Gratidão pelos filhos “terríveis” Coluna Humaniza-te

Recentemente “foi descoberta”, na verdade é o rótulo que é novo, a fase em que a criança pequena age de forma mais agressiva e “birrenta” que o normal. São muito falados, os “terrible two” ou “three” (ou quem sabe dura até aos “fours”!).
Esta abordagem nos ajuda a ver como é uma fase natural na criança, fase em que está aprendendo a se expressar, fase que vai passar.

Alguém mais velho ou “mais tradicional” provavelmente vai te dizer que isso é um mal das crianças de hoje e que é a “falta de limites” que causa essas reações, que os pais de hoje são “muito ocupados”, “permissivos”…
Mas… vamos ver com cuidado as características desta chamada “permissividade”, e… terá vantagens?

Vamos lá, quando foi a última vez que expressou com verdade as suas emoções? Ou ainda, onde você se sente à vontade para realmente expressar suas emoções?

Com sinceridade mesmo, daquela forma crua e sem receios de ser julgada, rotulada, massacrada, excluída? Provavelmente… só há uma hipótese mesmo, e eu sei onde foi:

Onde
se sentiu
amada.

Já pensou nisso?

Como mãe eu me sentia confusa ao ver o quão desafiador era (e às vezes ainda continua sendo para mim) quando um filho meu se descabelava, ou ficava teimoso com algo. Antes de ser mãe eu até achava que seria fácil ensinar que é importante partilhar e respeitar a opinião dos outros ao seu redor… mas a experiência me deixou a repensar seriamente essa questão.

Um exemplo comum? Dar um beijo à vovózinha, que a criança nunca viu na vida; ou um abraço de comprimento a um estranho que é “amigo da mamãe” é mesmo assim tão necessário? Quando a criança se nega é muito comum ouvirmos dizer que são “mal educados”! Crianças são rotuladas assim.

O que normalmente não notamos é que nós, nós mesmas, muitas vezes continuamos a dar beijinhos e abraçar sem querer… por pura formalidade! Somente pela “educação”, e nos permitimos coisas ainda mais negativas, como aceitar que nos digam o que fazer e como fazer… e desistimos de nos expressar, quem somos e em que acreditamos… cada vez mais, nos esquecemos.

Eu parei. Parei de querer que meus filhos sejam crianças “muito bem educadas” com todos, polidas e “fáceis” de lidar. Os amo quando são dóceis e também quando são extremamente selvagens (e mexem com emoções cá dentro que me fazem rever toda a minha vida e questionar-me se é essa mesmo a forma mais verdadeira de viver).
Escolho tornar-me cada vez mais verdadeira comigo, ao ponto de ser, para eles, um refúgio e não um comandante. Alguém com quem podem contar, e não o ditador da verdade. Alguém que está aprendendo, mais do que alguém que sabe de tudo.
Porque a verdade mesmo é que podemos estudar todas as formas de educação possíveis mas não, a gente nunca sabe de tudo.
Essa é a beleza da vida. E essa coisa “selvagem”, natural, pura, “em bruto”, essa coisa orgânica mostra-nos que há sempre mais a aprender.

A chave de minha paz, hoje, não é uma quantidade significativa de práticas corporais, ou massagem, ou meditação, ou um nova técnica que vai mudar a minha vida de forma mágica. A chave é, de dentro do meu próprio caos, conseguir ser grata a cada experiência que vivo.
No caso da minha vida como mãe, e quando meus filhos se abrem comigo (seja em doçura ou selvajaria), saber que eles estão a ser assim pois se sentem, antes de mais, seguros para serem si próprios.

Esse foi o meu chamado da semana.

Carinho meu,
Gláucia Figueiredo

(imagem de Camilla Albano)


Mãe de Lenin e Manuella, Doula, Terapeuta Corporal, Instrutora de Yoga com foco em Gestantes e Crianças, da Associação Internacional de Ecologia Feminina,desenvolve e aplica projetos na área, workshops e atendimentos individuais desde 2008.