Entrevista com Cristina Pincho e Júnia Barbosa Entrevista

ANTES DE MAIS GOSTAVA DE SABER, QUEM É A JÚNIA E A CRISTINA, ANTES DE SE ATREVEREM NO MUNDO DO PARTO?

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CRISTINA: Sou mãe de cinco filhos e esse é o motivo porque estou a trabalhar com mães e bebés. (Se calhar se só tivesse tido dois filhos, não estaria…)
Do ponto de vista académico sou licenciada em Ciências Sociais nas áreas de Política Social e de Psicologia. Tenho 47 anos, fui mãe com 22 anos, numa altura que nada tem a ver com a que vivemos hoje, nomeadamente no acesso à informação. Hoje as pessoas podem fazer uma pesquisa na internet e descobrem o que querem, na altura não havia nada disso, mas posso dizer, com um certo brio, que contribui para abrir portas e criar oportunidades para o que é feito hoje, em Portugal. Comecei com umas amigas um “grupo de mães”, a iniciativa, inédita à altura, teve um grande sucesso e acabou por abrir portas para outras ideias, na altura completamente inovadoras em Portugal. O apoio à amamentação foi o passo que se seguiu, tendo acabado por me especializar na área e hoje sou Consultora de Lactação Certificada Internacionalmente (IBCLC). A massagem para bebés veio a seguir e também me envolvi desde o início no projeto das Doulas em Portugal. Estes são apenas três exemplos para referir qual foi o “pontapé de saída” que deu origem ao que faço hoje. Desde sempre, desde há 20 anos, o meu percurso tem sido de muito investimento em formação e muita dedicação às inúmeras famílias que tenho apoiado. Tem sido um percurso e, mais do que um trabalho, é uma forma de estar na vida. O projeto da Preparação Aquática para o Parto surgiu pouco tempo depois de ter feito o acompanhamento de uma grávida, numas sessões de preparação aquática, e de ter ficado com vontade de iniciar um trabalho usando os benefícios da água na preparação para o nascimento, juntando assim a minha paixão pela água com todo o trabalho que já fazia com as grávidas e/ ou casais fora de água.

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JÚNIA : Tenho 36 anos, estou casada há 15 anos, tenho dois filhos e sou Enfermeira Parteira. Sou do Porto e estou a viver em Lisboa há sete anos. Atualmente sou diretora de FamilyLife em Portugal, uma organização que trabalha com e para as famílias. Trabalhei num centro de saúde como enfermeira de família durante seis anos, altura em que fiz a especialidade de obstetrícia e conheci a minha amiga Isabel Ferreira – também ela enfermeira parteira – e juntas iniciámos o espaço Gimnográvida, um centro de preparação para o parto no Porto. Durante este percurso sempre voltei a minha formação para a área do parto natural pois, entre outras razões, estava envolvida num projeto missionário cristão que contemplava a criação de um centro materno-infantil em Angola, onde se trabalharia com o parto natural, obviamente! Terminei a especialidade em 2007, pouco tempo depois engravidei e passei alguns meses da gravidez em Angola. Curiosamente, os primeiros partos naturais que vi foi em Angola… (risos). Quando voltei a Portugal, com cerca de seis meses de gravidez, não sabia como ia ser o parto do meu filho. Sabia sim que não queria um parto medicalizado, como era prática comum no hospital, mas o parto domiciliar também não era uma boa opção para nós naquela altura. Já tinha estudado sobre o parto na água e gostava da ideia mas não sabia que poderia ser uma opção em Portugal. Entretanto, aconteceu o primeiro congresso sobre parto na água em Portugal, organizado pela Bionascimento, e eu fui, já gravidíssima. Aí soube que já se faziam cá partos na água mas apenas a nível domiciliar. Ouvimos testemunhos, recebemos formação e fomos motivados a dar passos para implementar o parto na água nos nossos hospitais. Entretanto a Isabel fez formação na Bélgica, na AquaNatal. As duas, motivadas com o projecto, e com documentação científica, tentámos implementar o parto na água, num sistema hospitalar no Porto (onde poderia nascer o meu filho), mas no final essa porta fechou-se… Acabámos por, graças a Deus, conseguir ter essa opção num hospital privado, e o meu filho nasceu na água! Ficou conhecido como sendo o primeiro bebé a nascer na água a nível hospitalar, em Portugal, pois fizemos questão de divulgar o acontecimento, com o objetivo de mudar mentalidades e de modo que esta opção fosse oferecida a todos. Soube depois que antes do parto do meu filho já tinha nascido outro bebé na água num hospital, com a Dra. Radmila Jovanovic, mas que não foi noticiado.
Entretanto, através da Gimnográvida, tive a oportunidade de investir na minha formação e promover também ações de formação sobre o parto natural e parto na água, incluindo trazermos para Portugal a formação para a Preparação Aquática para o Parto e Adaptação ao Meio Aquático para Bebés, certificada pela AquaNatal.
Passado pouco tempo, venho viver para Lisboa, e entretanto engravido outra vez, de surpresa! (Apesar de ser parteira, por vezes facilitamos nas contas! (risos)). E pensei, “Oh não, estou grávida outra vez, e isto está tudo na mesma, vou ter que lutar outra vez até ao fim para conseguir ter um parto na água!” Mas felizmente não!

Tive a oportunidade de ter sido acompanhada e ter parido na água – num parto fantástico, muito libertador – com uma equipa que operava no Hospital Privado de Lisboa.

Pouco tempo depois, tive a oportunidade de trabalhar lá com o parto na água com a Dra. Radmila, desenvolver a preparação para o parto, começar a criar uma equipa de parteiras… mas o hospital fechou…
Fui bater a muitas portas de hospitais privados para aceitarem a nossa equipa, mas nenhuma se abriu… Isto foi no final de 2012. A partir daí comecei a fazer parto domiciliar, juntamente com outras colegas parteiras. Hoje dedico-me mais à preparação para o parto, principalmente para os casais que procuram um parto natural, dentro ou fora de água.

CRISTINA, TU SENTES QUE O TEU CONHECIMENTO EM PSICOLOGIA VEIO ACRESCENTAR OUTRA DIMENSÃO AO TEU TRABALHO RELACIONADO COM A MATERNIDADE?

Primeiro fui mãe e só depois é que fiz a licenciatura, por isso eu costumo dizer que ela veio dar “contornos teóricos” aquilo que eu já fazia.
A minha grande paixão sempre foi a Biologia, a Natureza, e a vida animal, e como tudo isto funciona tão maravilhosamente bem. Trabalhando a amamentaçao, a gravidez e o parto, eu estou a juntar todas as áreas de que eu gosto, com as ciências sociais, toda a parte psicossocial e cultural, que tem uma influência imensa nestes processos. Então, sim, acho que faz tudo parte para poder acompanhar mães nestas áreas.

E COMO SE CONHECERAM? COMO SURGIU A IDEIA DE TRABALHAREM EM CONJUNTO?

CRISTINA: Curiosamente foi pouco tempo depois de ter idealizado o projeto de preparação aquática que conheci a Júnia, e parecia que era uma amizade já de há muito tempo, pois somos muito semelhantes na forma como vemos a vida (não só nestas áreas, mas também noutras). Desafiei-a para fazer parte deste projecto. Foi mesmo aparecer a pessoa certa no momento certo. Começámos à procura de lugar – que inicialmente era no Restelo, mas acabou por não se realizar – então continuámos à procura de piscinas que reunissem as melhores condições: temperatura, tratamento de água, a profundidade, um ambiente acolhedor, tranquilo, e onde não nos sentíssemos em “contra-relógio”. Foi quando a Júnia encontrou as piscinas do Hotel Vila Galé, e gostámos muito. Inicialmente o projecto era só para casais, ou seja, preparação para o parto, mas depois percebemos que havia boas condições também para os bebés.

JÚNIA: Já tínhamos ouvido falar uma da outra, mas conhecemo-nos pessoalmente pouco tempo depois do Hospital Privado de Lisboa fechar, através de uma “grávida” em comum que tínhamos. Rapidamente e de forma muito natural começámos a fazer coisas juntas. Como me estava a dedicar mais ao pré-parto, e queria desenvolver a minha formação na área da preparação aquática, a ideia da Cristina fez todo o sentido para mim, e a parceria com ela deu-me a consistência e a regularidade que eu sozinha não conseguia assegurar.

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COMO FOI A ADESÃO A ESTE PROJECTO, E O SEU CRESCIMENTO?

CRISTINA: Foi através dos nossos contactos, das grávidas com quem trabalhávamos, das grávidas que nos eram encaminhadas por quem trabalhava com o parto na água. Muito através do boca em boca e por recomendação.

TAMBÉM SÃO PROCURADAS POR QUEM NÃO VOS CONHECE? COMO ACONTECE?

JÚNIA: Ultimamente sim, através do site, do facebook. E, convém ressalvar, que esta preparação não é só para quem quer ter um parto na água… Nós temos uma parte específica para quem tem essa opção em vista – onde fazemos uma simulação do período expulsivo na água – mas tudo o resto é transversal a qualquer grávida, qualquer que seja o tipo de parto previsto. Isto porque os benefícios da água são para todas as grávidas. Para além disso também nos procuram para o Curso Aquabebés e Massagem Infantil.

EXPLIQUEM COMO FUNCIONAM AS VOSSAS SESSÕES DE PREPARAÇÃO AQUÁTICA PARA O PARTO.

CRISTINA: O nosso trabalho na água tem muito a ver com a entrega e o relaxamento, pois o melhor que se pode fazer num parto é entregar e relaxar! Para isso usamos várias técnicas aquáticas, como o Watsu individual ou adaptado ao casal. Depois há outros exercícios que fazemos para melhorar a capacidade respiratória, flexibilizar as articulações e ligamentos – especialmente da pelve – alongar e fortalecer músculos que desempenham um importante papel na gravidez e parto. E, uma vertente muito importante que a água tem – que até de início eu não dava a devida importância e foi a Júnia que me sensibilizou, porque a viveu pessoalmente – é a questão do casal. Não é “obrigatório” ir o casal, mas se o casal for, é um trabalho que é feito a dois, em sincronia.

A vida já é de tanta correria, e por vezes não há tempo para estar juntos naquela gravidez. A preparação aquática para o parto tem esta componente do casal se descobrir. É um processo de transformação, união e confiança. Conhecer a linguagem não verbal um do outro, que é muito importante no trabalho de parto, na água há um “chamar” para esse momento, que muitas vezes o casal faz de forma inconsciente. No fundo é trazer à consciência estes momentos. Por isso mesmo quem tem uma cesariana marcada pode beneficiar de tudo isto.

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JÚNIA: Sim, eu tive a oportunidade de fazer preparação aquática com o meu marido nas minhas duas gravidezes. E é mesmo especial, um momento único de intimidade um com o outro, e com o bebé que vem a caminho. Isto é especialmente importante numa segunda gravidez, em que parece que o tempo passa a voar, em que quase não se tem tempo para nos lembrarmos que estamos grávidas -principalmente quando se tem outro filho ainda pequeno. Estar juntos a desfrutar daquela gravidez, a dedicar tempo aquele bebé… é mesmo especial! Mesmo que não haja tempo para mais nada, reservar pelo menos estes momentos é muito bom! Mas, mesmo que o casal não tenha onde deixar o outro filho, podem trazê-lo para a água! Ou seja, nisso tentamos ser o mais flexíveis possível, isto porque também temos um lugar que permite essa flexibilidade!

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CRISTINA: Trabalhamos com número limite de seis casais, ou seis grávidas, por sessão. E sempre que possível somos as duas na água com eles, precisamente porque acreditamos no trabalho individualizado. Também existe a opção de aulas mesmo individualizadas.

JÚNIA: As sessões têm vários temas, vários momentos dentro de cada sessão e adaptamos os exercícios a cada casal e à fase em que se encontram. Tentamos não falar muito, mas explicamos o que estamos a fazer e como pode ser usado no trabalho de parto dentro ou fora de água. Gostamos de promover a criatividade nos casais. No fundo é também “descondicionar”, porque muitas vezes quando as pessoas pensam em parto, pensam numa cama… Mas ao experimentarem formas de andar “esquisitas” ou posições assimétricas, percebem como isso é importante, e como é possível toda essa criatividade, tanto dentro como fora de água.

Para quem tem a opção de ter o parto na água temos um tempo separado no jacuzzi, mais semelhante ao ambiente de parto na água, onde abordamos o período expulsivo na água. Experimentamos posições favoráveis à descida do bebé, ao descanso entre contrações, falamos do que vai acontecer quando ele nascer, como segurá-lo se nascer com a mulher de cócoras, ou de quatro, cuidados a ter, enfim… como se fosse uma simulação.

QUAL A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA EM CADA UMA DAS FASES DO TRABALHO DE PARTO?

Para mim, de forma muito simples e muito básica, é a entrega, o relaxamento. Se a água tem esse papel, logo, é importante para todas as fases. E por haver essa entrega há alívio de dor. O benefício da água é transversal a todas as fases. (Cristina)

JÚNIA: Por isso, quando falamos nesta “entrega” no parto, falamos na mulher que confia no seu corpo, no meio que a rodeia, e se deixa ir.
Quem faz preparação aquática acaba por adquirir uma memória, quando, em trabalho de parto, mergulha o seu corpo na água, a memória física e mental do prazer e bem-estar que experimentaram antes vem ao de cima naquele momento e a mulher relaxa e entrega-se.

Até suspira quando entra na água! O relaxamento na água facilita toda a libertação de hormonas que têm um papel fundamental no parto, como as endorfinas e a ocitocina, reduz a adrenalina, facilitando a fisiologia do trabalho de parto.
Estar dentro de água facilita a descida do bebé, facilita a mudança de posição entre contrações, pois possibilita uma maior liberdade de movimentos para a grávida. A água alivia a dor, mas não tira a dor, a dor tem o seu papel no trabalho de parto… faz-nos mover, mas com propósito, e quando a mulher aceita e compreende essa dor, torna-se mais fácil.
O próprio nascimento do bebé é mais suave tanto para ele, como para a mãe. Se não for possível a imersão em água, também se pode usar o duche para relaxar ou direcionar o chuveiro para a zona lombar para aliviar o desconforto.

ACONTECE CASAIS QUE CONTINUAM COM VOCÊS DEPOIS DO NASCIMENTO DO BEBÉ?

JÚNIA: Sim, e ficamos muito contentes por podermos oferecer essa possibilidade, e manter o relacionamento com eles. Em termos de horários, as sessões do Curso Aquabebés e Massagem Infantil são a seguir às sessões pré-natais, e por isso, ainda grávidos, ao verem chegar os bebés para as sessões, as mães já sonham como vai ser voltarem com o seu bebé “do lado de fora”.

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EM QUE CONSISTEM ESSAS SESSÕES COM OS BEBÉS?

CRISTINA: O trabalho que fazemos com os bebés, é sempre com a mãe/ casal presente, e tem a ver com esta ligação de continuidade de entrega e de compreender o bebé. É ajudar o bebé e a mãe a sintonizarem-se, usando a massagem e a água. Na água, não é só ir para a água, mas sim o processo de acompanhar as etapas de desenvolvimento do bebé… as buscas com o olhar, o alcançar das mãos, o aproveitar os reflexos do bebé (como o reflexo de mergulho)…

É muito bonito, os bebés adoram a água, é como se “regressassem a casa”!
Confessamos que somos um bocado “babadas” com todos estes momentos! (risos)

JÚNIA: É muito bom mesmo ver a interacção e progressão do bebé ao longo do tempo, principalmente naqueles bebés que acompanhamos desde o início. Nós aconselhamos estas sessões a partir de um mês de idade e quando damos por ela já vêm pelo seu próprio pé! Alguns tornam-se entretanto irmãos mais velhos, e vêm a acompanhar o novo bebé da família!! (risos)
Isto porque depois de fazerem o Curso de Massagem, podem continuar connosco até quando quiserem, vindo apenas para a parte da água.

FALEM-ME MAIS DA MASSAGEM DO BEBÉ!

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CRISTINA: A massagem vem “antes da água”. Ao longo das sessões os pais aprendem as técnicas de massagem infantil de forma progressiva, praticando-as no seu bebé (sempre que este estiver disponível). Mas há que ter em atenção que vai além de um exercício, ou seja, da massagem em si, é mais para criar um fluir entre “estar” com o bebé e entendê-lo. E ganha-se confiança na massagem, que também é importante para o momento que se segue, na água.

JÚNIA: O objectivo não é tanto entender a sequência certa da massagem ou a técnica (apesar de ela existir), o objectivo é a sincronização com o bebé, perceber o que ele gosta e não gosta, quando é que ele está disponível e quando não está, até onde podemos ir com ele, quando devemos parar, e isso é uma aprendizagem para a vida… de respeito pelo bebé, o pedir autorização antes de lhe tocar… Depois da massagem dada pela sua mãe, pai ou outro acompanhante, entram juntos na água por 10 a 30 min, de acordo com o bebé.

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Oficialmente chamamos de “adaptação do bebé ao meio aquático”, mas na realidade é a adaptação dos pais com o bebé no meio aquático! (risos) Porque o bebé, normalmente já sabe o que fazer!

Depois da massagem e do tempo na água, o bebé vai para um banho na banheira Shantala para passar por água.
É um autêntico SPA! E com muita maminha no meio! (risos).
Costumamos ser flexíveis com os ritmos dos bebés, e os pais ficam satisfeitos com essa flexibilidade. Claro que é mais fácil quando tudo corre como planeado, mas nesta área temos de ser flexíveis e estar abertas à mudança.

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NA PREPARAÇÃO PARA O PARTO, QUAL É PARA VOCÊS O PAPEL DO PAI?

CRISTINA: No fundo é inteirar-se das coisas, porque a mulher quando recorre à preparação muitas vezes já sabe para o que é que vai. Para o pai ainda é um trabalho estranho, e o homem no seu sentido de “protetor”, por vezes acaba por ficar um bocado impotente quanto ao que pode fazer. Se ele estiver presente na preparação para o parto – e estamos a falar da parte teórica, porque a prática já falámos – e conseguir perceber que afinal está tudo bem, e faz tudo parte do processo, isso é muito bom e é extremamente importante. A mulher gosta de se sentir acompanhada, mas efectivamente acompanhada! Por isso, no acompanhamento do parto a presença do homem tem de fazer sentido para ele, ele não pode ser obrigado a estar, senão acaba mais por prejudicar do que ajudar. Eu acho que não tem de ser para todos os pais, hoje, na sociedade actual, parece que está prescrito que os homens têm de lá estar, caso contrário não são bons maridos, pais ou companheiros, mas só se fizer sentido paga eles é que serão uma mais valia imensa para o parto! A preparação para este momento passa essencialmente por ter alguma informação e fazer trabalho interior, e dizer “eu estou ao teu lado, contigo”.

JÚNIA: A preparação para o parto pode ser essa mesma “descoberta” para o casal. Muitas vezes os pais vêm com o preconceito de que é para assistir, e na preparação existe a oportunidade de conversarem sobre o assunto, e tomarem uma decisão em conjunto, que é o mais saudável para o casal. Temos casos fantásticos em que foi decisão do casal o pai não estar presente e outros que não querem e, durante a preparação, ou depois de um workshop, percebem que querem estar! Nós damos voz ao pai e reforçamos a importância do seu papel no processo, no parto e no pós-parto, preparando-o para a circunstâncias que vai encontrar pela frente –
para as necessidades da mulher e do bebé – e isso empodera-o enquanto pai. Logo o casal fica mais forte, mais firme, mais resistente, mais apaixonado.

ACHAM POSSÍVEL O PARTO NA ÁGUA “REVOLUCIONAR” O MUNDO DA OBSTETRÍCIA HOSPITALAR, ENRAIZADA NO NOSSO SISTEMA?

JÚNIA: O parto na água pode realmente revolucionar, por ser mais visível, mais mediático e de facto poder mudar mentalidades. Quando existe a oportunidade de pais e profissionais de saúde assistirmos a partos na água, começamos a acreditar que é possível bebés nascerem sem intervenção. Ter de facto estas sementinhas a serem plantadas é muito importante, e por causa disso, nos últimos anos (parece que não) mas mudou MUITO em Portugal.
Pelo menos já se fala no assunto, o que é muito bom.
O saber observar sem intervir, o intervir apenas quando necessário, é uma grande aprendizagem hoje em dia, para um profissional de saúde.

O parto na água realmente tem essa vantagem, porque a mulher está dentro de um “ninho”, de mais difícil acesso, e de facto esta questão de intervir impulsivamente, já não acontece.
Portanto, este movimento Parto na Água, agora, com a ajuda fortíssima das Mães d’Água, pode de facto funcionar, e ser a bandeira do parto respeitado e humanizado em Portugal!

CRISTINA: Sim, sem dúvida! O parto na água não é para todas as mulheres, mas deve ser uma opção disponível para todas!

O QUE TÊM A DIZER SOBRE AS DIFERENÇAS ENTRE PARTO HOSPITALAR E PARTO DOMICILIAR?

JÚNIA: Existe um princípio que diz que onde é mais seguro nascer, é onde a mulher se sente mais segura. Para algumas mulheres é o parto hospitalar, para outras é em casa que o parto faz mais sentido. Tem ainda aquelas que até gostariam de ter em casa, mas não têm possibilidade e vão parir ao hospital, e outras que preferiam ter no hospital mas como o hospital não respeita a sua fisiologia escolhem ter em casa.

O parto ideal é onde a mulher se sente realizada, independentemente do lugar onde ele acontece.

Eu gostava muito que em Portugal houvesse, a nível hospitalar, um respeito pelo parto fisiológico, uma abordagem menos intervencionista e medicalizada. Que tivéssemos também casas de parto, e que os partos em casa fizessem parto do sistema nacional de saúde. Que, se houvesse necessidade de transferência do domicílio para os hospital, as pessoas fossem bem recebidas, e que houvesse integração dos vários serviços.
Por isso eu não defendo nem um nem outro, cada caso é um caso, e as circunstâncias variam muito.
Eu pessoalmente nunca considerei a opção de trabalhar como parteira num hospital, pois é-me muito difícil aceitar o sistema vigente com as suas práticas e protocolos que não têm qualquer evidência cientifica. Tem quem consiga lidar com isso e fazer a diferença sempre que possível, o que eu admiro e agradeço muito! Mas eu não entendo como hoje em dia em Portugal – com o avanço da tecnologia, da informação e do conhecimento – na área da obstetrícia não há evolução.
Deitar as mulheres para parir por exemplo, não entendo como isso ainda é uma prática comum! Custa-me muito lidar com isso… Quando a OMS já recomenda há anos que as mulheres devem ter liberdade de escolher a posição de parto, e ser desaconselhadas a estarem deitadas de barriga para cima.

PODEM COMENTAR ESTA FRASE “A ARTE DA OBSTETRÍCIA É SABER ESPERAR” (DO ENF. BRUNO RITO, EM “NO TEMPO DAS CESARIANAS”)?

CRISTINA: A palavra obstetrícia em latim, é “obstare” e significa “estar ao lado”. E estavam exactamente a falar disso, temos que resgatar este significado!

JÚNIA: É a arte de saber esperar, é a arte de estar lá sem ser visto, é a arte de ser invisível, e é a arte também de saber intervir quando é preciso.

COMO PREPARAR AS MÃES PARA O PROCESSO DA AMAMENTAÇÃO?

CRISTINA: Eu costumo mesmo dizer que mais importante que a preparação para o parto, é a preparação para a amamentação. Isto porque o parto é um processo mais ou menos balizado de tempo, em que sabemos que vai ter de acontecer, e tem um começo, e um fim. A amamentação… é muito mais do que “alimentação”, e acontece 8 a 14 vezes por dia, 7 vezes por semana, 31 dias por mês, durante um tempo indeterminado… E, por vezes, quando se deparam com esta realidade e há dificuldades, surgem as ideias de “afinal não era isto, e afinal não consigo, e afinal estou desesperada, e afinal tenho privação do sono, e afinal dói?!“ A preparação pode ajudar bastante. Saber que processos vai passar, saber que se o bebé não está a aumentar de peso, é porque não está efectivamente a comer, (mas também não preciso de ir a correr buscar suplementos porque é possível potenciar o bebé a “comer na mama” com a ajuda certa!); saber que não é normal haver dor (se há dor, é sinal de que alguma coisa não está bem e temos que agir, não há que deixar passar)… Na realidade a grande maioria tem dificuldades a amamentar. O objectivo é que a amamentação seja um processo gratificante, prazeroso, que não seja só funciona/ não funciona. No fundo é esta relação de sintonia e simbiose com o bebé que vai mais além de uma necessidade básica como a comida.

JÚNIA: É um facto que a experiência da amamentação para algumas mulheres é muito fácil e muito intuitiva, tanto que se perguntam porque existe preparação. Por outro lado existem outras para quem não corre dessa forma.
Existem vários factores de sucesso para a amamentação, um deles é entender o processo, saber identificar, saber a quem recorrer caso haja dificuldades, reconhecer que a dor não é normal, ter apoio familiar (é muito importante), mas o factor mais importante é sem dúvida a motivação da mãe para amamentar. A preparação vai nesse sentido. A mulher tem que se sentir segura, tem de ter conhecimentos sobre o tema, conhecer outras mães que passaram pelo mesmo, (como acontece em reuniões mensais, por exemplo as da Liga La Leche)… É isso que trabalhamos nos workshops de amamentação – conhecimento, recursos, motivação. E damos informação atualizada, baseada em evidência ciêntifica e na escolha informada. É a vantagem da Cristina ser Consultora de Amamentação em constante formação, e com muita prática no acompanhamento de mães. Existe uma grande falta de conhecimento sobre este tema, tanto na população como nos profissionais de saúde, e o uso do leite artificial é banalizado. O leite materno é o processo natural, quando estamos a dar um leite artificial há que ter consciência que não é igual, e que estamos a aumentar o risco de problemas para o bebé. Este deve ser o último, dos últimos dos recursos… E esta relação, que é a amamentação, tem realmente de ser trabalhada, porque vivemos numa sociedade de horas, de minutos, de regras, de limites, e isto é transversal a tudo o que está relacionado com o respeitar os ritmos do bebé. Por isso oferecemos também os Workshops sobre o sono, o choro, babywearing, cuidados ao bebé, pois tudo isto está relacionado com a “relação”, com este equilíbrio com o bebé.
Nos workshops convidamos outras pessoas que estejam perto das mães/ casal, para participarem. Podem vir! A mãe, a avó… porque é um factor que aumenta as probabilidades de sucesso, este acompanhamento, esta motivação.

TÊM ALGUMA MENSAGEM PARA AS FUTURAS MÃES E PAIS?

O processo de gravidez, parto e maternidade pode ser vivido e desfrutado ao máximo, por isso não se contentem com “os mínimos” ou com “o básico”, não se conformem com o que vos é imposto, mas renovem-se, questionem, procurem respostas e alternativas!
Vivam esta fase extraordinária da vossa vida em toda a sua plenitude!

 

~ As mães d’ água estão muito gratas por esta entrevista! Pelo trabalho destas mulheres INSPIRADORAS! (E por conhecer assim a mãe de um dos primeiros bebés a nascer na água, em meio hospitalar, em Portugal! UAU :-D). Temos muitas paixões comuns, e a ÁGUA é apenas uma delas! Gratas por trabalharem para o mesmo fim! ~


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.