Parto – proibido ter prazer Coluna Humaniza-te / Especiais

Sim, proibido gostar, partilhar, se sentir toda feliz e realizada com seu parto. Imagem que tem – guarde para si “que nojo!“; relato? – não venha contar em público “que medo!“…
Parto que não é sofrimento, procedimento médico… não queremos saber.

As imagens de parto natural incomodam muita gente.
Em terra de orgasmos fingidos o prazer do parto é uma heresia.

O corpo da mulher é um tabu. Isso não se discute. Ao mesmo tempo temos uma avalanche, recorrente (e até desanimadora!), de sexualização da imagem feminina… Nós não sabemos (nós, mulheres reais) não sabemos como lidar com nossos próprios corpos. São tantos seios e ancas “perfeitos” expostos para todos os lados – e que não causam problema “moral” a ninguém! – que quando se vê algo REAL o status quo fica abalado, a normatividade fica comprometida, no fundo perguntam-se:

“Quem ela pensa que é para se mostrar assim? Parecendo um animal, toda bagunçada?”

E o “nojo“?
Nojo, asco, repulsa, muitas pessoas falam assim de um processo natural e fisiológico (de um processo Belo, acrescento eu!).
Porque será que muitas de nós temos “nojo” do parto?
Faz sentido que dentro da nossa sociedade o que não causa tesão no homem comum seja tratado como nojento? O parto, o ciclo menstrual…
Faz sentido que o que quer que seja que se passe com o corpo da mulher, desde que não seja para o prazer “dele” tenha ser reprimido?

“Mas Gláucia… Você exagera, não?”

Não. Não estou a exagerar! (Até gostava que fosse exagero meu…)
A mãe, “santa propriedade de seu marido” só pode sentir prazer entre quatro paredes, e… com ele! Este é um padrão que nós aprendemos quando somos condicionadas a sermos “boas esposas”, e na maioria dos casos ele chega-nos por outras mulheres, que, reprimidas por seus próprios condicionamentos, continuam a perpetuar essa postura doentia.

Você pode se incomodar muito com o que eu estou dizendo, mas… talvez seja isso mesmo o que eu quero com este texto!

Mas eu lhe pergunto, para você – você, a que se incomoda a ver fotos e vídeos de partos naturais, a que critica mães que vê amamentando nas ruas, e que julga mulheres que se vestem de uma forma que pensa ser inadequada – quando foi a última vez que você realmente teve um orgasmo (somente para acabar logo e você poder dormir e continuar com a sua vida normal)? Não falo só de cama, falo da última vez que você não teve que fingir o que sentia? Quantas vezes sentiu que agir assim é cumprir com seu papel no seu relacionamento (com seu marido ou com o mundo)?

Eu quero que você se incomode, sim. (Se for necessário causar incômodo, que seja!)
E eu quero que você se questione se está olhando para o lugar certo. Se é no prazer e libertação dos paradigmas alheios (que tanto te incomodam!), que de fato está o problema. E gostaria que você se questionasse, que falasse mais, até conseguir se ouvir a si mesma e perceber que o que tanto a incomoda… não está fora de si… Mas sim na sua insatisfação interna, e na pressão que você finge não sentir (seja para agradar o seu meio, seja para ser aceite).

A liberdade na partilha de imagens de parto – com a nudez que pode ou não implicar – é um acto de libertação, de rebelião até, para com o paradigma vigente. Um paradigma que não admite o direito da Mulher à Liberdade (total!) sobre seu próprio corpo.
Como pode uma Mulher estar contra isso?
Como pode sequer pensar em querer manter este paradigma?

Gostava de dizer que ninguém aqui está contra si. Pelo contrário, estamos aqui para você poder continuar assim, se quiser. Mas se não quiser… para que seja possível não ser crucificada por MUDAR. É uma vitória para todas.

Vamos mudar a imagem que todas nós temos do parto?

Este é o meu questionamento com esta campanha que lançamos nas Mães d’ Água!
Porque, #naoDaParaParirVestida, dá?

Carinho meu,
~ Glaucia Figueiredo

Para te juntares a nossa campanha basta partilhares no facebook uma foto de parto com o hashtag#naoDaParaParirVestida

(imagem de capa da extraordinária Amanda Greavette)


Mãe de Lenin e Manuella, Doula, Terapeuta Corporal, Instrutora de Yoga com foco em Gestantes e Crianças, da Associação Internacional de Ecologia Feminina,desenvolve e aplica projetos na área, workshops e atendimentos individuais desde 2008.