Pronta para ainda não começar Mãe Terra

Dia 2 de Março de 2013 nasceu o meu maior mestre.
Digo muitas vezes que o meu filho é isso mesmo: um mestre.

Ensina-me.
Desde que começou, do tamanho de uma sementinha, que me ensina mil coisas.
Todos aqueles com que nos cruzamos nesta vida existem para nos ensinar, acredito. Mas mais ainda, muito mais ainda – os nossos filhos, sem dúvida, são mestres.

Com ele aprendo muito e aprendi recentemente que sou uma “over achiever” e não me dou bem com a pressão.
Por outras palavras, eu, em algo que me apaixona e a que decido dedicar-me, quero fazer tudo, e bem. Se me pressionam… está tudo estragado. Precipito-me, fico rabugenta, sou mandona e tensa, pode até acontecer desapaixonar-me…
Estou obviamente a trabalhar estas características em mim e posso dizer que todos os dias, TODOS os dias, o meu filho me faz viver a frustração de ter urgência para fazer muito mas não atingir nada satisfatoriamente.

Uff! São dias inteiros a aprender! 😉

Com um filho o nosso trabalho nunca está completo e quando achamos que resolvemos um desafio logo outro o segue. Há um movimento contínuo entre o equilíbrio e o caos, podia dizer que é uma dança, mas nem todas lhe conhecemos os passos. Na verdade, sinto, se este movimento em contínuo desequilíbrio não for aceite, e até apreciado, pode ser fonte de frustração. Muita frustração…

Desde que ele nasceu que tenho projectos adiados, mil projetos adiados, e sempre que parece que vou reunir as condições necessárias para os por em prática vejo que… ainda não é momento. Porque sou mãe a tempo inteiro, porque ele não fica com mais ninguém, porque amamento, porque as noites são loucas, porque mudámos de casa, porque… Porque (não uso rótulos) sou uma mãe como sou e o meu filho/ mestre é como é, há projectos começados a meio-gás, outros começados e abandonados, vários adiados… e cada vez mais é assumido por mim: Ainda não é o momento.

Ainda-não.

Li aqui há dias que o parto na água – o meu filho nasceu assim – pode criar uma zona de “ainda não”. No fundo o bebé já está ali, a nascer para o mundo, pronto para uma zona nova, um elemento novo, um começo! E nós, mães zelosas – talvez nós mesmas não preparadas ainda para O momento…? – criamos, com a escolha de um parto assim, uma zona de câmara, de… bastidores… um espécie de nascimento adiado, ainda que apenas uns momentos, nesse tempo entre mundos em que olhamos o nosso filho na água e o trazemos com toda a calma à superfície. Criamos aí um “ainda não”? Talvez.

Depois de ler isso fiquei a pensar… vivo muitos momentos de “ainda não” na minha vida agora?
Tudo, desde que ele nasceu, ficou em tom de “não sei ainda”; “Talvez”; “Ainda não tenho a certeza”; “Depois confirmo”…

Eu!!
Eu que sempre fui acelerada, precipitada, diria até!

Eu que sempre disse “sim!” antes de pensar muitas vezes, viajei metade do mundo em poucos meses, não duro muito tempo na mesma casa e antes de acabar uma frase já oito pensamentos me florescem na mente! (Sim, como cogumelos, bolas!) Na minha cabeça é assim, tudo se desenvolve como cogumelos!
E, tal como alguns cogumelos.. talvez esses pensamentos, essas ideias, essa vontade incontrolável de “fazer”, de “urgentemente por em prática” seja isso mesmo: venenosa para mim.

O meu filho ensina-me muito sobre os benefícios de não começar já… nada na minha vida.

Tem sido um processo, que já antes dele nascer começou. Mas Devagarinho. Eu demorei dois anos de vida em África para apreciar o valor de um atraso.
Não me interpretem mal, não falo do atraso que deixa a outra pessoa à nossa espera, de vida em suspenso, dependente da nossa vontade, mas do atraso que significa flexibilidade, que mostra que nos permitimos brincar com o tempo porque sabemos que… nada disto é assim tão importante.

Não leves a vida tão a sério” – disseram-me muitas vezes na minha juventude.

Para terem uma ideia até no teatro tinha queda para o dramático e as relações amorosas nessa altura foram quase sempre mais choradas do que celebradas.
Aprendi, claro. Já não acho tão nobre a tragédia nem tão atraente a nostalgia. O fado? Prefiro outros temas.

O meu mestre vai-me ensinando: não há nada a atingir ou a finalizar, e a pressão que sentimos, vive dentro de nós.
Ensina-me a apreciar o que é demorar 20 minutos a descer uma rua que se faz em dois, a ficar uma hora sentada com ele na mama, a cheirar as flores todas no parque antes de ir para casa, a ler mais de cinco histórias antes de dormir… e a apreciar este Tempo, na verdade só agora por mim verdadeiramente saboreado e vivido. Pensava eu que antes meditava (!) mas esta é a verdadeira meditação: sou mãe. Há Caminho mais espiritual do que este?

Por isso, se me virem por aí sentada, sem escrever, sem fazer, sem aparecer, não me chamem, não me lamentem, não me acenem sequer – são meditações, e foi o mestre que prescreveu.

Tu, a ler-me agora, estás talvez “de esperanças”, espera pelo menos isto: vais parir o teu mestre. Não é maravilhoso?

Que te traga tantos ou mais ensinamentos quantos os que o meu filho me traz a mim!


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)