Entrevista com Marinélia Leal Facote Entrevista

“A Mente e a Respiração são o Rei e a Rainha da Consciência Humana.”
~ Leonard D. Orr, fundador do Rebirthing 

De Engenheira Química a terapeuta de Rebirthing, como aconteceu isso?

Fiz graduação em engenharia química que era uma área que eu gostava muito desde o liceu. Foi um caminho decidido, escolhido, valorizado e nunca achei que estava no caminho errado. As matérias que me interessavam mais eram Física, Química e Matemática e por momentos só tive dúvida se fazia engenharia química ou química industrial. E foi aí que um professor meu fez a seguinte pergunta, que foi fundamental: “Quando o feijão está a cozer, o que te chama mais a atenção? O tempero do feijão ou a panela de pressão?“. Ao qual eu respondi “A panela de pressão”, e ele deu-me o seguinte conselho: “Então vai para engenharia química”. (risos)

Foi um curso longo, díficil, numa universidade muito árida emotivamente para mim, onde eu vivi muitos momentos de solidão, porque era muito estudo… mas ao mesmo tempo eu era muito curiosa, e interessava-me por áreas mais psicoespirituais. Lembro-me que aos 12/ 13 anos disse aos meus pais que queria fazer terapia, porque achava que devia ser interessante ficar a conversar com alguém! E eles logicamente disseram “Não, tu vais fazer desporto“. E eu fui fazer desporto! (risos) Quando terminei a universidade, nesse momento estava no Brasil, no Rio de Janeiro, ninguém tinha emprego, o caminho mais natural depois da universidade era fazer um mestrado. Então fiz mestrado em Engenharia de Materiais na área dos Cristais. Isto sempre em paralelo com a minha curiosidade pelos temas mais esotéricos. A minha bolsa de estudo era excelente e dava-me tempo e eu comecei a dar aulas de reforço escolar para alunos do liceu. E eu adorava! As aulas eram maravilhosas! Eu e os alunos tínhamos uma interacção fantástica…
Numa das turmas havia uma menina que dizia sempre “Quando os clientes da minha mãe vão à consulta”, a dada altura eu perguntei: “A tua mãe é médica?“, e ela “Não, a minha mãe joga tarot”. Fiquei surpreendida porque até aquele dia nunca tinha conhecido ninguém que jogasse tarot, e marquei uma consulta – Curiosidade, ela também era astróloga, Fernanda Chacel, muito conhecida no Rio e somos amigas até hoje! Ela fez o meu mapa astral e jogou as cartas para mim. E disse-me “Olha, tu tens uma educação subliminar. O que tu ensinas a essas crianças não é química, física ou matemática. Tu ensinas outras coisas através dessas matérias, e é assim que tu te relacionas com as pessoas. Tu dás a elas o que elas precisam, mas nem te dás conta disso. Com o tempo vais perceber isso, e quando tiveres 40 anos vais ter a oportunidade de fazer isto em qualquer lugar do mundo, é só escolheres“. Aí ela dá-me um flyer onde vinha anunciada uma palestra sobre Rebirthing e acrescenta “Talvez isto te chame a atenção.” A verdade é que li, não me fez sentido nenhum e não fui. Um ano depois volto a uma consulta com ela, porque tinha gostado muito do trabalho, e aí ela dá-me outro flyer em que vinha um workshop sobre Rebirthing. E aí eu fui! (risos). E fiquei fascinada! Era como se estivesse a ouvir alguém a colocar em palavras de uma forma práctica o que eu pensava, como vivia a minha vida e de como criava realidades que achava que eram importantes para a realização. E saí desse workshop dizendo para uma amiga: “Vou fazer formação e seguir com o Rebirthing“. E assim foi…
Uns dias depois conheci o Ronald Fuchs num workshop de Tantra. Ele dava formação de Rebirthing no Brasil, Rio e São Paulo, mas eu já não ia a tempo das datas no Rio porque estava a fazer uma pós graduação em Gestão de Qualidade, que não tive coragem de abandonar. Ao mesmo tempo encontrei uma terapeuta que fazia Rebirthing e fiz minhas sessões individuais. Entretanto tomei coragem e fiz a formação do Ronald em São Paulo.
Terminei em Dezembro de 1998 e em Janeiro de 1999 tinha um consultório montado com umas amigas e estava a fazer Rebirthing. (risos)
O meu processo foi fluído, sem nenhum trauma, sem nenhum drama, que às vezes pensa-se que todas as transformações passam por um drama, mas eu não acredito. Isso é apenas uma crença muito errada.

As transformações passam a partir do registo emocional de cada pessoa e é possível viver uma transformação suave, sem nenhum dano, sem ter perdido o emprego, sem ter tido uma doença grave, sem ter perdido o dinheiro todo.
O que eu fiz foi uma transição suave, tranquila para chegar onde eu precisava que era assumir o Rebirthing.

Fiquei seis meses com dois trabalhos, fazendo Rebirthing e as aulas de numa comunidade do Rio. Mas ao fim desse tempo percebi que eram vibrações muito diferentes, que me exigiam muito esforço. As aulas eram numa zona muito carente do Rio e a dada altura eu percebi que nas aulas eu estava a fazer Rebirthing. Aí foi quando decidi ser só rebirther, até hoje.

E Portugal?

Portugal vem, porque eu me apaixonei por um português! (risos)
Como eu disse comigo tudo é muito fluído!

Quando nos conhecemos fizemos uma espécie de análise para perceber para quem era mais fácil mudar de país. E era para mim.

Assim que, passados nove meses (como um ciclo de gestação), eu estava a aterrar em Portugal, com toda a minha inocência, e com toda a minha paixão.

Dez dias depois estava a dar a minha primeira consulta de rebirthing. Isto foi em dezembro de 2002.

Quando chegaste a Portugal, como estávamos em matéria de Rebirthing?

Não existia nada e eu não tinha noção do pioneirismo desta área em Portugal. Uns meses antes de chegar, eu trabalhava no Espaço Mahadevi, no Rio, juntamente com outros seis rebirthers. Uma delas era a Iara de Lima que um tempo antes tinha estado cá a dar uns workshops.
Ainda no Brasil, fiz uma pesquisa sobre rebirthing em Portugal e o mais semelhante que encontrei foi informação sobre a Louise Hay, que é uma referência para nós rebirthers, porque ela fez muito trabalho pessoal com rebirthing. Nesse momento abri um “banner” da Vera Faria que falava sobre “afirmações positivas” e “criança interior”. Enviei um email sobre a técnica de Rebirthing em Portugal, ao que ela me responde que ninguém que ela soubesse falava ou praticava, e sugeriu que eu a procurasse quando chegasse.
E assim fiz.
Ela queria fazer sessões e decidimos fazer um acordo: eu fazia sessões para ela em troca de horários para dar consultas no consultório dela, caso alguém aparecesse.
E assim foi. A palavra foi passando e comecei a trabalhar no Nosso Espaço e no Quiron-Centro Português de Astrologia, com o apoio da Maria Flávia.

Qual foi o impacto inicial no público?

Aqui eu percebi três coisas: primeiro que as pessoas aqui não tinham ideia do que era o rebirthing. Segundo que tinham um poder pessoal muito reduzido. E terceiro que o rebirthing oferecia-lhes possibilidades de escolhas que elas mesmas nunca antes tinham imaginado.
Ou seja, o poder de conseguirem transformar a própria vida, que as pessoas não acreditavam ser possível.
Para mim foi muito impactante porque o público daqui era muito diferente do público a que eu estava habituada no Rio.

Aqui senti um público muito fechado, com questões que na minha outra realidade não existiam mais.

Só para exemplificar, aqui existiam muitas mulheres engenheiras, advogadas que diziam que não podiam ter uma reunião com um decote senão não eram respeitadas… (!) Confrontei com muitas, mas mesmo muitas histórias de abuso sexual. Eu não quero dizer com isto que no Brasil tem menos abuso sexual do que em Portugal. O que eu quero dizer é que o público que eu trabalhava não trazia essa temática. Ainda porque as terapias não convencionais no Brasil em 1998 ainda era uma área elitista. E aí pode ser que as pessoas tenham mais consciência porque têm um poder aquisitivo maior. Mas nem nos meus alunos de comunidades carentes eu via esse tipo de abuso sexual. Famílias que viviam em casas mínimas com a tia, a irmã, o cachorro, um deita no chão outro na cama… enfim… não havia nada desse tipo de desrespeito com as crianças. E aqui eu apanhei um público com um nível de vida de “A a Z”, com um nível de abuso sexual brutal e confesso que isso me assustou. Até porque hoje eu tenho mais tempo de trabalho em Portugal que no Brasil. Se formos bem a ver são 18 anos de trabalho e 14 anos cá. E reparava na reacção das pessoas quando lhes dizia que essa violência não era natural, que nem todas as pessoas são assim. Ou seja, eu explicava que se alguém tinha sido violento com uma pessoa e ela perpetua esse comportamento com o companheiro é porque isso aconteceu “lá atrás”, com a mãe ou avó… Mas não é sempre assim. Não são todas as mulheres ou todos os homens que são abusados e/ ou abusadores. E isto era muito custoso para as pessoas acreditar…

Respiração, Transformação, Pensamento, Criatividade. Todas estas palavras fazem parte da técnica do Rebirthing. Podes explicar de que forma estes conceitos se juntam?

O Rebirthing funciona basicamente como uma ferramenta muito poderosa para desbloquear o bloqueio respiratório que nós adquirimos no nascimento.

No momento que o bébé nasce e há o corte do cordão umbilical, o que acontece é que ele pára de respirar no “meio do processo” e é obrigado a respirar para viver noutro meio. Nesse exacto momento é manifestado um Medo. Ele precisa de expandir a capacidade pulmonar. E essa expansão dói. E aí é criado um bloqueio que fortemente se reflecte em “respirar dói, custa, é difícil”.

Isso faz com que “eu – bébé” limite todas as minhas mudanças porque no momento em que eu vou mudar, ou vou dar um passo, vai doer. Então eu evito dar os passos para não sentir a dor. Então eu evito respirar para não sentir dor. Porque eu tenho na minha memória celular aquela dor isto causa o bloqueio da respiração. E o Rebirthing faz com que eu libere o bloqueio e liberte a minha respiração. E passo a respirar com toda a minha capacidade porque aquela dor já não é uma dor que condiciona a minha vida.

A respiração é fundamental porque o rebirthing foi criado a partir da respiração. O pensamento criativo foi introduzido como experiência acerca da respiração.

O Leonard Orr percebeu que a forma de respiração por um certo tempo, activava memórias uterinas, umas do parto, da concepção, da gestação e até de outras vidas. Isso foi acontecendo várias vezes na banheira com água quente só para relaxar. Ele experimentava e percebia que isso ia causando processos emocionais com ele e foi praticando com outras pessoas.
Só após vários anos é que ele percebeu que o que activava essas memórias não era a água quente mas sim a respiração. Porque as mesmas memórias eram afloradas quando se respirava fora da água.
Ele fez isso por muitos anos na Comunidade Nova Era, na Califórnia, e com o tempo percebeu que era uma técnica mas ainda sem nome.
Numa viagem à India, ele encontrou um yogi imortal, o Babaji, que é o mestre espiritual dos rebirthers, e que lhe disse “Aquilo que fazes nos Estados Unidos chama-se Rebirthing – o novo yoga.”
Foi aí que a técnica “recebeu” nome e começou a ser melhorada.

Os primeiros rebirthers do mundo foram Bob Mandel, Sondra Ray, Jim Morrison, Ronald Fuchs, Diana Roberts, entre outros, que ele formou e se espalharam pelo mundo. E a partir desse movimento outros rebirthers começaram a aprimorar a técnica e a introduzir outras ferramentas. Aí deram-se conta de que a técnica criava um “vazio na mente”, isto porque a respiração que nós fazemos aumenta a nossa vibração, aumenta o nosso campo energético e isso cria um vazio – os pensamentos existem nos vazios, e esses são pensamentos negativos – Tomando essa consciência, eles perceberam que era necessário inserir algo nesse vazio. E começaram a usar a Programação Neuro Linguística, também conhecida por PNL, que é o pensamento criativo!, e começaram a perceber que além da mudança energética existia uma mudança de consciência, logo o pensamento muda. Porque é desbloqueado o primeiro trauma de nascimento que é onde “eu” faço o primeiro pensamento de mim mesmo. “Eu penso que Eu Sou, ou o que Eu Não Sou – dependendo do tipo de parto que eu tenho. Por isso, a respiração, juntamente com o meu pensamento criativo, pode mudar a minha própria realidade. A partir do momento que eu desbloqueio a minha respiração, e a partir daquilo que eu insiro nesse vazio e aquilo que a consciência mudou com a respiração.

Assim, o Rebirthing vem colmatar a tão famosa frase do Michel Odent “O mundo mudará a partir do momento em que se mude a forma de como os bébés nascem.”

Exactamente!!

Existe uma curiosidade que poucas pessoas sabem, é que o Rebirthing surge nos Estados Unidos como trabalho de libertação e de cura dos processos de nascimento, no mesmo momento em que em França, LeBoyer começa a falar de parto humanizado.

Então, naquele momento no mundo questionava-se a forma como as pessoas nasciam. Foi como um momento energético só para isto. Porque para quem já nasceu tinha de haver uma solução, e era o mundo que estava a pedir isso mesmo.
Na Europa pensava-se no nascimento, enquanto nos Estados Unidos se pensava no renascimento.

Fala-me do teu projecto “Educação Emocional Uterina”

Um bebé é um resultado de uma mãe e de um pai, independentemente da forma como ele nasce. Então se queremos filhos/sociedade que tenha um nível diferente de consciência, temos que trabalhar a consciência individual e a consciência do/a companheiro/ a antes de gerar uma criança. Essa mesma consciência é o resultado do nascimento com o nascimento da mãe, do pai e de toda essa ancestralidade. Porque foi este conjunto que gerou padrões nos meus pais, que fizeram com que os pais contribuíssem para o nascimento individual de cada um de nós. Então, o primeiro passo de uma “escola pré-uterina” é: transgeracionalidade. Ou seja, cada indivíduo olha para as suas gerações – os padrões das mulheres ou homens naquela família; como se relacionam as pessoas nessa família; se houve abortos; o quanto as crianças naquela família são abandonadas pelos pais, por exemplo… e por aí adiante.

Uma mulher e um homem são no fundo o resultado de duas famílias, então é necessário fazer este estudo geracional para duas pessoas que querem ser pais.

A partir do momento que eu olho o padrão ancestral que essas pessoas transportam, percebo os padrões emocionais que elas trazem, e dependendo disso podem ter mais ou menos potenciais para materializar.
Os padrões que são bons vamos fomentar, os que são menos bons vamos limar, para ajudar esse casal a fazer outras escolhas com base na ancestralidade deles. Isto para que possam passar outras escolhas para os seus filhos. E aí posso, depois disso, começar a olhar para o nascimento dessas duas pessoas, curar os traumas de nascimento dessas duas pessoas, e lá na frente trabalhar a “fotografia” que elas gostariam que tivesse o parto delas.

Eu costumo dizer que o parto é uma fotografia de um momento de uma mulher e de um homem. E esta pode ter retoques ou não.

É preparar o casal para isso, é tirar o peso do parto, a necessidade de um tipo de parto, é dizer para eles que o parto vai-lhes mostrar em que momento da vida eles estão. Se o ponto em que estão necessita de mais evolução, então é de aproveitar o nascimento do filho para evoluir. Isto não impede uma pessoa de criar uma estrutura emocional, psíquica e física para que esse momento seja o mais agradável para todos.

Só que há que ter noção que o parto é como uma fotografia – tal como um mapa astral é uma fotografia do céu no momento em que uma pessoa nasce – a chegada de um filho é um renascimento, onde morre uma filha e um filho e nasce uma mãe e um pai.

O renascimento mais espontâneo que alguém pode viver é uma gestação onde um Ser vai nascer e renascer todos os dias durante nove meses.
A “Pré- Escola Uterina” serve para trazermos bebés com mais harmonia, porque os pais já libertaram os bebés de muitos padrões antes da concepção.
Assim bebé vem como um Ser que vai trazer transformação e ensinamento, com mais ou menos peso, dependendo daquilo que aquela “linhagem” traga. Se limamos isso, se harmonizamos todos estes factores, isso facilita a naturalidade. Por exemplo: uma mulher que tem um parto por cesariana, essa mulher tem dificuldade em confiar nos homens. Essa história surgiu numa geração anterior à dela, e temos de perceber quantos homens davam segurança e confiança para as mulheres naquela linhagem. Em algum momento devemos escolher fazer parte dessa família, sem carregar a dinâmica de que os homens não são confiáveis. Cada pessoa pode fazer essa escolha e trazer para esta vida um bebé com um parto vaginal.

Então a “Escola Emocional Uterina” usa técnicas de rebirthing?

Sim! Tem três técnicas base: a técnica de terapia regressiva, técnica de ancestralidade (ou terapia transgeracional) e técnica de rebirthing. Trabalham as três sempre juntas.

Consideras que o Rebirthing e a “Escola Emocional Uterina” são um passo essencial para uma parentalidade consciente?

Sim. Sem dúvida. Tenho histórias fabulosas de várias mulheres que viveram um parto com outra consciência, não sobre o tipo de parto, mas sim sobre o que o parto representa na história delas.
Qual foi o ponto de mutação que o parto trouxe?
A mensagem de transformação que aquele bebé trouxe para aqueles pais.
Estas mulheres percebem claramente a função emocional que estes bebés trazem. Isto porque elas já perceberam todo o percurso que havia para trás. E é muito lindo acompanhar esses bebés depois de nascerem, no olhar deles sentimos uma cumplicidade tal, como se dissessem “nós fizemos um trabalho juntos!” É muito lindo vê-los trazer esse retorno quando nascem.

Tal como a Clarissa Pinkola Estés dizia “O melhor presente que uma mulher pode dar à sua filha é a cura de toda a sua linhagem.”

Nem mais!

Enquanto seres humanos porque perpetuamos a eterna insatisfação?

Porque vivemos o que no rebirthing chamamos de “mentira pessoal”, ou seja, é o pensamento mais negativo que temos de nós próprios.
Essa mentira pessoal condiciona a vida de cada um, e vivemos o tempo todo a esconde-la como se ela não existisse.

Ao escondermos temos a tendência para sobrecompensar e nunca temos paz, pois requer muita energia. Então funciona basicamente como “eu estou sempre a tentar mostrar uma coisa, de forma a esconder outra coisa que não quero que ninguém veja”.
Logo, é impossível ter paz! Porque estou sempre a olhar para o outro, questionando-me “será que ele descobriu a minha mentira?”. E isso automaticamente aniquila a auto-estima de uma pessoa, porque assim vive sempre habituada ao que o outro reconhece na pessoa. Então, ou vivemos no mínimo infelizes, ou consecutivamente expectantes no que o outro me vai “dar” enquanto feedback sobre “a minha pessoa”.

Muito da “mentira pessoal” está ligada ao momento do nascimento, ou da gestação ou até concepção, que é quando o bébé assume um sentimento relativamente aos pais.

Um sentimento do tipo “eu sou indesejado”; “não era a hora para eu chegar“; “sou tão mau!” (porque o parto foi traumático); “sou tão pequeno!” (porque a minha mãe queria um bebé maior); “sou um erro!” (porque o meu pai queria um rapaz e sou uma rapariga)… a isto chama-se de “mentira pessoal”. Que são emoções que o bebé cristaliza numa frase a partir do impacto que ele recebe de fora.

Por isso um dos trabalhos da pré-escola uterina é mostrar aos casais que eles têm que rapidamente desmistificar a expectativa que têm sobre o bebé. Porque este não vem nunca para “melhorar a vida do casal”, não vem para ser “a menina do papá”, nem o “grande rapaz da mamã”! Ele vem para viver a vida dele, e ele escolheu aqueles pais como suporte.

Isto já faz com que os bebés nasçam com mentiras pessoais muito mais suaves, e muitas vezes até sem mentira pessoal. Logo, esta pré-escola é uma oportunidade de renascer o bebé, ainda na vida intra-uterina.

Esta Pré- Escola Uterina podia ser mesmo uma “disciplina” da escola…?

Podia. E eu até costumo dizer na escola da minha filha que na ficha de inscrição devia ter uma alínea para preencher com o seguinte título: “Como tu nasceste”. Isso ajudaria as educadoras a entender muito melhor as crianças, assim como as relações dentro da escola seriam totalmente diferentes.

De forma geral, hoje em dia, as mulheres estão a ser mães mais tarde. Achas que esta decisão está associada com uma necessidade de curarem primeiro os seus padrões e só depois quererem ser mães?

Eu não sinto isso. O que eu sinto é que as mulheres estão a ter filhos mais tarde porque estão muito mais conectadas com elas e com o medo que têm do mundo. Com o pensamento de “será que sou capaz?“; “será que é este O companheiro?“; “será que vou conseguir sustentar?“; “será que se perder o emprego vou conseguir voltar?“… e por aí. A mulher, na sua ancestralidade, não tinha isto, mas sofreu de um suporte de apoio e confiança muito grande e logo ela sente-se sozinha, e, com um bebé, ela em algum momento vai achar que outro será o momento em que vai estar realmente mais preparada – seja emocionalmente ou fisicamente – e vai adiando o processo.

Existe para ti diferença entre auto-estima e amor próprio?

Na realidade nunca tinha parado para pensar nisso…
O que eu sinto é que as pessoas não sabem o que é auto-estima e não a podem ter porque não se conhecem, e o ser humano não gosta do desconhecido. Porque já acreditamos que somos a “mentira pessoal”, e esta, como é uma coisa negativa… ninguém gosta do que é negativo!

Quando alguém descobre que já não É essa “mentira pessoal” pode então começar a desenvolver “estima” por quem descobriu que é.

E realmente, agora pensando, auto-estima e amor próprio são coisas mesmo diferentes:
Amor próprio é “eu gosto de mim“; “eu gosto de quem eu sou“.
Auto-estima é descobrir Quem Eu Sou. Perceber que existem coisas em mim que eu não gosto, mas eu estimo-me na mesma, porque eu estou em processo de transformação.

Mas só me estimo se eu souber que não estou pronta. Se eu achar que sou aquilo e é negativo, como algo estanque, então eu não vou gostar. É o descobrir quem realmente somos. Sair da mentira que as pessoas, a sociedade, a parteira, o obstetra, nos fizeram acreditar que somos.

E porque este processo de gostarmos de nós é tão importante?

O poder de acreditar na “mentira pessoal” é este: Se eu acreditar que sou mau, eu vou fazer coisas más…

… se eu acreditar que magooei a minha mãe quando eu nasci, e que ela ficou com vários pontos ou quase morreu, se eu for homem, por exemplo, eu acredito que magoo as mulheres – e eu vou magoá-las , tal como magoei a minha mãe, porque acredito que sou mau.
Daí vem tantas agressões de homens… e se fizermos uma avaliação rápida, normalmente nasceram de cesarianas emergencial ou de partos muito traumáticos e eles ficam com a memória de “Eu magoei a minha mãe“. Ela é uma mulher e quando esse homem cresce a última coisa que quer fazer é magoar uma mulher, mas como acha que “é mau”, na cabeça dele “aquilo que consigo fazer é sempre magoar uma mulher“.

O Rebirthing é também aplicável no pós-parto e amamentação?

É sim!

Em que outras situações o rebirthing pode ser benéfico?

De forma geral, ajuda muito no síndrome do pânico, distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, problemas com obesidade, dificuldades financeiras e dificuldades nas relações amorosas e sociais.

O Rebirthing pode auxiliar no processo do “viver o presente”?

O rebirthing trabalha o viver o Agora, sem o factor preocupação. Isto está associada aos medos, e quem tem medo do novo, tem histórias de partos complicados… medo do novo, do futuro, do que vai acontecer daqui a meia hora. Achando que vai sempre acontecer algo de mau não dá para viver no presente.

O que passou no parto, já aconteceu, e apesar de real, foi só uma vez, o resto são projecções. Porque o medo é como um crescendo… medo de entrar na vida, medo de ir para a universidade, medo de encontrar o primeiro namorado… até um simples medo de atravessar a rua pode remeter ao medo do nascimento. Quando vamos só atravessar a rua, não vamos nascer outra vez!

O rebirthing faz com que as pessoas tenham noção do nascimento e assim entendam como esse momento afecta a vida actual delas como se estivessem a nascer outra vez. E, de forma geral, não temos noção de que temos atitudes iguais às do nosso nascimento. O Aqui e o Agora, são isso mesmo: o Aqui e o Agora. Não são o parto, nem o futuro.

Como seria se toda a equipa médica e de obstetrícia tivesse formação em Rebirthing?

Seria óptimo!
Os obstetras, as parteiras, as doulas têm sempre um trauma de nascimento e por isso escolheram essa profissão. Para curar.
Então, muita da energia de medo que os bebés recebem vem dessas pessoas, que se questionam “será que vai dar certo? será que vai nascer? será que estou a fazer da forma correcta?” Mesmo já com alguma consciência deste processo ainda existe uma parte que não confia. Não confia na natureza, não confia na mulher, nem no companheiro da mulher, não confia no bebé. Logo, ainda existe uma energia de medo e isso pode condicionar um parto.
Se cada um destes profissionais tiver esta consciência saberá que em momento algum do seu trabalho em que dá assistência ao parto está a viver o Seu parto, está, antes, a viver o parto daquela mulher.
O problema está na nossa mente reptiliana que diz que toda mudança é o nosso parto, agindo, sentindo e trazendo toda a adrenalina do nosso parto. Aí, devemos parar, respirar e perguntar: “Se não é o meu parto, o que é então?” Esta paragem, é o tal vazio que a respiração traz, que é um lugar onde eu posso criar o que quiser e pode surgir algo novo, criar outra história, entrar noutra vibração e o medo fica logo “arrumado”! Por isso é muito natural que profissionais de saúde na área dos partos, mais ou menos holísticos, terem vivido a morte, por ser a morte que tanto temem. E este pensamento materializa-se. É como se ainda não existisse confiança na Vida o suficiente, a vida mostra isso, através da perda de uma vida, de um bebé ou de uma mãe.

Como são as tuas sessões de Rebirthing?

São sessões de duas horas:
Uma parte é psicoterapia onde avaliamos e investigamos as histórias dos traumas, as memórias do nascimento, activamos pensamentos – ou seja, é uma parte hiper mental.
A segunda hora é só respiração energética, circular e consciente – que traz, ou limpa, memórias que foram encontradas na primeira parte do trabalho.

A respiração tem o poder de trazer ao de cima as memórias que estão sedimentadas, então quanto mais eu respiro, mais essas memórias vêm ao de cima.

Atenção, que não é necessário reviver sempre o momento do nascimento, o objectivo do rebirthing é limpar todas as memórias do “roteiro natal”, incluindo as do nascimento. Porque existem pessoas que não têm memória do parto, e isso por vezes acontece porque tiveram um parto harmonizado e suave, e nesse momento não existe memória traumática condicionante. Mas talvez tenha existido na gestação, na concepção, ou em vidas passadas.
A sessão é conduzida pelo cliente, e os rebirthers acompanham.
Olhamos, damos dicas de como respirar de uma forma mais energética, isto é, estamos ali para aquela pessoa. Tal como uma parteira devia estar para um bebé, é o “Eu estou aqui para ti. Quando me solicitares eu intervenho com aquilo que sei. Se fizeres o processo todo automaticamente sozinho eu acompanho e te abençoo.”
E isso é tudo com a respiração, que até limpa as nossas células.
É curioso que as pessoas que fazem rebirthing aparentam ter muito menos idade do que na realidade têm. Porque o nível de oxigenação que existe limpa a toxicidade das células e com o tempo a longevidade com qualidade aumenta.
E é só respirar, em 60 minutos exactos. Como se fosse um gráfico em que as coordenadas são o tempo e a energia. Quando mais espaço/ tempo, mais aumenta a energia, quando mais Qui, mais energia temos, mais memórias levantamos.
Por volta dos 40/ 50minutos a energia começa a cair e quando a sessão termina a energia está num patamar muito maior do que quando do início da sessão.

No Espaço Be.Live em Lisboa tu só fazes Rebirthing?

Não só. Também faço terapia transgeracional, acompanhamento de casais, e escola intra uterina.

E qual é a tua opinião sobre o parto na água?

Para mim o parto na água é algo ainda para ser muito investigado. Porque o nascimento é uma transformação, e “transformar” significa sair de um pólo para outro. Eu ainda tenho questões sobre o “sair do líquido para o líquido”.

O que sinto é que o parto, como é uma fotografia, vai mostrar o que aquela família precisa. E às vezes esta tem uma forma de estar que precisa abrandar, e às vezes um parto na água, por exemplo, traz isso. Um bebé que vem para uma dimensão para abrandar, ou seja, sair do líquido para o líquido, ficar ali um pouco com os pais… Outras famílias, com outra vibração, precisam de outra coisa, por exemplo um bebé que saia da água e rapidamente venha para o “seco”.
Este é o meu olhar sobre o parto na água.

O parto para mim tem de ser sinónimo de empoderamento da mulher.

Isto trata também o projecto de que faço parte “Empoderamento da Mulher para a Paz no Mundo”. Porque é a mulher que coordena a família, e não o homem. Se a mulher está empoderada ela sabe o que o bebé quer, ela sabe o que ele pede, e nem sempre um bebé vai pedir um parto na água.

O que significa isto? A mulher pode ter toda uma preparação na água, ter a piscina lá e o bebé não nasce na água.
Esse bebé terá menos harmonia que um “bebé d’água”? Nada disso..!

Então, mais do que o parto na água, é preciso haver partos de mulheres empoderadas com as possibilidades todas e mais algumas! Pode ser a água, o andar na relva, a cadeira de parto…

E tem vezes ainda que o bebé precisa de nascer de cesariana, porque existe um medo ancestral do bebé de passar no canal vaginal.
Logo, as cesarianas têm histórias para curar, têm também “retratos” para mostrar a essa família.
No momento em que toda uma equipa médica perceber isso, onde todas as opções estão disponíveis para a mãe, será uma tranquilidade.
A mãe sinaliza e a equipa segue.
É curiosa a tua análise, porque consta que os bebés d’água são muito resistentes à mudança – não sei se há estudos sobre o caso, mas entre as mães d’ água já falámos nisso – será por saírem de uma zona de conforto para outra zona de conforto…?

É! (risos) Exactamente por isso mesmo! É como se pensassem sempre “ainda não, ainda não“, e às vezes, para algumas famílias que são “muito speedadas”, ter um “bebé teimoso” faz com o que os pais fiquem ali um tempão! Os pais tipo “Veste a calça, vesta a calça…”, e o bebé está a pedir tempo, para parar um pouco, relaxar, respirar, a dizer “olha para mim” e então depois vestir a calça! (risos)

O Bob Mandel costuma dizer que “Um parto de sucesso é aquele em que a mãe e o bebé ficam vivos“. Porque o nosso maior trauma é a passagem pelo canal vaginal. Desde a concepção que passamos o tempo todo a lutar para ficar dentro do útero. O embrião é um ser estranho para a mulher, por isso ficamos até aos três meses de gravidez com aquela sensação se vamos ou não continuar grávidas… O embrião quer ficar no útero, mas o cérebro da mulher quer expulsar, porque é “uma coisa estranha”. O óvulo é dela mas o resto não… Então o corpo não o reconhece como dela. Quando um embrião vira um bebé que nasce saudável é uma grande vitória! Grande vitória daquele Ser que lutou meses para estar vivo dentro do útero.

Essa sensação “estranha” acontece mesmo quando a mulher já tem uma memória genética de gravidez?

Mesmo assim! Porque aquele corpo físico é novo. A resistência é desse corpo físico e não do espírito, do género “o que é isso novo dentro de mim?“, porque o cérebro regista algo como “há um invasor dentro desse corpo!

A mulher, enquanto geradora de vida, quando se cura a ela mesma, em consequência cura a Humanidade…?

Toda a Humanidade! Se queremos curar o futuro temos que curar a mulher. Começarmos uma por uma!

Para terminarmos, gostava que completasses esta frase “E se renascêssemos todos outra vez…?”

Seria fantástico!! (risos) Teríamos sem dúvida um mundo novo no Aqui e no Agora..! Mesmo!
Porque lidar com pessoas renascidas é mesmo bom! Essa bagagem – de ter conhecimento do nosso próprio nascimento, de saber como funcionamos – é muito boa para nos relacionarmos.

Quando estamos numa relação e percebemos que esta ainda repete um pouco da nossa história, recuamos e saímos. Não porque o outro é “isto” ou “aquilo”, mas pelo nosso padrão. Então, saímos com todo o amor que sentimos, e assim é possível amar alguém e estar distante ao mesmo tempo.

 

Muito, muito gratas por esta conversa UAU, aqui nas Mães d’ Água ficámos cheias de vontade de Re-nascer!
Gratas à Marinélia! Podes conhecer mais do seu trabalho AQUI e AQUI.


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.