[Relato de Parto #31] Rosa Cidália Relatos

A nossa Rita nasceu a 27 de Maio de 2015. É uma menina que desde o primeiro momento irradia a beleza de todos os bebés profundamente desejados e esperados.

Tive tanto medo do parto!!! Umas semanas antes vieram todas as dúvidas – se seria capaz, se estávamos bem preparados, se não ia acontecer nada de errado, se ela ia nascer bem. À minha volta acumulavam-se as “pancadinhas nas costas” e palavras de compaixão como “Dói mesmo muito, mas é para ti, tu sabes… depois vale a pena, mas realmente dói mesmo muiiiiiito” ou “Estás a rir? Quando tiveres as dores do parto não vais estar assim!”…
Apesar de achar que tinha força e capacidade para parir, os “incentivos” e palavras “piedosas” criaram-me alguns receios, que nunca deixei transparecer.

Na última semana de gravidez fomos passear, caminhar e comer um gelado. Fomos à piscina, e fomos tirar umas fotografias “ao barrigão” e à nossa felicidade.

A piscina sabia particularmente bem, permitia-nos namorar um bocadinho, relaxar, imaginar o parto numa piscina igual…

Foi este o momento de entrega e de verdadeira consciencialização, de comunicação com a nossa bebé. Nesta última semana, finalmente, os receios passaram – assim, do nada, como se o momento da verdade fosse naturalmente antecipado pela tranquilidade e serenidade.

Perto das 40 semanas sentia que estaria próximo, que faltavam apenas dias, que não ia demorar… e sempre que o pai ouvia a palavra “contracção” (apesar de por essa altura eu sentir apenas as de treinamento) ficava em estado de alerta!!!

Apesar de não me aperceber de nenhum sinal da eminência do parto, no dia 25 de Maio fomos mais uma vez à piscina. O pai apostou que ela nasceria no dia 26, enquanto eu apostava no dia 27 (bem vistas as coisas, só para o contrariar)!

Na madrugada de 26 apareceram os pródomos – nem quis ver as horas, mas seria quase nascer do dia. Pelas 8h-9h tomámos o pequeno-almoço habitual e apercebi-me que tinham chegado as ditas contracções que, apesar de irregulares, já estavam mais próximas umas das outras. O Zé (ignorando os acontecimentos eheh :-p) fez um post no facebook a comunicar que já estávamos nas 40 semanas… e um pouco depois disse-lhe que achava que estava mesmo no início do trabalho de parto. Contou as contracções… cronometrou os intervalos… ia-me deixando os nervos em franja, confesso!
No final da manhã telefonámos à Isabel (uma das nossas parteiras) a contar as novidades e a dizer que planeávamos almoçar e depois ir dar uma voltinha a pé – disse-nos que, pela descrição dos acontecimentos, ainda não tinha começado mesmo o trabalho de parto.

Depois de almoço telefonou e combinámos que vinha a casa avaliar a situação (e acalmar o Zé! Eheh).
Assim foi!
Talvez pelas 16h -17h chegava a Isabel e confirmava que estava com 4 dedos de dilatação – e eu que pensava que já estava muito mais adiantada!!! Resultado: ainda podia estar hoooooooras até a Rita nascer.

Entretanto as contracções tornaram-se desconfortáveis e esqueci a ideia de caminhar: estive entre a bola de pilates, a música (uma rigorosa selecção feita previamente, composta por sons da natureza, o cd d’O Famoso Destino D’Amélie, kizomba, etc), velas e luz suave, exercícios de relaxamento na cama e estive horas (sim, HORAS) no wc (sentada e a balançar nas contracções).

O tempo ia passando e eu já pedia as tais contracções “dolorosas” e ritmadas – a paciência nunca foi o meu forte.
A mim parecia-me que as ditas cujas tardavam a chegar… tinha uma forte e outra suavezita… outra forte, seguida de outra suave… já era hora de jantar e o Zé tinha indicações para me “obrigar” a comer qualquer coisa, de fácil digestão.
Sentei-me à mesa, na bola de pilates, e comi massa macarrão (sem mais nada)… já não me apetecia talheres, comi mesmo à mão… canudinho atrás de canudinho (parando nas contracções) até estar cheia. Na verdade não comi nada de jeito e neste momento a bola de pilates não me estava a ajudar.
Voltei à casa de banho e as contracções continuavam como antes! Estava um bocado impaciente e já me estava a cansar que “a coisa não saísse do sítio”.

Um pouco depois do jantar (21h-22h) chamei o Zé e disse que queria ir para o hospital, que já começava a ficar cansada – ele telefonou à Isabel e pusemo-nos ao caminho! Ao andar as contracções eram mais fortes e com isto veio o receio de não aguentar a viagem de carro (cerca de 40 minutos até ao Hospital Privado da Boa Nova). Não sei bem como me lembrei de tal coisa mas, ao colocar um toalhão de banho (velho e já usado – QUE VERGONHA!!!) à volta da lombar, e puxando com as mãos na altura da contracção esta tornava-se bem mais suportável (dirigia toda a tensão para as mãos e relaxava o períneo), por isso adoptei essa estratégia para ajudar à viagem. E assim seguimos…

O percurso foi espantosamente calmo. Quando chegámos, com a pequeníssima caminhada até ao hospital e sala de partos, as contracções tornaram-se mais fortes. A Isabel e Sónia (enfermeiras obstetras – equipa da Gimnográvida/ RazãoDSer) aguardavam à porta da sala de partos.
Já parecia um pinguim barrigudo e preguiçoso a andar, mas afinal as contracções continuavam a não ser assim tão más… E depois sim, mal entrei naquela sala (eram quase 23h) vieram as contracções mesmo fortes (e com isto quero dizer que eram mais fortes do que todas as outras e parece que vieram assim do nada, com um aviso feito em cima do joelho, que eram mais difíceis de suportar, mais intensas).
A Isabel abraçou-me e orientou-me os movimentos e, confesso, as dores continuavam fortes.

Sentei-me na beira da marquesa para a Isabel avaliar a dilatação e ela logo me perguntou se eu queria ir para a piscina!
Respondi prontamente que sim!
Nessa altura não percebi que já estava com 7-8cm de dilatação, por isso fiquei a pensar que ainda tinha muito caminho para andar.
Entrámos na piscina (primeiro o Zé e depois eu) e as dores acalmaram muito, não mais tive as tais fortes que tinha dito atrás.
Momentos depois, como dizem, entrei na partolândia e fiquei completamente absorvida neste novo mundo. Nem me apercebi que já tinham apagado as luzes. Estava tudo calmo, como se estivesse apenas eu, num mundo à parte.

Uma atrás da outra foram surgindo as contracções… ia-me mexendo, rodando, deixando acontecer… trauteava uma música da qual só conhecia um verso (depois do parto finalmente tive a curiosidade de procurar e descobri a música desconhecida – era uma música de Natal que diz que “Natal é estar aqui, é estar ali e não estar só” – e, sem eu saber na altura descreve na perfeição o momento que vivia).
Ainda beberiquei um bocado de água.
Fiquei de joelhos o tempo todo, apoiada no Zé, que (foi muito bem treinado e não deu um pio) me abraçava e ia colocando água nas costas.
O tempo passou, tudo ia fluindo e, de repente, sem aviso prévio, senti algo muito diferente, uma vontade enorme de fazer força, uma pressão no períneo… Era o início do fim (desta fase do trabalho de parto, claro): a nossa Rita estava mesmo aí a chegar!
Naquele momento pareceu-me que estava a acontecer demasiado rápido, tentei pedir à Rita que esperasse mais um pouco… mas a pressão era mesmo imensa.
Fiz força, toda a que tinha, e tive receio que fosse demasiada para mim… e, entre contracções, saiu a cabeça.
Ouvi um “Ela está bem… agora suave… suave para nascer” e assim foi: relaxei!

Simplesmente relaxei o períneo, deixei fluir… saíram os ombros e, na contracção seguinte, nasceu… directamente para os meus braços!

Ao emergir da água a nossa bebé abriu os olhos e olhou-me… o nosso primeiro olhar. A sua cara, imaginada durante meses, era ainda mais linda, mais resplandecente.
O Zé não conteve umas lágrimas enquanto a contemplava e me fazia carícias! Foi transformador o momento do nascimento da nossa bebé, as palavras não chegam para descrever o amor imenso que nos invadiu quando a tocámos e quando ela nos olhou.

 

img_5951

Eu chorei de alegria, de amor, de conquista – conseguimos! A nossa filha estava nos nossos braços, olhava-nos nos olhos como se também ela tivesse ansiado conhecer-nos naqueles nove meses que cresceu dentro de mim.

Escassos segundos depois de emergir da água chorou, e pouquíssimos momentos depois veio ter com o meu peito e mamou (e mamou uns bons 40min)!

Mais umas lágrimas e momentos de silêncio para absorver todo aquele momento para nunca mais o esquecer!

Depois de mamar o Zé saiu da banheira e cortamos o cordão. Só então, acompanhada pelo pai, foi avaliada pela pediatra.

A placenta saiu (já depois de eu sair da banheira e dar uns passos até à cama) com mais umas contracções!

Sentimo-nos felizes como nunca, imensos, cheios de amor para dar. Subimos ao quarto e, enquanto a Rita dormia, falámos durante horas e revivemos cada segundo do parto… nem nos ocorreu que seria uma boa ideia dormir!

Com o nascer do dia demos a boa nova aos nossos pais, alguns familiares e amigos!
Anunciámos o mais belo dia das nossas vidas e o primeiro dia de vida da nossa bebé!

~ Rosa, Zé e Ritinha <3


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.