[Relato de parto que sonhava na Água, mas… #4] Sonia Barbosa da Rocha Parto Com Água / Relatos

O parto para mim, como mulher sempre foi algo fisiológico e natural, algo que devia ser vivido preferencialmente no “ninho” e no seio familiar. Sempre ansiei por viver um parto assim na minha vida e depois de dois partos, o desejo foi realizado. Como parteira ainda de maior significado se revestia esta terceira experiência de parto.

Já sou mãe de dois filhos, nascidos em 2000 e em 2003, ambos de parto vaginal “normal”, ambos os partos classificados por mim como as melhores experiências pessoais da minha vida, apesar de não serem o parto imaginado e desejado. Ambos os partos dos meus filhos foram induzidos medicamente, não por um real motivo clínico mas porque assim sugeriu o profissional médico que me orientava no momento e eu, sem conhecimento para mais, na altura, fielmente aceitei.

Foram dois partos rápidos, o primeiro de +/- 8h e o segundo de +/- 6h, ambos com analgesia epidural (mais por pressão dos profissionais do que por realmente sentir que necessitava da mesma). Em ambos permaneci deitada todo o tempo, pari em posição ginecológica (semideitada, pernas abertas posicionadas em perneiras), com puxo dirigido (ou seja puxar por orientação dos profissionais, porque se está com dilatação completa), do primeiro “tive direito” a que me empurrassem o fundo da barriga (manobra de Kristeller – altamente contraindicada) e a uma episiotomia (corte na vagina/períneo – intervenção também contraindicada). Em ambos, houve corte imediato do cordão umbilical (contra indicado) e em ambos apenas tive direito a um contacto imediato com o bebé de somente alguns segundos, pois a prioridade foi serem avaliados, aspirados, pesados, vestidos… (tudo perfeitamente adiável em bebés que nascem bem, o que foi o caso – apgar 9/10 em ambos) e só depois me foram entregues. Para terminar, após o parto de ambos, o pai teve de sair do hospital podendo apenas voltar no dia seguinte.

Dezassete anos após a minha primeira gravidez, 13 anos após a segunda – e após me convencer que desejava um filho e não somente uma nova experiência de parto – decidimos que era o momento certo para aumentar a família.

Tão depressa tomamos a decisão como engravidamos, não houve sequer tempo para um possível recuo.

A gravidez foi tão deliciosa quanto difícil, muitos momentos felizes, muitos momento difíceis física e emocionalmente (perdas de sangue, dor, suspeita de infeção relacionada com malformações fetais, contrações intensas em pequenos esforços…). Desafios constantes e tantos esforços adicionais para manter a gravidez o mais saudável possível que a questão do parto passou até para segundo plano.

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Apesar do foco na gravidez não ser o parto, mas sim manter a gravidez, o desejo de um parto natural no meu “ninho” estava bem presente, e quando finalmente as 37 semanas chegaram permiti-me desejar o tão sonhado parto.

O “parto de sonho” era simples: no meu “ninho” (sendo o local da casa escolhido a sala com a lareira acesa); completamente natural; acompanhada pelo meu marido.

Questões como música ambiente e piscina de parto para possível parto na água, foram planeadas mas não eram essenciais. Filme e fotografia do parto – se pudesse ter equipamento em casa tipo “big brother”, ou seja câmaras por todo o lado a filmar de vários ângulos, seria o ideal, não podendo estavam escolhidas as profissionais de imagem – fotógrafa Rosa da Magic® – fotografia e a realizadora Natacha – filme. As parteiras, como não podia deixar de ser, da parceria Razão d’Ser & Gimnogravida – Isabel Ferreira, Joana Faria, Joana Varela (e ainda Alexandrina Mendes – Médica Obstetra e amiga).

Se eu desejava tanta gente no meu parto… NÃO! No meu interior desejava unicamente uma pessoa – o meu marido. Ou até mesmo parir sozinha – pois é assim que vejo o parto – um momento íntimo e de conexão entre mãe e filho, algo tão intenso e tão forte que não deixa espaço para mais ninguém. Quando muito me permitia partilhar a intensidade e a comunhão desse momento com o meu marido pelo Amor que nos une. A escolha de ter profissionais presentes, seja para assistência ao parto em caso de alguma complicação (parteiras) seja para recolha de imagens (profissionais de imagem) foi uma escolha racional, por questões de segurança e por desejar também ter o registo em imagens de um momento tão especial.

A espera pelo grande dia não foi fácil, o pai tinha viagem marcada para 2 de Janeiro e o receio de que a Clarisse se demorasse a decidir, não permitindo ao pai muito tempo para estar com ela após o nascimento, pesava emocionalmente. Por outro lado, a gravidez tinha sido marcada por longos períodos sozinha por motivos profissionais do papá, e as duas semanas que antecederam o nascimento da Clarisse foram mesmo muito, muito especiais, com muito AMOR, muito namoro e cumplicidade entre os papás.

Nas noites dos dias 15 e 16, talvez influência da lua cheia, eis que a Clarisse resolve que a barriga da mamã é uma montanha russa… despoletando contrações fortes e intensas umas atrás das outras com tanto movimento… não deixando a mamã sequer estar na cama. Mas, depois, “arrepende-se”, e tudo acalma, falso alarme.

Atingimos as 40semanas dia 22 de Dezembro e apesar dos imensos sinais de que a Clarisse queria nascer, nada de evolução positiva. O tempo continuava a contar e o dia 2 de Janeiro a assombrar as nossas mentes (mal nós sabíamos que o plano da Clarisse era mesmo ser a grande protagonista do Natal!). A irmã Beatriz tinha sonhado que a Clarisse nasceria no Natal e… não é que acertou?!

Depois de uma noite de consoada que terminou quase às 3h – mas não muito farta, pois a Clarisse não permitia que comesse muito – às 6h, depois de um curto sono, acordo com uma contração. Uma novidade, pois apesar das imensas contrações na gravidez (sempre associadas a esforço), e apesar de nas últimas semanas as sentir também em repouso, nunca nenhuma me tinha feito acordar. Depois da primeira uma outra logo de seguida.
SERÁ??
Decidi levantar-me para ir ao wc e senti que também estava indisposta. Digestão inacabada, como tantas outras noites na gravidez, e acabo a vomitar o que não consegui digerir da noite de consoada. Fico a sentir-me melhor e volto para a cama, adormeço mas volto a acordar de tempos a tempos. Não olho o relógio mas sinto que algumas vezes são intervalos de meia hora outros mais curtos, talvez de 15 a 20 min… Mais uma vez me interrogo
Será mesmo HOJE que ela quer nascer?!
Mal podia acreditar que talvez fosse.

Decido enviar a primeira mensagem às parteiras e restante equipe:
Talvez a Clarisse queira nascer hoje… mas quando evoluir mais volto a avisar.
Isto já seriam quase 15h (acho eu), mas logo que enviei a mensagem tudo evoluiu: contrações de 3 em 3min, bem intensas. Que me obrigam a vocalizar e a mover procurando posições de alívio e bem estar. Tento ligar às parteiras e restante equipa para virem pois sentia que afinal já não ia demorar muito. Fica cada vez mais difícil concretizar uma ação, o intervalo entre as contrações não chega para concluir nada, começo num dos intervalos e termino 2 a 3 contrações depois…

Neste momento estou no wc do quarto… sozinha, com breves encontros fortuitos com o papá, que está a ultimar os preparativos e não consegue estar em dois locais. Por um lado gostava que ele conseguisse estar connosco, cada vez que o papá se juntava a nós vinha também um abraço e um beijo bem intenso e gostoso (muita ocitocina!), por outro estar sozinha numa dança contínua com a minha bebé também é delicioso!

Cada contração percebia que estava a ficar perto cada vez mais perto de conhecer a princesa.

Cada vez mais sinto necessidade de aproximar do chão, chego a sentir alguma pressão ainda que ligeira, o papá volta e pergunta se quero ir para a sala ao que eu respondo,
Vou tentar”, e, após mais uma ou duas contrações lá decido tentar ir, com paragens a meio do percurso com contrações.

Chego à sala e em cada contração procuro o chão com o apoio do sofá, mobilizo a minha bacia como uma dança e uso a vocalização, que também ajuda, e muito.

Chega a fotógrafa Rosa e tenta falar comigo…
Por favor não fales”, pedi. Sentia que escutar uma voz, mesmo que não tivesse que responder, me ativava zonas do cérebro que preferia desligar.
O papá põe a TV num canal com sons da natureza e apesar de não conseguir dizer nada sinto que o chilrear dos passarinhos me irrita, mas concentro-me na respiração e na dança com a minha bebé, e deixa de ter importância.

Chega a amiga Alexandrina (médica obstetra), que vem só como amiga. Mas, como as amigas parteiras ainda não tinham chegado peço que me examine. Ela confirma o que eu suspeitava: dilatação completa. Clarisse a caminho!

Desço do sofá novamente para colocar os joelhos no chão, perguntam-me se não quero entrar na piscina de parto,
“Já não consigo”, logo de seguida sinto uma pressão e sinto que a bolsa de água vai romper, puxo um resguardo para debaixo de mim e eis que bolsa rompe mesmo!

Na contração seguinte sinto uma força avassaladora que me atravessa e que não consigo controlar… pergunto pelo papá, pois não o vejo. Respondem que foi à porta (as parteiras estavam a chegar) e eu sinto que não te consigo, querida Clarisse, segurar mais dentro de mim, só digo:
ELA VEM AÍ!

Já somos só nós.
Tão depressa o verbalizo como te sinto descer até “à porta”… sinto o anel de fogo… Arde, e sinto que preciso de te segurar dentro de mim, mas não consigo. És mais forte que eu, e em apenas uma contração te impulsionas para a vida, ficando entre DOIS MUNDOS!

A amiga Alexandrina tenta ajudar,
Tira a mão”, peço eu. Pois preferia saborear o momento, a saída da tua cabecinha tinha sido rápido demais!
Percorro-te com as minhas mãos e sinto que tens uma circular de cordão no teu pescocinho (na verdade, tinhas duas circulares, não apenas uma), verbalizo alto, e a amiga Alexandrina tenta novamente ajudar,
Não mexas… nasce assim”. E, amparada apenas pelas minhas mãos, saboreio o delicioso momento da saída dos teus ombros e corpinho – às 16h57 do dia 25 de Dezembro de 2016.

Abriste os teus lindos olhos de imediato para mim, tão linda, tão serena!!! O Papá entra e fica surpreso por já te ver!!! Peço-lhe ajuda para tirar o vestido (ainda estava com o vestido com que fui ao café) e agarro-te para te trazer de encontro ao meu peito… agora o teu porto de abrigo!

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Não houve direito a filme, fotografias também não muitas, o papá perdeu o momento exato do teu nascimento, mas para nós foi simplesmente PERFEITO!!!
Na verdade eu tinha sonhado na gravidez que paria sozinha de joelhos no chão, em terra e não na água, parece que era mesmo uma premonição de como querias nascer!

E NASCESTE.
Sem eu estar deitada de pernas abertas… sem ocitocina sintética… sem rompimento de bolsa de forma artificial… sem te empurrar… sem cortes… sem pontos… sem manobras… sem mãos estranhas em ti…

Respeitámos o teu tempo, saiu a placenta 20 a 30 minutos depois, e só depois te separámos dela, pois agora tinhas o meu peito quente para te alimentar e aquecer.

Nasceste bem, serena, feliz, mas ativa – apgar 10/10, com 2790gr, 47 cm de comprimento, 33cm de cabecinha, PERFEITA e LINDA!!! Impossível não me render imediatamente apaixonada!

Os momentos após nascimento foram simplesmente indescritíveis, o estarmos no nosso “ninho” e ao nosso ritmo não tem preço. Deliciosa a reação dos teus manos, delicioso até mesmo receber visitas pouco depois e mesmo poder jantar em família, pois era dia de NATAL!

Bem vinda a este mundo CLARISSE!!! Que sejas tão feliz e protagonista na VIDA como o foste no teu NASCIMENTO!

~ Sonia Barbosa da Rocha

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Imagens por  Rosa ~ Magic.


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.