Entrevista com Soraia Rosa Coelho – Parte II Entrevista

Com a Soraia falámos de assuntos que nos apaixonaram! Aprendemos muito sobre o nosso corpo, muitas vezes com pormenores muito técnicos, mas fáceis de acompanhar com as explicações da Soraia e as imagens (que falam mesmo mais que mil palavras). 

A nossa entrevista foi mais de duas horas de conversa, com temas de grande importância para a Mulher e para os quais acreditamos que devia haver uma maior sensibilidade por parte dos profissionais de saúde. 

Ficou tanto por dizer na primeira entrevista que decidimos publicar uma segunda!

 

MarinaCuidados de saúde pré e pós-parto?

Soraia – A Mãe esquece-se muita vez de tratar de si.

MarinaE se a Mãe não estiver bem, mais difícil será cuidar de um bebé, verdade?

Soraia – Às mamãs que eu trato faz-lhes sempre muita confusão quando lhes pergunto por elas… começo por “O bebé está bem?” – mas quando pergunto “E a Mãe como é que está?” ficam muito surpreendidas e até apreensivas. Tive uma paciente que chegou a dizer-me “Ninguém me faz esta pergunta… porquê isso agora?“, com desconfiança, “Há alguma coisa que não está bem comigo?

Depois é preciso desconstruir e explicar que também é importante saber como estão as Mães, pois os bebés são muitas vezes o reflexo dos cuidadores.

E então avanço: “Tem dores? Consegue ir à casa de banho? Já iniciou a vida sexual… não, porquê? Tem receio? Tem dor? Não quer?

MarinaE as Mamãs?

Soraia – Elas ficam muito surpreendidas.

MarinaHabituadas que estão a ficar para segundo, terceiro… último plano?

Soraia – Pois… por isso é que, quando falo com os médicos com quem trabalho, digo-lhes para mudarem ligeiramente o português que usam a falar com as Mães. Não digam que podem iniciar a vida sexual… digam antes que quando se sentir preparada já o pode fazer. Se disserem da primeira forma, não imaginam a pressão que fica em cima da mulher. Especialmente se o companheiro também estiver presente.

MarinaÉ realmente diferente dizer “quando se sentir preparada…”

Soraia – Nem mais! O discurso deve ser: “O corpo já está bem. Quando se sentir preparada… pode reiniciar a vida sexual“. É simples!! E isto tira um peso de cima da mulher… que é um mundo!! Porque muitas depois iniciam sem estarem minimamente preparadas psicologicamente porque ainda estão em modo “Lua de Leite“, mas sentem a pressão do companheiro, porque o médico já falou nisso, e interpretam outras coisas.
Sabemos que há companheiros extraordinários, que têm toda a paciência do mundo, mas também os há que não têm essa sensibilidade.

MarinaE também podíamos deambular aqui sobre o que é o envolvimento sexual… o acto não se limita à penetração. Há tantas outras coisas que se podem fazer que o médico até poderia ir por aí. Dizer que o corpo já está preparado e, como tal…

Soraia – Exacto!! Comecem por brincadeiras… o toque é tão importante. “Experimentem o toque, experimentem namorar. Há quanto tempo não namoram? Ainda se lembram? Voltem aos 16 anos, na parte de trás do carro,escondidos a dar beijinhos lembram-se?

Marina – Sim!! Uns beijinhos e uns amassos…

Sorais – Isso!! Uns beijinhos, uns amassos! 😀 Curtam a vossa maneira agora de estar. Se acontecer, aconteceu… Se não acontecer, não há culpabilização de parte a parte.

MarinaJá era uma boa mudança, se fosse assim abordado o tema.

Soraia – Os profissionais de saúde deviam sentar-se e pensar no que podem oferecer às Mães ou o que é que estão a fazer de mal que as esteja a prejudicar. Temos que ter muita atenção às palavras que utilizamos com a pessoa. E o peso que elas trazem.

MarinaSó que isso tem muita a ver com a sensibilidade de cada um. Eu estou a ver que tu tens mas há quem não tenha.

Soraia – Mas quem vem para estas áreas tem que a ter!! Sem parecer uma crítica fácil mas… é verdade!

Quem vem para a área da saúde tem que ter essa sensibilidade particular, ou desenvolvê-la. Aquela questão de deixar de ser humana e passar a ser mecânica não se pode aplicar. Então quem está na Saúde da Mulher… ainda mais!! Ser mecânico?!

MarinaÉ preciso ganhar a confiança da mulher.

Soraia – Tens que criar espaço para as Mães falarem. Há tantas coisas que elas escondem. Por receio, porque já foram julgadas, criticadas.
Casos de mulheres que me dizem assim: “Eu não quero amamentar mas estou a fazê-lo porque me obrigam! Criticam-me tanto se eu não amamentar o meu filho… Mas eu não fui feita para isto“. Eu não posso criticar uma mulher assim.

MarinaÉ tão mau como impedir a mulher de amamentar.

Sorais – É!! A maternidade pode ser vivida de formas totalmente distintas. E de filho para filho.

Não se pode criticar quem não quer dar de mamar. Não quer, não queira. Existem opções, vamos explorá-las. Não se pode criticar. Tal como também acho muito bem Mamãs que querem amamentar a longo prazo, até aos três, quatro anos.

MarinaEssas também sofrem julgamentos! E ouvem-se comentários completamente desnecessários.

Soraia – Há uma série de “pérolas” que se ouvem sobre isso. Que as crianças vão ficar mal-educadas, mimadas…

MarinaDependentes!

Soraia – Eu respondo logo que nunca ninguém ficou dependente por ter carinho, amor, toque.

MarinaÉ ao contrário!

Soraia – Exacto! As disfunções surgem da falta de carinho. As crianças são mais funcionais se tiverem relações com carinho e amor. Em que haja toque. Abraçar, dar beijinhos, pelo contrário, nunca fez mal a ninguém. É importantíssimo para o desenvolvimento da pessoa. Falo de dar maminha mas também de dar colo. Cada Mãe com a sua crença! Respeite-se!

MarinaTu contactas com muitas Mães que até estão conectadas consigo e com o seu instinto maternal, de ligação, de vincularão, mas que depois refreiam por questões… sociais?

Soraia – Sim! Tens Mães com personalidade forte que não ligam nenhuma aos palpites, em que entra a 100 e sai a 1200, tens outras que se sentem mais vulneráveis, estão sozinhas e deixam-se ir no comentário alheio. A sogra que aconselha de uma forma e ela aceita porque não quer arranjar depois problemas.

MarinaHá muitos factores a perturbar.

Soraia – Há! Por isso é que é importante aprender a falar com este tipo de mulheres.

Quando estamos a atender uma mulher, não devemos colocar os nossos juízos de valor à frente. Isso não interessa para nada. E muitos profissionais fazem-no, infelizmente.

MarinaAinda por cima, às vezes, são apenas crenças pessoais, nada baseado em evidências científicas.

Soraia – Crenças pessoais todos temos, também as tenho, mas nunca as projecto no paciente/ utente que tenho à minha frente. Não posso!
Na escola ensinam-te a não deixar um juízo de valor ou uma opinião pessoal, interferir. Mas com a prática, no dia a dia, os profissionais vão começando a ficar mais frios.

Acho que este é que é o grande problema dos profissionais na área da Saúde (da Mulher). É uma defesa que criam. Não é fácil. Há quem leve os problemas para casa, ficas a pensar nos pacientes. Mas repara, neste área em que eu trabalho (acredito que com um enfermeiro seja diferente), eu, como fisioterapeuta, que lido com o toque, que acolho a confiança por parte da mulher, eu não posso ser distante. Eu estou aqui e o meu telemóvel já apitou algumas vezes, provavelmente são pacientes minhas a mandar mensagens… “não me estou a sentir bem” ou a dizer-me que melhoraram (ou pioraram).

MarinaNão consegues desligar-te.

Soraia – Não consigo! Estas pacientes já vêm tão desesperadas, que se eu fecho o canal… Claro que há limites mas, se eu não dou uma certa liberdade às minhas pacientes acaba a comunicação e não conseguimos fazer nada.

Eu trabalho com uma área da Mulher que é o mais íntimo possível! Se eu me fecho, se sou arrogante e não permito que haja a comunicação da parte dela.

MarinaTens um “vaginismo espiritual”, passo a expressão! 😉

(Ver Parte I da entrevista para perceber o que é significa esta “expressão adaptada”)

Sorais – É quase isso! É muito complicado e voltamos ao busílis da questão: os profissionais que trabalham nesta área, na Saúde da Mulher, têm que voltar às bases. Têm que relembrar as razões porque foram para esta área da Saúde.

MarinaSe esta era a sua vocação.

Soraia – Porque ouve-se tantos casos horríveis das salas de partos, do tratamento dos enfermeiros e médicos… É tão mau ouvires uma Mãe dizer que a sua experiência de parto é a de alguém estar a berrar com ela com impropérios…(!)

MarinaA mulher não faz reclamação posteriormente, a maior parte das vezes.

Soraia – Porque está numa situação tão frágil… Aquele momento especial e único.

MarinaEntretanto, explica-me, como é que tu, que estavas em fisioterapia, vens parar aqui à área da Saúde da Mulher?

Sorais – Quando terminei o 12º ano queria ir para Psicologia, para a área de sexologia. Não fui porque… parece ridículo mas senti que, com tanto desemprego que eu via na área da Psicologia, não queria ser mais uma. Escolhi fisioterapia, área que também me despertava algum interesse. E no 4º ano tive uma cadeira de “Saúde Materno-Infantil”. E deu-se “o click”. Nesse ano fiz muitos trabalhos na área da incontinência urinária, do pré-parto e tudo o mais. Tive depois vários anos a trabalhar na fisioterapia geral mas não me sentia realizada. Gostava mas não me imaginava a fazer “aquilo” até aos 60 anos. Fiz então a Pós-graduação em Saúde da Mulher, que foi muito interessante.

MarinaOnde?

Sorais – Em Alcoitão. Abordámos todas as alterações: incontinência, disfunções sexuais, preparação para o nascimento, pós-parto e tudo mais. Aí percebi… “é isto!” Depois fiz muitas formações no exterior, em Inglaterra e Espanha.

MarinaTudo para proporcionar este aconchego às mulheres que te procuram.

Soraia – Sim! Tudo a nível da Saúde Pélvica. Fiz cursos em fisioterapia avançada em disfunções pélvicas. Fiz um curso de sexualidade na fisioterapia para poder tratar e ajudar mulheres com disfunções sexuais. Todos os cursos que faço estão relacionados ou com Saúde Pélvica e Saúde Sexual, tanto para mulheres, como para homens, e para crianças.

MarinaMas a maioria dos que te procuraram são mulheres?

Soraia – Sim, tenho mais clientes mulheres. Mas também tenho homens que fazem tratamento pós-prostectomia, para recuperação ao nível de incontinência ou disfunção eréctil, pois ficam sempre com lesão no nervo após remoção da próstata. Também temos crianças com enurese nocturna.

MarinaXixi na cama durante a noite, não é?

Sorais – Sim! Nesse tipo de patologias conseguimos ajudar a controlar os esfíncteres, a saber como controlar quando querem ir à casa de banho.

MarinaE esse trabalho é feito do ponto de vista físico, muscular?

Soraia – Sim! Mas trabalho sempre em articulação com uma psicóloga.

MarinaSim, eu já percebi que há uma forte componente interdisciplinar no teu dia a dia. Perguntava porque a enurese nocturna também pode ser “tratada” com medicamentos, certo?

Soraia – Sim, mas repara, pode ser uma criança que sofra de bullying, ou que tenha muita ansiedade por outros motivos e que vai perdendo o controle dos esfíncteres. Há que ir treinando a ida à casa de banho, de dia e de noite. Porque de dia nós temos o reflexo gastro-cólico que é muito bom, é um reflexo em que, quando nos levantamos, sentimos necessidade de ir à casa de banho. Consegue-se trabalhar nesse sentido. Alterar também um pouco a alimentação. Por exemplo, à noite não dar tantos líquidos. Fazendo uma comparação diferente, é como quando trabalho com Mamãs que têm obstipação depois da cesariana, na verdade porque têm medo do que sentem ali na costura. Aconselho a irem à casa de banho logo de manhã (com a posição correcta que é joelhos para cima, corpo inclinado, e usar sempre o banquinho).

~ Nada como uma boa imagem para se perceber melhor de que posição correcta fala a Soraia ~

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(fonte da imagem)

Sorais – Quando adoptamos esta postura, o músculo que está à volta do teu recto, ele solta e relaxa.

MarinaSó pela posição?

Soraia – Só pela posição. Agora imagina o que é uma Mãe no pós-parto, com dores, após uma cesariana ou uma episiotomia, isto devia ser ensinado à Mãe.

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(fonte da imagem)

 

MarinaE falando agora do nosso tema mais querido, como é com as Mamãs que têm parto na água? Já trabalhaste com alguém que tenha tido parto na água?

Sorais – Tenho tido pós-partos com mães D’agua sim.

Marina Notas diferenças significativas?

Soraia – Noto que por vezes a recuperação é mais rápida.

MarinaAs lacerações são mais graves, menos graves…? Há relação?

Sorais – Isso é algo difícil de confirmar porque depende de muitos factores. Do trabalho que a Mamã teve no seu pré-parto e da sua própria constituição física. E do parto em si.

É claro que a água relaxa, a Mãe tem liberdade de movimentos e o seu tempo todo para haver uma dilatação correcta. E o que eu reparo é que, como o parto é feito naturalmente e leva a sua progressão “normal”, em termos de tempo, o que eu noto é que a recuperação é mais fácil. E porquê? O bebé tem tempo de passar, de fazer o seu movimento vai-vém no períneo, que acaba por ser uma massagem normal, que é boa porque trabalhos de parto muito “pequenos”, para mim, é o mais problemático.

Então aqueles relatos, em que a Mãe esteve a oxitocina e diz que logo a seguir teve contracções muito fortes, e foi tudo muito rápido… Eu fico logo de olhos muito abertos e penso, “Tenho aqui muito trabalho para fazer, esta Mamã vai ter o períneo completamente destruído!!

MarinaÉ bom demorar tempo, é isso? Para todo esse movimento que o bebé vai fazendo no canal de parto e no períneo da Mãe.

Soraia – Exactamente! O músculo tem que alongar, a pélvis tem que se adaptar, o corpo tem que se preparar.

Marina –  Entao não devíamos desejar “uma hora pequenina”, como é costume fazer-se quando a data de previsão do nascimento se aproxima!!

Sorais – Não, não, não! Tenha uma grande hora.

MarinaTenha uma hora longa.

Soraia – (risos) Tenha as horas que for preciso! Trabalhos de parto rápidos, o bebé passa sem o músculo estar alongado… Rasga, tem hematomas internos, fica com dores em pontos específicos internos. Não há necessidade!! Se a Natureza está “programada” para que este trabalho todo aconteça em 15 horas, 16 horas… Ou até mais, que seja! É porque precisamos!!

E dêem liberdade às mulheres! Há quem prefira estar de pé, para quê submeter a mulher à posição de deitada durante 15 ou 16 horas? Como é que esta mulher vai ter força e capacidade no momento da expulsão?

MarinaSim, está mais do que provado que ficar deitada não favorece a progressão do trabalho de parto. Andar, as bolas de pliates, os duches… favorece muito mais. Apesar de não existirem estas condições em todos os hospitais.

Soraia – Mas pelo menos dar hipótese à Mãe de andar, de ter liberdade de movimentos.

Outra coisa que eu não entendo é que a cesariana é a única cirurgia abdominal que se assume que a Mãe tem que andar no dia a seguir. Não entendo!! Mas porquê?

A cesariana é uma cirurgia e por isso tem que se ter os cuidados normais associados a tal. A Mamã vai estar debilitada, com dores, vai precisar de ajuda. Não pode simplesmente pegar no bebé e ir embora como se estivesse tudo fantástico. Não!! A barriga foi aberta, não vai conseguir pôr-se direita no mínimo… duas semanas.

São dores terríveis em que se assumem más posturas. A Mãe não tem que estar fresca e fantástica, precisa de tempo!

E não se ensinam os cuidados que a Mãe tem que ter com a cicatriz e que são fulcrais. Ou mesmo os cuidados a ter após um rasgão ou uma episiotomia.

MarinaE quais são?

Soraia – Qualquer cicatriz, qualquer corte que se tenha mais profundo no corpo, tem de ser trabalhada. Se não criam-se fibroses ou acabas por sobrecarregar outras zonas do corpo. Tenho mulheres que fazem tratamentos à coluna, porque se queixam de dores nas costas, quando na verdade o problema está na cicatriz da cesariana. E porquê?

~ Mais uma imagem para ajudar a compreender melhor esta questão ~

 

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(fonte da imagem)

Soraia – Existe o saco visceral (peritoneu) que está inserido atrás na coluna lombar. Tenta imaginar ao que acontece se eu puxar o teu saco, o que é que vai acontecer atrás?

MarinaVai puxar também porque está tudo ligado?

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(fonte da imagem)

Soraia – Nem mais! E estas mulheres fazem tratamentos à coluna sem observarem melhorias… São mulheres que às vezes têm obstipação e não sabem porquê.

MarinaBem… Era mesmo importante haver um pós parto acompanhado correctamente. Como é que as mulheres afinal chegam até ti?

Soraia – Por procura na net, às vezes. Ou alguns profissionais já conhecem o meu trabalho e encaminham para mim.

MarinaE também se pode ter este tipo de acompanhamento no sistema público? Onde?

Soraia – Existem alguns hospitais com esta valência de fisioterapia, o Hospital Amadora – Sintra tem uma unidade fantástica. Em privados também mas a maior parte das seguradoras não comparticipa este tipo de tratamento.

MarinaSempre em inter ou multidisciplinaridade.

Soraia – Sim! Por exemplo, no caso de uma disfunção sexual, se vejo que é um caso que está muito enraizado, muito profundo, eu não começo nada com essa mulher sem ela primeiro fazer terapia. Não me interessa trabalhar nada no corpo dela se a mente não está preparada.

MarinaA parte psicológica tem de estar desbloqueada.

Soraia – Sim! É importante trabalhar corpo e mente. Há mulheres que fazem terapia e depois não há um trabalho corporal, o sexo para elas depois torna-se mecânico. O pensamento é mais ou menos este, “Eu consegui que houvesse penetração, não há dor, o meu companheiro teve prazer…” Se perguntares a estas mulheres se tiveram prazer, elas, dizem-te que não estavam preocupadas com isso. Estavam sim a pensar se a penetração ia doer. Logo, é importante esse trabalho físico com estas mulheres. “Ensinar-lhes” que o toque é bom, que ter prazer é bom! E como podem ter prazer, mesmo sendo elas próprias a proporcionar. Muitas mulheres não se tocam a elas próprias, não se masturbam. Têm vergonha, não se sentem confortáveis.

MarinaPor terem um parceiro acham que já não é “necessário”.

Soraia – Sim. Há que haver esta reeducação sexual da mulher. No pós-parto é muito comum apanhar disfunções pélvicas. O músculo ficou magoado, o bebé fez questão de dizer “estive aqui”, é necessário fortalecimento do músculo, porque a mulher ficou com algum tipo de incontinência e convém perceber que tipo de incontinência é. Algumas ficam com “prolapsos” que é a queda do útero ou da bexiga, ou do recto ou da uretra. Foram Mães que fizeram muita, muita força e já têm por si um défice de colagénio, o que faz com que os ligamentos sejam mais frágeis e não tenham força para manter os órgãos no sítio.

MarinaPara leigos o que é o “colagénio”?

Soraia – É a constituição dos ligamentos. Dos músculos e ligamentos. Mamãs com pouco colagénio são também Mamãs que ficaram com muitas estrias, a pele parece quebrada. É uma consequência genética.

MarinaNão há cremes que valham às mulheres com défice de colagénio…

Soraia – Não, Minimiza mas o factor principal para ter estrias está lá. (Suplementos de silício podem ajudar, mas deve ser avaliado de caso para caso).

~ Ao longo da conversa facilmente se percebeu que a Soraia conhecia o Movimento Mães d’Água e que muitos dos seus pensamentos estão alinhados connosco. O entendimento e respeito pela sábia natureza feminina, o direito à opção. Com curiosidade, surgiu a pergunta:

MarinaComo é que tiveste contacto com o Movimento Mães d’Água?

Soraia – Foi na altura em que se começou a falar da possibilidade do parto na água terminar em Setúbal. E eu só pensava,
“Como é que é possível terminar uma coisa tão importante e boa para o nosso país?”
A partir daí comecei a seguir-vos e a acompanhar as vossas acções. Depois chegaram-me algumas Mães que tiveram parto na água.

Eu também sou apologista, como já percebeste de certeza, quanto mais natural melhor. Respeitando sempre, claro, a vontade de cada mulher (há quem queira epidural, tudo bem), mas quanto a mim, se puder ser natural, melhor. Mas com um bom trabalho de pré-parto.

MarinaPara ti, a parte anterior ao parto e ao nascimento devia ter um investimento diferente por parte das mulheres?

Soraia – E com todos os profissionais envolvidos. Enfermeiros, médicos, fisioterapeutas… doulas. Deviam todos aprender a trabalhar em conjunto para ajudar as Mamãs da melhor forma possível. Nenhum é indispensável, nenhum é melhor que o outro.

Quando se cria uma boa equipa de trabalho em conjunto, a Mãe só tem a beneficiar. Todos têm conhecimento importante a passar às Mamãs. E são pessoas chave em momentos específicos.

O enfermeiro na preparação para o parto, na amamentação, o fisioterapeuta na recuperação, o médico sempre que há desvio à normalidade, e a doula na ligação com a Mãe.

MarinaMas têm que aprender a unir-se e a trabalhar para um bem comum… não é? “Há espaço para todos”, como diz a nossa querida Mãe d’Água Inês Anjo.

Soraia – Sim! Ainda temos muita dificuldade a trabalhar em equipa. E isso só prejudica a Mãe. Por isso é que eu insisto que cursos de parentalidade, de preparação para o parto deviam ser sempre em equipas multidisciplinares. Por exemplo, o enfermeiro com o início da amamentação, ensino com os cuidados com o bebé, ensino com os cuidados à Mamã… e não devia entrar na nossa área. E vice-versa. O fisioterapeuta e o ensinar a Mãe a massagem que devem ser feita à cicatriz da cesariana, como minimizar as dores que se tem no pré e no pós parto, os posicionamentos correctos a adoptar, e começar um bom trabalho pélvico com estas Mamãs no pós parto. Por exemplo, em França, as Mães todas fazem reabilitação pélvica. É-lhes oferecido dez sessões no pós-parto.

MarinaFica a ideia de um curso assim mais completo, mais abrangente… Mais algum conselho para o mundo feminino das Mamãs?

Soraia – Dar muita importância à recuperação pélvica no pós-parto. É fulcral! Dar tanta importância quanto se dá à Saúde do Bebé porque a saúde pélvica condiciona muitos campos. A postura, a sexualidade, o bem-estar! Depois então “perder a barriga”, voltar a estar em forma.

 

 Obrigada Soraia por esta partilha!

A Soraia Rosa Coelho ainda vai dar muito que falar, a paixão pelo que faz e o carinho e sensibilidade com que o faz ditará o seu sucesso, temos a certeza.
Relembramos que podes saber mais sobre a Soraia e o trabalho em Saúde Pélvica que desenvolve na Clínica das Conchas e no Centro de Fisioterapia Dr. Rasgado Rodrigues


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)