António Subtil [O parto pelos olhos do Pai #2] Na Voz do Pai / Relatos

Como homem, o parto sempre me pareceu uma coisa muito nebulosa, uma realidade muito distante e que, em boa verdade, nunca pensei vir a passar.

As mulheres passam por dores inimagináveis, num acto gutural, um espectáculo dantesco. Suponho que a maior parte dos homens dispense de pensar nisto. Quando conheci a Marina, casei e mais tarde engravidámos. Essa realidade tornou-se mais palpável, presente e real.
Surgem desde cedo muitas dúvidas e receios, que se esbatem num sentimento de esperança de que tudo irá correr bem, em que correr bem significa que, tanto a mãe como a criança sobrevivem à experiência, de preferência inteiros. A estatística está do nosso lado. Portugal é dos países com menor taxas de mortalidade infantil do mundo. Portanto, se o nosso benchmark for a morte ou não da mãe e da criança, então Portugal está no bom caminho.

Claro que esta é uma observação simplista e naturalmente errada.

Basta questionar como foi o parto junto de algumas pessoas que nos são próximas para perceber o erro deste raciocínio.

Foi o que fizemos e no nosso círculo de amigos nem uma se lembra do parto como uma coisa positiva.

Certo! Concedo que não tem de ser um mar de rosas, aquilo custa! Mas quando ouvimos algumas amigas a afirmarem peremptoriamente que o seu primeiro filho foi também o último, precisamente por não quererem passar por outro parto, começam a surgir algumas dúvidas nesta ideia, de que se ninguém morre, tudo corre bem.

Sendo eu uma pessoa ávida por conhecimento, pus-me ao terreno lendo tudo o que existia sobre o assunto, inclusive de como fazer um parto eu mesmo (não fosse o diabo tecê-las).

Esta postura colide de frente com o feedback que íamos tendo, eu e a Marina, por parte dos médicos e infelizmente da família, que era, basicamente e de uma forma resumida, fazer o que os médicos mandassem.

No dia P a mãe chega ao hospital, faz o que lhe mandam e pronto! Por isso, essa preocupação em querer um parto natural e as questões com epidural e episiotomia não são necessárias. Esta não era de todo a nossa filosofia, à qual se juntou uma outra questão.

A Marina fazia questão em que eu estivesse presente. Eu, a pessoa que se sente mal sempre que vai fazer análises. “Já vão estar ocupados contigo, queres que tratem de mais um”? – brincava eu com frequência.

Mas era de facto um problema conjugal, pois apesar de não querer dizer que não, sinceramente não achava ser capaz de estar presente.

Foi mais ou menos nesta altura que surgiu a possibilidade de fazer o parto na água. Era uma solução natural para mitigar a dor e podia ser feito num hospital, o que me transmitia uma sensação de segurança.
O Hospital São Bernardo (HSB) é um hospital amigo dos bebés, (uma expressão estranhíssima! Não é suposto serem todos?). Em abono da verdade, um hospital é tão bom consoante os profissionais de saúde que tiver e, como veremos mais à frente, o HSB tem dupla personalidade.
Tivemos uma primeira conversa com o Enfermeiro Varela e as aulas de preparação em piscina, para habituação ao ambiente aquático. Os dias de uma gravidez tranquila foram passando e num ápice chegámos ao dia P.
Eram duas da manhã e estávamos acordados, como de costume. Foi quando rebentaram as águas. A bolsa rebentou por cima e por isso saiu pouco líquido, mas de uma tonalidade vermelha. É explicado aos pais que bolsa rota não é sinal para ir a correr para o hospital, por isso, a Marina queria ficar em casa e só ir ao hospital no dia seguinte. Mas também nos explicam que se tiver sangue devemos ir com urgência. Qual é a tonalidade que separa o “vamos a correr para o hospital” do “vamos ali beber um café e logo vemos isso“?

Na dúvida vai-se e pronto!

Eu não estava nervoso, a viagem de 30 minutos entre a nossa casa e o HSB demorou 30 minutos, mas estava perplexo com o à vontade da Marina.
Felizmente não havia motivo para alarme.

Estávamos em início de trabalho de parto, com 1 cm de dilatação e estava tudo bem com Gabriel. No entanto, como a bolsa estava rota, a Marina tinha de ficar internada e eu acabei por voltar para casa, tentar dormir e rezar para que corresse tudo bem.
No dia seguinte, cheguei ao HSB bem cedo para encontrar uma Marina algo chorosa. Não eram as dores que a maceravam, mas o ter estado sozinha e nas mãos de profissionais de saúde pouco sintonizados com o nascimento de um filho.

Sempre me fez confusão as pessoas que escolhem uma profissão sem gostar, ou sem o mínimo de simpatia pelo objecto de estudo. Era de esperar que os médicos obstetras estivessem sintonizados com as grávidas ou que, pelo menos, mostrassem alguma empatia. Mas não! Às vezes parece precisamente o contrário. Com a quantidade de violências obstétricas que ouço mais parece que só vai para obstetra quem não gosta de grávidas.

Não consigo deixar de ficar meio perplexo… assim como um médico que escolhe gerontologia e no fundo não pode com velhos.
A verdade é que a partir do momento em que a Marina recusou a epidural, o Dr. Jorge tratou-a com desprezo e indiferença.

A expressão empregue foi “Esta quer parto natural, vai ficar por aí“.

A ideia deveria ser deixá-la a sofrer até quebrar e pedir a epidural.
Eu queria estar ao seu lado e dar apoio moral mas não podia, porque esta era a parte do HSB inimiga dos bebés. Enquanto as futuras mamãs não têm mais de 3 cm de dilatação devem esperar numa sala à parte sem a presença de um acompanhante e ficam lá o tempo que for preciso.

A sala de espera era exígua e eu, os outros pais e restante família íamo-nos amontoando à espera de notícias. De vez em quando lá aparecia o Dr. Jorge que ia alternando o seu trabalho de profissional de saúde com o despejar da sala de espera de todas as pessoas que não estivessem para parir. Isto enquanto se regozijava de que já tinham acontecido cinco cesarianas no seu turno. Pelo seu ar, diria que isso o deixava muito feliz.
Ia fazendo contas mentais às horas, numa tentativa de adivinhar quando é que a Marina ia ultrapassar a meta dos três cm e podia passar para a sala de parto.
Passava já das 13:00 quando finalmente a Marina foi liberta das garras do Dr. Jorge. Após insistência sua (da Marina) foi -lhe feito novo toque e tinha atingido a esperada meta dos 3cm.

Ela tinha sido mesmo abandonada… “Vá fica para aí…

Finalmente tínhamos chegado ao momento da verdade! The real fun was about to begin!
Da ala decrépita, saída dos anos 50, entrámos no bloco de partos, uma parte nova e remodelada do HSB. Tudo moderno e limpinho, onde não se olhou a despesas, até as pessoas eram simpáticas! Agora sim, estávamos no HSB amigo dos bebés.

Por breves instantes dei por mim, com o saco do bebé às costas na salinha de espera do bloco de partos, uma sala minúscula forrada de fotos de bebés e mães, cada uma, um marco de uma história feliz. E foi nesses instantes que percebi que eu ia assistir ao parto.

Comecei a ficar muito emocionado e nervoso, a imaginar cada uma daquelas histórias, como seria a nossa e como tudo poderia correr mal! Apesar de tudo o que envolvia o parto, e de todos os meus medos e ansiedades, seria muito pior ficar numa sala de espera a imaginar do que estar a ver in situ.
Não custou nada. Os 3 cm rapidamente se transformaram em 5 e pudemos passar para a piscina.

Só a Marina entrou. Embora exista a possibilidade do pai também entrar, preferi ficar de fora. Para mim não fazia muito sentido entrar no seu espaço.

O cenário foi completamente oposto ao que imaginei. Era uma sala limpa, calma, onde estávamos apenas nós os dois e uma enfermeira parteira. Não havia gritos nem ordens, não havia apitos das máquinas nem azáfama desnecessária. As contracções iam e viam, e quando vinham, eu debruçava-me para massajar a base das costas da Marina numa tentativa de aliviar a dor. Quando a contracção passava ela debruçava-se na borda da piscina.

Parecia tão cansada! Passavam já 12 horas desde que a bolsa tinha rebentado, não admira que estivesse exausta.
Se calhar, todas mulheres passam por um período em que acham que não vão conseguir, um momento de desesperança em que o mundo parece desabar, apenas para irem buscar aquela onça de força que faltava.

Finalmente a cabecinha tinha aparecido e num movimento experiente o Gabriel estava cá fora.

Confesso que estava à espera da palmada e do choro. Se calhar são filmes a mais. Sem choro, com movimentos suaves e olhos bem abertos ia explorando o seu redor.

Uma das poucas fotos que não está tremida, retenho os seus olhos bem abertos, surpreendentemente abertos para um recém-nascido, a olhar, como que a dizer… “olá! cá estou…

Existiu um sentimento interior de vitória, como que a dizer… “Conseguimos!

Conseguimos apesar dos médicos desdenharem o processo do parto na água, conseguimos apesar das reservas da família, conseguimos superar os nossos próprios medos interiores.

O Gabriel nasceu e nós os dois também nascemos um pouco com ele.
Existem histórias de parto dramáticas, algumas bem feias, outras bonitas… a minha é esta e não vejo como poderia ser melhor.

 


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.