Ser Doula é um chamado… Ser Doula


Dentro de mim sempre houve uma fascinação enorme por mulheres grávidas. Há toda uma aura à volta delas que é irresistível para mim e que me atrai. Desde pequena que surge em mim a vontade de estar ao lado delas, para cuidar e apoiar, principalmente durante o momento do parto.

Durante muitos anos não percebi bem que essa fascinação me poderia estar a indicar a minha vocação.
Aos dezoito anos foi quando pela primeira vez fiquei a saber o que era uma Doula. Li um livro escito por uma Doula sul-africana e imediatamente quis ser uma também.

Nessa altura estava na universidade, longe do meu país, e senti que devia continuar o curso em que os meus pais tinham investido e me deram o seu voto de confiança para acabar com sucesso.
Curiosamente, o destino fez com que me fosse impossível acabar esse curso. Entrei na altura em depressão e nem me apercebi de que poderia, ali onde estava, estudar para ser uma Doula… Voltei para casa. Recuperei e rumei de novo a outro país, para estudar outra coisa.
De novo uma sucessão de eventos fez com que eu tivesse que deixar os estudos e voltar a casa. Desta vez sem depressão, mais madura – já com um bocado mais de idade e tendo também estudado yoga num templo Hindu – entendi que o nosso destino não é sempre aquilo que desenhamos para nós, mas que o universo tem as suas formas de nos encaminhar para aquilo que é a nossa missão no mundo, se estivermos em harmonia com ele. Deixei que o instinto me guiasse…

Passados dezanove meses tive o meu filho e foi um parto que me traumatizou. Mas foi este trauma que me fez finalmente tomar a decisão de me tornar uma Doula. Para além da minha eterna fascinação por mulheres grávidas, agora eu tinha contacto e tinha vivido na pele a manipulação e violência obstétrica a que somos expostas cada vez que entramos num hospital para termos os nossos filhos!Aprendi que sendo saudáveis e estando a viver uma gravidez sem risco não precisamos de estar sob cuidados hospitalares para dar à luz. Aprendi que somos muito mais fortes do que aquilo que pensamos, que somos mais sábias do que aquilo que julgamos e que tudo o que temos que fazer é confiar na natureza, em nós, no nosso corpo e encontrar essa força dentro de nós.
Decidi que devia aprender a ajudar todas as mulheres que eu pudesse a encontrar essa força dentro de si mesmas!

Com cada cliente esse é o meu objectivo. Dou-lhe toda a informação de que disponho para que ela tenha conhecimento das suas opções – e daquilo que é feito no caso do parto hospitalar e quais são as consequências das “técnicas de gestão do parto” utilizadas.

… E ensino-a a confiar em si e no seu corpo, a encontrar a sua força interior, a acreditar na natureza e em como bilhões de mulheres no mundo inteiro dão à luz todos os dias sem precisar da ajuda de uma equipa médica. Falo-lhe do quão é importante estabelecermos esse contacto umas com as outras, fechando os olhos e sentindo no ar e dentro de nós a energia que erradiamos umas para as outras, e que nos une como mulheres e como mães, criadoras de vida!

Cada parto é uma aprendizagem, pois cada parto é diferente. E a cada parto uso o melhor de mim para dar todo o meu apoio e amor à mãe e à família que me deu a honra de poder partilhar com eles esse momento tão sagrado e íntimo.

Durante o parto uma mulher precisa de carinho e atenção contínua. De ser constantemente lembrada de que tem a força interior para poder dar à luz o seu bebé.

O parto é um evento muito intenso, e a natureza das contracções e oscilações hormonais faz com que em vários momentos a mulher duvide da sua capacidade de dar à luz.

A intensidade do parto e da dor aumenta ao longo do tempo, o que requer que a mãe tenha que fazer ajustes emocionais a cada etapa. Nesses momentos é importante que a Doula saiba identificar a necessidade de ajudar a mãe a ajustar-se e saiba guia-la nesse ajuste. Esse ajuste é muito importante, pois vai ajudar a mãe a recuperar o seu foco e concentração, a confiar de novo em si mesma, e a superar o novo grau de intensidade do parto para seguir em frente. É necessário também fazermos recurso às técnicas de conforto de que dispomos para ajudar no progresso do parto: exercícios e mudanças de posição, dança lenta, óleos aromáticos (que podem ajudar a mãe a sentir-se com mais energia e boa disposição, ou mais calma), uso do banho ou duche (para diminuir a intensidade da dor e ajudar a relaxar), uso de terapias de calor e frio, massagens, vocalizações, visualizações, orações, canções, mantras, um toque cuidadoso e uma voz suave…

Por mim o parto é vivido de forma intensa também. A dimensão do compromisso e dedicação que tenho para com as minhas clientes faz com que emocionalmente este momento seja de forte impacto para mim. Cada vez que volto para casa depois de um parto, estou drenada de todas as minhas energias mentais, emocionais e físicas. Preciso de um bom banho, de uma boa comida e de uma boa cama. Mas volto satisfeita porque dei tudo de mim, deixei tudo lá, naquele momento, e pude ajudar mais uma mãe a poder lembrar-se do seu parto como um evento feliz, em que ela teve o amor e apoio de que precisava.

O trabalho de apoiar fisicamente e emocionalmente uma mãe durante o tempo que dure um parto – sejam duas ou quarenta e duas horas – é árduo. É muita a energia que pomos no nosso trabalho. Às vezes somos chamadas a meio da noite, às vezes estavamos a meio de alguma outra actividade…

Ser Doula é largar tudo e ir cuidar e apoiar a mãe que precisa de nós. É dar-lhe a nossa atenção indivisível, o nosso carinho, o nosso amor. Caminhar de mãos dadas, dançar ou fazer exercícios com ela, dar-lhe abraços e beijinhos, dizer-lhe que ela é forte, sábia e capaz, dar-lhe água, lembra-la de comer (para ter energia), de ir à casa de banho, massajá-la para ela poder relaxar, ajuda-la a imaginar o seu colo do útero a abrir-se como uma flor, ajuda-la a recuperar o foco e a respiração lenta, passar-lhe uma toalhita fresca com óleo de menta na testa e pescoço quando sente muito calor, conversar com ela para saber como está o seu estado emocional, fazer mudanças no ambiente para que a mãe se sinta mais confortável, dar apoio emocional ao pai (ou parceiro/a da mãe), ajuda-lo a envolver-se mais activamente no parto, guiá-lo em como pode ajudar a sua parceira…
Amor, amor e muito amor!
Só com amor se fica de pé, sempre ali ao lado, com energia positiva, infinitas horas sem desistir.
Pelo menos esse é o meu combustível, essa é a minha fonte de energía. O amor que tenho pelo meu trabalho e por cada mãe de que cuido.
Não creio que haja outra maneira de fazer este trabalho. Há trabalhos em que não é necessário termos amor por eles para que os desempenhemos bem. Mas para se ser Doula, dar amor é grande parte de fazer bem o trabalho.

Quando começamos temos pouca experiência, algumas de nós nem sequer formação tivemos, mesmo. Mas o facto de termos um coração aberto, disposto a ajudar, e que transmite amor e conforto já faz de nós uma “Doula”, cuja simples presença é capaz de confortar e transmitir força a uma mãe.

Ser Doula é saber dar amor!

~ Sara Lopes
(Imagem linda de Perla Neri)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.