Entrevista com Íris Lican Entrevista

Hoje temos uma conversa com a Íris Lican.
E que conversa… Se alguma das nossas conversas/ entrevistas pode ser chamada de “conversa De Mulheres” é esta! Uma conversa de Mulher em todo o seu Ser!

Não vou apresentar a Íris. Vou deixar que esta Mulher-Loba vá sendo descoberta pelas suas palavras
(Vou só adiantar que é uma mulher UAU)…

O que é a feminilidade consciente?

Feminilidade consciente… Na verdade, é trazer as qualidades femininas de uma forma aberta à nossa cultura.
Nós temos um equívoco enorme acerca do que são as qualidades do feminino, e também confundimos o feminino com o ser mulher. Então, feminino e masculino são, para mim, qualidades internas que se podem expressar mais ou menos, tanto em homens como em mulheres.
Sendo que a feminilidade consciente é um projecto que está muito voltado para a vivência do feminino, e é um convite aberto à vivência da importância da qualidade feminina enquanto energia matriz, não só da mulher-mãe mas da própria Terra enquanto matriz, enquanto ponto de origem, enquanto ponto de retorno, enquanto Mãe que providencia a nossa casa e o nosso alimento, preservadora da nossa vida, e é aquela que transforma a morte para que a vida possa continuar.

De certa forma é uma ideia actual sobre o que é que precisamos de voltar a nutrir enquanto forma de estar e de sentir, não só a nossa cultura, mas mesmo na nossa forma de nos relacionarmos e de vivermos no planeta, numa interconexão total entre vários pontos.

Eu sou panenteista, então estou muito ligada às religiões da Terra, e para mim tudo é sagrado. E dessa sacralidade nada se exclui. Isso é muito comum aos povos pagãos ou xamânicos, e dá-nos uma noção imensa de termos um livre arbítrio total e uma liberdade absoluta de interacção. As coisas “são como são”, mas nós escolhemos como é que as vemos e como é que nos relacionamos com elas. Ao saberes que tu és sagrada, a forma como eu vou lidar contigo é muito mais cuidadosa, e a forma como eu vou gerir a minha liberdade em relação a ti (ou em relação a qualquer pessoa, animal ou objecto) é muito diferente, porque fica muito presente que há uma responsabilidade implícita. O que é outro grande equívoco! A nossa cultura adora confundir “responsabilidade” com “culpa”, e isso é uma forma de nos infantilizar imenso porque retira-nos liberdade.

Responsabilidade na base da palavra é “habilidade de resposta”, é capacidade de responder, ter recursos para “dar resposta a”. Esses recursos implicam Estar no Momento Presente. Eu não sei o que vai acontecer amanhã, então eu não posso ter uma resposta preparada para o que vai acontecer, nem o que pode acontecer daqui a bocado! Não sei. Estamos aqui as duas e, sei lá, acontece uma coisa qualquer imprevista e vamos ter que ter um recurso imediato. É criar disponibilidade interior para estar presente e valorizar os nossos recursos – e isto tem tudo a ver com o momento do parto, na realidade.

Todos estes equívocos acabam por aparecer e se nós privamos uma cultura inteira, ou a maior parte dos seus elementos, da capacidade de ter habilidade de resposta, e os deixamos cheios de medo das consequências das suas acções, isto é um problema enorme, porque vamos sempre esperar que alguém faça por nós alguma coisa. Não vamos esperar que alguém nos salve, que alguém nos dirija, e que alguém possa ser culpado em vez de nós se nós fizermos alguma coisa que não corre bem. E acontece! Todos vamos cometer erros, todos vamos fazer coisas que podem causar dano, mas todos temos a capacidade de reparar isso, e de criar um caminho melhor, e de criar em cada obstáculo uma oportunidade.

Então, basicamente é isso: uma proposta de viver mais conscientemente destas três energias essenciais da Destruição, Preservação e Criação, de quando e como colocar cada uma delas em acção, porque todas são benéficas se aplicadas no momento certo.

É estar no momento presente.
É perceber que a ciclicidade é a única forma possível de viver com sustentabilidade, porque as coisas estão sempre a mudar, e quanto mais conscientes estivermos disso mais o processo pode estar a nosso favor em vez de contra nós, e mais podemos alinhar-nos com a vida em vez de sentir que há um “complô” geral contra as nossas vontades individuais. Mas muitas vezes isso passa por reavaliarmos quais são as nossas vontades individuas e perceber se elas realmente fazem sentido numa esfera maior do que a nossa própria dimensão.

 

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És uma “mulher medicina”, o teu trabalho ajuda as mulheres a fazerem um caminho de volta à sua essência.
Como tem sido este teu percurso?
Fala-nos um pouco do teu trabalho.

Sim. É um percurso bastante experiencial. No meu caso específico, eu sou muito curiosa, então eu combino muitas ferramentas tradicionais com muito trabalho de inteligência emocional, de coaching e de coisas assim bem mais à frente do seu tempo.
Na realidade é também muito curioso, porque quanto mais eu estudo em ambas as áreas – de desenvolvimento pessoal, das várias ferramentas que há, de comunicação consciente, de comunicação não violenta; trabalho de consciência somática e libertação somática – mais eu entendo que de facto para as culturas xamânicas isto eram grandes dados adquiridos, que já estavam muito enraizados na sua própria visão (embora de uma forma não tão explícita, não com uma linguagem tão científica ou tão intelectualizada como a nossa). Mas é bem interessante perceber que o “ritual” era utilizado como uma forma de inteligência emocional, de processar emoções, de libertar emoções no corpo, de lidar com a doença a partir de um ponto de vista emocional. Perceber qual foi a emoção que provocou a doença e permitir um contexto onde ela possa ser, talvez não compreendida, mas libertada definitivamente. Há coisas que não é preciso compreender, há coisas que nós não nos lembramos porque é melhor assim, e isso cria uma facilidade em cura-las. Há outras que é o oposto, temos mesmo de reconhece-las e percebe-las claramente para depois poder largá-las também.
Então, na verdade, é o caminho que eu faço comigo própria, é a única coisa que nós podemos oferecer aos outros: aquilo que nós fazemos connosco, tudo o resto vai falhar, não funciona, é uma colagem, vai-nos sempre transportar às nossas incongruências. (Claro que eu tenho montes de incongruências, muitas, e isso faz de mim muito humana e de todos nós muito humanos, e é maravilhoso.) É esse trabalho de encontrar os fragmentos e de alguma forma dar-lhes um fio condutor. Fio que está sempre a mudar! Felizmente, a consciência, nós cada vez percebemos mais que podemos expandi-la, só através de nos propor-mos a contactar com ela. É como descascar assim várias camadas do que achamos que somos e poder entrar em lugares mais profundos do que somos realmente.

Quando dizes que eu sou mulher de medicina, na verdade todos nós somos seres de medicina, alguns de nós decidem assumi-lo, outros não. Mas todos nós somos seres de medicina. Não é uma coisa exclusiva.

Alguns de nós estão mais atentos…
Eu não sou nada hierárquica, eu não acredito muito em ser iniciado nesta ou naquela tradição. Creio que esse tempo já passou. É muito válido e muito importante que tenhamos tradições antigas, mas que possamos recriá-las e não reproduzi-las, porque todos nós já somos do mundo (mesmo as pessoas das tribos já são do mundo). Temos um convite a uma tribo global, feita de muitas tribos pequenas e de uma grande individualidade. Por isso cada um de nós tem que reclamar também a sua própria medicina, e pedir ajuda para reclamá-la, se precisar, e para integrá-la e para traze-la de uma forma pacifica e consciente a si, e aos outros.

 

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O Corpo é o centro do teu trabalho.
Sentes que as mulheres quando te procuram estão muito desconectadas do seu próprio corpo?

Eu não sei se há pessoas verdadeiramente desconectadas do seu próprio corpo. Há definitivamente pessoas com relações muito diversas.

A conexão e desconexão são duas palavras bem interessantes, porque eu sinto que hoje em dia nós temos muita facilidade em simplesmente colocar estas palavras em cima das pessoas e das situações, e eu fico sempre a sentir que não é muito justo, porque cada um está a ter uma experiência diferente, e que foi criada a partir de uma história muito diferente. Todos nós trazemos histórias com pontos comuns, mas também pontos muitos distintos.

Então, há mulheres que têm um acesso bem mais difícil ao seu Poder Pessoal, certamente. Algumas desconfiam muito, e outras criaram uma ideia muito rígida do que é ter Poder Pessoal, e desconfiam na mesma, mas enganam-se melhor. E isto são só dois quadros.

Acho que há muita variedade de relações, e aquilo que eu sinto é que, de facto, tenho mulheres tão distintas umas das outras (com muito em comum, mas com muito de diferente) e eu não consigo dizer se elas estão “conectadas” ou não.

A base do trabalho que eu proponho é uma congruência entre o que Eu Penso, o que Eu Sinto, o que Eu Faço e Quem Eu Sou, e isso é um alinhamento difícil para todos nós.

A minha proposta também assenta muito na ideia de uma não separação entre as nossas várias dimensões. Tudo é energia: corpo é energia, espírito é energia, tudo é energia. A energia tem diferentes formas de se manifestar e se expressar. E o que eu sinto é que tenho mulheres que têm mais facilidade num campo do que noutro, e que às vezes colocam energia a mais num campo e depois vai faltar noutro que é essencial. Isso traduz-se muito na forma como elas vão reflectir acerca do seu corpo. Às vezes elas têm imensa energia no seu campo espiritual, mas que ainda não encontrou uma forma de se materializar e depois o corpo não consegue dar uma resposta tão imediata. Outras estão demasiado “no corpo” e precisavam de conseguir talvez abrir um pouco mais os horizontes, e até as ideias sobre o que é que é estar viva, estar no corpo, sentir-se, e as possibilidades que isso pode ter.
É tão variado que realmente não consigo afunilar para um “conexão/ desconexão”.

 

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Tu falavas no Poder Pessoal.
Como é que tu explicarias o que é isso do poder pessoal?

O que para mim é poder pessoal… há uma autora que eu gosto muito que explica isso de uma maneira verdadeiramente simples: Há o “poder de dentro” e o “poder sobre”, este é o poder de dentro, e este “poder de dentro” não é uma coisa que consigamos reduzir a “eu vou controlar alguém, ou alguma coisa”, mas antes (voltando ao que respondi à pouco), “ok, isto está a acontecer, que recursos é que eu tenho? Como é que eu vou dar resposta a isto Agora? O que é que é o melhor a fazer? E o que é que eu posso fazer de melhor?
Às vezes o melhor até é mesmo pedir ajuda a alguém mas é ter a capacidade de estar presente e criar recursos, e pedir ajuda para criar recursos quando é preciso. Para mim isso é Poder Pessoal.
É não procurar controlar, não procurar gerir demasiado o futuro em relação a uma ideia muito fixa, mas ao mesmo tempo ter um objectivo, só que, se para lá chegar houver desvios, saber lidar com isso como uma parte do caminho.

Sobretudo eu diria que o real poder é aquele onde, o mais possível, o bem de um é o bem comum. Que é uma coisa que nós não temos muito presente, estamos muito habituados à lógica do “poder sobre”, onde o bem de um vai ter que ser o bem de todos, “gostes ou não, ajustas-te e arranjas-te”.

A que defendo é uma lógica de poder onde quanto mais poder tu tens, mais poder eu tenho, mais poder nós temos. E que se baseia numa capacidade empática, e aí sim, de conexão (mas de uma conexão muito alargada a nós mesmas e aos outros), e de empaticamente conseguirmos comunicar e encontrarmos estratégias conjuntas para encontrar soluções. Onde cada um trás o seu input criativo, e a sua energia, para poder traçar um caminho.

É muito o tipo de colaboração que acontece entre a Doula e a Grávida (se tudo correr bem), nenhuma Doula consegue ir com um Set up do que é que vai ser aquele parto, então tem de estar muito disponível, muito empática, muito em comunicação, a encontrar recursos e a receber recursos da mãe. E ambas, juntamente com a parteira, o marido e quem estiver presente, um caminho para Dar à Luz um bebé, ou possibilidades de vida quando não há um bebé envolvido.

 

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A dança como entra na tua vida? E como a ligas ao teu trabalho?

Na realidade eu comecei por dançar. Então, foi ao contrário, tudo o resto é que entrou depois! Eu comecei a dançar aos 13 anos!
Eu nunca pensei vir a dançar profissionalmente (nem sei se danço profissionalmente), houve momentos em que isso foi uma preocupação, mas depois foi uma coisa com que eu deixei de me preocupar.
Eu tenho um amigo que é um professor espectacular de artes marciais (é mesmo um grande mestre), e ele dizia:

“Eu, entre ser profissional e amador, prefiro ser amador. O profissional faz, mas o amador Ama. Então eu prefiro Amar”.

Eu acho que é mais por aí! Eu adoro dançar, danço desde que tenho 13 anos, então construí o meu corpo (construí muitas coisas) com base na dança. Experimentei muitos estilos, depois especializei-me nas danças tradicionais do Egipto e norte de África. Nas Danças femininas e rituais, Danças Sufis também, porque estudei com um mestre Sufi Egípcio. E fui investigando muito, em dança contemporânea, em muitas outras tradições étnicas também, e fui criando o meu próprio trabalho.
É no fundo a relação que eu tenho com o meu corpo e com própria natureza, e de certa forma essa relação com o corpo e com a natureza são a base daquilo que eu sinto que é a minha relação com as outras coisas. Mas a dança entrou primeiro, foi a primeira coisa a chegar. A dança e depois o yoga, e tudo o resto foi aparecendo a partir daí.

 

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Tu também és Doula. Como é que surge esse interesse na tua vida?

Como eu estudei muito e me especializei muito nas danças do norte de África e também nas tradições portuguesas femininas, percebi que todas as tradições femininas são ligadas à Menstruação, Sexualidade, Nascimento e Morte. São os quatro aspectos essenciais. E eu comecei a sentir que sabia tão pouco sobre o que era nascer…

Eu sempre gostei muito de mitologia, e lia muito em criança sobre mitologia, era muito apaixonada por culturas pagãs e por culturas xamânicas e isso esteve muito na base da minha estrutura de pensar. Eu era assim bem “geek”, faltava muito à escola para ir estudar sobre esses assuntos, ficava a ler coisas paralelas, então eu comecei a perceber que nós temos uma cultura bem doente, comparando com as estruturas tribais e o seu funcionamento. Numa estrutura tribal toda a gente, desde sempre, desde que nasce, está exposto a pessoas que estão doentes, a pessoas que morrem e a pessoas que nascem, e isso é o normal.

Normal igual a natural. Não igual a “norma”, mas igual a “natural”, porque o nosso “normal” devia ser esse, devia ser o que é natural para vivermos juntos no planeta, mas não… (Mas está tudo bem, agora fazemos o caminho de volta.)

Eu comecei a perceber que não sabia nada. De Morte tive “a sorte” de ter os meus bisavós e os meus avós a morrerem, então ainda houve qualquer coisa que aprendi daí, mas de vida eu não sabia mesmo nada! Tudo o que eu sabia é que eu tinha nascido por cesariana por anestesia geral… e parecia-me que não era muito interessante como proposta.

Então fui fazer o curso de Doula.
Também sentia que estava com mulheres o tempo todo e, claro, queria perceber um pouco mais aquelas que eram mães, qual era a experiência delas (que estava muito longe dos meus horizontes).
Menopausa, eu tinha a minha mãe em casa em Menopausa, e acompanhei esse processo.
Menstruação, claro, eu e as minhas amigas passámos juntas, então, acompanhei esse processo.
Sexualidade, bom, Sexualidade é todo um tema… que ninguém sabe bem, e toda a gente vai fazendo assim aos trambolhões e aos tropeções até que um dia temos a sorte de procurar uma via um pouco mais esclarecedora. Creio que é muito rara a pessoa na nossa cultura que tem a sorte de ter uma iniciação sexual esclarecedora, apoiada, holística… não acontece muito… E eu tive muita sorte! Eu tive um início de sexualidade maravilhoso. Gostaria de poder ter tido um enquadramento mais informativo, mas tive uma experiência maravilhosa. E fui muito abençoada, porque éramos os dois pessoas já muito conscientes, apesar de bastante jovens.

Foi isso. Foi muito nessa busca do que é que era nascer, e qual seria o melhor caminho, e por ser uma questão que me começou a surgir muito. Também porque eu venho de uma família de parteiras, na realidade, uma grande linhagem de parteiras até à minha bisavó (depois a minha avó e a minha mãe mudaram de caminho, mas esteve muito presente na linhagem materna da minha família), e eu tinha uma fascinação por isso.

O que fazes enquanto Doula? Qual é o teu papel?

É muito variado. É interessante pois há uns dias eu estava a falar com a Carla Silveira e falávamos justamente sobre isso, sobre a multiplicidade do que é ser Doula. É tanta coisa! E é tanta coisa diferente para cada Doula, eu acho. Cada uma leva muito a sua própria experiência para o parto.

Para mim (ser doula) é ter a capacidade mesmo de mergulhar no silêncio, e de nos abrirmos a sentir totalmente aquela mulher e percebermos como é que podemos ser úteis. Às vezes o ser útil é estar lá em silêncio e não fazer quase nada, às vezes é olhar nos olhos e segurar na mão, às vezes é fazer um trabalho mais profundo.

Na minha proposta de trabalho eu trabalho muito com movimento consciente então procuro, quando vejo que há uma dificuldade em gerir a energia intensa que está no corpo, apoiar este processo com recursos que a mãe já tenha e que possam abrir-lhe um caminho de maior capacidade para lidar com aquele momento. É uma proposta também de apoio emocional quando necessário e sempre que necessário.
Pode ser fazer a sopa… Enfim, é cuidar das mais variadas maneiras.
É saber também como ser uma figura de suporte mas totalmente invisível, e não opinativa, onde tudo o que vem é uma possibilidade. Na verdade o sentir de cada mulher é muito sagrado e ao entender isso também podemos ajudá-la a relativizar, é muito sagrado, mas não precisa de ser para sempre.

Numa sociedade vazia de rituais tu trabalhas muito com o poder destes. Como é isso?

Eu uso muito os rituais na perspectiva original. Como eu dizia há pouco, os rituais são uma forma profunda de inteligência emocional, a nível individual e a nível colectivo, porque eles têm a capacidade de colocar toda a gente naquele momento. A intensidade deles faz mesmo com que a tua atenção não se consiga desviar, tens mesmo de estar ali, por mais desconfortável que seja não consegues sair. Se está a tocar o tambor ou se está alguém a cantar não dá para não ouvir, só mesmo se saíres daquele espaço físico, mas se a tua proposta foi ir até lá a maior parte das pessoas não sai a meio por mais estranho que esteja a ser. E é muito bonito, porque por mais desconfortável que seja no final é sempre um alívio e uma libertação.
De certa forma é um espaço que nos permite aceder a uma estrutura interior que não está tão alicerçada no racionalismo, e depois do ritual conseguimos ter uma série de insights que vieram de outros lugares de nós que se abriram ali precisamente porque não tínhamos oportunidade de segurar o que pensamos. O ritual é tão rápido e é tão intenso que tu tens um pensamento e a seguir ele já passou, tu estás a elaborar sobre, ou uma justificação para, ou um julgamento, ou uma avaliação, e ele não deixa! Vai acontecer qualquer coisa que corta isso e te leva já para outra coisa, ou que te faz estar ainda mais presente. Estás a ter um pensamento e de repente tens que bater com os pés no chão, ou de bater palmas, ou de fazer qualquer outra coisa, e a tua estrutura mental vai explodindo por dentro. E isso é muito bom!

Há um livro que eu gosto muito, que é “As Sete Plumas da Águia” (eu não sei se existe em Português, eu li em Francês), onde o autor diz:

“A maior parte de nós vive dentro da sua mente como alguém que está fechado dentro de casa e nunca foi ao jardim. E que depois nunca abriu a porta do jardim para perceber o que é um bosque…”

Os rituais têm muito essa função, é um pouco abrir as paredes de casa, abrir as janelas, pôr tudo a arejar… e olhar para fora, para o jardim, para perceber que há outras coisas, outras possibilidades. É saíres da esfera do teu sofrimento, da tua dor, da tua experiência, para uma experiência que também é tua mais muito mais amplificada, e que não está só identificada a uma série de memórias, de conceitos ou de ideias fixas.
Muitas vezes ele é útil quando nós já fizemos todo um processo de consciência e vemos que há assim alguma coisa que empancou ou que há dimensões mais profundas e que há um caminho mais rápido por aí. E de facto é muito mágico pôr alguém a cantar, ou a dançar, ou a fazer uma oração espontânea – uma oração que não seja ensinada por ninguém mas que a própria pessoa faça – às vezes é preciso apoiar um pouco também no que a pessoa diz… às vezes tu ouves e pensas
“Que realidade tremenda que esta pessoa diz quando faz este statement, esta frase”, então, com muito jeitinho vais lá e dizes
“E se fosse antes assim, o que é que achas? Como sentes?” E a pessoa responde:
“Ah, um grande alívio”,
“Fixe! Então diz antes assim! Não penses duas vezes! Por onde inspira é o caminho! Por onde sufoca não! Porque morres por dentro…”

É um caminho profundo de poder abrir horizontes.

Por exemplo, no parto, eu trabalho muito com tambor xamânico e com o cantar – quando se proporciona, não é em todos os partos, nem são todas as mães que estão para aí viradas, ou para quem faz sentido – e há resultados mesmo incríveis. Muitas vezes elas estão no processo de tentar perceber porque é que não está a funcionar, porque é que não está a avançar, e já se esgotaram, não conseguem perceber, não têm recursos, e, de repente, entrar num momento onde elas podem sair daquela busca permite-lhes encontrar respostas noutros lugares onde elas não estavam com capacidade de ver. Permite soltar o corpo e relaxar. Relaxar e entregar-se a outra força que ainda não tinham contactado dentro de si.

 

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Falas-me um pouco do teu trabalho sobre a sexualidade sagrada?

O meu trabalho sobre a sexualidade sagrada… na verdade eu não sei se tenho um trabalho sobre a sexualidade sagrada. Eu tenho um trabalho sobre a sacralidade da vida, e de estarmos vivos. E naturalmente a sexualidade não se exclui daí e é uma parte essencial, mas o meu trabalho não foca apenas a sexualidade. Creio que se fôssemos falar de sexualidade há pessoas que desenvolveram um trabalho muito mais profundo do que eu. Eu passo pela sexualidade porque é impossível não passar, e porque é uma força essencial da nossa energia, mas aquilo que eu diria que é o foco do meu trabalho é a consciência. Quer seja a lavar pratos, a varrer o chão (ou a ser Doula, é igual), eu estaria na mesma a servir a consciência.
Então a sexualidade passa por aí porque ela é a força que, enquanto temos um corpo e estamos vivos, é a nossa energia matriz. Porque é a energia de onde fomos gerados, é a primeira energia que recebemos, todos nós viemos de um momento de sexualidade, então é a qualidade da semente que nós somos. Este princípio é muito importante, porque algumas sementes vão ter força para germinar e ser um carvalho, e outras não. E isso é algo que acontece ali, naquele momento – e claro que todas as vicissitudes que aparecem também são boas, é tudo uma história e não é semente é composto, tudo nutre! Tudo vai servir para o que precisas de fazer, se conseguires vê-lo como um recurso, e não como um obstáculo.

A sexualidade é esse princípio, esse princípio da concepção.

Esse princípio da auto-concepção – que é uma noção que eu acho que nós perdemos – que cada um de nós renasce a cada vez que faz amor.

É sempre a primeira vez que fazemos amor, nunca é uma coisa repetida, e ter essa capacidade de ir com uma mente de principiante para a sexualidade é importante, porque estamos perante um grande mistério, onde imensas forças terrenas e universais nos inundam e onde, de facto, há uma série de camadas e que deixamos ir, como as serpentes, e renascemos a partir daquela comunhão tão profunda.

E o orgasmo é isso, é uma energia tão para além do corpo, da mente, e do conceito, que às vezes até é avassalador demais e a maior parte de nós controla um pouco, para não levar assim com aquela tremenda e não ficar “sem chão”: vai-se e vem-se.

A sexualidade sagrada é um trabalho de comunhão com a própria vida. Sexo e sexualidade não são a mesma coisa, e para mim sexualidade é essa capacidade de fazer amor com a vida e de procurar trazer este orgasmo, que esta avalanche de energia renovadora e regeneradora a todos os momentos (seja onde for que ela nos leve) que depois encontramos recursos para lidar com isso.

 

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Como foi o Parto como ritual de passagem, para ti?

Ah pois foi! Para mim e para todas nós. Seja que tipo de parto for!

Ainda hoje estava a fazer a minha prática matinal e estava a pensar… o meu filho vai fazer sete anos agora, e eu estou num momento em que estou a passar por um desafio bem forte a nível da minha saúde física (que não é nada de especial! Há pessoas com problemas bem mais graves, mas para mim é forte porque sou eu que o sinto! Mas comparativamente à realidade de outras seres humanos, eu sou super abençoada!) e eu estava a ver os Padrões que estão nos meus órgãos internos (que são coisas que, algumas estão muito conscientes e outras, que estão curadas absolutamente no além do meu ser), e eu estava assim a observar o quanto vem desse momento gestacional, e o quanto eu sinto (nos padrões da minha família também), coisas que depois me impactam.

Então estava a fazer uma prática super simples só de entender: estava com o meu cólon com montes de dores e estava a perceber qual é a sensação emocional associada a esta sensação física, e estava a pensar:
“Bolas, antes do meu parto eu estava mesmo desconectada com esta história do cólon irritável. Eu já tinha, mas eu era tão bulldozer que eu nem sentia!”.

Percebi isso, e depois, no trabalho, apareceu-me a palavra “desconfiança”, e estava assim nessa “meditação da desconfiança” e de onde é que tinha vindo. Eu tenho uma família que é tão desconfiada de tudo e mais alguma coisa que é uma coisa impressionante, desde de si próprios até à vida no geral, é a escala inteira.
Estava a avaliar isso é estava a sentir, “então e no meu parto?”.

É interessante, por que facto eu tive um parto em casa, e tive um parto maravilhoso, mas, nem por um momento eu confiei em mim! Eu confiei na Terra, eu confiei na Grande Mãe Divina, eu confiei na Força do Universo, mas em mim não! É um absurdo total!

E que é lindo na verdade, pois eu utilizei todos estes elementos para confiar em mim. Mas confiar em mim directamente estava completamente fora de questão naquela altura, e hoje foi a primeira vez que eu me dei conta! E é mesmo interessante, porque realmente eu pari super bem, mas no esforço, na intensidade, na guerreira, e era tão desnecessário!
Bastava, gentilmente, permitir-me confiar em mim própria. Claro que há sete anos atrás eu não tinha o menor recurso de o fazer. Não tinha. Não era mesmo possível. Se eu desse à luz hoje já seria uma outra história, porque eu já sou outra pessoa, e foi muito interessante ter essa constatação.
Ah, e também não confiava totalmente nas pessoas que estavam lá! Eu confiava mesmo era em todos os elementos mais etéricos. Confiava muito na minha Doula, na minha parteira… “kind of”, no meu companheiro não!, de todo. Claro, ele era o espelho mais directo de mim, se eu não confiava em mim, como é que eu ia confiar que eu tinha feito uma boa escolha? Impossível! (Mas conseguimos! Oito anos depois eu já confio nele assim incondicionalmente, o que é um bom reflexo para mim própria!)

Consegues ver a gravidez e o parto como uma forma de descoberta sexual?

Claro. Muito. E que às vezes vem pela dor também. Acontece muito nós termos uma identidade sexual que no momento do parto se desmonta, e essa é uma das grandes questões do pós-parto.
Eu creio que o pós-parto é como a menstruação, é daquelas áreas que toda a gente vê e ninguém olha. Toda a gente sabe que está lá, mas ninguém olha! Ninguém vai mexer, é tudo “normal”, e ninguém mexe naquele assunto.
Para mim o pós-parto foi muito importante porque me trouxe uma experiência muito profunda com o meu próprio corpo. Primeiro, ninguém nos explica que a nossa vulva vai mudar radicalmente durante a gravidez, que é outra vulva. É outra coisa! E ninguém nos vai explicar que depois de parir um bebé pela vagina é outra coisa ainda!
Os nossos pontos de prazer mudam, a nossa sensibilidade muda, o nosso corpo muda. De repente estamos a relacionar-nos com um órgão genital que nem sequer nos parece o nosso e é suposto ser tudo normal. E nós, claro, seguirmos para o sexo como se fôssemos exactamente as mesmas de antes e com o ênfase de uma jovem. A maior parte de nós claro que não consegue, estamos ainda a adaptar-nos, o lugar o útero é outro… nós sabemos que fisiologicamente há um timing para as coisas acontecerem, mas fisiologicamente também sabemos que há um grande mistério e que nem todas seguimos a média do timing estipulado. Tal como não seguimos para o parto, não seguimos para a recuperação do parto, nem seguimos para nenhuma outra coisa. Cada uma de nós vai fazer uma experiência pessoal.
Depois há a questão da libido, também temos pouca informação de que no pós-parto 80% das mulheres tem uma redução ou total ou muito significativa da libido, e isso é uma informação importante, porque depois o que acontece é que os casais vão “personalizar”. O pai vai achar que a mulher se desinteressou porque há um bebé, que é aquele quadro mais clássico, e que se baseia num erro de cálculo e de avaliação absolutamente fundamental que é: não é uma questão de desinteresse, ela não deixou de amar o marido, ela não está a desejar porque está a amamentar e há um trânsito hormonal que faz com que assim seja.
Muitas vezes ainda colocamos um peso extra de “se calhar há uma questão entre vocês que tu não estás a ver”, e a mulher pensa: “não só eu não estou a dormir, e estou a amamentar, a mudar fraldas e não tenho vida própria como eu não consigo fazer amor e tenho um problema afectivo ou sexual!”. E muitas vezes é muito mais simples.

Muitas vezes é só perceber que é natural, é uma fase, vai passar!
Que estratégias é que podemos ter para vocês se conectarem?
De que forma é que este companheiro pode também dar este tempo a esta mãe?

Porque quando o companheiro dá tempo isso já é uma forma de criar afectividade e conexão tremenda, porque em vez de ele estar a olhar para o que não tem ele vai olhar para o que tem. E ambos vão olhar para o que têm, que é um foco muito importante num casal, ver o que há em vez do que não há. O que não há cria cada vez mais distância, mais carência, mais ferida, mais ausência… e quanto mais estas qualidades se aprofundam num casal mais dolorosa é a comunicação, porque todos vão estar a comunicar a partir de um ponto de ferida e não a partir do que querem. Comunicam a partir do pedido do que não estão a ter.

É importante informar pouco a pouco o casal sobre o pós-parto e sobre as estratégias para lidar com o pós-parto. E como manter a conexão em momentos de cansaço extremo.

Nós, mesmo quando os nossos filhos já são crescidos, em situações de cansaço extremo todos temos uma comunicação tendencialmente estúpida. Qualquer ser humano consegue reconhecer isso. Então como é que nós podemos pedir a casais que cuidam de recém-nascidos que eles tenham uma comunicação inteligente? Claro que é muito difícil de se manter.
Mas talvez seja possível que em pelo menos cinco minutos por dias eles possam só tentar parar e tentar não se funcionalizar mais e não pensar mais nas compras, na comida por fazer, na máquina para lavar, nas fraldas.. e estarem ali cinco minutos a contactarem, a olharem um para o outro, a relembrarem porque é que se amam, a nutrir as qualidades um do outro e a verem-se! Só cinco minutos de se verem e serem vistos. Isso já dá intimidade que vai nutrir naturalmente a sexualidade.

Mas se nós retiramos os momentos íntimos ou se os disfuncionalizamos, não podemos esperar que depois a sexualidade funcione. E é um desafio para um casal com um recém-nascido ter momentos íntimos. Qual de nós é que conseguiu? É um desafio tremendo! Mas qual de nós é que sexualmente aberta se essa intimidade não tiver a existir e se essa conexão afectiva não estiver a existir?
Então, há aqui um espaço afectivo que passa pela transformação do casal em família, o que é um grande desafio, e de como é que este casal consegue pouco a pouco renutrir a sua relação e não se perder só no aspecto “familiar”.

Há uma coisa que nós também temos muito na nossa cultura, nós temos gerações e gerações de avós e de pais que vivem desconectados desde que nós nascemos e que nunca conheceram outra coisa, ficaram juntos numa desconexão absoluta. E normalizou-se essa maneira de estar.

E outra coisa que se normaliza muito é que nos primeiros três anos de vida de uma criança há a maior taxa de separação entre os casais, e isso não pode ser uma norma!

É um sinal de que há uma cultura doente em relação ao pós-parto.
Uma cultura doente em relação às expectativas do que é um casal no pós-parto.
Uma cultura doente em relação às expectativas sobre a sexualidade no pós-parto.

E é claro que se calhar também podemos apoiar o pai no sentido de poder masturbar-se! É maravilho! E ele pode faze-lo.
É vital não colocar sobre a mãe todo o peso de ter que realizar uma relação sexual no momento em que ela não consegue. E o pai não sentir que tem de procurar outra mulher para, mas empoderar-se a ele próprio! Dar-se prazer. O que dá tempo de espera.

Outra coisa que eu acho que também é muito importante é dar tempo de toque. Só de tocar, só de carinho. Porque muitas vezes as mulheres em pós-parto precisam muito de voltar a amar o seu próprio corpo, e haver alguém que valoriza o corpo, que dá imenso colo, imenso carinho, permite que elas saiam do espaço da performance sexual – infelizmente para muitos casais a sexualidade ainda é uma performance – e que idealmente possam passar de um momento afectivo para um momento sexual de uma maneira muito mais natural.

Se eu sou tocada, se eu sou mimada, eu posso não ter vontade sexual e não ter libido, mas eu vou-me abrindo, e quanto mais eu abro mais o desejo começa a brotar naturalmente.

E se calhar até vamos descobrir juntos quais são os meus novos pontos de prazer, o que é que funciona o que é que não funciona, qual é o ritmo, quem é que eu sou agora… e isso tudo ser uma descoberta conjunta que pode de facto fazer de um momento desafiante um dos momentos de maior conexão. Que pode dar imensa força e imensa estrutura a este casal no potencial que tem de seguir junto para a vida e de se acompanharem em momentos desafiante e até dolorosos.

O que é uma grande inspiração para os nossos filhos! Escusam de ir desfuncionalizados de base, e podem receber a experiência dos seus pais em relação a isso – Que é uma coisa que também ninguém fala.

Toda a gente tem montes de sugestões para dar: como é que o bebé deve nascer ou não, se deve andar ao colo ou não, se leva chupeta ou não… e depois o mais grave é que nós, subconscientemente, continuamos a achar que é natural uma mulher no pós-parto forçar-se a ter relações com o marido. E não é! E eu muitas vezes vi isto a ser uma realidade subconsciente para muitas mulheres: “ah não está a funcionar muito bem mas eu esforcei-me um pouco”. E depois, coitados, os homens acham que está tudo bem, muitos deles até acham que a mulher está óptima, porque ela não comunicou nada em contrário! Então, ele pode estar a magoá-la sem querer, e dentro dela vai haver uma culpabilização dele, mas numa coisa que em primeiro lugar, ele nem sequer se apercebe que está a acontecer.

É mesmo importante criar este espaço. E sinto que é importante também que Doulas e Parteiras possam trazer uma informação esclarecedora para o casal à cerca do que é que pode ser o pós-parto. E que se pode estender, porque um pós-parto podem ser anos e anos. A quarentena não é realista para ninguém (a Naoli disse no curso dela que cada pós-parto é uma vida, e é um pouco assim, porque mudamos para sempre!). Mas o pós-parto imediato, a meu ver, são pelo menos três anos, porque realmente é uma reestruturação tremenda, um reencontro tremendo a vários níveis.

 

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Tu és mãe d’ água (o teu parto foi na água)?

O meu parto foi dentro e fora de água. Foi assim meio cá, meio lá, meio pelo caminho.
Eu comecei na banheira.
Não, mentira, eu comecei no sofá a ver as “Desperate Housewives”, e comecei a sentir-me desconfortável e a reclamar com o meu irmão e a dizer:
Este sofá do Ikea é uma porcaria! Tantos sofás confortáveis que há no Ikea e este aqui faz dores!”.
Levantava-me e ficava bem, sentava-me e tinha dores. Eram contracções, mas eu nunca tinha sentido contracções na vida portanto aquilo para mim era só um desconforto do sofá.

Depois fui para a banheira, e é muito interessante, porque a banheira trazia-me imensas memórias. Eu tinha perdido os meus avós maternos precisamente um ano antes de ser mãe, e trazia-me imensas memórias dos meus avós, era assim mesmo forte.

Na verdade foi um parto que teve muito de luto também. E eu estava em paz com o facto de eles terem morrido, não estava em paz com a maneira como morreram… a minha avó sim, o meu avô não. Gostava de ter acompanhado mais, ele estava no hospital em Coimbra, eu estava em Lisboa. Estava a fazer muito trabalho emocional e espiritual com ele mas à distância, queria estar a fazer lá, e isso fez-me sentir bastante culpada. E isso na água veio-me imenso.

Muitas vezes era tão intenso, tão intenso. Era uma coisa bem subconsciente, eu conseguia gerir até certo ponto, mas havia ali um momento em que aquilo se tornava mesmo uma bola.
Então eu saia da água, enraizava-me no chão. Andava, punha-me de gatas, dançava. E começava a gerir muito melhor e atravessar aquele quadro.
Então estava sempre assim, dentro e fora, dentro e fora. Entrava na água e ficava super emocional e saia da água e conseguia lidar com aquelas emoções que estavam a aparecer.

(Na piscina eu não estive muito por uma razão: a minha piscina tem um chão insuflável e eu não conseguia ter um apoio estável, e não conseguia relaxar por isso. Se o chão não fosse insuflável tinha sido genial, mas aquele chão insuflável era mesmo um incómodo.)

Usei muito a banheira – aliás, o meu parto foi todo na casa de banho, não é o sítio mais romântico, ainda por cima uma casa de banho minúscula, que tinha uma sanita que era atrás da porta de tão pequena era! A parteira estava do lado de fora da porta a ver-me pelo espelho porque não cabia na casa de banho – mas é claro que esse foi mesmo o cenário que eu escolhi, porque na verdade eu queria que a parteira estivesse lá “para o caso de”, mas eu não queria verdadeiramente que ela estivesse lá totalmente. E ela percebeu isso! E foi maravilhoso. Ela foi de uma perspicácia e de uma sensibilidade muito profundas e respeitou muito o meu espaço (também quando ela chegou o parto já ia bem avançado).
Depois acabei por dar à luz… o expulsivo foi todo sentada, estava sentada na sanita que era o único sítio que dava jeito (e é interessante porque o meu filhote ainda hoje tem um fascínio imenso por sanitas. Se ele escolhe um Lego ele vai escolher um Lego que tenha uma sanita. É super cómico! E conta histórias mirabolantes com sanitas. É uma coisa assim mesmo engraçada que ficou e que nós nos rimos todos muito), mas não foi lá que o meu filho nasceu, o expulsivo foi aí, mas ele nasceu de pé, não fiz o expulsivo até ao final na sanita. Mas eu estava sentada e adormecia entre as contracções, depois acordava e tinha mais uma contracção super forte e adormecia outra vez.
Foi assim. Foi mesmo uma twilight zone absoluta, mas linda!

Dei à Luz em pé, e logo a seguir a dar à luz fui para a piscina, e aí sim fiz o nascimento da placenta na piscina. Aí soube-me muito bem, precisamente por o chão ser insuflável, fiquei a boiar e a relaxar daquele parto tão intenso que eu me tinha proposto a fazer. E foi muito bom.

Qual é a tua opinião sobre o parto na água?

A minha opinião sobre o parto na água é que é um recurso muito valioso que deve ser gerido com muita sensibilidade.
Precisamente pela minha própria experiência eu pude perceber que cada uma de nós vai ter uma relação íntima e única com a água.
Íntima e única com qualquer outro elemento de parto.

Aquilo que eu sinto é que a água é um recurso muito valioso, sobretudo num contexto hospitalar, e sobretudo se for usado com conhecimento, mas que é importante respeitar e perceber quando a mulher pode sair e entrar.

Mas fundamentalmente aquilo que eu sinto é que todos os recursos naturais que nós tenhamos disponíveis devem ser possibilitados e facultados às mulheres, tanto em casa como no hospital.
Os panos; as bolas; uma boa alimentação (que se exclua a necessidade de soro, esse é um campo onde cada vez há mais informação, mas a nível hospitalar ainda estamos muito debilitados. Não sabemos verdadeiramente como apoiar a mulher a comer bem no parto, e no entanto é super simples ter snacks bons para as mulheres. Deveria ser algo que nós nos habituamos, que é comum e que é normal); ter piscinas de parto também deveria ser um cenário super normal; ter os rebozos; ter um tapete de yoga…
Ter mais informação sobre movimento e sobre a importância do movimento, não só da respiração mas do movimento.
E sobre tudo ler muito na grávida, o que é que já é uma linguagem corporal e emocional inata, como potenciar o que é que ela já tem (em vez de a estar sempre a puxar para um lugar novo).
Muitas vezes o que falha no parto, e sobre tudo no parto hospitalar, é, de repente, das pessoas mais incríveis e mais “humanizadas”, surgir ali um momento de monitorização aeróbica que é: puxa não sei o quê! Põe a perna não sei onde! Respira não sei como! Faz força assim e assim!… E tu sentes-te como alguém que chegou a uma aula de ginástica estranha e está a tentar articular dez coisas ao mesmo tempo, em lugares diferentes, a partir de um estado totalmente alterado de consciência! E acaba por confundir imenso a grávida e stressá-la também. Então, se calhar, observar muito mais quais são os recursos que ela tem e ir com isso, adaptar-nos a isso.

E nesse sentido a água é extraordinária, porque na água, muitas vezes, é onde as mães vão à procura do que o seu corpo. Porque ali é mesmo o contexto! Se elas estão de pé, estar de pé já é um lugar habitual… ou estar deitada, enfim, lidar com a gravidade é um lugar habitual, mas o banho… elas vão mesmo para outro espaço. Elas podem ter outro tipo de encontro consigo mesmas. E para quem está a acompanhar abre-se um potencial de observação completamente maravilhoso daquela mulher. E às vezes o maravilhoso é: “ok, se calhar vamos ter que sair da banheira que vai ser útil fazer o processo mais fora.”

Também sinto que, de facto, em contexto hospitalar seria ideal que todos os bebés tivessem hipótese de nascer dentro de água. Era espectacular, era bastante melhor.
Em casa – eu sou uma activista do parto domiciliar, eu acredito muito no parto domiciliar, para mim é o contexto ideal, o contexto hospitalar deveria ser um contexto de emergência, não mais – acho que nós podemos dar-nos ao luxo de ver o que é que acontece e como é que acontece, tendo todos os recursos e mais algum disponíveis, e deixar a grávida fluir e usufruir de todos eles com o seu tempo e com a sua vontade.

E permitir esse espaço, que também acaba por levar a grávida muito ao encontro da criança interior, que é um espaço muito bonito dela experimentar, e às vezes até brinca com as coisas e relativiza imenso a dor. E é bom! É bom porque todas essas possibilidades podem surgir não só como um alivio da dor, mas como uma experiencia, em que ela vai fazer e que de repente encontra uma posição que funciona (e quantas delas não se riem de uma coisa que não tem nada haver, porque estão também a brincar!) De facto a brincadeira na infância serve para isso, a brincadeira é a capacidade de experimentarmos algo para ver se funciona, e a brincadeira é treino para a vida. Então, no parto ter essa noção de que experimentar coisas é criar uma brincadeira, que é uma possibilidade útil para que o parto possa acontecer, e que pode retirar toda a carga que às vezes nós levamos.

Um momento iniciático às vezes é tão mais iniciático quanto mais gentil e quanto mais leve. E os processos mais profundos – e aqui se calhar voltamos um bocado à feminilidade consciente – o que eu tenho visto, e o que tem sido a minha aprendizagem pessoal, é que o mais duro, de facto, é nós percebermos que enquanto mulheres a receptividade não é passividade.

A receptividade é uma escolha consciente e pró-activa tremenda.
Escolher abrir-me a algo, escolher abrir-me para dar à luz é um acto de consentimento esclarecido muito profundo.

Nós não somos (ninguém é), naturalmente receptivo nem aberto, porque isso seria um bocado estúpido. Isso significaria que não tínhamos a mínima noção de auto-preservação e há coisas para as quais é suposto nós nos fecharmos. – Nós temos isso bem claro na nossa vagina, há coisas que não entram, há momentos, há pessoas que não vão entrar nunca! Não é negociável. E ainda bem! – Tal como há situações nas nossas vidas às quais nós vamos dizer não. “Eu aceito isto como é, mas não é para mim agora.”

A receptividade e a abertura vêm mesmo de um espaço consciente, que é importante trabalhar. E a abertura acontece quanto mais confiança houver.
Então não é espectável que uma mulher se abra para parir quando ela não está num espaço de confiança. De confiança íntima em si, ou seja no que for, mas o elemento de confiança é mesmo fundamental.

De facto nos processos femininos, quando as mulheres se abrem, elas vão muito, muito mais profundamente, seja qual for o processo. Mas nós só abrimos em confiança e em gentileza. É como para fazer amor, qual de nós vai abrir ao ser forçada a fazer amor? Nenhuma! Nenhuma de nós consegue lubrificar e abrir quando é forçada, obrigada “a”.

Culturalmente nós construímo-nos, e construímos muito a nossa identidade na base do esforço. Nós acreditamos muito que é com esforço que as coisas se conseguem, e isto fala imenso sobre a forma, de facto, como nós vamos olhar para a natureza das mulheres.

Porque a nossa sexualidade e o nosso parto não devem, não precisam, ser um esforço, podem acontecer em abertura. E abertura implica confiança, e confiança implica tempo, implica expressão e aceitação, empatia e gentileza.

Quando fazemos amor, podemos fazer amor de uma forma super intensa, mas quanto mais gentil é o processo mais emocionalmente profundo ele vai ser também. E geralmente quando nós fazemos mesmo amor de uma forma hiper gentil, às vezes até acabamos em lágrimas e a trabalhar coisas que nem sabíamos que estava lá.

O esforço leva-nos ao limite, e o limite encontra um muro que é o “vou até aqui e não vou mais”, que é o que acontece com qualquer pessoa que é forçada a qualquer coisa, ela é obrigada até certo ponto, mas interiormente há um ponto dela em que ela se fecha e rigidifica para proteger o núcleo mais sensível de si mesma.
Quanto mais gentil é o processo, menos há a sensação de que chegamos a um limite, o limite desconstrói-se e vamos atravessando com imensa gentileza.

Como a água, a água é tão gentil e ela vai furando a pedra.
De repente estamos completamente abertas, e super vulneráveis, a trabalhar mesmo a sério.
A permitir mesmo a sério este grande fenómeno que é a abertura e a receptividade.
A desconstruir ideias de identidade e a ir muito mais profundamente.

A gentileza é mesmo uma grande chave e implica uma prática muito sensível de todos nós. Mesmo porque a gentileza começa de nós para nós, e esse é que é o grande trabalho! Porque nós forçamo-nos imenso e falamos connosco próprios muito à bruta. Somos muito brutinhos. Então, trazer essa gentileza de dentro para fora é talvez o nosso grande trabalho. E é um trabalho de água, sem dúvida.

~ Muito gratas a Íris e às inspirações que nos oferece assim… tão abertamente. Foi um prazer imenso esta entrevista!

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