Na perspectiva da Parteira: trabalho de parto e nascimento na Água Artigos / Parto na Água

Por Jill Cohen
Publicado na Midwifery Today

~ tradução por Joana Fartaria, Mães d’Agua ~ 

~ Benefícios da Água ~

Já era tarde. Eu sentei-me a olhar para o fogo, à espera que o telefone tocasse, como faço muitas vezes. As parteiras têm frequentemente um sexto sentido em relação ao parto, e nessa noite em particular confirmou-se o meu – às 10:30 da noite o telefone de facto tocou. De início tudo o que ouvi foi o eco de respirações profundas e o som de água a correr. Eu sabia que isto era um trabalho de parto.

Água e trabalho de parto seguem de mãos dadas para a maioria das mulheres. O duche ou o banho de imersão aquece, dá privacidade e relaxa a mulher de modo a que ela se possa abrir mais facilmente e no seu próprio ritmo. Cria um ambiente como o do interior do útero, em que cada mulher se pode sentir segura. Pode não tirar as dores, mas permite à mulher gerir as sensações intensas, relaxada e com menos resistência, criando maior conforto. A água cria uma protecção morna e molhada, mantendo afastadas forças e intervenções exteriores. No entanto se a mulher precisar de assistência ou monitorização ela pode ser feita facilmente no ambiente aquático.

Eu esperei que a contração passasse enquanto escutava intencionalmente até que a mulher mistério do outro lado da linha se identificasse finalmente. Eu podia perceber pelo eco que ela estava na sua casa de banho, e pelo som da água a correr que estava no banho. O tempo da sua respiração dizia-me que me devia pôr-me a caminho em breve… logo que conseguisse perceber quem ela era!
Logo que a sua respiração abrandou e ela parou para se recompor, ouvi num risinho “Desculpa!” Percebi logo que era a minha querida amiga Hazel. Esta era a sua quarta criança – eu saí porta fora!

~ Trabalho de parto na Água ~

Entrei e encontrei as crianças dela a dormir profundamente e o seu parceiro sentado na beira da banheira grande deles, um copo de água fria com uma palhinha na mão da Hazel, para a manter bem hidratada. Antes que ela pudesse dizer uma palavra outra contração chegou e ela foi profundamente para dentro de si própria. Porque a água pode acelerar o trabalho de parto logo que a mulher esteja com mais de 5cm de dilatação, e podia adivinhar que a Hazel tinha pelo menos isso, eu apressei-me a preparar a sua sala de parto.
Depois instalei-me na casa de banho com o meu Doppler à prova de água e monitorizei o nosso pequenino. Tudo estava bem. A Hazel precisava de fazer xixi, por isso saiu da banheira e foi à casa de banho. Outra contração grande, olhos bem abertos e “Pop”, lá rebentaram as águas. Estavam transparentes e tinham o cheiro doce a bebé. Era tempo de decidir onde ia nascer esta criança.
Sem hesitação, a Hazel escolheu a banheira.
Logo que ela voltou ouvi o som familiar, de alívio, que ouço com tanta frequência quando as mulheres entram na água morna. É música para os ouvidos de uma parteira, tal como o é o batimento cardíaco, regular, de um bebé que está para nascer.
A Hazel fez força com a próxima contração enquanto punha as pernas para trás e cantava a canção de parto, baixo e profundamente. Com este “puxo” vimos a cabeça do bebé. Mais duas vezes e a cabeça nascia. Enquanto ela esperava pela próxima contração tivemos tempo de observar esta pequena criança e admirar a paz da sua chegada.

A água é vital para a vida – não podemos viver sem ela. A sua capacidade de nutrir, alimentar, propagar e promover vida adequa-se tão bem ao mundo do nascimento. Eu acredito que porque os bebés vêm de um meio aquático, quando nascem na água isso é familiar para eles. Em circunstâncias normais os bebés não respiram até estarem expostos a Ar. Quando emergem na água a casa deles fica maior, mas eles ainda pensam que estão no ventre.

Este pequenote tinha os olhos rasgados e esperava. É sempre surpreendente ver uma passagem tão pacífica.
Em poucos momentos outra contração veio e o bebé nasceu suavemente. A Hazel instintivamente se baixou e trouxe o seu bebé à superfície da água.
Não foi necessária sucção – este pequeno menino mexeu-se, esticou-se, bocejou e ficou cor de rosa sem chegar a chorar.

~ Equívocos ~

Mal-entendidos abundam sobre o uso da água no parto e nascimento, tais como o risco de infecção, risco para o bebé e falta de capacidade de fazer monitorização eficaz. Existe agora muita evidência baseada em pesquisa a indicar que com uma preparação adequada e seguindo o protocolo os riscos não são mais do que para o nascimento no ar (ou a seco). Por isso, para as mulheres e profissionais que queiram escolher a água para facilitar o parto, vão em frente!

Mas primeiro, informem-se: investiguem o que deve ser usado. Planeiem que tipo de banheira/ piscina de parto vão usar, onde vai ser posta, e definam a fonte de água. Lembrem-se que a água é um meio diferente com que trabalham. Familiarizem-se com ela; pensem nos seus potenciais; imaginem a sua relação com o nascimento. Fundam-se com ela e sintam os seus efeitos.

Para mim, a recompensa de usar a água para o trabalho de parto e nascimento resume-se naquele som mágico de alívio no gemido de uma mulher quando entra na água morna, e no momento mágico em que o bebé surge com aquele rosto sereno que me diz que a passagem foi segura e suave.

~ Jill Cohen

 

Jill vive e trabalha como parteira em Eugene, Oregon. É editora sénior da The Birthkit, e editora associada na Midwifery Today, onde este artigo foi publicado.

Mais informação sobre parto na água no site da Midwifery Today AQUI 

(Imagem de Angela Gallo)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.