[Relato de parto #26] Marina Oliveira Relatos

mmm

A minha estação preferida é o Outono! O Verão frenético dá lugar ao cair dos dias, ao cair da folha. As árvores revestem-se de várias tonalidades de fogo, os dias terminam mais cedo, a calma instala-se. E um novo ciclo recomeça. Preciso tantas vezes deste tempo… para voltar ao meu ser interior.

Tudo começou quando conheci o António e li no perfil do seu blog que não queria ter filhos. Pois eu… estava na extremidade oposta… tinha a certeza que queria ser Mãe.

Desde o fim de semana que nos conhecemos até namorarmos passou só um mês. A conversa era boa, ríamos muito um com o outro e havia nos gestos do António uma Verdade que confortava e dava vontade de ir mais além. Mas, como qualquer início de namoro, os filhos estavam longe do horizonte. Primeiro havia que perceber se éramos de facto “um para o outro”. A certeza de ser Mãe, porém, permanecia no meu coração. Ainda assim, compreendia os receios que o António sentia… e ia repetindo, umas vezes para dentro, outras vezes para fora que ele não ia ser Pai sozinho, seria Pai, comigo sendo Mãe e, como tal, a “tarefa” estava facilitada.

Ao fim de seis meses já partilhávamos casa, mas nunca senti precipitação. Foi acontecendo.

Suave e sereno.
Cheio de amor.
Como “um certo parto” que aconteceu a 27 de Setembro do ano 2013…
Faz amanhã três anos precisamente.

Ser Mãe (e ser Pai) implica querer o melhor para esse minúsculo ser… e querer o melhor, implica ser melhor todos os dias.
Escutar, conversar, tomar decisões (umas mais difíceis que outras), ler muito, ser contra corrente, por vezes… no fim seguir muito, muito o que o coração nos diz. E confiar.

Chegámos ao parto na água através de uma reportagem onde a nossa querida Mãe d’Água Inês Anjo partilhou o seu momento de ouro com a filha Carolina e o Ricardo.

Como não desejar algo para nós assim também?

Estava cansada de ouvir histórias da treta em que a mulher não era ouvida ou respeitada, e a sua vontade era desvalorizada ou deturpada. Isso não era para mim!

Queria espaço para ser eu. Eu! E não um acto de submissão à vontade dos outros.

Como não sou de me resignar com a “sorte” de apanhar ou não profissionais à altura, fiz-me à estrada e fomos ao encontro de Setúbal (projecto de parto na água do HSB, entretanto suspenso).

Guardo da “entrevista” com o Enf. Vitor Varela as palavras que só muito mais tarde compreendi, com todo o percurso feito nas Mães d’Água, dizia-me ele, mesmo a fechar o nosso encontro:

“Tens de encontrar a Enfermeira Parteira que há dentro de ti”.

…? Palavras misteriosas na altura, mas que fazem tanto sentido agora!!

Agora sei que cada mulher tem em si essa capacidade inata de parir, e ser ela a orientadora da viagem.

Se é fácil? Não!
Dá trabalho? Sim! Mas toda a mulher que esteja conectada consigo, com o seu corpo e mente, que sente o que está a acontecer (esteja na tão chamada “partolândia” ou não), toda a mulher é capaz de parir em paz e sossego.
Se a deixarem!! Eu tive essa “sorte”.

[Ah! Não resisto a um pequeno parêntesis:

Este Verão estive nos Açores e tive oportunidade de conhecer a vacaria de uma amiga. Dizia o médico veterinário que lá estava que as vacas que pariam pela primeira vez, assustadas (?) com o que lhes estava acontecer, fugiam e refugiavam-se num canto escondido qualquer para ter o bezerro em paz e sossego.
Reflecti para mim: A Natureza é tão sábia!]

Já no final da gravidez, depois de uns dias mais fechada no ninho, a falar com o meu filho Gabriel (ainda na barriga), a dizer-lhe que queria muito pegar-lhe ao colo, abraça-lo, cheirá-lo e senti-lo… tive uma tarde animada com amigos, cheia de oxitocina, a tirar fotografias e a rir muito. Deve ter sido isso que despoletou o romper da bolsa já às 2h da manhã. A cor roseada deixou-me algumas dúvidas se teríamos de ir logo para o hospital, mas o Pai António não quis hesitar e fomos para Setúbal.

Estávamos só no início – 1cm de dilatação.

Eu fui convidada a passar lá a noite, na chamada Sala de Indução, com outras grávidas, e o Pai a ir descansar para casa.

As contracções começaram de forma calma e com a ajuda da respiração consegui “controlar” a onda de dor que se avizinhava a cada contracção que surgia. De vez em quando paravam. O duche na bola de pilates aliviava bastante.

Às 8h da manhã tive o primeiro contacto com o médico responsável de serviço – Sempre que contamos a nossa história, eu e o António referimo-nos a ele como o “Homem do Bigode”… perdoem-me a indelicadeza, eu até sei o nome mas, tendo em conta que tentou desvalorizar por completo o que escrevemos no plano de parto, que disse ao Pai António que não podia estar por ali (e estávamos fora do quarto, eu é que tinha ido ter com ele), e que me tentou aliciar para uma epidural para “ser tudo muito mais rápido“, só a “pensar no meu bem, caso contrário estaria ali até à manhã seguinte!” (palavras dele)… Eu, atónita – não com as dores, mas com a atitude! – lembro-me de pensar:
Mas que moral… uau, que palavras de incentivo…
Como tal, perdoem-me a descortesia mas só me apraz chamá-lo assim: “Homem do Bigode”.

A manhã passou com as contracções a apertarem mas também a espaçarem, e a subirem de intensidade. Fugia para os braços do Pai António sempre que podia, e a respiração foi minha grande aliada (Benditas aulas de preparação aquática em Palmela!). Estava prestes a pedir à Enfermeira para ir novamente ao duche, sentar na bola, quando já passava das 13h e sentia o meu corpo muito mais agitado… Perguntei se não podia ser novamente avaliada (quanta dilatação tinha já atingido) eis quando percebo que o Homem do Bigode voltara a fazer das dele! A indicação que a Enfermeira tinha era que isso já tinha acontecido, a dilatação já tinha sido verificada. Tive de ripostar que não, só às 8h da manhã! (e mesmo assim, eu queria saber, porque sentia o meu corpo totalmente diferente).huu

~ A Mãe Marina queria saber a sua dilatação para poder exigir ser encaminhada para o bloco de partos, onde o pai poderia já estar sempre com ela; e mais tarde para a piscina, para fazer o tão desejado parto na água. Embora a dilatação seja apenas um dos indicadores é o mais usado em contexto hospitalar para “avaliar a progresso do trabalho de parto”. ~u

A confirmação veio depois, quando após o toque a enfermeira me enviou para o bloco de partos, pois estava de facto já com dilatação para isso.

Não vou perder muito tempo com este momento mas o que é o que o Homem do Bigode queria “provar” com isto? Que ele é que mandava ali? Que as coisas tinham de ser à maneira dele? E se eu não me tivesse preparado para aquele momento… estaria à mercê da sua vontade? Está na altura das pessoas serem mais generosas e cooperativas umas com as outras! Está na altura das “diferentes classes” (médicos e enfermeiros) se entenderem, e das mulheres lutarem por serem bem acompanhadas naquele que é “só” um dos melhores dias das suas vidas!!

Bloco de partos!
O Pai António do meu lado, finalmente.

As contracções cada vez “piores”. O chamado “parto de rins”… medo!! A memória que eu tenho é que parecia que as minhas costas iam explodir!
Massagem para cá, massagem para lá do Pai António ao fundo das costas para aliviar… dois dedos de conversa com a enfermeira do primeiro turno… a gelatina que comera vomitada e mais outra expressão que me fica…

Parto vomitado, parto adiantado.

Nova avaliação por toque vaginal, e… estava na hora de encher a piscina!!
As costas cada vez mais doridas e… ALÍVIO IMEDIATO assim que entro na água.
Suave e sereno.
Suave e sereno. As contracções tomaram um novo código de sensações, as costas já não pareciam rebentar, e,a partir daqui, tudo se passou num instante.

Com a troca de turnos a “fada” Celeste Varela (a esta enfermeira só apetece mesmo chamar “fada”! Faz magia!) ficou connosco. Querida, como sempre, a Celeste fez-se presente. Foi (é) uma presença suave, para lá de discreta, mas sempre atenta.

Chegou a altura de fazer força, eu estava extenuada e de cara muito vermelha, ela  disse-me que tentasse canalizar essa força não para a cara mas lá para baixo… Uff, eu começava a duvidar se seria mesmo capaz…

Mas havia tanta calma, tanta liberdade que eu ainda tinha espaço interior para repetir uma história divertida que ouvira nesse Verão…
A Mãe de um amigo nosso nesta mesma altura do parto disse para o Médico:
Sr. Dr. eu desisto!!” 😀

Eu estava cada vez mais cansada e cheia de sono, mas aqui tudo desbloqueou, só quando a Celeste me disse:
Está a tentar controlar tudo, e eu percebo, mas também pode simplesmente deixar-se ir, entregar-se...”
Não foi exactamente assim que ela disse mas era esta a mensagem, no fundo, não era preciso eu estar no controlo da situação, podia confiar que a natureza, o meu lado mais animal, saberia qual o seu papel.

E assim foi! Começou a acontecer.
Suave e sereno.
Cheio de amor e uma grande comunhão com o Pai, o António.

Não passou muito tempo desta troca de palavras até que sentisse o chamado “anel de fogo” e a cabecinha do Gabriel cá fora. E até à contracção seguinte foi um instante.
Lembro-me de ter pensado e sentido de forma vitoriosa mas modesta.
“Eu fui capaz!”

E estava completamente revigorada! A adrenalina enche o peito das Mães quando os seus bebés nascem, e por isso é que conseguem fazer tantas coisas que até então desconheciam.

O meu peito também ficou maior…

Eu precisava muito dormir, mas com a emoção, de energia renovada, parecia que estava literalmente pronta para outra.
Será?
Esperar pelo parto da placenta, com o Gabriel sereno nos meus braços; o cortar do cordão só depois de deixar de pulsar. Ser cosida e não sentir nada!

Sentir-me nas nuvens… afinal tinha sido capaz!!

No puerpério, relembro a imagem de sermos quatro na “suite”, cada uma de volta do seu bebé, qual abelhas numa colmeia atarefada. Agradeço à minha amiga Lúcia que nos mimou tanto e, talento especial ou não, adivinhou a hora a que o Gabriel nasceu! E, recordo com muito carinho a visita da minha Mãe (que apenas podia ficar das 14 às 15, apesar de ir de boleia com o Pai António que podia ficar até às 20…) de ela pegar no neto ao colo, e chorar de alegria durante uma hora.

Num adeus ao Verão, o Gabriel nasceu num dia de muita chuva, quase tempestade. Parecia um filme, tudo muda depois de uma boa chuvada. E mudou mesmo! A nossa vida nunca mais ficou igual. Sempre a melhorar.

É este o relato do parto do Gabriel, o meu filho de Outono!

(Um beijinho, a Mãe gosta muito de ti.)


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo no meu bairro e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)