Entrevista com Inês Sobral Entrevista

“Inês Sobral, 37 anos, mãe a tempo inteiro e arquitecta em part-time.
O seu dia-a-dia é dividido entre a dedicação (intensiva) à filha Sara, de quase seis meses; o garantir das logísticas para que o filho Tiago chegue à escolinha alimentado e lavado (as mães sabem que às vezes este binómio não é fácil!) e fazer o necessário para que haja comida e produtos básicos na despensa para manutenção da casa. Durante os, parcos, sonos da Sara, ela trabalha e organiza a sua vida e a do Pedro, seu companheiro, super-pai e a metade de todo este empreendimento que é a vida pós-maternidade! O fim de tarde, quando a família se reúne de novo em casa, com todo o caos instalado, é, confessa intimamente, o seu momento favorito (embora nessas alturas pense sempre que a ideia de ter filhos com dois anos de diferença foi a coisa mais estapafúrdia que já alguma vez lhe passou pela cabeça!)”

Curiosas? Eu já estou!…


Sempre foi um sonho ou projecto de vida a maternidade?

Na verdade não (risos). Era dúbio… quando era muito nova tanto dizia que queria “ter cinco filhos”, ter uma família grande, (talvez por ser filha única) como dizia que não me imaginava a ter filhos. Até me tornar adulta penso que a minha carreira esteve sempre à frente. Não “carreira” enquanto emprego estável e subir de hierarquia, nada desse tipo, mas sim no sentido de me satisfazer primeiro a nível profissional para (depois de atingir um determinado patamar nessa área) poder pensar em formar família e avançar para uma nova fase. Assim, o projecto família surgiu um bocadinho mais tarde, tanto que eu só tive o primeiro filho com 34 anos.

Por isso não, não posso dizer que tenha sido uma ideia sempre presente.

A decisão de teres um parto na água aconteceu antes de engravidares ou foi durante a gestação que nasceu o interesse?

Eu fiquei muito curiosa sobre o parto na água a primeira vez que vi a reportagem que deu na televisão (na SIC penso eu), que abordou o parto da Inês Anjo. Foi uma reportagem que, efectivamente, me tocou. Ainda não estava grávida e não pensava… quer dizer, estou a mentir, já pensava sim em ter filhos, estavámos a começar a pensar engravidar naquela altura, mas… despertou algo, mas ainda não pensava no parto,
A certa altura, já grávida (talvez a meio da gravidez), estava a falar com uma amiga enfermeira que também tinha engravidado e começámos a falar a sério sobre o local do parto, e sobre que opções haveriam. Como somos as duas de Setúbal ela referiu que tínhamos a opção do parto na água no HSB e fez-se um “click”, sabes? Parecia que a reportagem tinha ficado arrumada. Foi importante e lembrava-me perfeitamente, mas ficou registada e arrumada, pensei eu. Mas aqui, de repente fez-se luz e “veio à baila”: era de facto uma opção, o parto na água. A partir desse momento, nesta conversa corriqueira, ficou decidido e passou a ser  “a Minha opção”. Claro, a não ser que não fosse possível por alguma razão clínica, alguma contingência clínica de risco na gravidez. Como até ao momento estava tudo bem comecei a pensar o que seria preciso fazer para ter acesso ao parto na água.
Surgiu muito naturalmente também por eu ser de Setúbal e pensar logo em ter o parto lá, não fui à procura de um sítio onde pudesse realizar um parto na água. Aqui, no hospital da minha zona, pareceu-me ser a coisa mais natural do mundo. “Ok, existe a opção! É essa que eu quero porque desejo um parto o mais natural possível para mim e para o meu bebé, sem anestesia.”

Não foi uma decisão muito “mágica” e “transcendental”, na altura pareceu-me uma decisão muito prática!

Havia essa opção que era compatível com a minha vontade de ter um parto com o mínimo de químicos possível e que me pudesse auxiliar na falta de analgesia, funcionando como terapêutica e aliviando a dor.

Como é que tu e o teu marido se prepararam, durante a gestação, para o parto natural na água? Foi fácil obter informação?

Foi muito fácil. O meu sogro, que foi médico no hospital de Setúbal toda a sua vida profissional, garantia-me uma ligação ao hospital fácil. Eu própria conhecia já algumas enfermeiras-parteiras do serviço e perguntei-lhes o que poderia fazer nessa situação, elas encaminharam-me imediatamente para o enfermeiro Vítor Varela e foi marcada uma entrevista com ele.
Essa entrevista foi um bocado dura, fez-nos equacionar se queríamos mesmo passar por aquilo, se era mesmo um projecto.

O casal tem de estar muito mentalizado e consciente quando decide por esta via.

Como eu já tinha feito um curso de preparação para o parto, ele encaminhou-me para um curso de preparação para o parto na água (por ser mais específico, não era obrigatório), que ajudaria em todo o processo.
Esta preparação foi feita tardiamente porque tive um síndrome vertiginoso que me obrigou a estar em casa muito tempo.
A última aula na piscina foi feita no dia anterior ao Tiago nascer, ou seja, foi feita às 40 semanas e seis dias (o Tiago nasceu exactamente às 41).

Que giro! Se tivesses tido a aula no dia a seguir ele nascia na aula (risos)!

Exactamente! O Tiago nasceu induzido às 41 semanas porque é o “protocolo” a nível hospitalar. Nesse dia a minha médica estava de serviço, na altura eu não sabia das implicações de uma indução (ou porque não investiguei, ou porque não estava assim tão interessada no assunto dos partos), e achava que era natural. “Porque não induzir, se é protocolar?” Pareceu-me lógico, foi proposto pela minha médica, em quem eu sempre confiei e que defende o parto na água, eu não questionei. Acredita que eu trabalhei bastante para que parto se iniciasse naturalmente, na aula desse dia, com a enfermeira-parteira, ela dizia: “Tu vais ver! Vais entrar em trabalho de parto hoje e não vai ser preciso indução!”, e acredita que foi uma aula bastante pesada! (risos) mas infelizmente não teve esse efeito, e tivemos mesmo que recorrer à indução.

Optaram por ter apoio de uma Doula?

Não tivemos doula, nem na altura do primeiro parto (do Tiago), nem com a Sara, e eu explico porquê.
Com o Tiago eu ainda não estava desperta para “estes assuntos”, porque a maternidade não era esse “projecto de vida” (não me imaginaria a passar pela minha vida sem ser mãe mas não era 
uma prioridade). Como tal, o que eu fiz a nível de acompanhamento foi escolher uma obstetra em quem eu confiasse totalmente, e que me apoiasse nas minhas decisões. A Dra. Benilde Magalhães foi quem me acompanhou (e continua a ser a minha médica da especialidade), sempre defendeu o parto na água e sugeria muito essa opção para as mulheres que não queriam um parto medicalizado. Neste caso eu sentia a confiança que precisava: sabia que tinha todo o apoio por parte da minha médica e também da equipa do hospital de Setúbal (que era boa, sempre tinha ouvido falar muito bem!). No parto da Sara também não escolhi uma Doula, e aqui foi já depois de pertencer às Mães d’Água, e de saber mais sobre o parto e estes assuntos para os quais anteriormente não estava desperta, mas não escolhi porque sabia que ia ter comigo a parteira Celeste Varela (a nossa querida Celeste!), para me acompanhar. Acho que ela funciona com o melhor dos dois mundos, não é uma Doula mas é uma Enfermeira-Parteira que faz parto domiciliar, portanto, tem uma sensibilidade incrível para tratar destes assuntos. Ela gosta de acompanhar os casais no pós-parto e faz um trabalho em casa com eles. Eu falei com ela sobre esse acompanhamento, eu queria que acontecesse, mas queria um parto hospitalar, com ela. Senti que não precisava de uma Doula porque tinha esse acompanhamento garantido pela Celeste. Além do mais sempre fui seguida no serviço público (até porque confio muito no meu médico e enfermeira de família, que são meus amigos pessoais), de maneira que sempre me senti muito bem rodeada e confiante no trabalho que desenvolvem. A minha família é muito liberal. O Pedro (meu companheiro), é médico dentista e o pai também é médico e não é fácil fazer a ponte entre os métodos mais naturais e a medicina convencional. Temos pessoas na família que acham que se a medicina evoluiu não é necessário passar por estas situações (de parto natural), perguntaram-me porque pensava eu passar por tudo isso quando temos amigos anestesistas, de confiança. Para nós esta opção é o mais natural, mas para eles é complicar o processo. Este foi um trabalho que tive de fazer em família, e foi crescendo, foi gradual a sua envolvência. O Pedro sempre me apoiou, sempre! Ele sempre disse que o parto é meu. É nosso, porque vamos ter um filho juntos, mas o meu corpo é que iria passar por tudo, logo, tomaria eu essas decisões.

Nunca vos passou pela cabeça um parto domiciliar?

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Não, bom, no nosso núcleo familiar ha dois lados:
Eu, como a metade com maior confiança no Corpo e em todo o processo de parto, e que acredita que as coisas vao correr bem (porque não ha razão para que corram mal!);
E a outra metade, o Pedro, que e medico dentista, com um lado muito racional e desconfiado que diz: “Não, se existe o mínimo de risco nem que seja 1% eu quero estar num sítio onde esse risco é minimizado.

O facto do nosso sistema nacional de saúde não regulamentar o parto domiciliar e não disponibilizar os meios necessários para acesso imediato ao hospital, em caso de necessidade de transferência, aumenta os riscos.

Parto domiciliar comigo, não! Eu apoio-te em tudo… tens o parto na água, o parto no chuveiro, o que quiseres mas, no hospital!” – para mim ficou, automaticamente, fora de discussão, porque o parto é um momento a dois, é para o casal e não só para a mulher. Passa a ser importante a harmonia como família para recebermos o bebé. Não fazia sentido “comprar uma guerra” com o pai da criança. Precisava era de um ambiente com muita ocitocina.

Agora se me dissessem que era só eu a escolher… e se o pai me apoiasse totalmente, eu não tinha dúvidas que este segundo parto teria sido domiciliar. Por estar mais desperta para estes assuntos, por saber mais sobre o processo de parto.

No parto do Tiago, para além de ter a opção da água, não tinha procurado muita informação sobre o assunto, por isso penso que não era opção para mim. No parto da Sara, sem a opção de água no HSB, teria sido um parto domiciliar, sem dúvida.

Fizeram visita ao local? O que sentiste nesse momento?

Não. Olha… pura e simplesmente confiei. Se era uma opção que existia no hospital, e era um projecto que já estava a decorrer há algum tempo e com uma taxa de sucesso incrível, não havia razão para não confiar. De maneira que eu nunca senti essa necessidade. Quando cheguei foi tudo muito natural, deixei que me encaminhassem. Eu conhecia os passos, sabia quando tinha de entrar na piscina (a primeira fase é cá fora), sabia que teria de sair se apresentasse algum risco. Confiei e deixei-me seguir pelos profissionais de saúde.

Quando chegou o dia, como te sentias? Como foi a preparação até à chegada ao hospital?

Foi uma emoção. Eu tinha indução marcada – infelizmente tive dois partos induzidos, por isso eu não sei o que é o trabalho normal e gradual do corpo até entrar na fase activa. Tenho muita muita pena, mesmo muita muita pena de não ter passado por isso, mas mesmo assim…

É uma sensação muito arrebatadora saber que estou a sair de casa para o desconhecido porque não sei bem o que vai acontecer, mas sei que me vai mudar para sempre!

É a experiência mais importante que vou ter na vida, especialmente no primeiro filho, quando há desconhecimento total. Mas estávamos confiantes, eu estava Super confiante, estava lá a minha médica e ela já me tinha garanimg_2919tido que não havia nenhum entrave em, depois de fazer a indução, passar para a água. Na altura já se levantava a questão de haver alguns médicos contra o parto na água e que nem todos estariam a “autorizar” o acesso das grávidas à piscina.

Eu perguntei: “Sra Drª mas alguém pode negar?”.

Ela disse-me “Não!“, por ser um serviço prestado pelo hospital e que se estivesse tudo bem comigo e com o bebé, ninguém o poderia negar. De maneira que depositei toda a confiança nos profissionais de saúde e sentia-me muito feliz. Foi um dia muito relaxado, o Pedro até foi almoçar a casa com os pais e voltou e eu ainda tranquila. Foi muito arrebatador!

Desde a indução até ao parto em si passaram-se 8h o que, para um primeiro parto, toda a gente diz que é relativamente rápido. A indução acaba por antecipar e acelerar a fase inicial de todo o processo. Eu não estava nervosa mas estava expectante, a pensar quando iria começar com as contracções e se iriam aumentar de intensidade, eu já sabia que as coisas iam acabar por acontecer, mas não sabia o momento.

Foste bem recebida e sentiste a tua/ vossa vontade ser bem recebida?

Na primeira vez fui recebida pela Enfermeira Cristina Madruga que é, como sabem, uma defensora do parto na água e do parto humanizado. Quando cheguei lá entreguei o meu plano de parto (ia munida de todas as armas que podia para garantir que ninguém me iria tirar essa possibilidade – de parir na água), ela recebeu o plano, leu, olhou para mim e disse

Ok, estou a ver que sabe bem aquilo que quer!”. E sorriu.

Aí senti-me mais descansada. Ela disse que faria de tudo ao seu alcance para que as coisas corressem bem. Tive a sorte de me deparar com uma defensora do parto na água no SNS, se tivesse sido outra pessoa as coisas podiam ter sido um bocadinho diferentes.

Em que momento usaste a água? Que diferença fez nessa fase do Trabalho de Parto?

A primeira vez que usei a água não foi na piscina. Durante o trabalho de parto, quando as contracções começaram a tornar-se mais intensas, uma enfermeira (já não sei se foi a Madruga ou outra de outro turno) disse que eu não precisava de estar só na bola de pilates. Informaram-me que tinha ali o chuveiro, que podia ir para lá e levar a bola. Esse foi o meu primeiro contacto com a água e notei imediatamente alívio. Depois passei por uma situação que é característica das induções: um pico alto na dilatação. Eu dilatei muito rapidamente de maneira que quando fui para a piscina já estava com 8-9cm de dilatação, ou seja, já estava quase a parir. Quando entrei na água já estava a questionar se aguentaria aquelas dores muitas horas e aí foi fundamental o papel dos enfermeiros que me estavam a acompanhar. Neste caso foi a Enf. Sofia Borges (que sempre acompanhou o nosso movimento e participava no projecto ´Parto na Água´) que me disse:

Não não! Isso é o teu plano de parto, é o teu sonho, tens a água à tua espera, vais já para lá!!”.

Quando eu entrei na água foi espectacular! Senti um alívio do tamanho do mundo. Senti que era capaz de tudo!
Enquanto que cá fora eu já estava a questionar se conseguiria ou não, na água senti-me capaz de tudo! Acalmaram as contracções e a intensidade das dores.

Nesta fase tive o acompanhamento da Enfermeira Elisabete Santos que me ia dizendo para mudar de posição e orientando. Eu estava com o Pedro na piscina e pude relaxar.

Consegui relaxar mais no período expulsivo. No primeiro contacto, no chuveiro, eu senti um alívio imediato, mas na piscina, bom… é uma diferença… Fez-me questionar como é possível a epidural ser o método mais utilizado. As mulheres não sabem o que estão a perder!!

O que sentiste ao ver o teu filho nascer?

É algo inexplicável. Para já tinha o meu companheiro a participar comigo activamente no processo, o que eu acho que é uma benção poder ser acompanhada.2014-03-23-21-48-38 É um sentimento de partilha e de sentir que tens alguém mesmo contigo.
Durante o período expulsivo, a enfermeira, que esteve sempre de fora (felizmente nunca foi preciso intervir), disse-me numa altura para colocar a mão e sentir que tinha a cabeça muito em baixo e que, de certeza, já conseguiria sentir a cabeça do Tiago, eu não pus mão, olhei para baixo e vi cabelos a boiar na água!

Pensei que era capaz de tudo, ele já estava ali! Senti uma motivação inacreditável para terminar o processo. A dor já não era sofrimento era uma missão: trazer o bebé cá para fora em segurança. E a partir do momento que sentes que o processo está a correr bem e vês os cabelos… só depende de ti! Mais um esforço ou dois e está cá fora, nos teus braços. É incrível! É um sentimento de poder inacreditável e de muito amor.

Actualmente, ele tem uma boa ligação com a água?

A primeira palavra do Tiago foi “água”, aos 9 meses.

A sério?

É verdade, não foi por treino, foi mesmo natural, não sei porquê. Ele adora água, começámos a levá-lo para a praia aos quatro meses, porque ele nasceu em Março e no verão fizemos logo praia. Já é o terceiro verão que fazemos praia e ele adora. Tem uma confiança incrível, não tem receios nenhuns, posso deixá-lo uma hora no banho e ele fica lá a brincar e adora.

Como apareceram as Mães d’Água na tua vida?

Soube através de uma colega de escola do Pedro que é Enfermeira-Parteira lá no serviço do HSB que estavam a pensar acabar com o parto na água. Ainda eram rumores. Nessa altura, tive contacto com a página (ainda nas primeiras 24h de existência) das Mães d’ Água e comecei a seguir. Não consegui ficar indiferente e senti que a minha missão era defender, na fase inicial a comunidade de Mães d’ Água, e depois quando fechou o serviço, lutar para que a opção voltasse a ser restituída ao HSB. Para mim não fazia sentido um projecto com tanto sucesso não continuar.

Fiz ginástica de recuperação pós-parto com uma enfermeira do serviço do HSB que também fazia parte da “equipa” do projecto de parto na água e nesse espaço conheci a Inês Anjo, que fazia aulas de massagem infantil. Como a Inês foi uma cara muito visível do parto na água (e o parto dela provavelmente o mais visto em Portugal), as coisas interligaram-se todas e fiquei com os contactos das pessoas mais próximas do movimento e que estavam a trabalhar para que a opção do parto na água continuasse viável.
Foi tudo muito natural.
Como sou de Setúbal e convivi com profissionais de saúde que defendiam o processo, e com outras mães que pariram lá, acabou por ser um envolvimento muito natural. Comecei a perguntar “Como é que eu posso ajudar?”.
Quando soube da suspensão deste projecto e do encerramento da sala com a piscina para partos na água, a minha questão foi mesmo essa: como posso ajudar…? Queria fazer alguma coisa para tentar mudar o sistema e juntei-me ao grupo. O movimento cívico surge daí… muitos seres individuais, mas todos a trabalhar para o mesmo fim.

Isto é um serviço prestado à comunidade. Ou seja, não só pelos filhos futuros que possamos ter, mas também pelos nossos filhos. Para que o parto na água seja uma opção para cada pessoa que assim o deseja.
O primeiro passo era impedir que o HSB, o único com esta opção em Portugal, fechasse. Mas mais do que isso, não tem sentido que algo tão maravilhoso fique só por aqui. Porque não alargar a outros hospitais que possam ter esses equipamentos à disposição?

No parto da tua filha, escolher um parto na água foi imediato?

Sim. A grande questão aqui era como contornar o sistema. Fizemos um “plano malicioso” para tentar “enganar” o hospital (risos),  o objectivo era esse!
Queria ter a Sara no HSB mas queria que nascesse na água. Como o poderíamos fazer?
Já tinha sabido de partos que tinham ocorrido no chuveiro e eu pensei “Tenho de conseguir isto! Como é que o consigo fazer?”. Precisava de ter alguém ao meu lado que me permitisse isso (porque embora o chuveiro exista, isso não e garantia de que possa ser usado durante o parto).
Aí a Celeste foi fundamental!
Tive o acompanhamento humano e profissional incrível da parte dela. Permitiu-me ter um parto acompanhado com tudo à minha disposição, caso alguma coisa corresse menos bem, mas garantindo que eu tivesse um parto o mais natural possível. Neste caso, recorrendo à água a correr, no chuveiro.
Tinha o Pedro, a grande diferença do primeiro parto foi estarmos todos “com água”, mas fora da água.
Ele passava o chuveiro nas minhas costasimg_2945 na região lombar (porque com a Sara tive imensas dores aí), e consegui sempre estar numa posição confortável para mim, na bola de pilates (quase de gatas mas apoiada na bola) e a receber a água na região lombar.

Mas lá está! Estava acompanhada por uma profissional de saúde que trabalha na instituição e conseguiu garantir-me o acesso ao chuveiro.
Este parto foi planeado desde sempre (risos).

Quando falo em “contornar o sistema” refiro-me a fazer tudo o que tinha ao meu alcance para ter o parto que desejava. Neste caso, um parto sem analgesia e, se pudesse recorrer à água, melhor.

A minha médica não estava neste dia, ela sabia que eu queria usar a água, mas não avançamos mais neste assunto porque não se proporcionou. Mas fui muito respeitada pelos profissionais de serviço. Não sei se foi por ter a Celeste comigo e por a respeitarem e confiarem que se fosse preciso alguma intervenção ela os chamaria mas respeitaram as minhas opções, inclusive a de não romper a bolsa (é muito normal nas induções esse procedimento para acelerar o processo).

O que me fui apercebendo com os meus dois partos é que os médicos têm muita pouca paciência para esperar e querem logo “resolver tudo”. E se isso implicar acelerar alguns dos processos naturais, melhor para eles. Como eu não via vantagens nisso, pelo contrário, eu queria um parto o mais natural possível, sempre neguei.

Ela nasceu de bolsa intacta? Como foi vê-la?

Para mim isso é um mistério, mas a verdade é que a bolsa saiu intacta.

A Sara parecia que estava dentro de um saquinho de plástico, parecia muito enroladinha numa película, mas não sabia, estava de costas, foi o Pedro, surpreso, que me disse. Foi mesmo incrível! O mais engraçado no meio disto tudo é que o Pedro estava com o chuveiro na mão e o telemóvel na outra e conseguiu tirar algumas fotografias. Eu não me tinha apercebido, nem estava a olhar para ele, não estava preocupada, estava compenetrada no meu trabalho de parto. No fim é que me apercebi que ele registou tudo o que pôde, e aí sim, vê-se bem a imagem da Sara quando nasceu, com a bolsa intacta!
Uma coisa à qual eu não dei muita atenção no parto do Tiago foi a placenta e aqui eu disse ao Pedro para fotografar quando ela nasceu, eu queria ver, olhar para ela. Desta vez estava mais envolvida com as questões do parto e o nascimento da placenta é outra expulsão, é quase outro parto (“salvo seja!”).

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Ser mãe mudou-te? Quem era a Inês antes da maternidade? E quem és agora?

A principal mudança, para mim, é começares a pensar em primeiro lugar nos teus filhos e só depois em ti. Quando penso em algo equaciono sempre para eles e só depois para mim. É a tua vida e o teu corpo se prolongarem muitas vezes (talvez o número de filhos que tens). As alegrias, as tristezas, os sorrisos a serem multiplicados pelo número de filhos. Essa multiplicação para mim foi algo muito surpreendente, como é algo tão natural. Eu pensava muito nisto antes da Sara nascer… eu pensava como é que, depois de me dedicar tanto a um ser, iria conseguir partilhar esse espaço com outro? Tudo aconteceu de forma natural, é inato.
Antes da maternidade a satisfação pessoal passava muito pela via profissional. Agora, claramente, passa pela família. Tanto que abdiquei um pouco da minha vida profissional para puder acompanhar estes primeiros anos dos meus filhos. Foi uma decisão familiar muito importante, como podes imaginar. E acho que isso revela muito de mim. Eu tenho colegas de uma fase anterior à minha vida com o Pedro que dizem que nunca me imaginaram grávida. Não me viam a ter tempo para dedicar a filhos.

De repente, isso para mim é o que faz SENTIDO. A maternidade… acompanhar os meus filhos.

A minha actividade profissional dá-me prazer mas, neste momento, não dá tanto como os meus filhos e a minha família. Eles passaram a ser a minha prioridade.

Termino esta longa conversa com esta mãe d´água com “voz de rádio”, super meiga, com sentido de humor e dedicada, com um grande abraço de Gratidão.
Confesso que sempre senti uma admiração e carinho por ti, Ines Sobral, desde que entrei neste grupo fantástico e foi por isso uma honra conhecer-te melhor.
Grata pelo teu empenho nesta causa que é a luta pelo parto na água no SNS em Portugal.
Continuo ao teu lado, vosso lado, nesta jornada rumo ao sucesso.

Grata!


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.