Entrevista com Kaïté Psicolor Entrevista

“… Robin, 18 anos, um jovem homem adorável sempre pronto a ajudar, muito inteligente e sociável, muito atento aos outros, muito perspicaz, o pensador e pacificador da família…

Félix, quase 8 anos e 1/2, muito sensível, muito bom, muito barulhento e com muita imaginação e criatividade, o artista da família…

Cloé, 3 anos e 1/2 quase 4, muito à vontade no seu corpo e ambiente, muito curiosa de tudo e das pessoas, muito inteira, muito decidida, criadora de moda inata, a princesa da família…

Nilo, 8 meses, muito desperto, muito generoso, muito luminoso, muito feliz, o sol da família

O Aloïs, 16 anos, é o filho mais velho do meu marido. Nao o pari mas conheço-o desde os seus primeiros meses de vida, e é o mano dos meus filhos. A família só está realmente completa  quando ele está em casa connosco. Ele é o obstinado da família, o rebelde, mas é também muito doce e simpático ao mesmo tempo.”

 

Hoje é dia de conhecermos um pouco desta grande família cheia de cor, uma inspiração para mim e, espero, para vocês também. Do vermelho ao azul turquesa, vamos conhecer todo um arco-íris numa só mulher!

O que é para ti ser mãe? Foi algo que sempre sentiste que faria parte da tua vida?

Sim, desde a mais tenra idade que me fazia sentido a maternidade. Do mais longe que me lembro sempre foi o meu principal objectivo, ser Mãe.

Tens quatro filhos, certo?

Sim, tenho quatro filhos mas no total temos cinco. Tenho o mais velho com 18 anos e, o meu marido, tem um com 16. E juntos temos três filhos, um de 8 anos, uma prestes a completar 4 anos, e o mais novo de 8 meses.

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E é diferente ser mãe de um ou mãe de quatro? Imagino que sim… Como se faz esta viagem?

Sim! A idade traz-nos experiência e, ao longo da vida, vamos crescendo e aprendendo. É muito diferente ser mãe ao 22 anos ou aos 30, por exemplo. Eu fui mãe do primeiro aos 22, do segundo com 31 anos, da terceira com 36 e do quarto com 39. Acho que há vários aspectos a considerar e que promovem a dita diferença: aos 22 anos eu era nova, sentia que tinha muito a provar, tinha de demonstrar à sociedade que era capaz e que podia ser uma boa mãe. Há muitas dúvidas: “Será que vou conseguir?”, “Será que estou a agir da melhor forma?”, “Será que ele tem fome ou calor?”…

Do segundo já não tive tanta necessidade, do terceiro ainda menos e do último já nem sentia.

Já tinha demonstrado que era capaz. Acho que esta é a grande diferença entre ter um filho ou mais.

Como foi ver, sentir e cheirar cada um deles? É sempre a primeira vez?

Foi muito bom! (risos)

É sempre diferente, é sempre a primeira vez para cada bebé porque cada um deles é diferente e cada parto é único. A primeira vez para o primeiro filho é ainda mais um milagre. A cada parto é um novo filho que vamos descobrir e conhecer. Cada um irá nascer de forma diferente, não terão o mesmo cheiro, a mesma cor.

E os teus partos? Queres falar um pouco deles?

Eu posso, mas não sei se terás muito tempo para me ouvir (risos). Já escrevi o relato da minha terceira filha, a Cloé, e partilhei no meu facebook. Neste relato falo, também, do parto dos meus dois mais velhos. O do Nilo já comecei a escrever mas não tenho muito tempo para avançar, é mesmo pouco a pouco…

O meu filho mais velho nasceu há dezoito anos atrás, num hospital público, em França. Correu bem, não fiquei traumatizada com o parto mas, aconteceram algumas coisas que não gostei. Queria um parto normal, sem epidural. Cheguei ao hospital já com rotura da bolsa e não sei quantos centímetros de dilatação (acho 4cm), e só com uma contração muito forte sem nehuma interrupção. Lá, as parteiras tentaram-me convencer a levar a epidural, disseram-me que já tinha sofrido muito.

Com a pressão acabei por aceitar e, como o bebé nasceu pouco depois, não o senti a nascer .

E ainda fizeram uma episiotomia e a manobra de Kristeller. Mas correu bem, apesar disso. Lembro-me de uma situação engraçada, quando ele estava a nascer uma enfermeira disse: “Já vejo a cabeça, ele é loiro! Ah não, é ruivo!”. Veio logo ao meu colo. Mas, depois, aconteceram algumas coisas das quais eu não gostei. Levaram-no da sala de parto e quando cheguei ao quarto o bebé não estava lá. Tive de pedir muitas vezes que me trouxessem o meu filho. Elas tinham-no levado para uma sala com outras bebés e deram-lhe banho: tudo sem a minha autorização.
14101844_1280812188618206_428782361_nNove anos depois tive o meu segundo filho, já em Portugal. Tinha chegado a Portugal grávida de 1 mês e meio. O parto aconteceu durante a noite e foi muito rápido. Do primeiro, passaram cinco horas desde o início da contração até ao nascimento. E do segundo, apenas duas horas. Pari no hospital público Garcia da Horta e odiei o parto: todo o processo contrariou o desenrolar natural do parto. Quando cheguei ao hospital, ele já estava quase a nascer e tive de caminhar dezenas de metros num corredor escuro, porque as urgências obstétricas estavam fechadas por ser de noite e foi um sofrimento, porque o bebé já estava quase a sair… Já lá dentro mandaram-me esperar num canto até ir à triagem, e não deixaram entrar o Pai. A parteira fez-me muitas perguntas e depois um toque mesmo sem necessidade para avaliar a dilatação e como verificou que estava mesmo a nascer deixou de fazer perguntas e fui enviada em urgência para a sala de parto. Fui obrigada a sentar-me numa cadeira de rodas para me deslocarem lá, e eu já não conseguia, porque o bebé estava prestes a sair. Para mim, a posição ideal para parir é de joelhos no chão e eu fui obrigada a deitar-me na marquesa e a colocar as pernas nas perneiras. A enfermeira mandou-me parar de gritar e puxar. Mas tive de gritar para deixarem entrar o meu marido na sala de partos! A enfermeira provocou-me rotura de bolsa e episiotomia sem pedir autorização. Menos de meia hora depois do nascimento fui separada dele, levaram-no para uma salinha ao lado sem motivo nenhum e eu ouvia-o gritar imenso. Não gostei nada. Mas adorei o primeiro contacto com ele. O Félix veio para a minha barriga e estava todo coberto de vérnix. Adorei sentir o meu bebé fora e em cima da minha barriga. Acho que foi a única coisa que gostei neste parto, isso e todo o trabalho de parto feito em casa. Aliás dos dois mais velhos tenho óptimas recordações do trabalho de parto feito em casa, durante a noite.

Nos mais novos, a rotura de bolsa aconteceu no momento da saída da cabeça.

Uau!!!

Esse parto foi traumatizante e senti-me quebrada como mulher e como mãe. Disse ao meu marido que não queria mais parir nestas condições, num ambiante tão hostil, frio, sem respeito.

Entre o segundo e o terceiro parto passaram quatro anos e meio mas, antes de engravidar da Cloé perdi um bebé. Quando soube que estava grávida deste bebé disse logo ao meu marido que queria parir em casa. Já há três anos que procurava informação sobre o parto em casa e senti-me pronta. Comecei então a preparar o meu marido para o parto em casa, porque sabia que não teria tempo de chegar ao hospital e porque não queria mais nenhum parto em hospitais. O meu corpo não tinha sentido esta nova gravidez. Como não era um bebé viável o meu corpo não me tinha dito que estava grávida. Soube já com 8 semanas e, logo um dia depois, 14171839_1280827835283308_1186887396_ncomecei a ter dores e a abortar espontaneamente. Aprendi muito com este bebé e com este sofrimento. O aborto foi natural, sem recurso a medicação (recusei). Demorou várias semanas, foi muito difícil. Posso dizer que foi o único bebé que pari na água. Estava em casa e, quando comecei a sentir contracções fortes, entrei na água. Era muito mais fácil aguentar a dor. Perdi o bebé na água. A água ajudou-me a controlar as contracções, tal como o universo aquático.. as lágrimas… acredito que tudo me ajudou. Sinto uma mistura de tristeza profunda com aprendizagem e conhecimento. Com este bebé, com este aborto espontâneo natural, ganhei força e coragem para parir em casa, vi que podia lidar e aguentar as dores, ganhei vontade de parir novamente. E foi o início da formação do meu marido, enviava-lhe toda a informação que encontrava, e um ano depois, quando engravidei novamente, estava disposto para organizarmos um parto em casa.

Na minha filha Cloé, na altura do parto, foi novamente tudo rápido. Tinhamos escolhido uma Doula, uma equipa de parteiras. Nem tive tempo de entrar na água, elas nasceu no chão da casa de banho, enquanto estava de joelhos a encher a banheira. Pari sozinha, com o meu marido a andar à minha volta a tentar encontrar como ajudar. 20 minutos depois do nascimento chegou a Doula e, outros 20 minutos passados, a parteira principal (40 minutos depois da Cloé nascer). Novos 20 minutos depois chegaram mais duas parteiras.

Fui para a banheira para a placenta nascer.

Durou duas horas. Só depois é que o cordão foi cortado.

E o mais pequenino, o Nilo? Como foi o seu nascimento?14137671_1280827828616642_1347115393_n

Depois do nascimento da Cloé não fazia sentido ter um parto diferente. Quando soubemos que estávamos grávidos (risos) do Nilo, contactámos a Doula da Cloé, a Sandra Oliveira, e a nossa parteira principal, a Celeste Varela, para saber se estavam dispostas e disponíveis para assistir ao nascimento. Ou para chegar depois (risos). Elas aceitaram logo mas a Celeste acabou por não ter disponibilidade. Tivemos de procurar outra parteira, escolhemos afinal a equipa de partos em casa da BioNascimento. Na noite do parto estava grávida de quarenta semanas e um dia. Acordei às 5h45 com uma contracção forte e acordei logo o meu marido. Pelas experiências anteriores já sabíamos que ía ser muito rápido e, por isso, ele foi logo ligar à Doula que avisou as parteiras. Chegaram cinco minutos antes do Nilo nascer. Pari no chão da casa de banho, de joelhos, tal como no parto da Cloé. Embora tivesse enchido a banheira não cheguei a entrar nem mesmo para parir a placenta. Ele nasceu uma hora depois da primeira contracção, às 6h43. A primeira parte do Nilo a nascer foi a região frontal, nasceu de cara. É a apresentação da cabeça a mais larga e mais difícil de fazer passar. Costumam ser partos difíceis e dolorosos… Mas no caso do Nilo foi tão rápido! Tive só uma pequena laceração (no da Cloé também) mas não precisei de pontos. O Nilo ficou com uma máscara equimótico que passou em algumas horas mas teve um alto no crânio, provavelmente devido à pressão no canal do parto, que demorou uns meses a desaparecer. Neste parto preocupei-me com a placenta. Nos primeiros nem sequer tinha tido de pensar no assunto. No da Cloé, como foi o primeiro parto em casa, eu estava eufórica devido ao bom desenrolar do parto em casa e não estava focada no nascimento da placenta. Por isso demorou duas horas a nascer. Com o Nilo estive mais focada, sabia que as minhas parteiras não iam descansar até ela nascer. E, como eu não queria nada ir para o hospital, mantive-me concentrada no nascimento da placenta. Demorou cerca de uma hora para nascer e cortámos depois o cordão. Foi um parto muito muito rápido! Acordei, segui as intrucções do meu corpo e o Nilo já estava nos meus braços…

Quando fui mãe senti-me renascer como mulher. Senti que acordei o meu lado terra e o meu espírito. Comecei a ter necessidade de andar descalça, por exemplo… Que mudanças surgiram em ti? Foram diferentes à medida que tinhas outro filho?

Relembro que sempre quis ser mãe, desde pequenina, e foi logo na gravidez do primeiro que me senti muito completa, muito diferente, muito eu, muito inteira. Como o meu primeiro filho nasceu no hospital, não pude viver o parto de uma maneira natural, o parto não me transformou mais. Mas eu achava que era assim o normal. No segundo, tive um parto roubado, fiquei quebrada e depois em busca de reparação e de conhecimento.

Na terceira, como pari em casa, senti uma conexão completamente diferente. Senti-me renascer, empoderada. Sentia-me com força para superar tudo! Tinha conseguido parir sozinha! Aliás tinha deixado o meu bebé nascer, sem fazer nada. A força das contracções era tão grande, que não pude mesmo fazer nada. Era só deixá-la nascer. Abrir-me à força da vida. Foi um momento muito poderoso. Uma grande conexão com a vida. Renasci com este parto! Com o Nilo, não tive esta sensação. Acho que só pode acontecer uma vez: já (re)nasci! Já cresci, já sou mamífera! Mas sinto-me cada vez melhor comigo, mais próxima de quem sou.

Quais os maiores desafios que a maternidade te trouxe?

Deixar de seguir o que achava que a sociedade e a minha família estava a espera de mim e aprender seguir o meu coração e a minha intuição, de maneira informada.

Já conhecias o babywearing antes de seres mãe?

O babywearing fisiológico não, mas para mim era óbvio que o porta-bebé fazia parte do enxoval indispensável para se ter um bebé. Assim fiz muito babywearing não fisiológico com o meus mais velho, e foi uma bonita historia entre nós, do nascimento até ele ter à volta de 2 anos e meio.

Como surgiu o projecto Kaité Psicolor? E porquê o nome Psicolor?

Veio da minha necessidade de carregar os meus filhos de forma fisiológica. Conheci o babywearing fisiológico com o meu segundo filho e tive necessidade de criar os meus próprios porta-bebés, porque não encontrava no mercado português o que precisava para mim e o meu bebé, e também para transmitir esta minha paixão. Como era psicóloga clínica e adorava cores achei que fazia sentido juntar “psico” com “cor”. Adoro as cores.

Além disso, Psicolor achava lindo porque tem que ver com a mente cheia de cores. Através deste nome pretendia oferecer uma parte de mim e oferecer mais cores às pessoas, através das minhas criações. Mais vida, mais cor e mais felicidade. E conseguir isso com o nome.

 

As fotos que partilhas com os slings, as vossas roupas e até a cor das paredes estão cheias de cor e transmitem muita luz e felicidade. Não conseguimos estar tristes ao ver essas imagens.

(Risos) Não consigo viver sem cores, não consigo!

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É incrível como as cores têm um efeito mágico nas pessoas.

As cores dizem muito de nós e transmitem-nos muito. Ajuda muito entrar num sitio cheio de cor. Eu não escolho sempre as mesmas cores. Depende muito do meu estado de espírito e também da fase da minha vida. Gosto muito e sempre de cores vivas mas a cor que escolho para mim varia. Há alturas em que estou mais inclinada para o vermelho, o laranja, o rosa, ou o violeta… depende. Eu gosto de cor!

Alguma vez te disseram que colo é vício? Se sim, o que respondes nestas situações?

Não, acho que nunca me disseram, ou não ouvi porque não fez sentido. O colo é algo tão natural e indispensável à vida, como respirar. E respirar não é um vício pois não, é uma necessidade!

Somos mamãs canguru. De acordo com a Constança Cordeiro Ferreira em “Os bebés também querem dormir”:

“Mamíferos carry (… ) grupo de animais mais imaturo de todos devido à necessidade das crias serem continuamente carregadas junto do corpo das mães para obterem calor e regulação.” Reforça, ainda, que o leite das mães deste grupo é o mais baixo em gordura e proteína “prevendo que o bebé precise de estar sempre

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junto da mãe para se alimentar frequentemente”.

Com isto em mente… achas que todos os bebés/crianças se adequam/ gostam de babywearing?

Nunca vi um bebé a não gostar dos porta-bebés. Já tive alguns pais que vieram aqui ao atelier experimentar e disseram que tinham receio que o bebé não gostasse. Mas nunca vi um recém-nascido a não gostar dos porta-bebés. Quando são mais velhos podem ficar mais irrequietos ou estranhar, já vi acontecer. Mas basta ter confiança e dar tempo ao tempo, tentar várias posições e respeitar as preferências do bebé. Quando o bebé não gosta, por norma indica mais que a mãe (ou o pai) ainda não está à vontade com o porta-bebé. Quando o bebé fica irritado ou chora, eu aconselho a tentar noutra altura do dia, e com mais confiança no sling. Pois se um bebé recusar o babywearing acho que é sinal que alguma coisa não está bem. É como não querer alimentar-se ou mamar. Se um bebé não quer mamar, é que algo aconteceu. Não é natural! Para a sua sobrevivência ele tem de mamar. Se recusa a mamã é porque algo não está bem: pode não ter ido naturalmente até à mamã, pode ter recebido leite artificial,… O natural é o bebé querer mamar, senão corre o risco de morrer. Se não gostar de colo, mais uma vez, algo se passa. O mesmo acontece com os porta-bebés.

Há bebés que vão pedir mais o porta-bebé do que outros e é normal haver fases de crescimento em que tenham vontades diferentes. Por isso é importante mudar de posição. O sling de argolas é muito simples e fácil, nem é preciso tirar o porta-bebé nem tirar o bebé para mudá-lo de posição. E, desde o nascimento, que se pode colocar o bebé em todas as posições. Não é o bebé que se vai adaptar ao porta-bebé, é o porta-bebé que se vai adaptar ao bebé. E isto desde o nascimento até ao bebé/criança deixar de querer colo. Nos primeiros tempos o natural é o bebé estar numa posição semi-deitada ou vertical nos braços da mãe. Então, vamos instalar o bebé no sling nessas posições. O sling vai ser um terceiro braço. Pouco a pouco o bebé vai tendo necessidade de posições diferentes. A partir dos 4-5meses, dependendo do bebé, ele vai passar muito menos tempo na posição de mamar e mais tempo na posição vertical e na anca. E também vai acabar por mamar nesta posição, basta alargar na argola para descer o bebé e ele ficar ao nível do peito. E é a amamentação em self-service.

Quando o bebé preferir gatinhar e caminhar podemos deixar o sling colocado, assim quando ele quiser colo basta enfiá-lo no sling e já está. Nestas idades podem mostrar menos interesse no porta-bebé. Mas não significa que estão a recusar o babywering. No pano, por exemplo, como é necessário dar várias voltas com o tecido, eles podem sentir-se presos e demora mais tempo. Eles têm sensação de falta de liberdade. Por isso eu adoro o sling. Quando o bebé pede colo rapidamente o colocamos no sling. E, quando quer sair, facilmente sai. É algo tão natural que não faz sentido eles recusarem. Mas claro, não são todos iguais.

 

Não é o bebé que se vai adaptar ao porta-bebés, é o porta-bebés que se vai adaptar ao bebé. E isto desde o nascimento até ao bebé/criança deixar de querer colo.

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Achas que o babywearing está para o bebé da mesma forma que a água está para a mulher em trabalho de parto? Porquê?

Nem sei bem o que dizer. Não posso muito falar da água no TP, porque só conhecia a água para parir a placenta no parto da Cloé e no aborto. A água ajuda muito a acalmar as dores. Mas não posso fazer uma ligação entre a água e o TP, pois não pari na água. Preparei sempre a banheira e ainda senti alguma com a Cloé mas não tive tempo. Pessoalmente sou mais inclinada a parir de joelhos no chão. Mas entendo a comparação da água.

Para mim, o babywearing tem mais uma ligação do bebé com o útero da mãe e a bolsa onde está envolto na barriga…o bebé está no “colo” da mãe. É a segurança do útero transferida para o porta-bebés. Vejo isso nos pais que colocam o recém-nascido pela primeira vez no sling. Há um relaxamento automático de ambas as partes. Parece que a mãe tem mesmo a sensação do bebé dentro da barriga.

É um acto de amor praticar babywearing?

Imagino que seja um acto de amor. Mas, principalmente, é um acto natural. O colo é amor, é natural. Uma questão de sobrevivência. É amor mas é vida, também. Tudo é amor quando temos o nosso bebé nos braços. O lugar deles é o colo, senão morrem. Há imensos estudos em orfanatos que mostram que alimentar o bebé não é suficiente para que se torne um humano e uma pessoa saudável, com sentimentos. Falta o colo. O ser humano precisa de afecto e colo.

Achas que já há muita procura por panos, slings,…? As famílias já se encontram mais interessadas e disponíveis para este tipo de “transporte”?

Acho, sim. Há oite anos e meio, quando tive o meu segundo filho, usei imenso o pano. Na alt14159286_1280803631952395_935355684_nura olhavam para mim “de lado”. Mas como sou francesa e nota-se na minha aparência, as pessoas achavam que era por ser estrangeira que usava uma coisa daquelas. Não ouvia comentários, estava à vontade. Mas sei que há muitas mães que ouviam comentários negativos, nesta altura. Comigo nunca aconteceu mas notava o tal olhar. Pouco a pouco as coisas têm mudado. Há quase quatro anos atrás tive a Cloé e notei mais abertura. Nunca deixei de fazer babywearing. Até ao último dia de gravidez do Nilo, grávida até ao pescoço (risos), transportei a minha filha. Perguntavam era se não havia problema por estar a carregar uma criança mais velha estando grávida. Se não doía. Chegavam à conclusão que não estava sobrecarregada e ficavam curiosas mas com sentido positivo. Com o Nilo continua a ser assim, e cada vez mais. Ele é um bebé que sorri imenso a toda a gente. Assim não sei se é por causa do sling ou do Nilo mas todas as pessoas estão sempre a sorrir para nós. Quando estou a falar com as pessoas elas não conseguem olhar para mim. Estão sempre a olhar para ele.

Os bebés pedem colo e precisam de colo até tarde. E é muito mais fácil para nós usarmos o sling, que permite liberdade total de movimentos. Em vez dos carrinhos que implicam sempre passar por imensos obstáculos: carros estacionados, cocós de cães, degraus…

 

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O babywearing tornou-te uma mãe diferente?

O babywearing e os meus filhos. O babywearing transformou-me porque permitiu-me aproximar-me da minha natureza. Sinto-me muito mais próxima de mim. Aliás, para mim o babywearing não vem sozinho, é algo natural, como já disse. Também não imagino vida sem a mama e sem o cosleeping, por exemplo. Tenho quatro filhos. A amamentação foi mais difícil com o primeiro, mas amamentei todos os meus filhos. O cosleeping só a partir do segundo e só comecei quando ele tinha um ano e meio. Foi ele que me ensinou que o cosleeping é algo normal. Ele recusou tanto dormir num quarto sozinho que senti necessidade de o trazer para junto de nós e pesquisar para saber que não estava a fazer nada de errado. E, no entanto, já fazia babywearing com ele desde que nasceu. O babywearing chegou à minha vida antes do cosleeping mas tudo isto fez parte da minha caminhada enquanto mãe.

Agora para mim tudo faz sentido e faz parte do que é a parentalidade. No início, eu estava muito limitada pela sociedade porque achava que o correcto era fazer de uma determinada maneira. Há mães que logo com o primeiro filho têm o instinto para parir de forma natural e eu admiro vocês, por conseguirem criá-los de uma maneira mais instintiva e natural. Eu não consegui, estava presa nestas ideias da sociedade e da família. Só aos poucos fui aprendendo com os meus filhos. Acabei por me aproximar do que vi ser o natural. Mas não foi fácil.

E mesmo com o meu primeiro, a minha família já achava que eu estava a fazer as coisas de forma diferente, que não seguia o “protocolo”. Amamentei-o até aos 11 meses e já era vista como uma extraterrestre. Mas quando ele recusou a mama eu achei que era muito cedo e não estava pronta. Fiz sempre o que achei mais correcto para os meus filhos, arranjando um meio termo entre o que me parecia o natural e o que a sociedade exigia. Fiz muito babywearing não fisiológico, mas já era melhor do que não fazer. O meu filho estava bem ao colo e chorava quando não estava, por isso não o podia deixar chorar. Com o segundo já não consegui seguir este “meio-termo”, com ele não resultava. Tive de pesquisar para fazer tudo de uma maneira mais natural e instintiva. Foi com este filho, que nasceu de parto traumático, que tive de pesquisar por partos naturais e que conheci o babywearing fisiológico. Foi com ele que descobri o cosleeping. Com ele que descobri a amamentação em tandem. Ele obrigou-me a fazer toda esta caminhada na maternidade.

Com a Cloé e, agora, com o Nilo foi tudo muito mais simples. Fiz babywearing, cosleeping, amamentei sem olhar para o relógio.

Li, no teu site, que és psicóloga de formação. Ainda exerces?

Quando vim para Portugal já tinha decidido não regressar logo ao trabalho. Estava grávida e queria que o meu filho mais velho tivesse tempo para se adaptar ao novo país. Ele não falava portugês e ía para o 4º ano, precisava de tempo e acompanhamento. Quando o Félix nasceu descobri o babywearing fisiológico e apaixonei-me tanto que decidi uns meses depois criar a minha marca Psicolor. Quando iniciei a Psicolor achei que era um projecto muito próximo do meu trabalho como psicóloga clínica. Para mim criar porta-bebés e divulgar o babywearing em Portugal, assim como, toda a divulgação da amamentação com desmame natural, do cosleeping, do BLW que faço na minha página e no meu perfil do facebook é uma forma prática, materializada, da minha actividade profissional anterior. Mostro as coisas em vez de falar sobre elas. O trabalho de psicóloga pretende ajudar as pessoas a encontrarem-se e a serem mais felizes. E para sermos felizes é mais fácil começarmos a vida de forma felizes. Por isso ajudar os bebés a começarem a vida felizes com o babywearing tem tanto a ver com o meu trabalho de psicóloga clínica. Tem a diferença de as pessoas não me procurarem com esse objectivo. E não estou a fazer um trabalho de ouvir as pessoas, os seus sofrimentos, nem estou a fazer psicoterapia. Mas não estou afastada desse trabalho, o objectivo é o mesmo, a felicidade, o bem-estar das pessoas.

Sentes falta? Ou o babywearing é o teu caminho?

Sinto-me completa com este trabalho que tenho, trabalho para a felicidade e é o que procurava ao ser psicóloga clínica. Acho realmente que o babywearing e a maternidade são o meu caminho. Já mesmo quando comecei como psicóloga que me interessava por esta área dos bebés. E conseguir trabalhar, ganhar a minha vida da minha paixão pelos porta-bebés, trabalhando desde a minha casa, e assim conseguir ficar a tempo inteiro com os meus filhos, não tem preço. Dormo muito pouco, só umas 4-5 horas por noite, mas compensa tanto! É um grande privilégio ver crescer os meus filhos e crescer eu própria com eles, enquanto ao mesmo tempo consigo trabalhar a divulgar este modo de criação tão maravilhoso que é o babywearing!

Achas que a maternidade foi o teu impulso para respeitar a tua essência?

Sem dúvida! Já em pequena sabia que era o meu caminho, ser mãe. Claro que durante a caminhada aprendi em muitas áreas da vida diferentes. Mas sim, a maternidade é o meu caminho!

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“A cor é mais do que um fenómeno óptico, mais do que um instrumento
técnico. Os teóricos das cores diferenciam as cores primárias (vermelho,
amarelo, azul) das cores secundárias (verde, laranja, violeta) e das cores mistas,
subordinadas (como rosa, cinza, castanho); não há unanimidade a respeito de o
preto e o branco serem cores verdadeiras; em geral, ignoram o ouro e o prata
como cores – apesar de, na psicologia, cada uma dessas 13 cores ser autónoma,
não podendo ser substituída por nenhuma outra. E todas são igualmente
importantes.
Do vermelho obtém-se o rosa – mas a impressão que ele causa é totalmente
diferente. O cinza é composto de branco e de preto, mas o seu efeito não
corresponde nem ao do branco nem ao do preto. O laranja tem parentesco com
o marrom, mas seus efeitos são, no entanto, opostos.”

in “A Psicologia das cores”; Heller, Eva; Editora
Garamond Ltda; 1a edição, 2014.

Qual é a tua cor? A cor do teu bebé? Em que cor gostas de viver? Que cores gostas de sentir? Como mãe e como mulher foi uma inspiração conhecer esta família e sentir-me contagiar com esta energia colorida.

Foi um prazer imenso receber esta partilha tão íntima e pessoal da Kaïté. Abraço esta mulher coragem por aprender a ouvir o seu corpo e o seu bebé; por aceitar as cores menos garridas e crescer com esses momentos. Um bem haja à família Psicolor.

Muito grata <3

Fotos cedidas por Kaïté Psicolor


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.