Relato de Parto Roubado ~ Sara Lopes Relatos / Testemunhos de Mulheres

Cinco semanas depois da transferência dos embriões recebi autorização do médico endocrinologista para fazer aulas de yoga!

Eu tinha feito uma fertilização in vitro porque desde os doze anos que tenho endometriose e já aos dezassete ela tinha comprometido a minha fertilidade. Então, aos vinte e quatro, pouco tempo depois de conhecer o meu marido decidimos fazer uma fertilização in vitro, porque quanto mais cedo melhor, segundo os médicos.

E assim, depois daquele período em que se tem que tomar todo o cuidado e estar em repouso, depois da transferência, voltei às minhas aulas de yoga, desta vez yoga pré natal, com toda a animação para preparar o meu corpo para o parto.

Sendo uma amante do parto natural tudo o que eu queria era um parto sem medicação, apesar de ter que ser mesmo no hospital, por causa do medo geral que havia na família por causa da questão da endometriose.

Às vinte e uma semanas fiquei a saber que a minha placenta estava muito em baixo e que se não subisse a tempo do parto eu seria uma candidata para uma cesariana (tudo o que eu não queria mesmo), mas se subisse, estaria tudo bem. Decidi pensar positivo e continuar a preparar o meu corpo e mente para o parto natural, pondo de parte a possibilidade de cesariana, pois ela só me trazia medos e um sentimento de perda horrível.

Às trinta e três semanas confirmou-se que a placenta era prévia, não se tinha deslocado para cima nem um bocadinho e o médico, desta vez o obstetra, decidiu marcar a cirurgia para a trigésima sexta semana. Proibiu-nos as relações sexuais (numa altura em que depois de muito tempo finalmente a líbido tinha melhorado), diminuiu-me a frequência com que fazia exercícios, proibiu-me de carregar pesos, mandou-me estar o mais quieta possível e em caso de algum sangramento eu seria imediatamente internada no hospital até à data da cirurgia. Isto tudo sem eu ter tido um sangramento, por mínimo que fosse, ou que tivesse sentido alguma dor em momento que fosse da minha gravidez…

Foram umas três últimas semanas de uma angústia interna, que tentei lutar com meditação e aceitação, mas havia mesmo uma batalha muito grande dentro de mim.

Nos Estados Unidos os pacientes não podem ver os seus exames, o técnico de ecografia não lhes pode dizer nada enquanto faz o exame, só o médico nos pode falar dos resultados, e neste caso, não nos foi apresentada prova da placenta prévia. Quando acabámos a ecografia e voltámos para o consultório, o médico não estava e mandaram-nos voltar noutro dia para saber do resultado. Lá nos íamos embora e a meio do corredor recebemos uma chamada do consultório pedindo-nos que voltássemos porque o médico nos queria ver.
Sentou-se connosco na sala de espera e contou-nos a novidade, assustou-nos com todos os riscos de uma placenta prévia, pôs-nos as proibições todas que o livro manda e não nos mostrou o exame. Nunca nos mostrou o exame. Foi tudo muito rápido.

Levantei-me às cinco e meia da manhã no dia da cirurgía, fiz yoga, tentei mais uma vez entrar em paz comigo mesma, mas não consegui. O máximo que consegui foi parecer tranquila “por fora”.
Tinha todo o apoio da minha mãe e do meu marido e não lhes queria transmitir nenhuma insegurança ou medo. Quando chegámos ao hospital o médico ralhou comigo, porque eu devia ter chegado às sete da manhã. Eu informei-o que nas indicações de admissão que me tinham dado dois dias antes estava escrito que eu devia chegar às sete e quarenta e cinco, e sete e quarenta e cinco eram naquele momento. Tinha tudo escrito nos papéis para confirmar, mas ele só queria saber quem me tinha dado aquela hora para poder chamar a atenção àquela pessoa. Eu não me lembrava do nome…

Passada essa “agradável” recepção e feitos todos os procedimentos de internamento lá fiquei eu horas à espera do momento de ser levada para a sala de cirurgia, com uma bata toda frágil, num quarto frio, com um monitor constantemente ligado à minha barriga, que pôs o meu filho furioso.

Eu sentia-o furioso, mexendo-se sem parar desde o momento em que me puseram o monitor. Ele nunca gostou das ondas dos aparelhos de utrasom. E eu ouvia na minha cabeça a voz dele dizer-me com desespero “mamã não, eu não estou preparado”, e eu respondia (não acreditando, eu mesma), que “ia ficar tudo bem”, que ele se acalmasse.

A sala de cirurgia era gelada, foi-se enchendo de gente. Tive que me apoiar na enfermeira que tinha sido destacada para cuidar de mim, mas que nunca me tinha dirigido a palavra, sequer olhado para os meus olhos, para receber a epidural. As minhas pernas foram ficando quentes, com formigueiro, pesadas, sem acção.

Ajudaram-me a deitar-me na cama que parecia uma cruz. Tive a pequena alegria de ter ao meu lado um assistente do anestesista, que eu nunca tinha visto na vida mas com quem eu tinha sonhado. Reconheci-o do meu sonho, era carinhoso, alegre e conversador, e eu disse-lhe que estava feliz por ele estar lá, porque tinha sonhado com ele.

Não sei quem chegou primeiro, se o médico, se o meu marido. O outro médico que tinha sido convidado para a cirurgia (porque podia ser catastrófica com muita perda de sangue) perguntou se eu já tinha trinta e sete semanas e o meu médico mentiu. Disse que eu tinha acabado de fazer trinta e sete. Eu tinha acabado de fazer trinta e seis…
Foram-me informando passo a passo o que ia acontecer. Senti mãos sentro de mim, senti que se mexia dentro de mim com brutalidade e senti um vazio. Um vazio físico, um vazio emocional. E mais nada. Nem alegria, nem emoção, nem enamoramento, nem tristeza. Só vazio.

Fiquei em suspense porque o meu bebé não chorava, demorou um bocado, mas pareceram séculos. Eu não o sentia dentro de mim, não o via fora de mim, não o ouvia fora de mim, não o sentia fora de mim. Não nos foi proporcionado o contacto pele com pele porque ele nasceu com os pulmões prematuros. Eu mal pude conhecê-lo…

Trouxeram-no para perto de mim já limpo, embrulhado, com um gorro, só para eu lhe ver a cara e levaram-no para a unidade neonatal de cuidados intensivos. Pedi ao meu marido que fosse com ele e não o deixasse em momento nenhum.
O médico obstetra foi-se embora com pressa. Não me disse nada, não olhou para a minha cara, deixou o outro a cozer-me.
Não tenho bem a noção de quanto tempo se passou até que pude ver o meu filho. Acho que foi no dia seguinte à noite… Quando o pediatra me vinha dar notícias dele nunca me dizia bem o que se passava, quanto tempo demoraria para ele melhorar, dizia que podiam ser algumas horas ou alguns dias, eu pedia que o toruxessem para ao pé de mim, mas diziam que não era possível. Até que apaguei.

Acho que por dias a minha alma saiu do meu corpo. Estava, mas não estava… Enlouqueci de certa forma. Tinha o olhar vazio, não sorria, não falava. Sentia-me desconectada. De mim, do meu marido, do meu filho. Sentia que tinha perdido tudo.

Sentia que tinha culpa do que tinha acontecido, porque em vez de tentar fazer-me acreditar que tudo ia correr bem, devia ter ouvido os meus instintos, devia ter ouvido o meu filho. Sentia que o meu filho estava chateado comigo, por tê-lo exposto a essa situação, por ter-lhe feito correr risco de vida e agora ter que respirar com a ajuda de máquinas e ter que receber medicação para amadurecer os pulmões. Podia ter pedido que o médico esperasse mais duas semanas.

“Porquê tão cedo? Tu tens estado a ter uma gravidez super saudável, ele pode esperar até às trinta e oito semanas pelo menos.” Tinha-me dito a minha professora de yoga, “Bom… ele é médico, ele lá sabe” completou ela, e eu concordei. Eu concordei, que o médico sabia mais e melhor… E eu não ouvi a minha intuição e o meu filho.

Foram dez dias de pós parto horríveis. Fui-me embora para casa sem o meu filho. Voltava ao hospital todos os dias exausta, para poder estar com o meu pequenino o máximo de tempo que pudesse. Não tinha forças nem para areditar. Mas ele tão pequenino e ao mesmo tempo tão forte, fez-me acreditar. Ele era mais forte que eu, e tinha muita, muita vontade de viver!
Ele ter voltado para casa recuperado foi um alívio muito grande.

Mas as coisas não correram tão bem assim. Eu continuei a sentir-me desconectada dele.

Chorava todos os dias, ninguém entendia o que se passava comigo. Todo mundo achava que eu devia estar grata por tanto eu e o bebé estarmos bem. E eu estava. Mas não era isso… e isso não era suficiente. Era uma dor muito grande de perda.
Sentia-me roubada, mas ao mesmo tempo responsável por esse roubo, negligente.

Sentia falta das hormonas que começam o parto, das contracções, de tudo o que se deve sentir durante um parto. Do ritual de passagem que é dar à luz de forma natural, de tornar-me mãe! Eu não me sentia mãe.

Senti falta de conhecer e apaixonar-se imediatamente pelo seu filho, de abraçá-lo e portegê-lo, de dar-lhe de volta os elementos que ele conhecia desde dentro da barriga: o bater do meu coração, a minha voz, o meu cheiro, o meu calor. De enchê-lo de amor.

Ainda sinto falta, ainda me sinto culpada.
Consegui amamentar. Levou algum tempo porque ele tinha sido habituado ao biberon (ainda que do meu leite) no hospital, mas pelo menos isso consegui ter. E ajudou muito a conseguirmos reconectar-nos, ajudou-me muito a ter algo com que pudesse sentir-me mãe. Acho que se não tivesse conseguido amamentar, teria sido muito pior.

Já se passaram mais de dois anos, e o meu Zizou é inacreditávelmente forte e saudável. É forte demais para a idade dele. Determinado e com uma personalidade já bem vincada. É doce e carinhoso, tem empatia e é um furacão de energía, alegre e gozão. Teve muitos pesadelos, até aos 15 meses acordava várias vezes à noite, teve muitos problemas com a dentição, e muito refluxo. Coisas que fomos aprendendo que acontecem com maior frequência a bebés prematuros, nascidos por cesariana…

Eu tive a minha depressão pós parto, problemas conjugais, precisamos da ajuda de um terapeuta para casais. Tudo tem custado muito a passar.

Mas por causa de tudo isso, tournei-me Doula. E dentro do meu trabalho ponho ênfase em que cada mãe, mais que nada siga os seus instintos! Eles estão lá por um divino motivo, são de verdade as nossas pequenas mensagens da fonte universal que nos guia naquilo que é o melhor para cada um de nós.

~ Sara Lopes


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.