[Relato de parto #23] Melissa Sue Castanheira Relatos

O dia em que (re)nascemos

Vieste ao meu ventre sem aviso, mas fizeste-te logo notar, mantiveste-me o peito em suspenso, juro que havia dias que não conseguia quase respirar.
A tua vinda não estava programada, mas o teu parto sim, o Universo tratou disso por mim. Obriguei a nossa Doula a atravessar o Atlântico ao nosso encontro, afinal, como ia eu renascer sem ela?

O teu parto foi uma afirmação, uma luz após as trevas meu filho, eu disse que o teu irmão ia nascer em casa, eu queria, eu sentia, e todas as vozes em meu redor me negaram isso.
Obriguei-me, contigo, a não ouvir essas vozes, e assim tu nasceste, envolto em amor, paz, na água, em casa. Obrigada pela tua força bebé.

O Tiago nasceu dia 21 de Outubro de 2015, às 6:20 da manhã, com 39 semanas. Nasceu com 3kg e 800g, media 52cm, e foi recebido pelo pai, o tio, o mano, o cão, três parteiras fenomenais e a nossa Doula (que estava a caminho, ainda dentro do avião).

Nunca pensei ser possível estar tão serena, tão relaxada e confiante!

Estive 24 horas a saber que vinhas a caminho, só nunca esperei que fosse tão rápido.
Deitei-me na noite antes com desconforto, já não conseguia dormir, mas pensei que ias aguentar mais um dia, às duas e pouco da manhã, sinto um “pop” e a tua água quente escorria por todo o lado, acordei o teu pai, enchi a cama de resguardos, mandei-o encher a piscina e liguei à parteira.
Disse-lhe: “não tenhas pressa, sinto que está tudo bem, não tenho dores nas contrações, são perfeitamente suportáveis!” mas ela insistiu que como não estavas encaixado, preferia vir andando para ver. Chegou em meia hora.
Eu estava muito relaxada mantive-me deitada na cama, como ela pediu. Perguntou se podia verificar a dilatação, e apesar de já ser mais certo e sabido que o colo do útero não é uma “bola de cristal” 😉 disse que sim.
“Bem, estás com…” – tentei interromper, tinha-lhe dito antes que se tivesse menos de 7/ 8cm não queria saber, mas ela continuo “… estás com oito centímetros!!” largou-me e foi a correr ao carro buscar as malas com todo o material, ligou para a outra midwife (parteira) para vir e entretanto a terceira, estagiária, chegou também. Eu não queria acreditar, percebi logo ali que o que criava a dor era o medo, e eu não tinha medo, sabia que não ia haver abuso obstétrico, sabia que não ias passar o que o mano passou…

Montou-se um aparato para encher a piscina a tempo e montar todo o material. E eu ali, relaxada entre contrações que já começavam a precisar de concentração, mas sorria, como não sorrir?

O meu corpo começou a gritar “move-te!” levantei-me, senti que estavas perto de chegar, querias descer e precisavas de mim, fomos para a água… que prazer, que alívio, que felicidade… só quem já pariu na água saberá entender. Viemos da água para viver na terra, no ventre estamos na água, que transição mais suave podemos oferecer, que sair da água para a água, até aos braços da mãe?

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De gatas, agarrei-me ao pescoço do teu pai, a dor já apertava, a pressão na púbis e no cóccix, e o teu pai que nem “Doulo”, enchia-me de coragem, e foi então que o meu corpo gritou, a força incontrolável de te meter cá fora, virei-me para te receber, gritei das entranhas com o ardor, mas a água aliviava tudo, bem dita piscina! A tua cabeça surgiu e a paz instalou-se, e ali estavas tu metade no mundo, metade meu. O teu cordão tão curto e envolto no pescoço teve que ser cortado logo ali, e assim que o fizeram o teu corpo saiu disparado, do meu ventre para água, da água para o meu peito.

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O que me matou como Mulher na violência do primeiro parto, Nasceu aqui de novo. E o teu irmão renasceu connosco, porque agora sou Mais, sou mais Presente, mais Mãe, mais Mulher, mais Guerreira, mais Feliz.
Sou água! e vocês comigo!

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~ Melissa Sue Castanheira


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.