[Relato de parto #24] Inês Anjo Relatos

Nascimento da Carolina
A Carolina nasceu no Hospital de São Bernardo no dia 18 de Fevereiro de 2012 de parto natural, na Água.

Senti sempre que conseguiria parir de forma natural.

Antes de viver a experiência do parto, o nascimento era para mim algo que teria de ser vivido da mesma forma que um bebé deve ser gerado – com amor! Imaginava um momento de força, poder e de grande prazer. E foi isso e muito mais!

A véspera, 17 de Fevereiro, era uma data importante. Celebrávamos dois anos de união e como tal fomos jantar fora, nós, e as contrações de 10 em 10 minutos!
Sim, um jantar inesquecível com algumas respirações, com muitos sorrisos, olhares cúmplices… com muitos motivos para celebrar! A Carolina estava a caminho…

Às 4 da manhã dei entrada na urgência do HSB, e apesar de sentir que o Obstetra que me avaliou tinha claras reservas pelas nossas escolhas e pelo nosso plano de Parto, a equipe de enfermagem que depois me acompanhou mostrou-se em contrapartida, muito gentil, com um comportamento que marcou a diferença!

Encaminharam-me para o quarto deixando junto à cama uma bola de pilates, mostraram o duche que estava à minha inteira disposição.

Quis ficar sozinha… a sentir… a sentir-me… a respirar…

Estava feliz por estar mais perto do grande momento, mas com muita vontade de ter o Ricardo ao meu lado. O Ricardo ficou lá fora e eu preparei-me para isso, porque sabia que a questão do acompanhante ainda não era respeitada na íntegra (quando será?).

O internamento não foi um momento fácil de gerir porque me senti descriminada pelo Obstetra que me recebeu na urgência. Na minha cabeça estava uma questão: “A que horas troca o turno?” (Admito que fugi dele, porque sabia que era para mim o melhor, puro instinto!)

… Passei a noite em claro…

Senti da restante equipa muita disponibilidade, e o duche e a bola foram a minha companhia até ao Ricardo poder subir, pela manhã.
Poder andar, poder beber um chá quente e ouvir frases de incentivo deu-me muita força.

As queridas enfermeiras sempre prontas a ajudar responderam à minha questão! O turno estava prestes a trocar e era o meu dia de sorte! Estava a entrar uma obstetra a favor do Parto na água! Era motivo de alegria! Tinha um sorriso na cara e o meu marido a meu lado! De Plano de Parto assinado foi passear pelos corredores, foi beijos e abraços, muito carinho.
Senti-me segura. Senti apoio, compreensão, suporte, num trabalho de parto que foi avançando sem pressões. Todos a trabalhar no mesmo sentido.
Houve dúvidas, e quando duvidei de mim, quando pensei que estava cansada demais para continuar, algo aconteceu!

Entre contrações conectei-me comigo de uma forma que nunca esperei, descobri algo dentro de mim que desconhecia e encontrei a solução para acalmar as minha dúvidas, “desliguei o botão” e mergulhei no MEU trabalho de parto, nasceu de repente a certeza de que estava a CONFIAR e a ouvir o meu corpo e isso estava a resultar.

Acho mesmo que me encontrei comigo! Mais do que isso, com a outra parte de mim que não conhecia até então.

A uma dada altura deixei de fazer as respirações convencionais, que aprendi nas aulas de preparação. Só por instantes abria os olhos e respirava de uma forma tão leve, esse foi O momento em que de facto percebi que era capaz!

Sensação inexplicável!

Regressei de novo a este lado, ao real, sentia-me pronta e pedi para ser avaliada. O momento estava próximo, a notícia chegou!

Inês, estás a ir tão bem! Vamos encher a piscina!

Super orgulhosa de nós! Estava de facto a acontecer! Mais beijos, mais abraços e lá fomos andado pelo corredor… e chegámos! (Uffa!)

A entrada na Água foi o segundo momento mais marcante desta jornada!
O Ricardo sentiu que queria entrar comigo!
Oh… sim queria muito!

Senti-me rodeada de paz, protegida, quente, leve, e consegui de facto relaxar em pleno.
Fiz a dilatação completa num ambiente calmo, com pouca luz, com a música que escolhi e com os meus dois amores: a Carolina dentro de mim e o Ricardo a abraçar-me.

Houve sempre cuidado no entrar na sala, nas conversas em tom mais baixo, as indicações e sugestões acompanhadas de um sorriso.

Senti-me de facto especial!

Tive medo de não conseguir, mas nunca o disse a ninguém, foi de facto um medo que decidi desafiar. E, quando a vontade de fazer força chegou eu perdi a direcção.
Então, aceitei uma sugestão…

Tenta cantar, quando a contracção chega, abre a boca e vocaliza AAAAAAA…

Assim fiz! Encontrei-me de novo!
A pressão lá em baixo aumentava, mas a dor… a dor desapareceu, e deu lugar a um prazer enorme em fazer força. Ela estava perto! Sentis a Carolina a descer.

Foi talvez uma hora o meu período expulsivo, com tanta sensação boa, com tanta emoção e descoberta!

Houve um momento em que me toquei e senti um balão… era ela bem perto, ainda na sua bolsa.
Foi incrível esse momento! E estourou, eu mesma rebentei a bolsa com o meu dedo indicador e senti alívio, ela estava mais perto.

Eu estava tão cansada… mas tão feliz!

E AGORA? Ela vai mesmo ter de nascer, não há como voltar a trás… ai ai ai.

Mas mais que o medo (não diria que houve medo), fui sentido tantas sensações, tanto prazer, tanto amor… que me permitiu sem dúvida ser Maior… e aí, foi nesse momento!

Mudei de posição e, de frente para o Ricardo, olhos nos olhos – Pari!

Eu estava nesse momento tão lúcida, tão ligada a ele, precisava tanto do seu sorriso de orgulho. Chegou de novo o ardor, o calor e num grito… pari!

Recostei-me e senti a cabeça da minha filha… os cabelos… oh que sensação boa!

Uma circular à volta do pescoço que foi resolvida com naturalidade, e a minha filha Carolina rodou sozinha e nasceu para as nossas mãos.

Estás cá fora meu amor!

A Carolina nasceu bem e foi o momento mais gracioso da minha vida.
O Ricardo chorava e eu falava com ela, tinha tanto para lhe dizer!

E não senti medo! nem dor! Senti-a a rodar dentro de mim, senti que estava a encontrar a posição certa para nascer e quando a vontade de fazer força voltou, eu limitei-me a amparar o seu corpo. A quatro mãos a recebemos, e a equipa estava completamente apaixonada, e em coro fizeram um enorme “Ooooooh!

Senti um ambiente de amor verdadeiro entre os presentes.
Todos a olhar para o milagre da vida a acontecer debaixo de água.

O Momento em que pus a minha filha junto ao meu peito, em que a vi respirar fora de água pela primeira vez, foi mágico! Foi muito mais forte e intenso do que poderia imaginar! Ficou colada a mim e sobre o meu peito permaneceu por muito tempo, eu aqui senti que era capaz de tudo!

Oh, que avalanche de emoções!

Um momento alto para mim como mulher, um momento alto para o Ricardo enquanto pai e companheiro que cuidou e ajudou desde o primeiro momento.

Um Parto limpo, simples e belo.

Uma menina que desde o primeiro minuto mostrou estar bem.

Eu senti a dor das contrações mas também senti que me superei. Senti o tempo parar ao entrar na piscina. Senti que nalguns momentos estava apenas ligada à minha bebé e que em outros deixava o pai entrar na nossa dança que é parir.

Senti que nos respeitaram.
Vi uma equipa atenta e dedicada a fazer esforços para que eu me sentisse uma Mulher com poder de decisão e escolha.
Tive uma experiência vivida a dois que nos transformou e nos uniu, naquele que foi O Momento das nossas vidas.
Este foi o MEU parto, o parto que o MEU CORPO quis e não o parto daquele Obstetra que me recebeu…

Essa mágoa (do modo como fui recebida) ficou! Mas ficou ainda mais a vontade de gritar ao mundo que foi tão bom! Que é possível viver e apreciar o nascimento dos nossos filhos.

Fiquei apaixonada, deslumbrada com tamanho acontecimento! Encontrei o meu santuário para parir: parir para mim é na AGUA!

De coração cheio agradeço ao Enfermeiro Vítor Varela pela presença, ousadia, determinação e coragem; à Enfermeira Susana Santos pela disponibilidade, calma e apoio; à Dra. Cristina Costa pela alegria, sensatez e clareza.
Obrigada Enfermeira Elizabete, Enfermeira Boleta, Enfermeira Sílvia, e restante equipa que me ajudou a viver o meu momento.

Vocês são caçadores de sonhos e fazem magia! Para nós a água nunca mais será apenas água… A água para nós agora é vida!

Um bem haja a todos aqueles que todos os dias trabalham por nós mulheres, que nos escutam, que nos apoiam e fazem diferente!

Sou uma mulher empoderada, mais feliz e mais completa.

Muito Grata,
~ Mãe d’ Água Inês Anjo


Sou uma mulher apaixonada pela vida acreditando sempre no potencial de cada pessoa conseguir ultrapassar limites e descobrir a sua plenitude. Com a minha gravidez e maternidade iniciei um caminho de encontro com a minha essência. A minha paixão pessoal… ser Mãe d’agua.