Entrevista com Marta Santos Lima Entrevista

Hoje estamos à conversa com a Marta, uma Mãe d´Água que, desde que se tornou mãe, descobriu o seu verdadeiro Eu.

Quando comecei a preparar-me para a tua entrevista confesso que fiquei um pouco admirada com a diversidade da informação. Dedicaste-te a várias áreas mas, no meu ponto de vista, todas com o mesmo objectivo: dar apoio à mulher grávida para que re-aprenda a conhecer o seu corpo e faça escolhas conscientes.
Quando surgiu na tua vida o interesse pelo bem-estar da mulher na gravidez?

Surgiu com o nascimento da minha filha, em 2007, que me fez descobrir na primeira pessoa que a intenção e a consciência com que nos relacionamos com os nossos bebés in utero têm uma importância fundamental na forma como experienciamos a gravidez e o parto e como podemos afetar a sua vida a longo prazo. De certa forma, foi o interesse no bem-estar do bebé e na importância do vínculo mãe-bebé para esse bem-estar que me levou a este caminho. Mais tarde descobri o quanto este interesse, por sua vez, tem raíz na minha história pessoal e no modo como o meu nascimento resultou no estabelecimento de um vínculo precário com a minha mãe.

A gravidez da minha filha não foi planeada e os nove meses de gestação não foram suficientes para mim para lidar com a dualidade quero/ não quero ser mãe. Quando ela nasceu a parteira colocou-a imediatamente no meu peito e, embora ainda ligada pelo cordão umbilical à placenta e a receber todo o oxigénio que precisava por esse meio e com um bom ritmo cardíaco, não estava a iniciar o processo de respiração… estava mole, sem reação, pálida. Foi um daqueles momentos de pausa enorme em que parece que o tempo se estende e se alarga a percepção do momento. E assim nesse tempo sem tempo, um pensamento toma conta de todas as minhas células: “Eu quero-te! Eu quero ser tua mãe.” E nesse preciso instante em que as minhas células estão a vibrar esse querer, a minha filha inicia o processo de respiração fora do útero e abre os olhos. Vou lembrar para sempre aquele encontro.

Esta experiência fez-me ir à procura do que vivencia o bebé in utero e interessei-me pela psicologia pré-natal. Decorrente dessa procura fiz um curso de hipnoterapia. Durante essa aprendizagem tornou-se mais claro o quanto os nove meses de gravidez e o parto são momentos de formação chave da pessoa, que se vão traduzir em padrões de comportamento inconscientes na vida adulta.

Claro que já durante a gravidez, e na minha procura por um parto em casa, nas conversas com a minha doula e a minha parteira, fui despertando para o quanto tanta informação valiosa estava tão distante da maioria das mães e o quão fundamental é fazê-la chegar ao maior número de mães e pais. Coisas tão simples como saber o que é o consentimento/ recusa informado, por que protocolos se regem as práticas hospitalares e o quanto estas práticas podem não estar alinhadas com o que é melhor para a especificidade daquela mãe e daquele bebé, conhecer como funciona o corpo e como posso ajudá-lo no processo de nascimento em vez de travar o processo. Mas o que me levou mesmo a escolher o caminho que sigo agora foi o sentir o impacto daquele momento visceral de tomada de decisão na minha vida.

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Mais tarde trouxe também à consciência o impacto da minha decisão de não deixar viver o meu primeiro filho. E foi aí que comecei a trabalhar com a perda gestacional. Quer esta seja espontânea ou provocada, é possível numa sessão de hipnoterapia trazer à consciência os processos inconscientes de culpa, de vazio, de perda de vínculo e transformá-los. Tornou-se claro o quanto, mesmo uma decisão de término de gravidez tomada pela mãe, desde que realizada de forma consciente – ou seja, em comunicação com o bebé e em amor – pode ter um impacto totalmente diferente na mãe e no bebé. Curiosamente, aquilo que a maior parte das mães faz é precisamente o contrário, impede-se de se ligar ao bebé, faz por ignorar, por não querer sentir. Do mesmo modo, mesmo numa gravidez planeada, com medo da dor de uma possível perda, muitas mães não se ligam ao bebé durante as primeiras 12 semanas.
Gosto muito de trazer mais consciência às mães da importância deste período formativo e do quanto aquele ser que as escolheu precisa do seu amor incondicional desde o momento da concepção, aconteça o que acontecer.  

Depois de fazer o curso de hipnoterapia e como já tinha o curso de educadora perinatal, foi um passo muito lógico fazer o curso de hipnonascimento.

O Hipnonascimento é uma filosofia de vida, não é um método; é um curso completo de educação para o parto, que empodera a mãe e coloca no centro os desejos de cada mãe/ pai em particular e apresenta a auto-hipnose como uma ferramenta extra que vai ajudar a promover um estado de profundo relaxamento, fundamental para que a complexa rede hormonal que desencadeia e mantém o ritmo do parto funcione e não seja quebrada.

Às vezes, com algumas mães, para além da prática de auto-hipnose que aprendeu no curso de hipnonascimento, posso sugerir fazer uma sessão de hipnoterapia, para trabalhar algum assunto mais específico que possa estar a perturbá-la.

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Doula apaixonada e dedicada.
Carinhosa, corajosa e paciente.
Trabalho de Amor feito com paixão por um bem Maior.
~ Cláudia da Silva

O que as mulheres/ casais procuram nos teus serviços?

Com a hipnoterapia procuram, por exemplo, fazer um trabalho de desenvolvimento pessoal prévio a uma concepção, resolver traumas do parto, conectar com a sua criança interior para serem pais mais presentes.
Com o hipnonascimento, procuram informação sobre o parto baseada em evidência científica, como serem protagonistas do seu parto, técnicas de comunicação dos seus desejos aos profissionais de saúde, a auto-hipnose como ferramenta para lidar com as sensações do parto.
Como doula, querem ser acolhidos, escutados, procuram uma continuidade de cuidado que não encontram no SNS. E mesmo casais empoderados pelo hipnonascimento, muitas vezes querem também a minha presença no parto como doula: pelas massagens, pela possibilidade do pai poder descansar um pouco, pelo apoio que uma mulher que não é da família acrescenta ao apoio do pai, pela capacidade de naquele momento transmitir segurança e tranquilidade à mãe, para relembrar aquilo que a mãe já sabe em momentos de maior vulnerabilidade.

Durante a gravidez, procuram-me também para receber massagens, pois o toque é imensamente curador e acaba por ser um momento de ligação especial consigo própria e com o bebé também. No pós-parto, procuram-me como conselheira de amamentação.  

Como Doula, já acompanhaste partos em meio hospitalar?

Desde 2010 que acompanho partos e o meu primeiro parto em meio hospitalar foi apenas em 2014, embora já tivesse acompanhado, como doula pré-parto e pós-parto, casais que iam ter partos hospitalares. Nos hospitais públicos portugueses costuma imperar a regra de um único acompanhante. Então, como doula, ou seja, segundo acompanhante, não podemos entrar.
Em 2014 estava a acompanhar um casal que ia ter um parto no Hospital da Póvoa. Foi uma surpresa e uma felicidade para mim poder estar presente num parto induzido e dar o meu apoio às decisões do casal. Talvez tenha sido a primeira doula a entrar naquele hospital; agora as portas estão abertas e o trabalho das doulas já é mais conhecido. Ainda assim, nessa instituição, as doulas não entram por serem doulas mas porque naquele hospital dão valor à necessidade da mãe estar rodeada por quem a faz sentir bem, pelo que a sua família é muito bem-vinda e não conta quantos acompanhantes a mãe traz consigo.

A vontade da mulher é respeitada? Qual é a tua visão do parto em Portugal?

A minha visão é muito positiva neste momento. Desde que tive a minha filha e lembrando o trabalho que realizei na Humpar, trabalhávamos numa altura em que muito pouca gente sabia o que era “humanização do parto” ou “parto respeitado” ou “violência obstétrica”. As coisas estão muito diferentes agora, há muito mais mães informadas dos seus direitos e que sabem como comunicar os seus desejos aos profissionais de saúde. Há também mais profissionais implicados na mudança na forma como se assiste a mulher durante o nascimento, principalmente os enfermeiros-obstetras. Há associações e movimentos mais dinâmicos, mais fortes, como a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto ou as Mães d´Água, cuja base não é tanto a luta contra o que existe e sim o inspirar outras mães e profissionais para a visão do quão maravilhoso pode ser o nascimento e o quanto já o é nalguns momentos/ locais, com algumas equipas de profissionais.

As mulheres precisam de mudar a atitude do “não me deixam” para uma comunicação clara e assertiva dos seus desejos! O papel do pai ou acompanhante é fundamental neste processo. A gravidez é um momento de grande transformação interna e pode ser aproveitado pela mulher para se descobrir, para se sentir, para criar, para expressar o belo em si. Seria muito mais proveitoso para a sua ligação com o bebé nutrir-se com tempo de qualidade, passeios na natureza, meditação, do que estar a informar-se de todos os protocolos hospitalares e questões médicas. O pai podia ser mais activo nesse papel de pesquisa de evidência científica de práticas médicas e entregar essa informação à mãe mais digerida para tomada de decisões em conjunto.

Querida Marta! Grata por fazer parte de todo este processo de descoberta e empoderamento que iniciei quando estava à espera do Pico! Foi muito importante ter-te, foste incansável a apoiar-me naquele que era o nosso objetivo! Obrigada por me contagiares com a tua determinação! Rimos, dançámos, chorámos, cantámos, foram momentos bem intensos e mágicos os que partilhamos! O curso foi só a ponta do icebergue – e já tinha sido tão bom! – saber que podíamos contar contigo no dia foi melhor ainda. Cada massagem, cada conversa, a entrega! Coisa de Irmã para Irmã! Para mim “doular” é doar, é amor, é entrega e fizeste-o da melhor maneira! Tenho saudades! Beijo com desejo de muitos mais partos felizes!
~ Andiara Souza

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(imagem Cortesia de Andiara Souza)

As equipas médicas estão familiarizadas com os planos de parto?
São respeitadas as escolhas do casal?

Não querendo muito falar no geral – pois em cada localidade, cada hospital, com cada equipa, a realidade é diferente – há uma tendência para a classe de enfermeiros-obstétricos estar mais familiarizada e ter mais vontade em satisfazer os desejos de respeito da fisiologia do parto do que a classe médica.


Aos poucos os profissionais vão mudando e quanto mais mulheres afirmarem a necessidade de mudança, mais depressa os profissionais procurarão agir de modo diferente.

É muito importante o acto de escrever o plano de parto (no Hipnonascimento chamamos “preferências de nascimento”) tanto como forma da mãe/ pai organizarem os seus desejos e de os comunicar previamente aos profissionais de saúde que os acompanham. Por outro lado, no caso de o casal reiterar no momento a sua recusa informada e esta for desrespeitada, o plano poderá ser utilizado legalmente.  

Ainda assim, no momento do parto em si, o plano de parto num papel vale muito pouco… o que conta é a forma como a mãe e o pai integram o plano em toda a sua comunicação com os profissionais de saúde. É fundamental que tenham presente que o plano que conta no momento é o que constroem a cada consentimento e recusa informada dada à equipa. É momento a momento que se consegue criar aquilo que se deseja para o parto… o plano é o que nos dá o objectivo.

Importante é a atitude dos pais, é a clareza e a assertividade com que falam com os profissionais sobre as suas decisões informadas, a empatia que conseguem estabelecer com os profissionais quando comunicam essas decisões. A informação que recolheram antes do parto é fundamental para saberem o que responder e, acima de tudo, que perguntas colocar em cada situação nova que se apresente.  

Observas maior preocupação por parte do casal em pedir corte tardio do cordão, procedimentos com a placenta, em fazer pele com pele após o nascimento..?

Talvez metade dos casais que acompanho já venham com essa informação e outra metade ouça essas recomendações pela primeira vez na minha aula e desconhece até qualquer dos procedimentos hospitalares de rotina que são feitos ao bebé após o parto. A maior parte, depois de informados, reconhece os benefícios dessas práticas e fazem questão de passar aos profissionais de saúde o quão importante é para eles que sejam respeitadas, caso não sejam prática do hospital.

Como funciona o Hipnonascimento na prática?

A meu ver, o mais importante no Hipnonascimento não é o hipnotizar mas sim o “des-hipnotizar”. É por aí que se começa! Nesta sociedade, desde criança que somos hipnotizados com crenças limitadoras sobre o parto, crenças essas que podem influir negativamente no processo de nascimento.

Todas as histórias horríveis de parto que são contadas, todas as imagens de filmes e séries, de mulheres em histeria a correr para o hospital e a gritar de dor permeiam o nosso imaginário sobre o parto. As crianças brincam com a Barbie a que se tira a barriga para sair o bebé, com Nenucos de chupeta e que bebem leite por biberão.
O casal passou a viver a sua vida mais isolada e muitas vezes antes do primeiro filho nunca tiveram contacto, a não ser ocasional, com outros bebés. Muitas vezes, o seu próprio nascimento foi uma história de terror.

A primeira abordagem no hipnonascimento pretende trazer essas crenças à consciência e desmistificar os medos do parto. Por isso é tão importante abordar a fisiologia da mãe, do bebé e do parto, para que a mãe possa sentir… confiança no seu corpo e no seu próprio bebé. Esta é uma viagem que se faz a dois, o bebé também é um personagem ativo no nascimento.
Depois de “des-hipnotizados”, a mãe e o pai podem começar a construir a Sua visão de parto, sentir o que querem para Si e para o Seu bebé nesse momento tão especial e tão impactante na vida futura de todos.
A partir daí podem começar a utilizar as ferramentas práticas de auto-hipnose que os vão ajudar a viver de facto essa visão.

A Marta é uma pessoa boa que te relembra da tua própria força. Que te relembra que és empoderada, que és perfeita e que tudo tem seu tempo. Ela te acalma se precisar. Ela te empurra se precisar.
É o apoio que eu precisava no caminho para me tornar mãe.
Gratidão eterna!
~ Michele Santiago

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(Foto de Brígida Brito e cortesia da Michele Santiago)

Quem pode recorrer à auto-hipnose? Há alguma contra indicação?

A auto-hipnose pode beneficiar qualquer pessoa. No caso do hipnonascimento não há qualquer contra-indicação em relação ao uso de hipnose, pois não se trabalha com regressões como na hipnoterapia.


O estado hipnótico é um estado de consciência alterado que é natural em nós, podemos entrar e sair deste estado durante o dia naturalmente. É um estado em que nos encontramos focados em algo.

Por exemplo, se estou a ler um livro e entro na história, estou no estado hipnótico… até posso saber que estou sentada no sofá na sala, que o telefone está a tocar, mas nada disso me interessa, me chama a atenção, estou completamente focada na história.

Ao utilizar a hipnose no hipnonascimento vou dar sugestões ao inconsciente que induzam uma mudança na forma como eu sinto o processo de nascimento, utilizando a imaginação posso promover de modo eficaz aquilo que defini como a minha visão de parto. Vou promover a mudança que quero que aconteça. Se tenho medos em relação ao parto, posso através da hipnose, fazer com que deixem de me perturbar.

Há algum trabalho prévio com a mulher/ casal?

Todo o trabalho é prévio. Quanto mais a mulher treinar a mente, mais rapidamente durante o parto ela será capaz de entrar num estado de relaxamento profundo. A prática para o parto no hipnonascimento é como praticar um instrumento para dar um concerto. O concerto é o momento do parto. E costumo dizer que mais do que uma prática para o parto, é uma prática para a vida. O desafio é integrar a abordagem e as técnicas do hipnonascimento por forma a lidar com os desafios da vida diária. Por exemplo, aprender a focar no que se quer, saber tranquilizar o sistema nervoso, prestar atenção à respiração, pensar positivo são ferramentas úteis no trabalho, no trânsito, na relação com as crianças.

Que tipo de exercícios se usam? 

Começa por prestar atenção à linguagem.
A forma como falamos do parto afeta a forma como pensamos sobre o parto.
O que pensamos afeta o que sentimos.
O que sentimos afecta a forma como nos comportamos.
A linguagem que utilizamos é portanto mais descritiva e reforça o entendimento do parto como um evento familiar e não médico.

Trabalha também com os pensamentos, o estar consciente dos pensamentos que tem e o reconhecer que nós não somos os nossos pensamentos e portanto podemos criar pensamentos positivos que nos façam confiar e acreditar no modo natural de parir. Desta forma, trabalha-se com as afirmações, fazendo um exercício de foco no que se quer e não no que não se quer.
Aprende a trazer a consciência à respiração e treina respirações que são orgânicas, que vão ajudar o corpo a fazer o que ele já sabe fazer. Muito diferentes das respirações “de puxo” (fase expulsiva) normalmente ensinadas em cursos de preparação para o parto.
Aprende a conectar com o corpo. Através de audios, visualizações e respiração, criam-se âncoras entre corpo e emoções que permitem interromper a resposta de stress de emergência do sistema nervoso e voltar a equilibrar a mente e o corpo.

Discute-se os medos e ansiedades e explora-se aqueles sobre os quais se pode fazer algo e através de guiões de hipnose liberta-se daqueles que não lhe servem nenhum propósito e são substituídos por pensamentos encorajadores.

O pai/ acompanhante é incluído em todo este processo e pode ser um facilitador, promovendo uma aprendizagem mais rápida.

Pratica exercícios também de conexão com o bebé.


Aprende a estar conscientemente presente no parto, para cada sensação, para cada momento, uma onda de cada vez, quando esta acontece. Gosto de chamar a atenção para a diferença entre essa presença mindfulness e a utilização de outras técnicas de hipnose em que se sugere que a mulher vá para um lugar seguro. Acho totalmente descabida essa sugestão num parto, tão distante da filosofia do hipnonascimento. Então o corpo da mulher não é um lugar seguro? É preciso levá-la para outro lado?
A mulher não está na cadeira do dentista, está no evento da sua vida em que experiencia o maior pico de oxitocina, a hormona do amor, e em que, desde que mantenha o nivel de stress relativamente baixo, é inundada por endorfinas, as hormonas de bem-estar.

As vantagens são visíveis?

Sim, a mulher sente-se mais confiante em si e no seu corpo, mais calma, está mais presente para quaisquer que sejam as sensações, está mais focada, mais ligada ao bebé, consegue lidar com os seus medos. Enquanto casal, estão mais conscientes e informados, são mais capazes de manifestar  os seus desejos, são mais assertivos na comunicação com os profissionais de saúde; o pai está mais ciente das capacidades da mulher e  mais presente no apoio que lhe dá, mais protector, mais conectado com as necessidades do duo mãe-bebé.

As mulheres conseguem parir sem qualquer tipo de anestésico quando recorrem a esta ajuda?

Cada caso é um caso. Um parto é um desconhecido. Poderá haver casos em que uma mulher precise de anestésico por diferentes razões. O hipnonascimento não é promessa de um parto sem dor…
Aquilo que se transmite é que cada mulher vai sentir sensações, que podem ser mais ou menos intensas de acordo com diversas variáveis e cabe-lhe apenas a ela definir se classifica ou não as sensações que experiencia como dor. Muitas mulheres, pelo relaxamento que aprendem a criar no seu corpo e mente, não descrevem o parto como doloroso. Contudo, ter ou não ter dor não é o objectivo do hipnonascimento. O objectivo é a satisfação da mãe, o bem-estar do bebé e a criação de um bom vínculo mãe-bebé. Ao proporcionar um conhecimento da fisiologia e anatomia do corpo e do funcionamento da mente, o hipnonascimento dá à mulher um melhor entendimento sobre o que se passa no seu corpo e na sua mente, permitindo-lhe sentir as sensações à medida que elas se apresentam e gerir essas sensações. A mulher fica a saber o que tensiona o útero e o que o relaxa, consegue reconhecer se está a entrar no ciclo Medo-tensão-dor e aprende estratégias para descontinuar esse ciclo e passar ao ciclo Aceitação-relaxamento-satisfação, aprende a confiar na sabedoria do corpo e a entregar-se a ela., Aprende-se também que a linguagem que usamos cria imagens na nossa mente, e essas imagens criam sensações. Então, sei que posso substituir a linguagem comummente usada por termos que descrevam de forma mais adequada aquilo que quero sentir. Posso, por exemplo, substituir “contração” – palavra que pode fazer com que eu tensione o músculo uterino-  por “onda” – a palavra “onda” faz juz à experiência física de um gradual aumento de intensidade de sensação, um pico e uma gradual diminuição dessa sensação e posso imaginar essa onda a aconchegar o bebé e a trazê-lo para os meus braços.

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Pela tua experiência qual é o impacto de um parto traumático na mulher?

Um parto traumático tem consequências na auto-estima da mulher e na ligação com o bebé. Muitas vezes há consequências físicas, como por exemplo uma episiotomia, que pode perturbar as relações sexuais.
O parto é um evento com um potencial de transformação incrível na vida da mulher.

É por isso que noutras culturas, noutros povos, só os homens são sujeitos a rituais de passagem, a mulher não precisa, já tem o parto.
Um parto vivido de modo empoderado tem a capacidade de resolver inclusivamente traumas passados.

Que tipo de acompanhamento fazes nesta área?

Numa sessão de Hipnoterapia posso ir a esse evento traumático e transformar essa experiência, guiando a mulher a encontrar o seu momento empoderador nesse parto. Podemos lidar com o que chamamos os “agressores” e fazer trabalho de libertação emocional, podemos ter que falar com a mulher que ela era nesse parto e trabalhar o perdão, reconhecendo que fez o melhor que sabia com os recursos que tinha… depende… cada mulher é única, cada experiência também, terapeuticamente vou guiar a sessão de acordo com o que for surgindo e se apresentar como necessário resolver.

Que projectos para futuro tens em mente?

De momento acabei de me estabelecer num novo espaço… lindo, acolhedor, com natureza, exactamente um ambiente que procurava há já muito tempo e que queria poder oferecer às mães. Incomodava-me estar a trabalhar com mães em salas fechadas, com barulho de carros… a gravidez pede contacto com o belo, com a vida!
Quero trazer a esse espaço outros profissionais (já iniciei contacto com parteira, terapeuta sacro-craneana, consultor de babywearing, professora de dança e yoga, músicos, contadores de histórias) e criar um centro em que as próprias mães que acompanho possam propor actividades. Algo que já sinto há muito tempo é uma necessidade de criar grupos de apoio a grávidas e mães em pós-parto, tirar as mães do mundo virtual e fomentar a presença, o toque, o olhar, o apoio de mulheres a mulheres.

Este fim-de-semana, 19 e 20, celebro seis anos de acompanhamento a mães, pais e bebés.
Fica o convite para vir sentir o que serão as novas propostas que tenho.
Dois dias de partilhas intensas, pontuadas com música, histórias e pinturas! – programa do evento AQUI.

Onde te podemos encontrar?

Desde Setembro que o projeto Nascimento Consciente se encontra no Ser Yoga – Porto, podem ver mais sobre o meu trabalho AQUI.

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Grata à Marta, uma das colaboradoras do nosso movimento, pelo carinho e tempo que dedicou a esta nossa conversa tão importante para nós mulheres e para todos!
Carinho nosso!

(imagem de capa por Hugo Lima)


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.