Entrevista com Rita Prudente e Nuno Rainha Entrevista

“Se a água liga continentes, também liga pessoas de certeza absoluta”

diz-nos a Rita na nossa conversa.

E assim é! O trabalho com a água ligou dois percursos distintos, o do Nuno Rainha, Professor de Yoga e terapeuta de Watsu, e o da Rita Leite Prudente, Doula e Psicóloga. Juntos criam o projecto “Acolhendo o Casulo”, que vamos conhecer um pouco melhor na nossa conversa com eles.
Hoje temos uma conversa de Água…!

Uma breve apresentação vossa.

Rita: Eu sou a Rita. Sou uma mulher que, desde criança, tem uma imensa curiosidade pelo “ser humano”, por aquilo que nos torna tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo; pelos laços que criamos uns com os outros. Sempre me apaixonaram os processos de transformação por que passamos, metamorfoses.
Os meus interesses por Criatividade e pelo Ser Humano fizeram com que estudasse Movimento e Psicologia Clínica.
Em 2009, fiz a formação de Doula. Esta  formação abriu-me para a verdade de que a forma como nascemos – e a forma como somos acolhidos nos primeiros momentos fora do útero – marca muito profundamente o nosso desenvolvimento e os nossos padrões relacionais. E isto não é só para o bebé mas também para a mãe, o pai e aqueles que nascem ou renascem com ele.
Desde então, tenho investido em diversas formações na área da Gestação, Parto e Puerpério e actuo como Doula, Educadora Perinatal e Massagista de gestantes e puerpéras.
Também sou mãe do Gabriel e do Lucah, com quatro e dois anos. Duas crianças bastante diferentes, com histórias e contextos diferentes, ambas acolhidas em liberdade, respeito e muito amor. E que trouxeram consigo, transformações incríveis em mim.

Nuno: O meu nome é Nuno, sou terapeuta de Watsu e instrutor de Yoga. Comecei a formação de Watsu em 2005 e sou profissional desde 2007. O Yoga comecei um pouco antes. Tem sido um processo muito interessante e transformador. Continuo a tirar formações das respectivas expansões
do trabalho fantástico que é o Watsu. Não tenho filhos, mas adoro crianças.

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O vosso projecto, “Acolhendo o Casulo”, como o apresentariam?

Rita: O projecto surgiu da vontade de cruzarmos as nossas competências e conhecimentos, dirigidos a um público específico: famílias grávidas. Trios: mulher grávida, bebé in útero e quem acompanha a mulher.
O nome do projecto “Acolhendo o Casulo” reflecte bem a nossa proposta, a de estarmos juntos, num espaço-tempo com início e fim, com intenção de dirigirmos a nossa atenção a acolher (receber de forma activa e no tempo que o tempo tem) o Casulo, aquele espaço em que sabemos estar a acontecer uma transformação, que é “não visível” mas que sem dúvida sabemos estar a acontecer… O desafio é muito o de ir recebendo e confiando, sem a confirmação dos olhos, numa sociedade onde tudo o que é visual é tão dominante.  Na verdade o casulo é a casa das várias transformações que no momento ocorrem.
O foco é mesmo o da conexão, tendo a água, no final, como mediador e testemunha de um processo onde se vivenciam e se experimentam formas e ferramentas – que se esperam ser -geradoras de um espaço de confiança e segurança para todos.
Não só a água é muito terapêutica, como também pode ser um óptimo mediador, e quase uma mãe que nos leva a uma regressão muito profunda.
Na prática, o breve workshop que facilitamos pretende partir “da terra” – com algumas dinâmicas que eu trago do meu percurso como Doula e Educadora Perinatal, que permitem aos participantes situarem-se no seu momento actual, reconhecerem as suas emoções, suas expectativas, os seus desejos, necessidades e intenções, não só preparando-os para o momento tão forte como o parto, como também para todo o desconhecido que a vinda de uma nova vida às suas, traz.
Para nós é fundamental, criar um espaço onde todos e cada um possam parar, disfrutar, relaxar e sorrir. E daí também a vivência na água, puramente experiêncial, do aqui e do agora, ser o fecho.
Nuno: Exactamente.

E é muito surpreendente ver o quão potencializador pode ser o trabalho “em terra” juntamente com o feito na água, é incrível o resultado que tem em poucas horas. Parece estabelecer ligações que estão perdidas ou até nunca estabelecidas entre os casais. Também é notório que os participantes não estão à espera do que acontece durante o evento, do tudo o que vem ao de cima, e que se unifica.

Vocês fazem uma preparação para o parto que é na água. A maioria dos casais que vos procura vai fazer um parto “em terra”, certo? Sentem que a água ajuda na preparação mesmo para partos “em terra”?

Rita: Bom, a história do nosso trabalho parte de uma experiência muito pessoal. Recebi Watsu do Nuno quando estava grávida. Vejo a água como uma ferramenta maravilhosa para a entrega ao processo do parto, independentemente do bebé nascer, ou não, na água.
No parto do meu primeiro filho, que é um bebé de água, quando entrei na piscina a minha experiência com o Watsu foi activada. Soube-o perfeitamente.
Claro que cada uma tem as suas próprias experiências,  mas a água, facilita a consciência da unificação do dentro com o fora.
A massagem Watsu proporciona como que um abraçar. Para mim foi como se o bebé, que estava dentro de mim, também, às tantas me abraçasse. Eu própria me sentia num ventre acolhedor. A segurança, o apoio, a sensação de completa liberdade de movimentos, de um carinho imenso que experienciei na água com o Watsu facilitado pelo Nuno, foi activada tanto num parto como no outro, a partir do momento em que estive na água.
No parto do meu segundo filho, um bebé nascido “na terra” também recorri à água, ao duche como um método de alívio não farmacológico da dor. E a minha percepção é que a água teve um papel fundamental na forma como o processo se desenrolou…

… aliás, há muitos investigadores que trabalham com o parto, Michel Odent e o Ricardo Jones por exemplo, que falam da presença da água ser muito importante num parto, nem que seja uma torneira aberta. A água é um elemento que de forma consciente ou inconsciente nos remete para a ancestralidade, a fluidez, a suavidade e força; devido ao seu potencial como agente regressivo e agente de vida, devido à sua ligação com o onírico e feminino…

… faz-me todo o sentido, reflectindo e elaborando que, na minha experiência e na experiência de outras mulheres, a água seja um agente de empoderamento e confiança que facilite o tal desligar-se do neo-cortex, e o regresso às estruturas primitivas do nosso encéfalo,  o “mergulhar” num estado alterado de consciência, característico e necessário para que um parto se desenrole de forma natural, aumentando a probabilidade de ser sentido e vivido como experiência positiva.

Não é ao acaso que muitos profissionais já não falem em contracções mas sim em Ondas.

E o melhor é que água existe em todo o lado e é acessível a muita gente!
E se, anteriormente a mulher parturiente tiver experiências positivas e empoderadoras na água, a mulher e os intervenientes nesta viagem… esse potencial só pode aumentar! Daí ser fascinada poder utilizar ferramentas e práticas como o Watsu no acolhimento ao nascimento.
Nós não fazemos uma “preparação para o parto”, aquilo que o nosso trabalho propõe é que cada dupla encontre dentro da sua própria dinâmica uma linguagem o mais não-verbal possível, em que se sintam em harmonia e seguros na sua própria forma de comunicar, nas suas escolhas e compromissos. Assim, esperamos que no momento do parto isto se reflita na existência de um espaço de segurança, conhecimento, respeito, consciência, amor… intimidade e aliança.

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Nuno: Sim sem dúvida. Este trabalho que oferecemos é para ambos. A preparação para o parto está lá, mas aqui trata-se principalmente de acolher tudo o que está a acontecer. É um momento tão especial, merece isso. Hoje em dia, e infelizmente cada vez mais, o processo da gravidez e do parto são muitas vezes vividos como períodos chatos, difíceis, por vezes solitários e de pouca conexão entre o casal. O parto na nossa sociedade de hoje é um acto médico cada vez mais repleto de agendas e horários.
Por outro lado quando as pessoas estão disponíveis, haver este tipo de possibilidades para as pessoas se conectarem é fantástico e é com certeza muito benéfico para o bebé. Daí a escolha do nome do trabalho: Acolher o Casulo, aliás foi a Rita que surgiu com o nome. Eu ao princípio fiquei um bocado surpreendido. Era inovador que não sabia o que dizer. Agora sei que são as duas palavras que melhor explicam no que consiste este trabalho que fazemos. São as duas pessoas envolvidas a acolheram aquele momento tão especial, aquele processo tão importante, único e transformador.

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Rita: Apenas fico com vontade de reforçar que as ferramentas trabalhadas, por se “prenderem” com a relação podem ser acionadas e utilizadas para além do tema do nascimento. Há momentos em que reverberam noutros contextos.

A água ajuda a estreitar também o vinculo mãe/ pai/ bebé?

Nuno: Sim. A água ajuda a estreitar os vínculos. São as próprias características do elemento água que ajudam, como por exemplo a característica de coesão. Sem dúvida que ajuda. E muito mais do se pensa. Talvez por isso, dentro do leque de pessoas que procuram esta terapia as gestantes constituam já uma boa fatia. Mesmo numa simples sessão, se o pai estiver presente melhor ainda! Para nós, terapeutas, é absolutamente fascinante poder ver isso, acompanhar e testemunhar o aumentar desses vínculos.

Rita: Há imensas investigações feitas com a água, e há muitas e muitas por fazer.

Do que tenho lido e estudado, hoje em dia, assume-se que a água é um mediador de conhecimento, mediador de emoções, e que reage e se modifica na presença de diferentes emoções, intenções e pensamentos.

Algumas das qualidades da água de que falei anteriormente, como por exemplo, o seu potencial regressivo, o facto de poder “tocar” toda a nossa extensão de pele, de nos permitir movimentarmo-nos com maior liberdade e criatividade, a de nos “segurar” quando flutuamos, de nos fazer sentir renovados e, de certo identificados (afinal somos constituídos grandemente por água) facilita vivências positivas, que quando partilhadas, com certeza reforçam laços. E claro, permite que experiências menos positivas surjam à superfície para que sejam trabalhadas, quando é o altura em que se podem transformar.

Focando-me no trabalho que realizamos, observo que só a preparação para o trabalho de Watsu, incentiva ao cuidar do OUTRO,  partindo da observação constante do facilitador e dentro dos limites bem visíveis do momento e circunstâncias, parece que magia acontece, e cada par criativamente encontra o seu bem estar, sempre no aqui e agora. Portanto eu sou levada a dizer que sim, que faz com que o vínculo entre estes três elementos se fortaleça, e principalmente porque não tem que se recorrer a nada muito elaborado. Recorre-se  à presença. E para nós estarmos presentes, “só” precisamos de estar! E de sermos nós! (o que pode ser bem desafiante!)

Se a água liga continentes, se permite transformar ligando até céu e terra profunda, também liga pessoas de certeza absoluta!

E em primeira análise, começamos a sentir e a relacionarmo-nos com o Mundo, que começa por ser a nossa mãe,  ainda no útero, rodeados de água!!! Num casulo de “maresia”…

É muito bonito ver diversos trios, cada um na sua qualidade, e, ao mesmo tempo uma qualidade exterior formada por todos eles e compartilhada por todos eles. Muito bonito! A água vibra num vínculo também estabelecido entre todos.

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Nuno: Sim e é evidente que os casais parecem estar no seu próprio processo e todos bastante diferentes. É também muito interessante verificar como todos entram em sintonia de uma forma bastante natural e rápida.

No casulo é o pai que ajuda a flutuar a mãe/ bebé? Como é no geral o feedback que têm recebido dessa experiência?

Nuno: Sim, geralmente sim, mas como na água não existem apoios fixos, então por vezes invertemos os papéis. Depende dos casos.

Rita: Já aconteceu o contrário, sim. Tivemos uma experiência muito forte. Tivemos um casal que já tinha tido dois filhos, e que se propuseram a fazer um trabalho deste género pela primeira vez, e o pai/ parceiro tinha fobia à água.

Nuno: Podem acontecer situações inesperadas devido à natureza do trabalho e dos processos que os casais estão a viver. No caso desse casal, o pai tinha uma experiência traumática de afogamento, a futura mãe acabou por flutuar/ suportar o pai, lá está, adaptámos o trabalho e as ferramentas que temos às necessidades desse casal. Mas a ideia principal é que o pai flutue a mãe e o bebé. É comum encontrarmos pessoas com esse tipo de problemas e embora no Watsu o receptor (cliente) tenha sempre pé, não precise de saber nadar, e a face nunca vá debaixo da água, pessoas assim não conseguem estar na água relaxados. Se entrarem na água logo de seguida o que mais querem é sair dali, é um medo gigante e incontrolável. Nas sessões de Watsu privadas é mais fácil lidar com isso, mas aconteceu durante um workshop e que correu tudo bem. Acabou da melhor forma. Nós tivemos de adaptar, e entre outras coisas a mãe e o bebé é que flutuaram o pai. Foi fantástico! O pai ficou super satisfeito e disse-nos que era mesmo daquilo que estava a precisar e que venceu o medo que tinha.

Rita: A ideia do pai ser flutuado também é muito importante porque nós, enquanto sociedade – e actuando em relação a esta consciência no parto – estamos a fazer uma coisa que é muito nova, que é o pai, o homem, poder estar no parto e querer estar no parto. E as mulheres quererem que ele esteja no parto. E mais importante: que os casais possam decidir livremente. Isto é recente, é novo. Quer por papéis sociais vigentes, quer por protocolos hospitalares.
No caso que falámos foi muito bonito, porque o pai permitiu-se ser cuidado por outro homem, o Nuno, e permitiu-se ser cuidado pela mulher. E se há este movimento de haver cada vez mais pais a vivenciar o parto dos filhos, é importante que sejam tidos em conta, que sejam reconhecidos na sua integridade, forças e fragilidades. (Isto dá quase um estudo antropológico…)
Mas na verdade o que nós estamos a fazer enquanto sociedade, enquanto mulheres e homens, numa nova qualidade de relação, e de reconhecimento de género, é querer estar de mãos dadas. Isso faz sentido neste momento. E isso é super novo. Antigamente, na ancestralidade o parto era um mistério das mulheres, e ficava entre mulheres, e as mulheres eram cuidadas por mulheres. Quando nasci o meu pai não pode estar com a minha mãe, nem sei se eles queriam ou se fazia sentido na sua realidade, mas sei que a presença do pai não era uma prática muito comum. Hoje em dia, há muitas mulheres e muitos homens que querem compartilhar este momento, daí ser tão especial percebermos de que forma estamos conectados e o que é importante para cada um e para todos. Então, é super interessante esta questão de a mulher e o bebé flutuarem o homem, que é uma possibilidade, não só no Watsu mas também na vida de uma família não patriarcal. Quantas vezes o meu filho já me “flutuou”? Quantas vezes já “flutuei” o meu companheiro e vice-versa?
É uma ideia muito bonita, e é muito bom ver quando os homens se permitem ser cuidados. É uma coisa que fora da água, em termos físicos, em termos somáticos é muito difícil, porque a mulher está pesada, porque já tem outro centro, porque muitas vezes os homens são mais pesados… e na terra, a lei da gravidade e a velocidade actuam de uma outra forma!

Em termos do activismo que se vive em Portugal, um activismo em relação ao parto que pretende que cada vez mais sejam respeitados os direitos da parturiente e família, e seguidas as linhas orientadoras criadas por entidades como a OMS, faz todo o sentido que estejam mulheres e homens unidos, porque todos nós nascemos e todos nós queremos acolher de uma forma muito respeitosa e consciente os novos seres que aqui chegam…

Com a maior felicidade possível, respeitando a sabedoria da natureza que faz deste acontecimento criador de uma grande, senão a maior produção de ocitocina no corpo da mulher, do bebé e de todos os que partilham o espaço sagrado de um nascimento.
Houve um casal que passou a ir à água todas as semanas, até ao parto, o que me deixou muito feliz, porque testemunhar que cada vez somos mais Autónomos na forma como escolhemos viver a nossa vida, mostra-me que cada vez estamos mais dispostos a investir no que desejamos e a acolher os resultados das nossas escolhas…

Nuno: Aprendem e voltam à água sozinhos, para mais! Eu soube disso pelo dono da piscina! Esse casal.. Que bom, voltaram regularmente à piscina até ao parto. Nesse caso o resultado foi muito para além do que estávamos à espera. Este tipo de trabalho tem um impacto muito grande nos casais. Impacto esse que sem dúvida continuará até hoje. Na verdade penso que parte do que fazemos durante estes workshops é algo que está inato em cada um de nós. Vê-se por exemplo os casais na praia, de alguma forma o homem flutua a mulher e vice versa. Sem saberem nenhuma técnica fazem isso. Não sabemos de onde é que isso vem, mas a verdade é que há uma tendência para isso acontecer.

Rita, qual é a tua visão acerca do parto na água?

Essa é uma pergunta super difícil, apesar de parecer simples.

A possibilidade de ter um parto na água é fundamental e deve ser oferecida a qualquer mulher que vá parir. Graças a todo o movimento cívico de reivindicação, a reabertura de um serviço de parto na água e de seu alargamento a outros hospitais do Sistema Nacional de Saúde, já está a ser repensado, e felizmente estamos a ter muitos frutos. Falo das Mães d’Água, e do Hospital São Bernardo em Setúbal.

O primeiro pensamento em relação ao parto na água é mesmo o de que deve ser uma possibilidade para toda e qualquer mulher que o deseje e cuja gravidez assim o permita.

Sinto que um parto na água pode trazer muitas vantagens. Uma delas é poder dar e assegurar a privacidade da mulher. De uma certa forma protege-a a ela, e a todos os que estão com ela, de intervenções não necessárias. Só pelo simples facto de ser mais difícil intervir na água e dentro de uma piscina!
Depois, um aconchego… a água pode aconchegar o corpo. Quando está numa piscina, ou banheira, a mulher está a ser tocada em quase toda a extensão da sua pele, e na medida que quer.
Há técnicas de recuperação em termos respiratórios que podem ser utilizadas na água.
Tenho observado, e gostava muito de estudar mais esta questão, que uma das grandes vantagens pode prender-se com a velocidade (subjectiva) com que os acontecimentos se dão… “tudo o que acontece na água é igual ao que acontece no ar, só que de forma mais lenta”, o que me leva a ponderar se o bebé e a mãe têm mais tempo e têm uma possibilidade maior de estarem no seu próprio tempo (muito devido também ao “tempo” das pessoas que assistem o parto).

Há outras vantagens como a facilidade de movimentos, o alívio da dor…
De repente, serão estas as vantagens que eu encontro, sem pensar muito.

Rita, o que te levou a ser doula?

Olha, foi muito engraçado, foi uma amiga que viu uma formação de Doula, e como sabia que eu sentia que a maior parte das imagens “mainstream” divulgadas sobre o parto, bem como crenças, não podiam corresponder à única forma de viver um fenómeno tão antigo e tão fisiológico como espiritual, soube que eu ia aprender muito. Sei hoje que esta reacção que surgia em mim tinha muito a ver com a forma como eu nasci. Eu dizia: “ah, eu quando parir, vou parir como o pensador”, eu pensava que ia parir de cócoras!
Quando a Cláudia me disse, “olha, para a semana há uma formação de Doulas, tu não queres ir?”. Soube que era uma formação que me ia mudar a vida… as palavras dela, sentidas como desafio, ressoaram em mim de uma forma muito forte.
Fui fazer a formação, e realmente foi muito sincrónica com o meu momento. Trouxe à tona uma questão que tinha quando era criança, o facto de me sentir, assim, muito “não humana”.  E isso acompanhou-me sempre. O que é que é isto de ser humano? Como é que eu vim aqui parar? Como é a minha família, a que vou construir?
Acho que o ser Doula, ou seja, a minha formação de Doula, trouxe uma possibilidade de perceber, de interiorizar, de me conectar e de descobrir que realmente a forma como eu nasci me deixou vários padrões em termos comportamentais e emocionais, em termos de crenças, em termos relacionais… E já adulta!
O que me levou a ser Doula foi esta sincronicidade da vida.

Rita, tu usas saberes na tua actividade de doula que foste beber a outras experiências? O que mais te inspira como doula?

O que me inspira como Doula é sempre a possibilidade de conhecer outros seres humanos, outras mulheres, outros casais, outras realidades, outros bebés, algumas vezes estar presente no espaço sagrado do Nascimento.
Ser Doula acrescentou à minha vida quotidiana uma outra linguagem. A da “não intervenção” como sistema. A do respeito pela força e experiência do Outro (mesmo que seja sentida por mim como não positiva). A da participação na medida do necessário sempre em relação de Amor.
Tenho a dizer que o meu foco partiu muito da questão da Irmandade, e de ter trabalhado muito com esta função de Doula a irmandade entre mulheres. Foi muito “curador”, muito terapêutico. Ser Doula teve um papel muito importante neste meu reconectar com a minha feminilidade, com as outras mulheres, no reconhecer das minhas irmãs, e permitir-me reconhecer a minha pertença no género feminino, e abraça-lo em mim.
Neste momento, o bebé como Ser único, irmão humano, está cada vez mais presente de forma abertamente assumida no meu trabalho. E quando a família procura os meus serviços ela é também um centro.
Claro que tudo aquilo que eu estudei em Psicologia Clínica e Psicoterapia pelo Movimento está muito enraizado na forma como eu olho para tudo. Eu diria que todo o trabalho com o corpo e com o movimento está em tudo o que faço e o que sou, e que todo o trabalho da Psicologia também.
Quando estava grávida do meu primeiro filho fui acompanhada com Massagem, e descobri mais uma ferramenta na qual investi; tem a ver muito com o corpo, mas numa linguagem de toque. Agora atendo mulheres grávidas e em pós-parto com Massagem, e conto seguir com mais aprendizagens nesta área. Gosto muito do espaço de silêncio, de comunicação não verbal, com a qualidade da presença, que facilmente se criam através deste serviço. Atendo bastantes mulheres que são acompanhadas por Doulas, o que tem sido uma experiência muito valiosa de parceria.
Hoje em dia, assim no meu leque de conhecimentos, e na rede que fui construindo ao longo dos anos, também vou partilhando, aceitando conhecimentos, pedindo apoio. E é muito bom poder sugerir a pessoas que me procuram ou estão a trabalhar comigo, pessoas e serviços nos quais confio que podem ir ao encontro das suas necessidades e desejos.
Tenho aqui ao lado um óptimo exemplo de uma parceria que enriquece muito o trabalho que faço, o Nuno. Muitas vezes sugiro a mulheres grávidas experimentarem uma sessão Watsu com o Nuno, que é um profissional em quem confio muito. Temos descoberto algumas coisas interessantes, pessoas com bebés pélvicos por exemplo, já sugeri o Watsu a grávidas com esta questão. E outras.
Gosto de saber o que é que as pessoas à minha volta andam a fazer, partilhar experiências… há muitas pessoas a actuar de formas muito interessantes no Nascimento. E uma das vantagens de ser Doula é a necessidade, que já era uma necessidade minha também, de estudar muito! De estar atenta e em constante actualização.
Inspira-me muito saber que as experiências e conhecimentos que vou adquirindo na “doulagem” se estendem para além da “Rita Doula” e que, na verdade, muitos deles, proporcionam verdadeiras transformações em mim e na forma como vejo o Mundo.

Nuno, o que é o Watsu?

Em poucas palavras o Watsu é uma forma de hidroterapia de relaxamento profundo. E onde se trabalha muito com a presença. Presença do terapeuta para com a pessoa que temos nos braços. É considerado um trabalho não invasivo onde o principal foco é estar ali com o/ a cliente. Esse é o Ouro do trabalho e é daí que saem os benefícios mais profundos. Basicamente pode-se dizer que o Watsu é isso. Depois pode ser complementado com técnica de estiramentos e por vezes massagem. Usamos bastante o Zen Shiatsu que foi de onde o Watsu nasceu. O Watsu é um trabalho muito delicado, igualmente poderoso e também a terapia mãe de muitos outros trabalhos aquáticos que ao longo dos últimos anos têm vindo a ser desenvolvidos. É usado em muitos tipos de casos, doenças como a fibromialgia, para atletas, grávidas, idosos, pessoas que sofrem de dor crónica, hipertensos, pessoas que só querem relaxar um pouco, crianças e necessidades especiais. Todos podem beneficiar incrivelmente do Watsu.

Nuno, como é que te começaste a interessar pelo watsu?

A princípio interessei-me pela ideia de flutuar pessoas na água como profissão. Assim que soube que existia um profissão assim fiquei fascinado! E foi isso que me fez na verdade começar a formação. Assim que experimentei fiquei totalmente maravilhado com os efeitos que provoca depois e durante uma simples sessão.

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Nuno, como é a experiência de “flutuar” uma grávida?

É uma experiência mágica, para todos os envolvidos! O Watsu em si já é mágico, é sempre um privilégio flutuarmos uma pessoa e de nos conectarmos com o momento, com aquilo que está a acontecer. É tanta a confiança que as pessoas põem em nós, e tanta conexão. É um grande privilégio mesmo. Com gestantes é a duplicar, ou melhor a triplicar! O bebé está ali… É o tipo de sessão que ficamos sempre muito mais contentes de dar, e quanto mais avançada a gravidez mais contentes ficamos porque mais sentimos a presença do bebé, e as necessidades da mãe. Não posso falar pelos meus colegas mas para mim são as sessões que mais gosto de dar.

Nuno, qual costuma ser o feedback das grávidas no fim do watsu?

As pessoas quando recebem o Watsu dizem as coisas mais incríveis quando abrem os olhos. É uma experiência tão diferente e tão intensa. As grávidas não são excepção. Descrevem muitas vezes sensações de leveza que sentem durante e no final da sessão, também da tranquilidade que sentem, para muitas é uma grande surpresa. Lembro-me de uma das primeiras grávidas que flutuei, na altura disse-me algo muito interessante. (Na verdade e até hoje acho que foi o feedback que mais gostei) Disse-me que se tinha sentido como o bebé dela durante a sessão toda. Eu fiquei muito contente.

Nuno, alguma vez tiveste feedback de alguém a quem tenhas dado watsu que tenha tido memórias intra-uterinas? Ou memórias de ser acarinhado pelo pai/ mãe?

Sim, é comum. Pessoas que se conseguem expressar muito bem e aquelas que posteriormente nos enviam textos de agradecimento descrevem geralmente esse tipo de experiências. Embora ache que a maior parte das pessoas sentem isso e têm essas experiências durante a sessão. Alguns conseguem expressar, outros não. Não percebem que isso lá está, mas isso está lá sempre.

Para finalizar, gostavam de acrescentar alguma coisa?

Rita: Gostava de te agradecer por esta entrevista.
Vou só partilhar que nós temos uma ideia que é fazer um workshop dedicado a mães e pares que pariram na água. Como se fosse um regresso à água. Acho que este é o nosso próximo passo!

Nuno: Sim, um conselho a todas as gestantes: fazer algum tipo de trabalho/ terapia ou actividade na água. O simples contacto com a água é muito benéfico e com o Watsu ainda mais, claro. A água está quentinha e é tudo muito suave e lento. O Watsu está apenas no começo e acredito que vai ser cada vez mais utilizado na gestação – e não só!

~ As Mães d’ Água estão profundamente gratas a este trabalho tão precioso! Inspiradas pela mensagem da água que nos re-lembram nesta conversa, e curiosas… muito curiosas por essa sessão! Vamos voltar à água? <3 ~

Podes conhecer mais sobre este trabalho inspirador aqui Watsu Portugal

(imagens de Bruno Barata)


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