Entrevista com Anne Sobotta Entrevista

Quando falamos de Yoga na Gravidez é quase incontornável o nome de Anne Sobotta.

Uma Yogini com uma visão muito atenta da mulher e da gravidez, uma Doula muito activa na consciencialização do parto humanizado. Com ela vamos descobrir um pouco esse mundo…

 

Fico sempre curiosa, como é que o Yoga entrou na tua vida?

É uma história engraçada. Eu não fui uma criança nem uma adolescente com boa postura, e tinha muito baixa auto-estima em relação ao meu corpo, eu não me sentia bem com o meu corpo. Sou alta, as pessoas me chamavam de “girafa” na escola, a minha vontade era esconder-me. E tinha uma escoliose, tinha dores nas costas. Então eu cresci assim na adolescência. E, paradoxalmente, porque nasci numa família de desportistas, o meu pai foi atleta.

Estudei arquitectura e aos 22 ou 23 anos tirei um ano sabático de estudo, trabalhei, ganhei um dinheirinho e fui viajar. Fiz toda uma volta ao mediterrâneo, passei seis meses viajando. Num dos sítios que visitei, acho que estava na Turquia, encontrei um casal de pessoas já bem mais velhas que eu, deviam de ter uns 60 anos (por acaso eram franceses), nós conversámos um pouquinho e eu lembro-me até hoje que o senhor disse: “Tu devias fazer yoga”. Falou só isso, mas isso ficou.
Ficou na minha cabeça.
Não sei porquê, mas ficou.

Voltei da minha viagem e estava com isto na cabeça, mas não tinha coragem para ir a uma aula com outras pessoas. Eu tinha muita timidez.
Comprei livros e comecei a fazer yoga, com a ajuda dos livros. Passei dois anos a praticar com livros até tomar coragem e ir fazer uma aula.
Naquela época ainda estava em França, mas logo me mudei para Londres, e em Londres há muita coisa de Yoga, procurei logo um lugar para praticar. Comecei a praticar lá, e obviamente mudou a minha prática, fazer yoga com outras pessoas. E nunca mais parou! O “vírus” do yoga entrou e nunca mais parei. E aos poucos começou a ocupar a minha vida a tempo inteiro.
Foi assim que entrou.

Porquê o yoga mais virado para a mulher, e em especial para a gestação?

É mesmo uma escolha de foco. Eu pratico Yoga faz mais ou menos 23 anos. Comecei a dar aulas (na verdade eu não queria), por um pedido de amigos, aquela coisa de férias “Ah tu fazes muito yoga, ajuda-me”. Eu não queria, mas os amigos relatavam melhorias em vários sintomas. Depois, uma professora com quem eu praticava pediu-me para dar aulas no estúdio dela, então estes foram os primeiros passos. Na época eu dava aulas para toda a gente.

Foi através da minha gestação que eu comecei a perguntar-me como iria mudar a minha prática. Eu comecei a ter um outro olhar de como se podia fazer yoga num corpo gravídico. Depois, foi entender que o corpo do homem é diferente do corpo da mulher, e que me interessava trabalhar especificamente o yoga na gestação e no pós-parto com as mães e os bebés. Especialmente, quando se fala no pós-parto, o meu foco é mais os bebés. Eu trabalho com os bebés até ao momento em que eles começam a ter mobilidade, quando começam a gatinhar com muita facilidade. Então simbolicamente eu os acompanho os nove meses antes, e os nove meses depois.

Mas é uma escolha, para poder focar e aprofundar cada vez mais. Onde eu moro há muita procura de aulas para a terceira idade, mas eu encaminho para outros professores porque são outras questões, e eu precisaria de me debruçar sobre isso, e eu quero mesmo é aprofundar a questão da gestação.
É um entendimento de que é um momento específico da vida, de que o corpo está num estado específico.

Em que altura pode uma grávida começar a praticar? E quais os maiores benefícios?

Muitas vezes nós vemos a recomendação de não fazer nada no primeiro trimestre. Bom, isso é uma recomendação geral que é bastante abstracta. Se olharmos, muitas mulheres nas primeiras semanas nem sabem que estão grávidas e fazem a sua vida normal, vivem na cidade com uma vida stressante e ninguém fala para elas: “fica parada porque você está grávida”. Então, não vamos pedir a uma gestante de cinco semanas ou 10 semanas para começar a fazer salto à vara, saltar de elástico, mas… yoga?
Vamos ver, o que é que nós fazemos no Yoga? Aliás, o que é que nós entendemos por “yoga”? Tem várias maneiras de praticar yoga, mas eu quero dar às pessoas o melhor nível da segurança. Não aconselharia uma grávida a fazer Bikram por exemplo (yoga que é praticado numa sala muito quente), porque aumenta muito a temperatura, e isso não é recomendado na gestação; ou sequer uma prática de Ashtanga, que pode ser muito forte. Fora isso eu não vejo o menor problema.
Para uma mulher que está bem, que não está com uma gestação de risco, que não está com nenhum tipo de restrição, não tem porquê ela não fazer Yoga no primeiro trimestre.

Obviamente que se recomenda fazer aulas especializadas, é sempre melhor, mas a partir do momento que não vai fazer coisas fisicamente muito extremas, não tem porquê não começar. Obviamente alguém com alguma suspeita de complicação na gestação a recomendação é outra, pode ser que ela precise de repouso e de observação.
Considerando isto, eu acho extremamente benéfico o Yoga no primeiro trimestre, justamente por ser um momento de muitas mudanças hormonais. É um momento em que a mulher se sente muito mais cansada, é um turbilhão de emoções.

Numa prática de Yoga no primeiro trimestre vou fazer uma prática muito mais tranquila, não por medo de criar problemas, mas porque é a necessidade na maioria das mulheres neste momento, de poder repousar ou relaxar. Encontrar um momento em que elas conseguem se centrar um pouco nesse turbilhão de emoções. Uma prática de Yoga traz esse centramento, essa calma, esse foco. Estar num ambiente que acolhe a mulher nesse momento de muita novidade e muita mudança é muito benéfico. Eu recomendo a prática de Yoga no primeiro trimestre com pessoas que sabem lidar com gestantes, que conhecem as recomendações e as limitações a respeitar.

Os benefícios, de uma forma geral, acho que não são misteriosos. Os benefícios do Yoga hoje em dia são bem populares, desde do aspecto do bem estar físico, do corpo mais alongado, do corpo saudável, do corpo em forma.

Obviamente também os benefícios emocionais que o Yoga traz: através do foco, da concentração, do relaxamento, da meditação. Há um bem estar tanto físico como emocional, e na verdade os dois andam sempre de mão dada. Nós separamos, mas um bem estar físico traz um bem estar emocional e vice-versa.

Tem também outras qualidades na gestação, a aula de Yoga na gestação tem uma diferença da aula de Yoga “normal” (pelo menos da forma como eu procuro ensinar a trabalhar na gestação), ela tem um momento de trocas, tem um momento de conversa, é um espaço de acolhimento em todo esse sentido. Na verdade é o Yoga pleno, digamos.

É um espaço onde as grávidas podem tirar dúvidas. Muitas mulheres que fizeram yoga na gestação referem duas coisas:
Relatam que foi o momento em que elas tiveram mais tempo para elas com o bebé, para se sentir conectadas com o bebé;
Falam de ter aberto o horizonte a perguntas que elas antes não tinham lugar para colocar, falam de encontrar informação, encontrar outras mulheres na mesma buscar.
Essa é a dimensão maior que o Yoga tem na gestação.

Depois, tem benefícios específicos também para questões específicas que cada mulher pode ter: dor ciática, dores na coluna, dor na sínfise púbica, enxaquecas, insónias… tudo isso nós conseguimos também trabalhar de uma forma específica, em função da necessidade de cada mulher.

Há um benefício que é fundamental: o de permitir que o corpo de cada mulher possa carregar o seu bebé da forma mais adequada possível, justamente para esse bebé poder nascer com a maior facilidade possível.

Nós escutamos muitas vezes histórias de partos de bebés que não descem, de bebés com a cabeça mal posicionada, de bebés sentados… temos muitos relatos, e algum trabalho científico de fisioterapeutas e parteiras, que vem demonstrar porque é que essa fisiologia do parto, que se desenvolve de modo natural, em algum momento trava, porque é que esse bebé não desce no canal de parto. Porque pode existir alguma tensão muscular, alguma tensão ao nível dos fascias, algum desalinhamento.
Quem trabalha com isso? Osteopatas e outros tipos de terapeutas de terapias manuais podem trabalhar isso, mas o Yoga também.

Este é um foco que eu tenho no meu trabalho, em trabalhar bastante com o alinhamento da pélvis, com o movimento correcto, em como saber soltar as tensões e fortalecer o que precisa ser fortalecido, para criar o ninho mais adequado possível, mais equilibrado possível para que a mãe carregue bem esse bebé, e para que esse bebé possa nascer e fazer esse trabalho dele de rotação da forma mais adequada possível.

Essa é realmente uma especificidade do trabalho com as gestantes. É um trabalho que pode afinar bastante, tecnicamente falando, onde tem práticas bastante especificas. Talvez seja menos conhecido, porque acho que no Yoga não tem tanta gente assim trabalhando com isso, mas é um dos benefícios que nós podemos ter com o Yoga. Pode ajudar bastaste no bom posicionamento do bebé.

O yoga pode ajudar em algumas situações especiais da gravidez, como por exemplo, bebés pélvicos?

Pode. O bebe pélvico é o seguinte: tem uma percentagem de bebés pélvicos que vão virar sozinhos, outra que não vai virar. Não temos, infelizmente, estudos bem feitos que comprovem isso, eu gosto muito de acompanhar os trabalhos científicos para ter bases correctas, e sei que há alguns, mas que não foram bem conduzidos, por isso não dá para tirar conclusões. Mas creio que podemos, com o trabalho com as mães com bebés pélvicos, ajudar o bebé a mudar de posição. Não vou prometer 100%, mas pode contribuir, com certeza.

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E a prática de Yoga pode influenciar o trabalho de parto?

Sem dúvida nenhuma! Eu acho que as mães têm muitas coisas maravilhosas que elas podem fazer na gestação, o importante é a grávida encontrar algo que faça sentido para ela. É o mais importante – que ela se sinta bem e que faça sentido. Pode acontecer haver uma mulher que venha fazer yoga e que não vai gostar, e que vai preferir fazer aula de… sei lá, de qualquer outra coisa. Tudo bem, não é uma obrigação! Não é porque fez yoga que teve um parto melhor, tem que ter cuidado para não passar essa mensagem de que só quem faz Yoga é que tem um parto maravilhoso. Isso acaba colocando um peso!

Eu tenho várias colegas, professoras de Yoga, que sentiram muita dificuldade de aceitar que não tiveram aquele parto dos sonhos, que não foi aquela coisa maravilhosa, muita dificuldade em poder contar isso! Porque todo o mundo em volta delas falava: “ahh, tu és professora de Yoga, vai ser maravilhoso!”, e não é sempre assim!

Agora que o Yoga ajuda com o trabalho de parto, não tenho dúvida.

Eu tenho uma história de uma aluna que na primeira gestação estava tudo a correr super bem, tinha um casamento maravilhoso e etc., tudo parecia perfeito sabe? Mas, às 40 semanas, como não tinha entrado em trabalho de parto, e por ser tão difícil evitar aquela pressão do “tempo” do “prazo” que a sociedade coloca, ela começou a ficar mais ansiosa. Vieram as 41 semanas e nada. Os dias a passar e nada. Teve um momento em que o marido dele ficou muito preocupado, apesar de eles estarem com uma boa equipa, com uma boa obstetra, ele começou a ficar com muito medo. Ela estava bem, mas ele ligou para a irmã, que acho que era médica, que falou “Vocês estão loucos, estão matando esse bebé, tem que operar já!”, e aí entrou um clima de medo. Isso foi o que esta gestante me relatou. Naquele dia, ela tinha sentido uns possíveis sinais de início de trabalho de parto, mas o marido ficou muito preocupado, teve aquele transtorno todo e com a tensão os sinais de trabalho de parto pararam completamente. Muita tensão, choro. Foram à obstetra, o marido queria que ela operasse logo, mas a obstetra é uma boa médica e conseguiu dar um tempo.
Essa aluna vinha fazer aula comigo à tarde, e naquele dia ela não apareceu na aula, ela ligou-me depois a contar isso e a contar que até a Doula também achava que não ia dar mais certo porque havia muita tensão. Eu disse para ela vir à aula da noite, que era o último momento que ela tinha antes de ir para o hospital para a indução.
Chegou a hora da aula da noite, e ela não aparecia… chegou atrasada, com o marido nas costas, que entrou na sala com ela, os dois visivelmente transtornados, as outras alunas já estavam a praticar, e eu pensei: “O que é que eu vou fazer?”… Eu coloquei todo o mundo na posição da criança para ter um tempinho de pensar o que é que eu ia fazer e dar um lugar para um marido. Aí eu pensei, “Bom ela deu uns sinas de início de trabalho de parto, parou por causa de medo, então esse corpo e este bebé estão prontos. Se está pronto vamos activar isso!” Então eu mudei completamente o meu roteiro de aula, fiz uma aula muito mais dinâmica, tentei que ela “saísse da cabeça” – do medo – e que reentrasse no corpo – o corpo estava lá dando os seus sinais! Eu improvisei uma aula completamente diferente.

Terminou a aula, abraçamo-nos, desejei boa sorte. Quando eu estava a arrumar tudo, 20 minutos depois, eu recebo uma ligação dela a dizer: “Estamos no estacionamento do hospital, estou em trabalho de parto, começou agora, reiniciou tudo!”. E pronto. Foi um parto longo, demorado, mas realmente com o que fizemos juntas (esse “juntas” é muito importante!), tanto ao nível do emocional como ao nível do corpo conseguimos recuperar esse trabalho de parto. Que é dela! Que nós fomos só o instrumento, e que esse instrumento podia ser outro. Mas realmente o Yoga é um instrumento muito potente.

O Yoga é apenas um instrumento, não é ele que vai decidir nada. Mas bem usado ele pode ser um instrumento muito bom, sim.

Eu tento muito passar para as alunas, nas aulas, movimentos que elas vão poder usar de forma instintiva. Nós trabalhamos muito na posição de quatro apoios, por exemplo, que é muito boa para o trabalho de parto, para que isso seja uma coisa que saia de forma espontânea, depois, no trabalho de parto real.

Uma aula de Yoga é uma forma de “reacordar” coisas instintivas. E dá opções também. É interessante pois cada um vai pegar algo que faz sentido para si. Para um vai ser a respiração, para outra vai ser o canto, para outra vai ser o movimento…

O yoga pode ajudar a conexão com o bebé?

Bom, esse é um dos relatos mais constantes de quem faz yoga na gravidez, de este ser o momento em que se conseguiram concentrar e se conectar com o bebé.

Nós chamamos a atenção sobre isso, para através da respiração, do contacto, do sentir o corpo, poder sentir a presença do bebé. É uma constante nas aulas de Yoga. E algumas pessoas têm uma consciência mais aguçada, realmente elas conseguem perceber muito bem os movimentos, prestar mais atenção às emoções, nós tentamos trazer essa atenção – para os momentos de relaxamento, do yoganidra, – de tentar escutar o que é que o bebé está a trazer, como é que ele está. E sim, eu acho que isso funciona muito bem.

No pós-parto o Yoga também é muito importante, certo? Em que medida é que a prática de Yoga influencia o pós-parto?

De praticar antes, ou no pós-parto?

Ambas. Como pode a prática de Yoga na gravidez influenciar o pós-parto, e que benefícios traz a prática de Yoga no pós-parto?

Bom, o pós-parto é um assunto por si só. Das mulheres que vêm fazer Yoga antes do parto, muitas gostam de voltar depois, mas na realidade não é sempre tão fácil, porque está com um bebé pequeno (às vezes ainda têm outro filho), por isso, por causa da logística, não é tão fácil fazer Yoga depois.
Aquelas que não conseguem voltar, elas tentam trazer justamente coisas que elas aprenderam no Yoga na gestação e aplicar isso no seu pós-parto. Geralmente é mais ao nível do relaxamento e da respiração.

Trabalhando o Yoga na gestação às vezes falamos um pouco do pós-parto, mas a cabeça está tanto na gestação que é difícil passar práticas para o pós-parto, a mulher não vai gravar muito isso.

Agora, o Yoga especificamente no pós-parto, vamos diferenciar dois tipos de Yoga no pós-parto: ha a mãe que volta a uma prática de Yoga relativamente normal com o bebé do lado ou às vezes no colo, e o yoga para os bebés.

Eu faço com os bebés. Um trabalho que é muito focado neles, a partir de massagem, a partir do movimento, do toque, trabalho muito a vinculação da mãe e do bebé, claro, mas é um olhar fundamentalmente sobre o desenvolvimento desse bebé, um trabalho que acompanha o desenvolvimento, e que, potencialmente, quando tem alguma questão que pode vir do parto ou de outra coisa, nós tentamos trabalhar. O meu trabalho de Yoga com mães e bebés é focado no bebé.

Depois há o trabalho focado na mãe, geralmente de forma individual, no pós-parto, no sentido de dar recuperação pós-parto. É um trabalho bem diferente do trabalho do Yoga na gestação, em termos de tipos de prática. Nós procuramos trabalhar a postura da mãe, que por carregar o bebé acaba por fechar muito os ombros, por exemplo. Procuramos ajudar a libertar o espaço do diafragma. Ajudar a melhor as dores nas costas que vêm do carregar o bebé… É todo o trabalho do períneo e do pavimento pélvico, que é muito importante! Tem um trabalho muito específico no pós-parto para trabalhar a tonicidade, e que ensina às mulheres também os cuidados na forma de carregar os filhos, na forma de respirar, que é bem eficiente mesmo.
Infelizmente vejo que as mulheres têm ainda dificuldade em fazer aulas de forma regular, então a prática de Yoga pós-parto para mulheres é muito focada e curta. É muito comum escutar relatos de mulheres que já eram praticantes de Yoga, que faziam Yoga todos os dias, uma hora e meia de prática por dia, e depois de terem um filho falam: “Eu perdi a minha prática toda! Não consigo fazer mais nada! Na hora que eu preparei o tapete o bebé acordou!”.

Então nós tentamos trazer no pós-parto uma coisa mais curta, mais pontual, mas que ela possa fazer em casa com facilidade, seja duas posturas restaurativas, seja um trabalho específico de pavimento pélvico. São exemplos que estou a dar, porque é bem específico mesmo.

Para além de professora de Yoga também és Doula. Ligas as duas actividades?

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Eu ligo, mas na verdade eu não actuei muito como Doula. Por motivos específicos – eu sou francesa, moro no Brasil e não tenho família lá, e sou separada do pai da minha filha, então passei vários anos sem ninguém para me ajudar com ela, e a Doula tem que ter disponibilidade. A disponibilidade total para mim era difícil, eu senti que não ia ser uma boa Doula se tivesse primeiro que resolver onde ia ficar a minha filha, e se ia ficar preocupada durante um parto em ter que ir buscar a minha filha, então nesse sentido eu não “doulo” tanto quanto dou aulas de Yoga. Hoje em dia a minha filha é maior, o meu companheiro fica bastante com ela, a minha estrutura é bastante melhor, então eu Doulo, na verdade as minhas alunas, quando me pedem. Eu não actuo como Doula de pessoas que não são minhas alunas, mas as minhas alunas me pedem com bastante frequência, porque, precisamente, se cria um laço. Às vezes eu falo que se cria um privilégio em relação às outras Doulas, porque as outras Doulas têm poucos encontros com as mulheres, mas eu vejo-as todas as semanas. Então nós temos muito à vontade, conhecemo-nos muito bem, temos muita intimidade! E como Doula é muito interessante esse acompanhar, precisamente porque nos conhecemos muito bem.

És activista do parto humanizado. Acabas por também passar um pouco de informação sobre o parto às tuas alunas?

Sim. Eu trabalho com isso há quase 10 anos e a minha postura mudou um pouco, no sentido que eu acho que quando começamos a mergulhar nesses assuntos da humanização do parto nós ficamos por um lado muito revoltadas pela quantidade de abuso, de violência e de desrespeito que existe, então, o lado activista revoltado é muito forte – e ele é importante! – pelo outro lado, eu acho que aprendi a deixar espaço e a respeitar o tempo de cada um. Isso não quer dizer que eu sou menos activista, mas dei-me conta que cada mulher tem o seu tempo.

A primeira coisa do activismo eu acho que é mesmo o acolher. Permitir um espaço onde a transformação pode acontecer, onde a abertura pode acontecer. Isso pode levar uma semana, uma hora, pode levar meses ou anos.

Ou seja, eu entendi que não posso ter a vontade de querer mudar essa pessoa que está à minha frente, ela é que se muda, se quiser. Eu estou aqui acolhendo, abrindo os braços, dando empatia, compaixão, sem perder os meus valores! Os meus valores são sempre bem claros, as pessoas que vêm fazer as minhas aulas sabem no que eu acredito, mas eu não estou forçando isso. Eu tento sempre acolher. E às vezes é um trabalho muito difícil… porque tem pessoas que são muito tímidas, ou pelo contrário, tem pessoas que são muito invasivas com as outras pessoas, nesse caso é preciso fazer uma mediação.

Já tinhas esta consciência do respeito pelo parto durante a tua gravidez?

Não, eu adquiri essa consciência durante a minha gravidez. Antes disso, eu não tinha tido a aportunidade de me perguntar sobre isso.

Foi muito lindo esse processo de informação na minha gestação, foi mágico mesmo!

Realmente quando nós começamos a acreditar que a vida coloca no nosso caminho as coisas certas na hora certa, é impressionante. Eu tinha uma amiga, mais uma conhecida, que quando soube que eu estava grávida apareceu na minha casa e pousou três livros na minha mesa, um desses três livros era do Michel Odent. Eu li, e obviamente fez um click na minha cabeça, de repente as coisas deram uma volta e a minha visão mudou completamente sobre essas questões. Ao mesmo tempo, eu comecei a pesquisar um pouquinho algumas coisas na internet, e logo comecei a falar com a pessoa que é uma das grandes líderes da humanização do parto no Brasil – a Ana Cristina Duarte – que me ajudou a descobrir que a minha ginecologista, por sorte! porque era a única na cidade onde eu morava – que tinha um atendimento ao parto humanizado. As coisas encaixaram-se super bem.

Eu li tudo o que podia ler, fiz tudo o que podia fazer. Foi o meu momento de transformação, com a minha gestação.

O que é que tu pensas sobre o parto na água?

Eu tive um parto na água. A minha filha nasceu na água. Eu acho que hoje em dia até faria um pouco diferente, no sentido de que eu tinha menos informação, eu não tinha Doula, eu só tinha a médica que ficou num papel tranquilo, mas não me deu assim muitas dicas, então eu fiquei muito tempo na água, e acho que isso diminui um pouco o ritmo do trabalho de parto.

Mas acho fabuloso! A água realmente é um recurso excelente, ajuda no alívio da dor, ajuda na mobilidade, faz a própria equipa ficar mais tranquila.

A minha única ponderação é que eu acho importante ter cuidado para não passar a mensagem que o parto humanizado é sinónimo de parto na água, apenas.

Diversas mulheres, e também parteiras, relatam que para elas o parto é Terra, ou Fogo. Não é Água. Então, é um recurso fabuloso sim, mas acho importante deixar claro que ter uma piscina não é a garantia de um parto perfeito, e que quem não tem uma piscina ou uma banheira vai ter um parto mais difícil, mais dolorido, etc. Temos que ter cuidado com essas associações, que acabem tirando o foco do ponto principal: a autonomia da mulher e sua sensação de confiança e segurança consigo mesma.
Agora, se todos os lugares pudessem ter uma piscina seria fantástico, claro!

É interessante ver que às vezes, no final do parto, muitas mulheres falam da necessidade de sair da água, quando vem aquele rasgo de adrenalina, acho isso também importante explicar para as mulheres.

A piscina, a água, é óptimo para te ajudar, se o bebé vai nascer mesmo na água não se sabe, pode ser que nasça na água, pode ser que seja cá fora, você não tem obrigação de ficar na água. Nós às vezes criamos essa imagem do bebé que nasce na água, que é uma imagem muito bonita o passar do ambiente do líquido amniótico para continuar no ambiente líquido, mas acontece que muitas mulheres saem, porque vem uma mudança das hormonas, um rasgo de adrenalina, uma coisa mais dinâmica, elas sentem necessidade de usar mais a força da gravidade para ter o bebé, acontece.

Mas eu acho o uso da água fabuloso. Eu usaria a água de novo, se tivesse outro filho!

Sentes que tens algo que queiras dizer para terminar?

Só deixar o incentivo para ter sempre mais União.
Que tanto as mulheres, as doulas e as profissionais de parto possam se encontrar para dialogarem.

As taxas de cesariana em Portugal estão a aumentar, e eu creio que ainda vão aumentar mais, e a única coisa que vai fazer a diferença são estes movimentos, como o das Mães d’água, como o da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto. É vital ter estes encontros entre mulheres – como foi a Roda em Loulé – para poder influenciar os tomadores de decisão, tanto no poder público, como no hospital particular.

Encontrem-se, conversem, dialoguem, escutem-se. Coloquem para fora tudo o que precisam colocar para fora, não guardem a dor e a mágoa. Isso vai-nos fazer sentir melhor e ajuda muitas outras mulheres.

 

~ Muito, muito gratas à Anne pela inspiração a tempo connosco. A Anne vem com frequência a Portugal dar formação para yoga na gravidez, podes ver mais sobre o trabalho dela AQUI. ~

Gratas por estas imagens lindas, recolhidas pela fotógrafa Fatima Vargas ~ Be Still Photography, na Roda no Parque, em Loulé.


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.