Re-Nascimentos das Mães Ser Mulher

Existe com o processo de gravidez, de parto, da maternidade, uma série de libertações de condicionamentos anteriores…
Para mim foi assim.

Ser Mãe é antes de mais um processo de libertação. Agora tenho a certeza.
Sim, nunca tive o meu tempo tão “condicionado” como agora e nunca antes partilhei vida com alguém tão exigente como o meu filho. Mas mesmo assim repito – é libertação.

Perceber de repente que “amei” muitas vezes por medo, trabalhei por necessidade de provar o meu valor, fiz amor por pressão, não respeitei o meu corpo e os seus tempos porque… porque não me ensinaram assim.

Há umas semanas lia aqui que o pós-parto dura a vida inteira e não posso negar que a frase teve impacto em mim. Não foi um “a vida toda assim Nãaaaaoooo!” porque o meu pós-parto não é doloroso (não o chamaria assim), mas é… aventuroso.
Uma aventura muitas vezes vivida a sós, sob pressão dos outros à minha volta que querem ver de volta “a nossa Joana”, o mais rapidamente possível.
Já o disse antes – essa morreu.

Mas insistem, “Deste uma volta de 180graus, mas é reversível!

Reversível? E se eu não quiser voltar?
E se não quiser ter o apetite sexual que tinha antes, o corpo que tinha antes, as prioridades que escolhia… e se… eu agora for ASSIM? É assim tão terrível?

Recebo espontaneamente, e de pessoas que nem conheço, coisas como “Uma pessoa por ser mãe não tem de deixar de ser quem é
Mas… perguntei alguma coisa eu? Pedi conselho?

Não pedi.

Com a maternidade recebem-se de graça “opiniões”. Todo o tipo de opiniões…
Abanar de cabeça, reprovadores; revirar de olhos, gozadores; e mesmo desprezo de “és só mãe?
Por ser “só mãe” (e nem me vou alongar sobre o quanto a palavra “só” está aqui a mais!) recebo quase todos os dias pressão social. E ela chega disfarçada de várias coisas:
Preocupação com o meu filho: “Ele está demasiado dependente de ti“;
Considerações sobre o meu casamento: “Isso da cama partilhada não mata a intimidade do casal?”;
E lições de vida sobre a minha, necessária “independência” (falam de dinheiro, e da ilusão de poderes que ele dá, o mais famoso? O da “independência”):
– “Pois, nem toda a gente pode dar-se ao luxo de não trabalhar
– “Queres dizer, de não ganhar dinheiro” – corrijo eu.
– “E também tens de pensar na tua independência
– “Na nossa” – corrijo eu – “Somos uma família, e nela, eu sou tão independente quanto é o meu marido“…

Mas não percebem.

“Está na altura de…”
“Devias…”
“Não é bom..”
“É mau para ti…”

Desde a minha adolescência que nunca fui tão aconselhada e as minhas opções de vida tão comentadas!
Desde a adolescência, notaram? Uma fase incrível, um marco vital na nossa entrada na “idade adulta”.
Começo a pensar que é uma espécie de medo colectivo, este medo da mulher, com o parto, se iniciar de facto numa idade adulta declarada: já não há Mulher/ Menina, mas há Mulher/ Mãe, plena em seu poder.

Será um medo cultural de dar o poder da maturidade à Mulher?

Todos sabemos o quanto depois de ser Mãe a sua intuição se refina, as suas capacidades físicas se ultrapassam e a sua Alma e coração voam, agora sim num voo impossível de parar.

No nascimento renascemos, e somos mais nós neste novo Ser.

Do mundo, o que ouvimos?
Um chorrilho de “deves” e “não deves”, de “isso é bom” e “aquilo é mau”.

Eu sorrio, enquanto desco a rua, com o meu filho pela mão, parando mil vezes para apanhar folhas que vamos pintar mais logo – sei quem sou agora.

Essa outra Joana que esperam não vem mais, tempo de vermos quem consegue olhar esta nos olhos, e a Amar.


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)

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