nem nós interferimos no trabalho deles, nem eles no nosso. Por isso acaba por haver uma boa empatia.

A nível de aderência de doulas, posso dizer-te que nos últimos dois anos tem havido mais procura. Eu trabalho com grávidas da zona da Póvoa, Viana, Valença e também da zona de Vigo, e tem vindo a aumentar bastante.

Como é que conseguiste promover o teu trabalho enquanto Doula?

O espaço que tenho aqui em Viana, que é um Centro de Medicina Holística, onde um dos focos principais é a saúde feminina, também me ajuda muito a promover o meu trabalho enquanto doula. Também escrevo artigos para um blog sobre gravidez de um ponto de vista holístico, uso as redes sociais, algumas palestras, tudo junto deu-me alguma visibilidade. Foram acontecimentos que se foram entrelaçando. Não vou dizer que foi um caminho cor de rosa, mas aos poucos as mensagens vão chegando e termino tendo muito trabalho.

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E enquanto terapeuta que tipo de técnicas é que tu utilizas com as grávidas?

Como terapeuta utilizo várias técnicas: desde o Reiki para relaxamento ou equílibrio energético; Terapia Quântica que trata mais problemas físicos ou algumas lesões que possam existir; Terapia Metamórfica, uma terapia (que em Portugal é mais desconhecida), que trabalha os bloqueios e traumas da mãe e do bebé (esta terapia aplica-se desde o princípio da gravidez, para que o bebé nasça apenas com “o que é dele”, com os seus próprios sentimentos, e não com os dos pais que surgem durante a gravidez, o que é normal pois somos humanos e temos inseguranças e geramos sentimentos negativos, e esta terapia ajuda a alivar essa carga).

Sinto que para ser doula são necessárias algumas qualidades enquanto pessoa. Achas que todas as mulheres pela sua natureza têm a capacidade para ser doula, como talento natural, ou não?

Se olharmos para a história da humanidade, eram outras mulheres que se encarregavam do nascimento das crianças, e era essa cultura que existia entre elas, havia essa união nas tribos das mulheres. E isso está na nossa natureza, nós sabemos parir, sabemos dar apoio a outras mulheres – essa é a nossa sabedoria feminina.

No entanto a sociedade actual obriga-nos a viver em stress, o nosso próprio karma, e as nossas vivências criam uma muralha, e por vezes desconhecemos que temos as nossas capacidades femininas. Por isso sim, acho que toda a mulher tem a capacidade de ser doula, porque já os nossos antepassados o eram. Por isso só é preciso (re)entrar em contacto com a nossa sabedoria feminina.

Nessa sequência, achas que a assistência de uma Doula, poderia ser um direito da mulher grávida? Achas que existiram vantagens em que a profissão de doula fosse legalizada?

Sim, a doula deveria ser um direito da mulher, mas também acredito que a nível governamental essa ideia não seria muito interessante! Porque não prescrevemos nada, nem realizamos actos médicos! (risos)

Acho também que a mulher ainda se sente intimidada pelo “círculo de mulheres”, receio de se confrontar e conviver com outras mulheres. Ainda existe muito o medo de sermos criticadas, julgadas, a competição… e podíamos tentar recuperar a sabedoria da tribo, porque ao final todas somos espelhos umas das outras, e seria fantástico se isso acontecesse. Poderia haver uma grande mudança em termos de consciência.

Devo confessar que com o patriarcado por detrás é dificil acelerarmos o passo! (risos)
Não só o patriarcado, mas também a suposta emancipação da mulher, em que esta última aparece como uma ilusão, só para manter a mulher “contente”. As mulheres continuam ainda a levar com elas o peso da família e a sentirem-se incompreendidas, e isso causa stress e faz com que haja mais dificuldades em passar mais tempo com outras mulheres… Sobretudo aqui no Norte, a mulher ainda se sobrecarrega muito com a família, no sentido de tomar conta, de ser ela a cuidadora, e de não se cuidar dela própria. E o homem, é aquele que não tem emoções, como se não fosse atingido por nada, tem de ser o sustento da casa e é o dito “macho ibérico”. Quando ao fim do dia somos todos humanos…

Quanto a ser legalizada, passar recibos, ou seja, fazer parte do sistema nacional de saúde. não sei até que ponto seria um benefício. Isto porque o sistema, tem a necessidade de controlar…

Acompanhaste algum parto na água? Qual a tua opinião sobre este tipo de parto?

Não, mas acompanhei partos onde a água foi um factor indispensável naqueles momentos em que a mulher está quase a desistir e acha que vai morrer, que não aguenta as dores e pede uma epidural (acontecem estes momentos, completamente naturais na fase de transição) a água foi um elemento fundamental!
Mas é um dos meus propósitos. Acho que a água tem um papel fundamental na gravidez e no parto, sem dúvida.
E acho que as Mães de Água têm um papel importantíssimo no parto humanizado, apesar de haver ainda mulheres que o desconhecem.
O facto de não haver sensibilidade para esta visão de parto (principalmente na opção hospitalar) faz com que muitas mulheres percam essa noção e a não procuram. E o vosso papel de difundir, e de tentar que seja possível o uso da água em ambiente hospitalar (e no nosso SNS), é muito importante, porque traz de facto às mulheres um enorme alívio.

Acho que os partos na água são lindíssimos e a água enquanto união actua como um símbolo emocional muito forte.

Sentes que hoje em dia cada vez mais os pais pedem o auxílio de uma Doula? De que forma sentes que altera todo o processo de gravidez deles?

Sinto em relação ao homem, quando é mais consciente (porque assim o é a própria mulher), sinto que se apercebe da importância do casal ser acompanhado. Muitos deles dizem que não sabem como acompanhar a mulher durante a gravidez, porque é como se fosse uma montanha russa cheia de altos e baixos! E é compreensivel pois são muitos os processos que a mulher passa nessa fase, e fico feliz de saber que existem homens que valorizam a presença de uma doula. O meu feedback das mulheres que acompanhei até agora é que a presença da doula foi muito importante:
Durante a gravidez – por sentirem apoio em momentos que acham que não são compreendidas e em que o mundo se desmorona – para elas é importante que haja apoio e empatia, para elas resgatarem esse poder feminino, que acham que perderam, mas que está lá, existe!
Durante o parto – eu costumo dizer, sobretudo às mulheres que têm o seu primeiro filho, que por mais que trabalhemos as feridas emocionais e o medo de parir, quando a mulher entra em trabalho de parto, a “Caixa de Pandora” abre e aparecem outros medos e outras coisas que estavam escondidas que fazem com que a mulher entre em pânico (acontece por vezes), e a presença de uma doula pode ajudar, não só a acalmar as dores, como a oferecer as condições de que ela necessita (como a redução da luz, diminuição da linguagem, a empatia, fazer com que ela esteja conectada com o seu corpo e o seu bebé…) para parir suavemente. Em “momentos de desespero”, em que as dores emocionais se conectam com as dores do parto, o papel da doula é fundamental, de forma a reunir todas essas condições favoráveis a que os níveis de oxitocina sejam elevados, em vez produzir stress e adrenalina que possam dificultar o parto.
Hoje em dia desde que se fala mais em parto humanizado, sem dúvida que existe mais procura pelas doulas. Penso que a partilha da informação, das experiência dos partos, entre mulheres, sejam eles traumáticos ou prazerosos faz com que as mulheres procurem outras coisas.

Já tiveste mulheres que depois da primeira gravidez voltaram a recorrer a ti para um segundo parto? Que diferenças notas nestes casos?

Sim! Justamente neste momento estou a acompanhar uma mãe na sua segunda gravidez. Na primeira gravidez ela contactou-me quase já com cinco meses de gravidez, de gémeos, um pouco na dúvida, a tentar perceber qual era o meu papel, como a poderia ajudar, ela tinha muitos medos…

Os médicos passaram-lhe a informação de que gémeos, só com cesariana, e a verdade é que teve um parto vaginal, sem necessidade de episiotomia, onde tudo correu muito bem!

E a primeira coisa que ela fez quando engravidou esta segunda vez foi contactar-me:
“Terminei de fazer o teste de gravidez, deu positivo, quando começamos a trabalhar?”
“Boa!”, respondi eu.

E são estes miminhos que fazem sentido no nosso trabalho.

Já te aconteceu contactarem-te e depois não desejarem continuar?

Existem muito receios para as mulheres, e/ ou por vezes começam a recuar no processo, por causa dos companheiros, das mães, das sogras, que dizem “mas eu estou aqui, não precisas de mais ninguém”, e é muito bom que tenham esse acompanhamento, mas ás vezes não é suficiente, poque por vezes alguém com esse vínculo, essa empatia, por vezes empata o processo, e faz com que a mulher entre mais em stress…
Tive algumas grávidas que desistiram pela questão da distância, por exemplo. Mas normalmente as que contactam, depois do primeiro encontro gera-se empatia, voltam, mesmo existindo alguma distância entre os encontros. Por vezes voltam a contactar também por pânico do que os médicos lhes dizem… O mais comum é que me contactem por volta das oito, dez semanas, que é o que faz sentido.
Por ser terapeuta, muitas começam já a querer tentar engravidar e à posteriori escolhem ser acompanhadas pela doula.

Achas que a doula faz de certa forma um acompanhamento psicológico ao pai da criança?

Sim, normalmente também trabalho com os pais, pois é um elemento fundamental durante o parto, para os que querem estar presentes. Trabalho com eles, porque também precisam de ser ouvidos, também têm medos, tabus, e muitas dúvidas, por falta de informação. Eu digo que os pais são “pequenos heróis”, pois a mulher trabalha todo o seu corpo mas o homem está ali também, a acompanhar o tempo todo.

Já acompanhaste alguma mãe sozinha, sem companheiro? Como foi?

Sim, inclusive algumas com casos bem traumáticos, de gravidez desenvolvida em condições muito más… são trabalhos emocionais muito duros, mas ao mesmo tempo muito bonitos, e onde consegui ver uma real transformação da mulher, de um início em que estavam completamente perdidas (assustadas, desesperadas, com medo do abandono e de não serem boas mães) até resgatarem o seu poder, para fazer e ter o parto que queriam.

Imagino que com a experiência que tu tens, mesmo enquanto terapeuta, apesar de ser muito gratificante, sentes que a doula, enquanto mulher… também se está sempre a trabalhar a ela própria?

Sim! Tenho perfeita consciência de que as mulheres que chegam a mim, eu penso sempre
“hum… isto chegou a mim, por isto, isto e aquilo” (risos)
E nós também temos de nos trabalhar emocionalmente, porque senão não seríamos capazes de ajudar alguém com determinados problemas emocionais, de uma forma que também nos pode assustar… mas termina sendo um trabalho muito gratificante, pois esse efeito espelho, nos leva a pensar “hum… ainda não me tinha dado conta que isto ainda andava aqui a empatar-me!”, e são sempre oportunidades que temos para trabalhar e nos vermos de igual para igual, e acordar esse apoio feminino.

Qual é o trabalho da doula no pós-parto?

As doulas que pertencem à Rede Portuguesa de Doulas acompanham a mulher até no pós-parto. A maternidade não termina no parto. No pós-parto a mulher está a adaptar-se aos bioritmos de um novo Ser, e por vezes surgem medos que elas pensavam que não iam ter, mas estão lá, também precisam de descanso, de ter tempo para comer, para a sua higiene pessoal, o apoio no processo de amamentação… O pós-parto, por vezes eu digo que é até aos nove anos da criança! (Risos)
Normalmente os primeiros seis meses são os mais importantes e decisivos, passado esse tempo a relação é como se fosse de amigas, onde pedem algumas informações, ou nos informam do desenvolvimento da criança. O pós-parto não tem dias limitados, depende de cada mulher, podes ter um mês sem problemas e de repente chegas ao terceiro mês e entras em pânico e não sabes como lidar com ele! Por isso estamos sempre de olho na mãe!

Por ser um trabalho emocionalmente tão existente (e até desgastante), existe entre as doulas algum tipo de “supervisão” de forma a apoiarem-se, a partiharem, a ouvirem-se?

Claro! Eu costumo dizer que as Doulas da Rede trabalham mesmo em rede. Trabalhamos de forma unida, pois cada uma tem as suas capacidades emocionais e profissionais e faz todo o sentido apoiarmo-nos. Vivemos em sociedade e fomos feitos para nos ajudar uns aos outros.

Qual foi a maior dificuldade com que te deparaste enquanto doula?

Lidar com alguns procedimentos hospitalares que estão muito vincados, e que são mostrados às mulheres como “normais”. Eu confesso que nos partos hospitalares a maior dificuldade que tive foi em ver a mulher desrespeitada, e só como “um número”, foi a falta de trato humano que mais me chocou. Aplicar procedimentos só “porque sim”… respeito a decisão de algumas mulheres, mas é algo que eu espero que mude!

Já acompanhaste algum parto domiciliar?

Não, todos os partos que acompanhei foram hospitalares. Penso que para mais mulheres parirem em casa falta trabalhar muito o factor confiança. A maioria ainda pesa muito as crenças familiares.

Existe ainda alguma dúvida e polémica sobre o parto domiciliar. Qual é a tua opinião? Ou como se pode ultrapassar a barreira do preconceito contra parto domiciliar, até chamado de um retrocesso, “um parto primitivo”?

A informação é o mais importante nestes casos. Tal como falávamos à pouco, a questão da tribo, de umas mulheres se ouvirem, partilharem relatos e experiências de partos, é vital. Existem partos traumáticos vividos em silêncio, a chamada violência obstetrícia muitas vezes não é reconhecida, muitas mulheres não a vêm assim, porque acham que tudo o que lhes aconteceu “foi normal”.

A partilha de informação é importantíssima, para que as mulheres possam fazer as suas escolhas. Mesmo que a mulher opte por um parto hospitalar, mas que procure um parto o mais humanizado possível, e tenha conhecimento das normas hospitalares.
A própria gravidez muitas vezes não é cor de rosa o tempo todo. Daí ser tão importante a partilha de experiências, das diferentes etapas do processo do nascimento de um outro Ser.

Na maternidade há desafios constantes a vir ao de cima.

Quais são as vantagens, para ti, dos partos na água?

Acho que as vantagens são muitas!
Apesar de ainda não ter acompanhado nenhum vejo a água como um elemento que trabalha as emoções, e acho que o ambiente que se produz numa piscina é um círculo de segurança e protecção, e a água relaxa!! Além de ajudar a subir os níveis de oxitocina!

Como funciona na teoria e na prática o trabalho de uma doula a partir do momento em que é contactada?

Bem, cada casal é diferente. E eu costumo dizer que quando temos um plano, ao fim do dia, altera-se tudo! (riso) No entanto, eu tenho um plano, sim, informativo, na fase inicial, para que as mães/ famílias possam fazer as suas escolhas de forma consciente e responsável, e depois é um trabalho emocional sobre as diferentes etapas da gravidez até ao pós-parto. O tempo que passo com o casal vai depender deles, do tempo disponível, da vontade… O trabalho emocional não é fácil, pois meter o dedo na ferida dói! Mas é um trabalho bonito, porque começamos na infância, como vemos o pai, a mãe, os nossos tabus em relação à sexualidade, ao parto, à maternidade, e vão surgindo coisas novas, e por vezes o plano inicial que elaborámos, já acaba por ser alterado.

Ser doula é uma tarefa que exige muita presença e tempo, como geres a tua vida pessoal?

Normalmente a primeira coisa que eu pergunto é a data prevista do parto. Tento ter apenas uma grávida por mês, mas já aconteceu três no mesmo mês, por um parto de atrasar e outro se adiantar, e outro ser no tempo exacto! (risos). O telemóvel está sempre ligado e não me é difícil fazer a gestão do tempo.

Falaste na sexualidade. Achas que o parto é uma extensão da sexualidade? Como vês essa relação?

Sem dúvida alguma. A relação é completa. Para iniciar a gravidez é necessário sexualidade. Também durante a gravidez a sexualidade tem de estar presente, apesar de ainda existirem muitos tabus. O próprio parto é um acto sexual, havendo mesmo partos que são orgásmicos! O canal vaginal é também um canal de comunicação, e esses partos são muito bonitos de ver, de ver como a mulher está ligada ao seu corpo.

Sendo o pai aquele que, além da doula, pode fornecer mais oxitocina à mulher, e tem um papel fundamental no processo, qual é a tua opinião em relação a casais homossexuais, há tabus que se manifestam também no parto?

Pois… Esse é, ou pode ser, um tema complexo e polémico, mas eu não vejo nenhum impedimento que venha da opção sexual da mãe/ casal. No meu ponto de vista, como doula, a presença de um companheiro é importante, não em termos do seu género, mas sim em termos de empatia. Eu sempre pergunto aos pais se querem estar presentes e porquê. E sempre aviso, se sentir que a sua presença está a bloquear o trabalho, eu peço para mudar de perspectiva ou sair um pouco. Isto acontece porque por vezes a mulher está a entrar num momento de muita dor física e o homem não sabe o que fazer, atrapalha-se, fica nervoso e ansioso e isso reduz o nível de oxitocina da mulher e aumenta o nível de adrenalina. Nesse momento a presença do companheiro é contraproducente, e isso não está relacionado com o sexo, mas com a empatia, com a união, com a presença. Por isso acho que independentemente do género do casal, qualquer um pode estar, desde que ajude, ele/ ela pode acompanhar o trabalho de parto.

Existem estudos científicos que mostram que a presença da doula diminui a taxa de cesarianas, o tempo de trabalho de parto (e até o preço do parto!), entre outras vantagens. Na tua experiência como doula como justificas tudo isso?

Pelo apoio emocional, porque considero que nós, enquanto doulas, somos as guardiãs do espaço sagrado da mulher, principalmente durante o parto. Somos nós que reunimos as condições para que a mulher possa estar ligada ao seu corpo, possa sentir o seu corpo, parir, desfrutar desse momento sexual que é o parto, e reunir todas condições para que seja o melhor possível. Esta é a magia que cria todas essas vantagens.

Qual achas ser a principal barreira para haver um mundo que aceite as doulas e um parto mais humanizado? Qual é o maior desafio?

Eu acho que não é só um desafio, mas vários. Mas acho que o primeiro é a mulher retomar as rédeas da sua vida e despertar, esse poder do sagrado feminino que tem adormecido. Isto para começar a questionar. O principal somos nós, as mulheres, e havendo mulheres mais conscientes, o ambiente à volta também mudará. Os hospitais teriam de ter uma visão diferente. Seria abraçar as nossas capacidades, as nossas necessidades e a confiança em nós próprias.

Muitas pessoas, não conhecendo o trabalho da doula, relacionam-no com o da parteira. São semelhantes?

São trabalhos diferentes. As doulas não realizam nenhum tipo de acto médico, não é a nossa área, enquanto que as parteiras sim. Claro que existem parteiras e doulas “diferentes”, mas basicamente o nosso trabalho está mais focado na área emocional e o da parteira na área física. No entanto há parteiras, para mim fora do comum, como a Enf. Lurdes Rodeia ou até a Médica Obstetra Radmila Jovanovic! Houvesse mais como elas, aí os trabalhos são mais complexos e completos, e incluem muito trabalho emocional.

Em três palavras apenas como descreverias o que uma doula representa?

Guardiã do Espaço Sagrado Feminino.
O resto do trabalho é da mulher!

~ De coração cheio com este encontro. Gratas Yolanda Castillo!! Podes acompanhar mais sobre o seu trabalho AQUI.

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