[Relato de parto, que sonhava na Água mas… #3] Aline Rossi Parto Com Água / Relatos

“A matrioska e o osko-Gio”

Em 2010, fui morar em Portugal através de um programa de intercâmbio da faculdade. Ficaria dois anos lá. Em 2011, conheci Rui, um “tuga” de Coimbra com quem comecei a me relacionar. Fomos arrastando o relacionamento, apesar da perspectiva compartilhada de algo que estava fadado a ser rompido, algo que tinha data de validade, pois meu retorno para Brasil em 2012 era certo. E assim foi: em 2012 retornei. Mas… mesmo de um ano depois o Rui estava no Brasil. Morou comigo por seis meses, período do visto de turista. Um período conturbado por causa da adaptação, das dificuldades no novo ambiente e nova condição de vida, cheio de brigas e choro, mesmo com os momentos felizes. Quando ele foi embora, tinha a certeza de que não o veria nunca mais.

Um mês antes de sua partida, que já era certa a essa altura, pedi demissão do emprego em que estava. Eu não gostava de trabalhar lá: carga horária grande para um salário pequeno e uma função desanimadora. Assim, estaria novamente desempregada e morando com meus pais aos 21, tendo a faculdade por terminar. Estava otimista, era solteira de novo e arrumaria minha vida, terminaria a faculdade, correria atrás dos meus planos. Quatro dias depois da ida dele, descubro que estou grávida.

Foi um susto, não queria, não planejava, não desejava, não era conveniente. O momento era ruim: sem companheiro, sem emprego, sem casa, sem terminar a faculdade. Como eu ia ter um filho assim? Contei para o Rui pelo Skype, ele entrou num desespero como o meu, mas tentava controlar para não me deixar mais nervosa.

Fui franca: “Quero interromper a gravidez“.
Ele disse que me apoiaria no que eu decidisse. Não recebeu com surpresa, pois somos ambos militantes e em Portugal é permitido interromper a gravidez independente do caso (diferente do Brasil em que qualquer situação que não seja estupro, risco de morte ou anencefalia é dada como crime).
Falei com uma das minhas irmãs mais velhas, explicando a situação em prantos e pedindo apoio, caso precisasse de socorro médico. Ela concordou em me ajudar, “para evitar morte”, como ela disse.
Mas como eu ia fazer isso se aqui era crime e não tinha remédios seguros acessíveis? Não tinha dinheiro para pagar a indução, nem queria passar por uma clínica clandestina. Não queria tomar remédios do Paraguai, já tinha ouvido falar de consequências terríveis por causa disso e, se não desse certo, podia me causar uma hemorragia ou outras sequelas, se não funcionasse podia deixar sequelas para o resto da vida no bebé. Não arriscaria algo assim, por mim e pelo feto. Ou interrompia ou não interrompia, não assumiria riscos de ser a responsável por danos irreversíveis na vida de uma criança. Procurei receitas naturais na internet, testei algumas. Fiz tudo errado, meu bebé crescia saudável e forte.

Contei para uma das minhas melhores amigas, certa noite.
Ela ficou feliz.
Eu não estava feliz.
Disse que ia abortar.
Ela fingiu aceitar minha opinião e, depois, contou ao namorado sem minha permissão e tentou me demover da minha decisão. Pensei “Como as pessoas são injustas connosco“, eu não podia achar a gravidez ruim, não tinha escolha, tinha que querer ser mãe e estar feliz pelo que me acontecia, pela enorme responsabilidade que recebera! Aliás, não só não podia ficar feliz como era a culpada por aquilo tudo, afinal, eu tive filho porque quis, né?
Assim é para gestantes, uma opressão psicológica absurda e muito mitigante.
No dia em que busquei o teste de sangue (para ter certeza) da gravidez, fui com minha sobrinha, para quem também contei e de quem recebi muito apoio desde sempre. Depois, aguardando o resultado, passamos na casa de uma amiga em comum.
Tuanny, nossa amiga, é outra feminista militante, que apoiava o direito à escolha de gestar e também engravidara na minha idade.
Ela conversou bastante comigo aquele dia, falou daquilo com que eu me identificava:

“A gente sabe da parte ruim de ser mãe, somos novas sim, temos a vida pela frente sim, todo mundo nos lembra das coisas ruins da maternidade. Mas ninguém fala das coisas boas, vem aqui que eu vou te falar”.

Naquele dia, foi a segunda virada no rumo da minha vida.
Eu não fracassei na interrupção da gravidez. Eu não tive um filho porque as receitas naturais de internet, que eu fiz errado, falharam. Eu tive um filho porque quis, porque escolhi ter depois de conversar com a Tuanny.

Naquele dia, fui embora e, sem saber como dizer aquilo ao Rui (que, mesmo me apoiando em qualquer decisão, também não queria ter um filho naquela situação, compartilhando dos mesmos medos que eu), dei mil motivos plausíveis e realistas de que não poderia interromper a gravidez, envolviam riscos de morte e prisão. Mas, na verdade, eu já escolhera ter o filho. E teria independente do que ele dissesse.
Então ele abraçou a causa comigo.

Depois dessa fase conturbada, comecei a tomar ácido fólico, comecei meu pré-natal no postinho do bairro, pelo SUS. Tuanny começou a me convidar para uns encontros de gestantes, grávidos, pais, tentantes – enfim, todo mundo que quisesse se envolver – que falavam sobre o parto, preparação, aleitamento. Era o pessoal de Cuiabá que incentivava o Parto Humanizado. Fui poucas vezes, porque não sabia chegar lá (na verdade, só fui às vezes que a Tuanny me deu carona ;-p). Mas foram importantes para construir saberes e me empoderar.
Era bastante deprimente ver todas aquelas grávidas acompanhadas de seus esposos, namorados e companheiros e eu sozinha. O rótulo de mãe solteira é algo extremamente agressivo e assustador para as gestantes e, mesmo feminista e relativamente empoderada à altura, aquilo me fazia chorar muitas vezes. Confiava o suficiente na militância, índole e consciência do meu parceiro para ter a certeza de que ele não me abandonaria, (mesmo estando numa condição fácil de fazê-lo, já que estava em outro país), mas… encarar as pessoas à minha volta, me olhando passear para lá e para cá, grávida, desacompanhada (ou só acompanhada de amigos) todas as outras em casais, era um desafio sufocante. Eu podia ler em suas expressões (ou imaginava ver), o julgamento sobre ser mãe solteira e criança – Sim, porque tenho essa cara de menina de 15 anos que me rendeu muitos julgamentos indiscretos e machistas durante a gestação – Eu ouvi de diversos vizinhos, que tinham conhecido o Rui e sabiam que ele tinha voltado para Portugal, as perguntas: “Mas ele foi embora porque você engravidou?” e “Ele vai voltar?” – era um dos meus leões diários…

Tuanny, desde a confirmação da gravidez, já plantou em mim uma semente que foi florescendo com o passar do tempo: o parto domiciliar. Por “N” razões e inúmeras histórias assustadoras eu não me via num hospital.

Não gostava de hospital, porque iria lá ter meu filho?
Era um ambiente que cheirava remédio, que ninguém parecia feliz por estar ali, era um lugar para tratar doenças. Eu não estava doente, estava grávida. Não queria que meu filho nascesse ali: no meio de um monte de desconhecidos, num lugar impessoal, frio, agressivamente iluminado, cheirando a remédio e onde, eu sabia, podia sofrer inúmeros tipos de violência e ouvir as mais diversas ofensas de gente que não me conhecia e não se importava comigo.

Fui estudante, lendo tudo que ela me passava, fui me informando e empoderando: artigos científicos, pesquisas, evidências, publicações diversas… tudo me levava na direção do parto domiciliar humanizado.

Teria meu filho num lugar familiar, confortável, preparado ao meu gosto, onde eu estivesse à vontade para fazer o que quisesse e o que me fizesse sentir melhor, podendo comer e beber à vontade, podendo me movimentar.

Eu queria tudo aquilo, apesar dos receios ainda, porque era algo muito novo e que eu nem sequer ouvira falar.
Mas, ia pagar como se estava desempregada? Não tinha plano de saúde, meu caminho era o SUS.
Não podia pagar doula, fotógrafa, parteira, equipe, ter o parto domiciliar lindo dos vídeos do youtube… Tuanny disse que me doularia se eu quisesse, não ia cobrar nada. Mas me emparedou:

Você quer parir MESMO? Não vai para hospital fazer cesárea quando começar a doer? É a maior dor da sua vida, VOCÊ QUER PARIR?” – Me desafiou, e eu aceitei.

Claro que sim! Não sou doente, não preciso de cirurgia e medicação! Preciso de respeito e apoio, a natureza sempre soube o que fazer!

Tinha uma doula! E era amiga! Isso era ótimo. Acertei também com a equipe de parto: a parteira Laura e a enfermeira neonatal Mayrene. Disse minha situação difícil e elas foram muito flexíveis, fizeram um plano que eu pudesse pagar aos poucos, deram uma boa reduzida no valor (não gente, não é nada perto de 6 mil, 8 mil, 10 mil, nada a ver com isso… pelo menos aqui não foi).
Tinha doula e equipe! Uma colega fotógrafa se ofereceu para fotografar meu parto na faixa, para poder começar a compor seu portfólio como fotógrafa de parto.
Tinha tudo!

Continuava o pré-natal pelo SUS, tomava o polivitamínico, cuidava da alimentação (mas não larguei o chocolate, só o álcool). Comecei a fazer meu plano de parto, com minhas decisões, minhas vontades, meu plano B.

Tão bom! E a vida continuava: saía com amigos, trabalhava, ia ouvir rock nos bares, conversava com Rui pelo Skype. Ele acompanhou tudo pelo Skype e pelo face, muitas fotos trocadas, muitas videocalls. Mas ele não estaria aqui no parto.

Eu não tratava mal minha gravidez só porque ela não foi planejada nem inicialmente desejada, pelo contrário: adorava sentir os chutes, cantava para o meu bebé, colocava músicas só para ele ouvir, lia sobre maternidade, fazia mil planos, conversava com ele, fazia carinho… Depois que decidi ser mãe, decidi dar o melhor de mim, fazer o melhor por ele. E isso começava na gestação, passava pela melhor recepção na sua chegada ao mundo e depois se alongaria nos seus anos de vida cá fora…

Com 40 semanas e 2 dias, a bolsa estourou. Não foi aquela “lavada de água”, como costuma ser, veio um pouquinho, como se eu tivesse feito xixi nas calças. Fiquei meio assustada, fui ao banheiro surpresa com minha falta de controle sobre a bexiga! Mas continuou vazando de pouquinho e pouquinho…

Eu tinha planejado não contar nada para ninguém: iria com minha sobrinha para a casa dela (onde aconteceria o parto) e ficaria lá por uns dias, para ninguém encher o saco com ansiedade e nervosismo. Mas aquela minha melhor amiga estava comigo! Ela também percebeu o que era!
Entrei em contato com a Tuanny, explicando o que achava. Ela pediu pra continuar monitorando, já que eu não tinha perdido o tampão, podia ser um alarme falso… Mas continuava vazando de pouquinho em pouquinho.
Minha amiga, Nayara, foi buscar absorvente para mim na loja da minha irmã e, assim, minha irmã soube também. Pronto, todo mundo sabia. Minha mãe, minha amiga, minha irmã, meu sobrinho… Mas tudo bem. Eu tinha brigado tanto com as pessoas dizendo como seria e que eles teriam que respeitar isso, que eles aceitaram e entenderam a importância.

Todos me achavam louca por querer o parto em casa, tinham aquela ideia da parteira velha que ia chegar arregaçando as mangas e sangue para todo lado…

Minha vizinha disse que rezava todo dia para dar tudo certo por mim. As pessoas infundiam dez quilos de medos diferentes com suas histórias aterrorizantes da prima da tia da vizinha do papagaio que morreu assim e com as suposições de coisas erradas que podiam acontecer.
Mas eu não imaginava meu parto de outro jeito.

Angélica, minha sobrinha, estava de plantão trabalhando justo naquele dia. Mas saiu assim que soube e fomos fazer compras para o momento do parto. Coisas para comer e beber, para nós e para a equipe, enquanto durasse o ritual.
Na minha cabeça, como a bolsa já tinha estourado na tarde de sexta, eu entraria em trabalho de parto a noite e até a manhã de sábado teria parido. Então comprei chocolates, que eu adoro, e um monte de coisas para o café da manhã. Inocente.
Passei o resto do dia perdendo líquido aos poucos e contração mesmo vinha de vez em quando, sem nenhuma regularidade e nem doía. Só incomodava uma dorzinha na lombar, como quando vamos menstruar. Nem dormi a noite de tão ansiosa. Só pensava em como minha vida estava prestes a mudar para sempre!
No sábado de manhã, nada ainda. Continuava tão tranquilo que era decepcionante. As contrações já davam as caras mais vezes, mas ainda não entrara em trabalho de parto, só fase latente. Eu nem sequer sabia que bolsa rota era um mau sinal: como o normal era a bolsa romper de uma vez e desencadear o trabalho de parto, eu já estava há 20h com bolsa rota e nada ainda. Se fosse pelo plano de saúde, já tinha sido cortada na cesárea. Se fosse no SUS, não sei…

Tuanny chegou por volta das dez da manhã, trouxe bola e seu kit maravilhoso de doula. Ficamos conversando, fomos passear (numa loja aleatória onde comprei uma lamparina bonitinha), as contrações já vinham mais vezes e me faziam parar uma vez ou outra no meio da loja, e pendurar na minha amiga até que passassem ou agachar e ficar de cócoras no chão. Todo mundo olhava para minha cara, tipo: “Não vai parir aqui!”. Ainda voltamos para casa dos meus pais e comemos churrasco na casa da minha irmã (a da loja).
Eles ficaram visivelmente decepcionados porque eu ainda estava lá e a barriga também!

A essa altura, o trabalho de parto começou de verdade.
Eu estava lá, fazendo qualquer coisa e, de repente, fugia para banheiro porque vinham as contrações. Não eram tão fortes e passavam logo. Voltamos pra casa da minha sobrinha.

Perto das 16h Laura e Mayrene chegaram com seus equipamentos: piscina, cilindro de oxigênio (caso necessário), e outras tantas coisas. O computador tocava a playlist que eu montei, eu mordiscava uma coisa ou outra e ficava na bola movimentando para aliviar as contrações.

Nem lembro que horas a Bruna, fotógrafa, chegou, mas eu já devia estar com uns 6 ou 7cm, porque só queria ficar no chuveiro quente. Elas doíam um pouco mais, eram mais fortes, e a água quente aliviava. Eu ainda estava cheia de pudores, não queria ficar nua na frente delas (que idiotice :-D), mas não queria ficar saindo e me enrolando na toalha.

Depois dos 7cm – não dá para saber ao certo porque Laura seguiu meu pedido de não fazer toque – as contrações eram mais sérias e parecia que eu ia fazer cocó toda hora. Era a mesma sensação, a mesma força que o corpo fazia.

Tuanny, me doulando, fazia massagens, fez uma bebida quentinha, estava comigo em toda contração segurando minhas mãos, meu braço, trazendo a compressa quente… Me acompanhava em tudo e me deixava quando eu queria estar só.

Nem sei quando encheram a piscina. Aliás, nem as percebia arrumando tudo, parece que faziam às escondidas. Mas, quando a piscina estava cheia, eu já estava pedindo para ir há algum tempo, provavelmente já estava com dilatação total. Queria porque queria ir para piscina para aliviar a dor, que já era bem forte.

Fiquei na piscina, primeiro sentada, adorando aquele alívio e calma. Depois mudei de posição por causa das contrações, me apoiava na borda e sentava parecendo um sapo. Foi aí que meu corpo começou a fazer força. Era involuntário, fazia sozinho, sem eu querer e sem pensar. Eu entendi o que era. Tuanny veio se certificar se não era mesmo eu quem estava fazendo, me defendi! Fiquei nisso um tempo enquanto elas faziam várias coisas sem que eu me desse conta.

Tuanny e Angélica continuavam ao meu lado, revezando, segurando minha mão, conversando comigo, fazendo compressa, jogando água quente.
Às vezes, entre uma contração e outra, eu dormia! E até sonhava! Olhava uma hora e era Tuanny na borda da piscina, olhava de novo e era Angélica.
Que loucura!

Mas não conseguia parir ali.

Não era a hora ainda, mas eu achava que era erro meu. “Eu não sei fazer força, não consigo”, comecei a dizer.
Era a hora da covardia, já tinham me falado daquilo.
Eu estava cansada depois de não ter dormido a noite e ter estado o dia todo naquilo. Aquele tempo em trabalho de parto também me desgastou. Comecei a reclamar que não nascia, perguntava para minha sobrinha “Gheli, porque não nasce?”. Ela ria e falava “Calma, ele não vai ficar aí para sempre”. Comecei a reclamar, sugeri que talvez fosse melhor ir para o hospital, se não era melhor aplicar ocitocina. Elas me enrolavam e diziam para eu ter calma, que estava quase. “Vocês não entendem”, eu reclamava, “Não é frescura, eu não consigo mais, não sei fazer força”. Elas continuavam me enrolando e eu sabia disso! Mas estava tão cansada… não queria brigar!

Tuanny me lembrava: “Isso não estava no seu plano de parto“.
Laura me dizia: “Você já está com dilatação total, para quê ir para o hospital agora?, para o seu filho nascer no carro?
Eu sabia que tudo aquilo era coerente e era verdade. Eu não queria ir para o hospital.
Meu cérebro pensava: “Eu consigo, eu não quero ir para o hospital”; minha boca dizia: “Eu não consigo, vamos para o hospital“.

Minha amiga-doula me chamou para andar, para sair da piscina. Eu não queria, ia doer! Ela insistiu e eu saí, com muita relutância. Andava pela sala, parecendo um pato de perna aberta, segurando nos braços dela. A dor vinha e eu agachava. E ela agachava junto. Saía sangue, muito escuro. Ela dizia: quanto mais escuro, mais perto está!

Agachei com Tuanny, agachei com Angélica, agachei com Laura.
Nada.
Cansada, esgotada.
Nada.
Fui para o quarto da minha sobrinha, sentava na bola, deitava na cama.
Nada.
Me debruçava na bola, sentava no banquinho de parto.
Nada.
Força, força, força, nada. Que desespero!

Voltei para a sala, agachando com Laura. Sentia que meu bebé estava muito baixo, podia senti-lo entre as minhas pernas. Foi então que tive a certeza que ele ia nascer. Falei “Eu vou parir!” e pude sentir que Laura sorriu e estava muito orgulhosa. “É isso aí, boa!”, ela respondeu feliz.
Não sei de onde veio tamanha força e autoridade, não sei como eu sabia daquilo, foi como se meu corpo tivesse pronto e decidido do que queria e era melhor, virei para a minha sobrinha e disse:
Gheli, pega o banco de parto. Rápido!”. Eu não pedi, eu ordenei. E eu não sou assim. Mas era o meu momento sagrado, o meu momento animalesco, o meu momento mamífera.

Ela foi correndo meio desorientada, pegou o banco e colocou no meio da sala. Eu sentei e começaram os “puxos” a sério.
Força, grito, força grito.
Nada.
Achei que fosse uma contração e saía a cabeça, outra contração e saía o corpo. Não era assim!

A sala estava super escura, a única luz era a da lamparina coloridinha que comprei. Alguém colocou aquela música tão especial da playlist: Debaixo d’água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, só faltava respirar… mas tinha que respirar… debaixo d’água se formando como um feto, sereno, amado, completo…

Eu fazia força e gritava de dor, urrava de dor.
Horas antes, Tuanny me falar: ”

Sangue é amigo da vida, a dor não precisa ser ruim. Ela é como uma onda, invés de enfrentar, mergulha, é ela que vai trazer o seu bebé.

Eu não pensava naquilo naquele momento, porque não há pensamento num momento tão animal, mas eu tinha interiorizado aquilo.
Eu ia parir.
Fazia força, não saía.
Eu gritava.
Tuanny pegou um espelhinho e eu olhei: só o cocoruto da cabeça estava de fora. Aquilo me deu um certo pânico, não esperança, porque tinha doído tanto, e feito tanta força e nada tinha saído. Era uma dor dilacerante.

img_5601

Continuei a fazer força, parecia um momento eterno e, ao mesmo tempo, parado no tempo. Saiu a cabeça. Mais algumas contrações e senti meu filho girar e sair, direto para os meus braços.

Peguei aquele menino, tão pequeno, tão de vidro, tão delicado. Vermelho, meio roxo, coberto de vérnix e aquele cheiro maravilhoso de bebé e vida nova. Nada passava na minha cabeça. A dor tinha sumido por completo, como se nunca tivesse existido e eu, tão boba estava, só conseguia dizer: “Oi, oi, oi, eu to aqui…”

Gheli gravou o choro dele num áudio do whatsapp e mandou para o Rui, que acompanhava lá em Portugal desesperado noite adentro.

No primeiro minuto da segunda-feira, dia 24 de fevereiro de 2014, 00:01, Giovanni nasceu – em Portugal eram 4h da manhã.
Sem analgesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem violências, sem frio do hospital, sem as luzes do hospital, sem o colírio invasivo desnecessário. Acolhido no aconchego de uma casa familiar, pelo choro da prima – que não sabia se ria ou chorava e fazia os dois ao mesmo tempo – por uma doula amiga e por uma equipe humanizada e respeitosa. Veio direto para o meu colo, para reconhecer o tato e o cheiro da mãe no nosso primeiro contato, nosso laço, nosso vínculo maravilhoso.
Eu admirando aqueles pezinhos, mãozinhas, tudo enrugadinho e pequeno, arrumei seu cabelo, olhei aquele rosto que eu esperei durante meses…

Laura, nossa parteira, me ajudou a levantar. Ainda com Gio no colo, ainda ligados pelo cordão, fomos andando até o outro quarto, onde elas tinham preparado o chaise do sofá para nós. Deitei e verti muito sangue – a hemorragia normal imediatamente após o parto.
Deitei meu filho em meu colo, abracei e coloquei para mamar. Afinal, se eu estava cansada, imagina ele? Se eu estava com fome (sentia agora), imagina ele!

Foi maravilhoso, um momento que não pode ser expresso por mais que eu tente descrever.
Um momento de deusa e de completa mamífera, um novo ciclo na minha vida de mulher e mãe. Independente de ser ateia, afirmo que foi mais que um evento fisiológico, foi sagrado.

~ Aline Rossi

~ Esta Mulher Mãe maravilhosa, inspirada por sua própria experiência de parto, se tornou Doula. Trabalha agora em Portugal, família linda reunida, e podes conhecer mais sobre o seu trabalho aqui “Matrioskca“, e aqui “Doula Aline Rossi“.


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.

  • Obrigada por me permitirem lembrar desse momento! Já estou chorando de novo! Quase 3 anos depois do parto, ainda fico muito emocionada em lembrar do dia em que virei mãe. Intenso, respeitoso, sagrado, diferente de tudo que vivi. Hoje amo ser mãe e amo ser doula! Que todas as mulheres possam ter um momento assim!

    • querida Aline, emoção partilhada! adoro este relato cheio de poder <3