Entrevista com Ana Sílvia Agostinho Entrevista

A Ana Sílvia Agostinho – já deves ter ouvido falar dela – é a criadora d’”A Minha Vida dava um Cartoon”. Nesta entrevista podes conhecer mais sobre o seu trabalho e, também, sobre a pessoa que está atrás dos “olhos grandes”. Deixa-te levar pela sua criatividade, abertura de espírito e boa-disposição. Saboreia o seu amor pelo ato de nutrir; pelo seu trabalho; pela sua filha!

 

“Era uma vez uma menina simples e de olhos grandes… Ela vivia num mundo de papel. Via tudo. Nada lhe escapava! Até que um dia, magia aconteceu…”

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“A Minha Vida dava um Cartoon”. Que tipo de cartoon te identifica?

Um cartoon simples e de olhos grandes. A minha boneca é a minfb_img_1461179373609ha boneca e é muito simples. A personagem que criei sou eu: com a franjinha, os olhos grandes, meia desengonçadita, magrita. Sou eu, autêntica! E as restantes personagens que vão aparecendo também se identificam bem, apesar da base das caras ser sempr
e a mesma, os cabelos, as roupas, a postura identificam, facilmente, a pessoa que estou a cartonizar. Acho que é isso que tem piada, no meu trabalho!

Mas, sem dúvida, que os olhos grandes e redondos são o que me identificam. Quando eu era pequena, o meu pai chamava-me “faneca”, por alguma coisa era. (risos)

 

Quando e como nasceu o teu projeto?

Nasceu quando eu descobri que estava grávida. A família soube de uma maneira pessoal, mas eu queria partilhar no facebook, de uma maneira original, para os amigos e para a família que está longe. Desenhei uma eco, uma brincadeira comigo e com o Nuno a vermos a ecozinha – a primeira – e, depois, foi tudo surgindo naturalmente.

Semana a semana, apetecia-me fazer um cartoon do que estava a acontecer e acabei por querer guardar isto como um diário gráfico para mim e para ela. Os cartoons são um “reminder” para mim e para ela ver, mais tarde, e saber o que acontecia enquanto ela estava a dormir.

Porque tudo isto acontecia enquanto ela estava a dormir. Está ela a sonhar e estou eu a criar!

 

Porquê este nome?

Eu não pensei muito no nome. Comecei a partilhar os meus desenhos no meu perfil pessoal dimg_20160715_003437o facebook. E, de repente, a Susana da Bless fez-me uma entrevista. Teve um grande feedback e as pessoas começaram a contactar-me, porque não conseguiam aceder ao meu perfil pessoal. O nome acabou por surgir. Foi algo tão natural como “A minha vida dava um Filme” e, de repente, ficou “A Minha Vida dava um Cartoon”. Com o fenómeno que se criou com a página do facebook, as pessoas começaram a encomendar cartoons para elas e ficou este nome.

Por vezes, penso que foi o nome que me escolheu a mim, porque qualquer pessoa pode identificar-s e com ele; qualquer pessoa pode dizer “A minha vida dava um cartoon”!
Geralmente quando recebo um e-mail, costuma começar assim: “Olá! A minha vida dava um Cartoon”! (risos). Aliás, eu faço um cartoon da vida das pessoas. Portanto, é para todos! Deixou de ser a minha vida e passou a vida de qualquer pessoa, a vida de toda a gente. E isso é que é bom!


E como é a Sílvia, como ilustradora e como mulher?

Eu sou uma pessoa muito séria e levo as coisas muito a sério. Sou virginiana e super super séria. A gravidez foi algo muito intenso emocionalmente. Fisicamente foi muito bom; foi muito leve! E criar um cartoon, ao fim de um dia mais difícil, tirava-me aquele peso. E fazia-me rir! E rir é extraordinariamente libertador! É a minha cura!

Muitas vezes sou uma ilustradora romântica, porque só vejo amor naquilo. Por vezes, só me apetece desenhar a Eva no meu colo, a dar-me beijinhos. Mas isso não me faz rir. Ou seja, o cartoon, para mim, surge mais facilmente, quando acontece alguma coisa ou alguma birra, num dia. É o sarcasmo a tentar sair, de alguma maneira.

Por exemplo, quando eu estava grávida, não conseguia calçar os ténis. Um dia, antes de fazer o cartoon, chateava-me imenso; irritava-me o não conseguir fazer as coisas sozinha. Depois de o fazer, já me conseguia rir. Porque já tinha passado pela fase da aceitação, piada, riso, cura. Já estava resolvido!

Eu gosto muito de me nutrir bem! Sou louca por alimentação, sou vegetariana e adoro cozinhar! E adoro ver os nutrientes todos e para onde vão os óleos, as gorduras. Sou super curiosa da cozinha e, se não fosse ilustradora ou designer de jóias – que é a minha profissão mor, acho que seria algo associado à cozinha. Nutricionista ou chefe de cozinha. Gosto muito de vegetarianismo e também de crudivorismo!

Para mim, a alimentação é a base de tudo. É a maior expressão de amor que podes dar a alguém. Isto talvez tenha surgido da minha mãe. Ela desde sempre foi uma cozinheira extraordinária! Cada vez que ela me servia e ficava aquele cheiro na mesa… o comeres com as mãos… estão os sentidos todos ali… é amor do mais puro que há! Tu cheiras, tu saboreias, tu comes com tudo! Quando eu cozinho, estou a fazer aquela magia toda. Até reiki faço por cima da comida.

Se um dia a minha filha quiser colar arroz na parede, eu não me importo. Porque, para mim, é mesmo importante que ela goste e saiba comer. Está nutrida e isso é a base para ela ter sucesso!


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Esta pergunta já foi, provavelmente, respondida por ti, aqui, mas qual foi a tua inspiração para criar o tipo de desenho que define e personaliza o teu trabalho?

O meu trabalho é, sobretudo, ilustrar a maternidade. Todos os momentos mais constrangedores, mais cómicos, mais sarcásticos e cheios de humor definem o meu trabalho. Quanto mais embaraçoso for, mais constrangedor é o momento e melhor sai o cartoon.

 

Imagina que te encontras perante um grupo de pessoas e tens que fazer uma breve descrição do teu trabalho. Que palavras-chave usarias para o descrever?

É exatamente o que te disse agora: ilustrar a maternidade, os “akward moments”. Mas estou a transformar-me numa pessoa mais lamechas, com a minha filha. Pouco a pouco, ela está a mudar-me e, por vezes, só me apetece fazer algo mais romantizado com florzinhas, bebés ao colo.

Eu gosto muito de amamentar, mas encontras sempre coisas desafiantes na amamentação. Especialmente se for um bebé que goste de fazer yoga enquanto mama! Mas adoro, adoro amamentar. Para além de dormir com ela – que é a minha coisa preferida – eu adoro amamentar.

Um conselho para as mamãs: quando o bebé dorme, lê um bocadinho, dorme; algo de “low energy”, para conseguires descansar um bocado. Acompanha o ritmo do teu bebé. Porque ele vai depender de ti de uma maneira que tu nunca viste na vida e nunca estiveste habituada.

Logo nos primeiros dias, eu percebi que é para aprender com a Mãe Natureza, aprender como as árvores crescem e ver que as coisas têm o seu tempo e que tudo acaba, um dia. Esta dependência toda um dia acaba!

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Que produtos tens ao nosso dispor?

Os cartoons personalizados. Tenho o “Diário de uma gravidez ilustrada”. É um livro de 50 páginas. Não tem capa rija, mas tem uma folha de bpa gramagem. Agora, até ao Natal, vou oferecer o livro da gravidez a quem me fizer encomendas de cartoons.

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O que fazias antes de “dares à luz” este projeto?

img_20160720_162743Eu era designer de jóias, como já disse. Sempre fui joalheira, ourives. Foi o curso que tirei. Em 2001 terminei-o. Comecei a trabalhar logo. Sempre tive uma profissão muito boa, com trabalhos criativos e coisas que eu gostava muito de fazer. Estive 10 anos numa empresa. Depois saí e fiquei desempregada e comecei a seguir a joalharia por mim própria. Foi uma fase mais lenta de produção, mas tinha a certeza absoluta que era o que eu ia fazer para o resto da minha vida.

Quando eu tive a Eva, mudou tudo! Deixei de ter tempo para muitas coisas. Ainda tentei trazer a banca de trabalho para casa, mas está aqui tudo escondido: maçarico, ácidos, ferramentas. E é um trabalho que faz muita sujidade e liberta muitos cheiros, portanto não me sentia confortável com a ideia e comecei a parar muito a produção. Ao mesmo tempo, comecei a receber pedidos de pessoas a pedir para eu lhes fazer um cartoon.

No início eram os amigos e eu até pensei que era para me ajudarem. Mas, depois, começaram a ser outras pessoas, que não me conheciam de lado nenhum, a pedir. Alguns nem eram pais. E eu comecei a valorizar mais a cena, a levar isto a um nível mais profissional.

 

És mãe só de uma menina?

Sim, de quase dois anos.

 

Conseguiste ter o teu parto de sonho?

Apesar de não ter tido o meu parto de sonho, foi bom! Eu também sonhava ser uma Mãe d’Água. Liguei para o enfermeiro Vítor e ele, com muita pena, disse-me que já não faziam no hospital de Setúbal. O meu parto foi tão fixe! Foi e não foi: a nível físico foi um parto praticamente sem dor. Eu acordei ao meio-dia. Senti sangue e fiquei preocupada. Como estava cá a minha sogra e a minha cunhada, avisei-as para não se preocuparem muito. Era 4 de outubro. O nascimento dela estava previsto para o dia em que ela nasceu!

Foi tudo super rápido. Dei entrada na Maternidade. Estava com 3cm de dilatação. O sangue era o rolhão, que tinha saído. Entrei. Deram-me microlax para limpar tudo e pediram-me para não comer mais. Essa parte não achei muita piada porque, como já viste, sou muito ligada à comida. E se eu precisasse de alguma coisa para me energizar isto? Para mim, o parto demorava sempre umas 24 a 36 horas. E eu ia precisar de comer! Sempre pensei nestas coisas: um chazinho, uma água… tinha que me nutrir! Entrei, vesti a bata toda fofinha. Tinha três enfermeiros comigo: o primeiro saiu logo da ronda, com muita pena minha. Eu até lhe disse: “Então acaba o turno agora, quando eu estou a começar?”. Eu tinha um plano de parto e ele estava a respeitar imenso tudo. Quando ele saiu, houveram algumas faltas de respeito em relação ao meu plano de parto. Eu só dizia: “Malta, eu tenho um plano de parto aí escrito. Vocês leiam, por favor! Eu não quero rebentar as águas; eu quero o corte tardio do cordão umbilical…”

Mas, a dada altura, estás a ver tanta gente a entrar e a sair, a ver tanta coisa a acontecer à tua volta e tu só tens que te preocupar com uma coisa, tens que estar calma, respirar e estar bem para o bebé sair bem e para tu estares bem com ele. Por isso, de repente, deixei de me preocupar com algumas coisas. Entretanto, comecei a vomitar imenso. Sentia uma pressão, um aperto na barriga. Comecei a ficar muito fraca e a tensão baixou imenso. Nessa altura, o tal enfermeiro deu-me a mão e disse: “eu quero muito respeitar o seu plano de parto até ao fim, mas você está a ficar muito fraca. E se a sua filha só nascer daqui a 2 ou 3 horas e você não parar de vomitar? Não vai conseguir fazer força para ela sair”. Ele disse que eu ia deixar de sentir tudo da cintura para baixo. Já não ia sentir essa pressão. Eu pensei que não era isso que eu queria, que não era o ideal, mas nós perdemos os ideais quando as necessidades aparecem.  Então, acabei por pedir a epidural. Foi a primeira coisa que me doeu, naquele dia! Doeu-me durante vários dias.

Tive sorte com as enfermeiras, à excepção de uma que entrou com duas agulhas gigantes, para me rebentar as águas e eu mandei-a logo para fora. Ela ficou ofendida. Disse-me várias coisas, mas eu não quis saber. E insisti que as agulhas não entravam. De resto, foi tudo super rápido. Eu entrei quase às duas da tarde, tive o trabalho de parto, as conversas, os vómitos e ela nasceu meia-hora depois. Ela nasceu às sete da tarde!

Foi super rápido! Para mim o segredo – vou-te já dizer – é que eu comi quilos e quilos de tâmaras durante a gravidez. Comi que nem uma louca! (risos)  Para mim, foi o segredo do meu parto curto, sem dor. Eu não sabia, depois é que me disseram que é ótimo para encurtar o parto. Outra coisa que fiz foi imensa massagem do períneo, sozinha e com o namorado. Eu não rasguei nada, não levei pontos. Levei um único ponto, interior.

Durante o trabalho de parto há aqueles momentos em que chamas a tua mãe. Só a queres contigo. Tu passas por isso tudo! E depois chega aquele momento – que é o momento crucial – em que sentes que o bebé vai passar todo e aí é que sentes que não vais ser capaz de fazer aquilo. Agarras-te a Deus, até. E sei lá o que é que tu sentes… há um momento em que sentes que não vais conseguir. Depois de passares o vómito, o suor, as lágrimas e toda aquela coisa, sentires que és a mãe (ou o pai)… que estás ali…

No momento da passagem no canal, parece que renasces, que és tu que estás a nascer. É uma força brutal! Eu senti a minha avó, a minha mãe, a minha bisavó, a minha tetravó a parir, tudo ao mesmo tempo. Sentes todas estas linhagens em força. E ela nasce! De repente, passa para as tuas mãos e, a partir daí, não há descrição possível! O parto acabou, desligou tudo, estás no céu.

A minha filha pegou logo na mama, impecável, sozinha. Encostei-a e começou logo a mamar, que nem uma maluca, até hoje! (risos)

 

O que renasceu em ti com esta mudança?received_493894150786336

Depois de seres mãe, o teu corpo já não é como antes. Eu sinto-me muito mais mulher agora, do que antes de ser mãe. Há uma maior aceitação da minha parte em relação a mim mesma, desde que fui mãe! Desde sempre eu tive muita facilidade em aceitar o meu corpo, mas o pós-maternidade é algo muito mais poderoso do que isso.

Tu transformas-te numa loba ou numa leoa, como preferires – eu prefiro a loba, acho mais fofinho! – Transformas-te numa loba e defendes o que é teu. Já não há medo do que vão pensar de ti. Não me interessa! Isto é meu, é o que eu acredito. É o meu tempo, é sagrado! Portanto, venha quem vier, vai ver dentes.

 

Sentiste-te empoderada após o teu parto? fb_img_1459717000444 

Completamente! Não há descrição para aquilo! E ganhei uma força bruta, depois de ser mãe! Eu sempre fui muito de acção, trabalhadora,
disciplinada. Mas, a segurança que ganhas por ti própria… de repente eras uma pessoa e transformaste numa loba! Uma autêntica loba! Super protetora da sua cria, a procurar a melhor tribo para nutrir a filha. Porque há lobos solitários que só estão à procura da tribo perfeita. Há um respeito primordial pelo bebé.

Começas a criar ligações, a dizer coisas… tu mudas. Mudas completamente!

 

Sentes que o facto de seres mãe traz uma sensibilidade extra para o teu trabalho que, de outra maneira, não conseguirias obter?

Isso vai crescendo. Quando eu estava grávida, o meu traço era diferente do traço de agora. A boneca está com uma expressão completamente diferente! Eu começo a ganhar segurança de tal maneira, que, enquanto antes desenhava num A5, pequenino, agora desenho ao alto, numa folha grande, ocupo a folha toda e estou ali a experimentar a expressão até ao fim. Sem medos! A prática ajuda-nos a ser melhor no que fazemos.

 

 

Como conheceste as Mães d’Água?

Conhecer as Mães d’Água foi um encontro daqueles que eu guardo para a vida. Eu fazia uma Feira no Jardim da Estrela, com a Joalharia. Um dia, eu super grávida com 7-8 meses, olhei em frente e vi uma mulher empoderadíssima. Com o cabelo super comprido, loiro, com um bindi vermelho na testa, com um sling, com a terra… o bebé de um ano a mamar desenfreadamente. Ela, com as duas mamas “ao léu, foi direitinha à minha banca. (Até me estou a arrepiar ao contar isto!) eu lembro-me de pensar: “Eu quero ser assim!”

Ela olha para as minhas coisas, sorri para mim. Pega numa caixinha de mantra que eu costumava fazer e onde podias escrever o que quisesse num papel, enrolar e colocar na caixa. Eu tinha um papel escrito com “Amor e Liberdade”, que era o exemplo. Ela pegou e disse: “Vou levar este para uma mamã que precisa ser empoderada!”. Tal e qual assim.

fb_img_1459690807520Passado uns dias, dois no máximo, vejo no facebook uma fotografia dela partilhada por um grupo ou por uma amiga, não sei. Meti-me logo com ela e começámos a conversar. Ela foi incrível comigo, depois de eu ter a Eva. Estive quase a ter uma depressão pós-parto e ela foi crucial. Isto porque quando uma pessoa está grávida pensa muito no parto, no plano de parto, aprendemos a respirar, mas ninguém pensa no depois. No chegar a casa com o bebé ao colo. “E agora? O que fazes?” Fala-se na alimentação – eu tirei o curso, em Lisboa, no Centro Pré/Pós-parto. Mas mais nada. Quando cheguei a casa estávamos os dois apavorados!

Eu adoro aprender com as mães! Falo com muitas mães, encontro-me com elas, faço parte de grupos. Há grupos muito bons: as Mães d’Água, os bebés no sling. Nós encontramo-nos, conversamos, os nossos filhos estão juntos. E dão-nos um grande “power”, porque conversas com as mães, desabafas, crias um vínculo que te ajuda a perceber e a sentir que alguém está contigo na tua dor.

Aliás, na Indonésia há um grupo de mulheres que, quando uma mulher engravida e tem o bebé, ela recolhe-se nos primeiros três meses, numa casa só com mulheres. O marido fica com os outros homens, que se juntam para apoiar o pai. As mulheres, durante esses três meses, estão a nutrir a mãe, porque a mãe está só a dar de mamar, está só a cuidar da criança, está a dar tudo ao filho e a recompor-se, depois do parto e de nove meses a carregar uma criança. O teu organismo está em movimento; está a recuperar durante todo esse tempo. E elas fazem isso. E dão banho à mulher, massajam-na, cuidam dela. E ela cuida do bebé! E são os antepassados que vão passando as ideias e as informações todas.

Nós perdemos esta noção de tribo, que é muito importante! E estes grupos servem para isto. É com as pessoas que tu aprendes! É com as experiências, obviamente que também com a tua própria experiência. Mas tens um apoio ali. E só isso tira-te um peso enorme das costas!

Se formos a ver, a doula também faz isso! Empodera a mulher no parto e no pós-parto. E ajuda a educar o homem a ensinar-lhe o que ele tem que fazer para empoderar a mulher dele durante todo o processo. Porque eles não sabem fazer isso. Não têm consciência do quão isso é importante! Não são todos, claro. Eu vi vídeos de partos em que o homem está na banheira e está a fazer a força com a mulher e chora. Coisas comoventes!

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Eu tive um pai, ao meu lado, quando tive a Eva, que, no primeiro dia em que conseguiu ir visitar o bebé dele, deitou-se na cama e esteve sempre com ele, pele a pele. A mãe foi comer e falar com as visitas e ele ali, sempre deitado na cama com o bebé no colo dele, no peito dele, para o ele sentir o cheiro do pai.

 

Na tua opinião, como é encarado o parto, em Portugal?

Eu estou muito limitada à minha experiência, mas acho que deveria haver a possibilidade de parto na água. Acho que a mudança está a acontecer. Cada vez que falo com uma mulher ou com uma enfermeira, a pessoa está ligada ao reiki ou conhece as doulas ou sabe o que é o parto humanizado. Portanto, eu acho que isto está a acontecer, pouco a pouco.

Não vai ficar curado na nossa geração, mas na geração dos nossos filos, estará, de certeza, curado. Porque já há tanta informação, já não há tanta ignorância. Por exemplo, eu sabia o que era uma doula, de ouvir falar, mas não tinha noção do que é que ela fazia. Não tive doula, tive doulas “emprestadas” como eu costumo dizer, nos momentos certos, mas não tive uma doula comigo, no parto. Eu acho isso fundamental! Acho que uma grávida devia entrar num quarto, para ter o bebé, e uma doula deveria estar lá, para a acompanhar. Parece-me que estamos no bom caminho! É um processo lento, mas estamos.

 

O que é necessário para mudar essa realidade? O que nós, mulheres, podemos fazer?

Falta-nos falar mais umas com as outras, contar o que sabemos, partilhar a nossa experiência. Da próxima vez em que eu for mãe, eu vou exigir uma data de coisas. Não vai ser como na primeira vez, em que eu ainda ia a apalpar terreno. Eu já sei o que quero!

 

Que outros projetos/campanhas estás a desenvolver, neste momento?

Continuo a trabalhar nos meus cartoons. O meu sonho é conseguir, com eles, que a Eva fique mais este ano em casa, comigo, antes de ir para o infantário. O “Diário de uma Gravidez Ilustrada” também tem esse objetivo: prolongar esta viagem (em casa) entre mim e a minha filha.

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Quem é que, habitualmente, procura o teu trabalho? Mães, casais?

Cerca de 80% dos meus clientes são mães. Normalmente é uma mãe que quer surpreender o pai. Ou no dia do Pai, ou no Natal, ou para os avós ou, até, para ela (um retrato da família). Já tive uma mãe completamente enternecida pelo pai, que chorava quando ia trabalhar, porque ficava longe do bebé. O mesmo acontecia quando ele chegava a casa, porque ficava feliz ao ver o filho e a mulher. Para mim, é o cartoon mais bonito que eu já fiz até hoje! É um pai a segurar um bebé, com os olhos em lágrimas, a olhar para ele. Deve ser o cartoon mais simples e mais básico que eu já fiz, mas é o mais bonito de todos! Porque aquela mãe ficava completamente rendida àquele momento e não há nada melhor do que isto!

 

Como sentes que ele (o teu trabalho) influencia a vida das famílias?

Isto começou como brincadeira mas, agora, quando as pessoas se identificam, quando as pessoas me enviam e-mails a partilhar momentos das suas vidas…. Quando começo um cartoon, primeiro faço o esboço e envio-o para a pessoa. Se ela gostar da estrutura, eu avanço e começo a precisar de detalhes e cada vez mais detalhes – calçado que usa, como é a postura – e, às tantas, tens que falar sobre a pessoa e sobre a vida em si. E as pessoas acabam por desabafar comigo.

Eu desde sempre fui muito ligada à psicologia, eu adoro psicanálise, cada vez mais. E quanto mais velha a mulher fica, mais psicanalista ela é. Eu adoro esta partilha! Faz-me bem e sinto que estou a servir os outros, de outra maneira. No final, o meu cartoon não é “só” um cartoon! É toda uma parafernália e eu tenho que me ligar àquelas pessoas.

Por vezes, quando preciso de mais tempo para um cartoon ou preciso de mais detalhes, estive tanto tempo a falar com aquela pessoa, que depois sinto saudades dela. Porque nos ligámos, porque conversámos imenso. Acabas por criar um vínculo. Eu não me conseguia entregar tanto, se as pessoas não se entregassem primeiro.

Quando me aparece alguém mais racional, que só me dá fotografias, mas não consegue partilhar, eu não consigo me entregar tanto. E fica um trabalho mais impessoal e eu sinto que, no final, as pessoas não gostaram tanto do resultado final. Lá está, porque não houve a mesma partilha e a mesma entrega. Fica um trabalho muito frio e nota-se.

Eu tinha uma joalharia e já era muito ligada às energias. O metal do ouro passa-te energias do Sol, a prata está mais ligada à Lua; tem uma energia mais baixa. Tens as pedras, os cristais e essas coisas todas, que fazem limpezas e terapia em ti. Eu acredito nestas coisas e podes mesmo ajudar as pessoas com isto!

Eu não quero que o meu trabalho seja só giro; eu quero que mexa com qualquer coisa, que trabalhe ali qualquer coisa. E consegui fazer isso nos cartoons, sem querer. Não estava à espera e acho que foi isso que me “agarrou” neste trabalho!Agora estou a aprender imensas coisas: a colocar cor, a passar para aguarela. E estou a gostar imenso! E isso está-me a ligar a outras pessoas.

 

Para onde gostarias de levar “A Minha vida dava um “cartoon”?

“A Minha Vida dava um Cartoon”… quero fazer mais, quero mais trabalho, mas está perfeito assim como é! Tal e qual isto! Estou super feliz com o meu momento presente: estar com a Eva a tempo inteiro. Porque isto é o meu part-time, eu só crio os cartoons à noite ou quando ela está a fazer a sesta. Mas, se houvesse mais trabalho, mais encomendas, era o ideal. Juntava um dinheiro, talvez mudasse de casa para perto do mar ou da natureza. Era o ideal para a mim e para a minha filha.

 

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Se pegasses numa varinha de condão, que desejos pedirias para ti, para as mulheres e para o Mundo?

Para mim, pedia mais trabalho. Para as Mulheres: “Sejam a verdade que são!” As mulheres escondem-se atrás de uma data de coisas, sobretudo de medos, aceitações e necessidades de se afirmarem… fazemos papel de vítimas… foi assim que nos ensinaram.

Mas nós somos Deusas! Temos que nos empoderar! Força com isso!”

Não devemos ter medo. Para sermos corajosas temos que ter medo. Mas a Mulher deve ser o que ela é: escuridão e Luz, mas sem medo! Não há que ser perfeitinha. Somos Mulheres! O parto e a maternidade também são isto. Devemos ser mais nós próprias. Todas as mulheres deviam ler o livro: “Mulheres que Correm cos os Lobos”, passo a publicidade. A Clarissa é uma escritora que deveria ser nomeada para “empoderamento da Mulher”.

Tu és uma Mulher que precisa de gritar, precisa de partir pratos e de ir uivar à lua. Força com isso!

 

Conhece mais do trabalho d’”A Minha Vida Dava um Cartoon” aqui.

Há pessoas que nos inspiram a Ser; pessoas que talvez não voltem a cruzar as nossas vidas; pessoas que talvez fiquem para sempre. Aqui fica um pouco de partilha e amor! Convidamo-vos a seguirem o trabalho da Sílvia com a mesma entrega com que ela cria estes cartoons. Vamos fazer magia; vamos acreditar e mostrar que é possível ela e a filha continuarem juntas, por mais um ano!

“… E, num arco-íris de luzes e cor, todos viveram felizes para sempre!”


Sou a Liliana, mas todos me conhecem por Lili. Sou dança, sou Sol, sou música... sou riso, sou lágrimas, estações... sou o dia, sou a noite... sou um eclipse de sentimentos e sensações. Filha da Terra, Mãe d'Água de Coração! ☼