Entrevista com Sara Vale Entrevista

(Imagem de capa de Patrícia Andrade Fotografia)

Tenda Vermelha – Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto.
Poucos saberão que é este o nome completo da Associação, mais conhecida por APDMGP, fundada por Sara Vale, há dois anos, em conjunto com duas amigas.

Estivemos à conversa com Sara Vale para saber o que têm feito e o que está para breve.
Sabias que já no próximo dia 18 de Fevereiro a APDMGP organiza o II Encontro Nascer em Amor? Sim desta vez inserido no ENCA  – European Network of Childbirth Associations).

Marina – Sara, tu criaste, juntamente com mais duas amigas, a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto. Queres partilhar connosco como é que “despertaste”, por assim dizer, para estes assuntos do nascimento?

Sara – Bom, eu acho que todas as gravidezes e partos são diferentes, mas, na gravidez do David eu era uma miúda, tinha 25 anos e… não sabia nada… tinha ideia que queria um parto o mais natural possível mas não me informei sobre nada, nem eu nem o meu marido. Ainda não havia facebook, (ou pelo menos eu não usava) e a informação não nos chegava como hoje em dia, verdade seja dita. (risos). Eu achei que chegava lá e fazia. Claro que ia custar mas… não me preparei.

Marina – Mas sabias que querias o mais natural possível…

Sara – Sim. A minha Mãe teve três filhas. Eu fui parto natural, a minha irmã do meio foi cesariana e a mais nova foi parto natural. Eu sempre a ouvi dizer que a cesariana foi a pior recuperação, foi uma estupidez, porque eu e a minha irmã do meio nascemos no Brasil, e já em 82, era “moda” marcar o dia. A minha Mãe foi atrás disso mas reconhece que foi uma péssima escolha. Eu não. Eu nasci num dia em que havia um jogo de futebol do Brasil (risos) e foi um autêntico filme… (mais risos), os meus Pais tiveram um furo, nunca mais lá chegavam… mandaram-na para casa porque ainda estava muito no início, quando voltou ao hospital o Brasil estava a jogar e não tinham limpo a sala do parto anterior. O médico que estava a acompanhar a minha Mãe, um médico português que estava lá no Brasil – a minha Mãe já muito aflita, com vontade de fazer força – e ele simplesmente dizia “Não, não, não… não faça força!” – mexia nas luvas e dizia “Isto está sujo, isto está sujo, isto não sei quê“, e puseram-na só na maca. Ela lá diz que “Ah, vai sair!” e, segundo o meu avô – que também é médico e estava com ela – eu saí tipo “bala de canhão”, e ele só teve tempo de me apanhar!! (risos) Portanto não houve tempo para nada -a nível de intervenções e coisas do género – isto para dizer o quê? Eu tinha esta memória, que parto natural vaginal é melhor.

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Marina – A herança que trazemos destas histórias próximas conta muito, não é?

Sara – Sim, e mesmo as outras que vamos ouvindo. Portanto, no primeiro filho eu não sabia muito bem ao que ia, era muito miúda, era o primeiro parto… e foi muito lento, muito lento!

Marina – No total, quantas horas?

Sara – Dois dias!

Marina – Wow… Explica lá isso melhor!

Sara – Não foram dois dias “a ganir” (risos), mas um dia a ganir, foi! Desde as primeiras contracções até ele estar cá fora foi tudo muito leeeeento. Aguentei um tempo em casa e só quando as contracções estavam muito fortes é que fui para o hospital – porque eu já tinha ido antes, mas diziam-me sempre para me ir embora porque ainda estava tudo muito “verde”, tudo muito “cá para cima”.

Marina – Baseado em quê? Que avaliação é que faziam? Dilatação?

Sara – Sim. Por isso, quando fui para o hospital era de manhã e ele nasceu às nove da noite. Tinha começado tudo na 6ª feira à noite, tive uma noite sem dormir e só fui para o hospital Domingo de manhã.


Sara diz, ironicamente, que teve direito a “tudo no menu”. Expressão que usa para enumerar as várias intervenções (des)necessárias ao longo do seu trabalho de parto. Oxitocina artificial, rompimento da bolsa, episiotomia, ventosa… tudo, tudo, tudo.

Sara – Senti-me muito zangada a seguir.

Marina – Mesmo sem estares alerta para estas situações e teres ido um pouco “sem preparação”, podemos afirmar.

Sara – Mesmo sem estar por dentro deste mundo. Eu não fazia ideia, mas foi estranho. Foi uma episiotomia horrorosa, não me conseguia sentar, tinha umas dores horríveis. Só me lembro de chorar e de dizer a uma amiga minha “Sinto-me como se a minha vagina estivesse zangada“. E sentia mesmo, sabes? Era a dor e o ardor… algo me dizia. Tanto que demorei muito tempo a ter coragem para ter outro filho. O meu Gabriel só nasceu seis anos depois. Eu pensava mesmo “Nunca mais quero ter filhos, foi horrível – eu adoro o meu filho, mas isto foi horrível“.

Marina – Mas entretanto ganhaste coragem.

Sara – Sim! E do Gabriel já foi diferente, eu já estava em contacto com outras coisas – lá está, o facebook (risos) – as “Mães de transição”, na altura era um grupo aberto, foi aí que conheci outras mães…

Marina – Outras realidades.

Sara – Outras realidades, opiniões… Ouves outros relatos.

Mais do que ouvir outras histórias diferentes da minha, foi uma validação de que aquilo que me tinham feito não era certo, e eu nunca tinha ouvido isso de lado nenhum.

Marina – O mais comum é a banalização, ouvir “isso é normal“, não é?

Sara – Sim: “Isso é mesmo assim” ou “Então, mas o bebé está vivo, saíste dois dias depois, o que é que tu querias mais?

Marina – Então, podemos dizer que o início de tudo, dentro de ti, é com as “Mães de Transição”?

Sara – Sim.

Pode saber mais sobre as Mães de Transição aqui.

Marina – E como é que vais parar às Mães de Transição? Facebook…? (risos)

Sara – (risos) Eu lembro-me de na altura tinha uma ideia, queria abrir uma creche diferente, uma coisa de Mães Unidas, e falei com uma amiga que me disse que me ia adicionar a um grupo que achava que eu ia gostar: As Mães de Transição (eu a pensar que ia “inventar a roda”… (risos) e afinal já existia um grupo tão fixe!)

Marina – Foi um grupo que te deu (in)formação para o que querias, e não querias, no parto do Gabriel?

Sara – Sim. Com o Gabriel eu queria fazer as coisas diferente. Foi um parto hospitalar também, mas completamente diferente. Ele nasceu com 42 semanas e meia na MAC, na “posição de frango assado” (risos). Deixaram-me (enfim, “deixaram-me”, esta palavra…) senti que tive espaço para viver e fazer o meu processo como eu queria. Senti que foi muito bom. Foi óptimo!! Foi assim um parto… natural.

Marina –  42 semanas e meia… não é fácil atingir esse prazo.

Sara – Sim, é incrivelmente dramático o que fazem a partir das 39 – nem é 40 semanas, 39! – em todo o lado. É uma coisa horrorosa. A pressão, os “toques” sem a mulher saber…

Marina – As palavras que se usam que geram medo.

Sara – Sim, palavras de um peso enorme. Eu, à partida, sempre fui um bocado baldraca com coisas de médicos, nunca ligava muito, nunca dava muita importância. Sou um bocado “cigana”, não sei… (risos), eu quero é o diagnóstico e eu depois quando chego a casa lá faço as minhas pesquisas e as minhas mezinhas… (risos). Eu tive um caso grave de varizes durante a gravidez do Gabriel mas tirando isso estava tudo bem. Tinha contracções de ensaio há semanas mas, olhando para trás agora, é tão Gabriel. É mesmo ele. Eu lembro-me de sonhar que levantava a pele da barriga e lhe perguntava “Mas quando é que tu nasces?“. E ele ria-se, dava uma cambalhota para trás e respondia: “Quando eu quiser!” (risos)

Marina – E reconheces aí o teu filho, hoje em dia?

Sara – Sim! Esse é o meu Gabriel. Não gosta de ser apressado, não gosta de acordar cedo… pronto! A personalidade dele estava lá. Completamente.

Marina – A partir das 41 semanas começaram a falar-te em indução?

Sara – Sim, mas eu expliquei que não queria mesmo que fosse induzido e disse que estava disposta a ir ao hospital todos os dias se fosse necessário. Houve uma circunstância do momento que foi muito favorável. Tinham deixado de fazer partos no Hospital D. Estefânia e a MAC estava a abarrotar, pelo que, até era conveniente para o serviço (risos) e lá fui à minha vida!! Sentia o bebé, tinha bastante líquido amniótico, estava cada vez menos móvel, e ele cada vez maior – sentia-me um bocado tartaruga, como qualquer mulher se sente no fim da gravidez, não é? (risos) – mas tirando isso, pronto! Só voltei então quando tinha contracções.

Marina – E nasceu com o tempo todo que tu precisavas?

Sara – Completamente! Claro que houve tentativas, ligar a oxitocina, epidural. Mas eu disse sempre que não. Lembro-me de um enfermeiro dizer: “Eu compreendo, você é que sabe, a escolha é sua. Mas as mulheres ficam mais dóceis com a epidural“. (risos) E eu pensei, “Ok, eu não sou essa gaja” (mais risos). Fui muito respeitada. Sim, foi no tempo dele. E foi uma grande lição em paciência e frustração… porque eu também não sou aquela gaja de ir para casa acender incensos. Quer dizer, eu acendo incensos mas eu estava mes-mo mui-to frus-tra-da, porque nunca mais começava.

Marina – Mas falavas com ele?

Sara – Falava com ele!! E ele mandava-me estas mensagens a gozar comigo. (risos) É mesmo à Gabi! Eu andava, fazia amor, dançava… fiz tudo o que estava no livro. Farto-me de rir quando agora vejo posts a dizer “faz isto, faz aquilo“. Porque quando o bebé não quer, quando não está na hora, não há nada a fazer. Eu fiz de tudo e só quando ele estava pronto é que aconteceu.

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(Imagem de Sandra Lobo)

Marina – Há cinco anos atrás, portanto? Há uma Sara Vale antes e depois do Gabriel.

Sara – Sim. Principalmente por sentir que havia mais mães neste caminho. Eu acho que isso foi mais forte. Senti que éramos muitas a querer fazer diferente, a apoiar-nos mutuamente. Criar os filhos de forma diferente.

Marina – Contribuir de forma diferente da comum.

Sara – Sim! Foi também que ficou a semente de fazer o curso de doula, era uma coisa que eu também queria, mas depois fiquei grávida, depois ele era muito pequenino. Uma coisa de cada vez, pensei eu.

Marina – Cada coisa a seu tempo, não é?

Sara – E mesmo assim quando tirei o curso, ele tinha dois anos, ainda era “pequenino”.

Marina – Fizeste o curso no Reino Unido, com a Nurturing Birth. Este teu primeiro contacto foi com uma realidade bastante diferente da nossa.

Sara – Sim, completamente. É um sistema onde as coisas já estão muito conquistadas. Não é um sistema perfeito, claro, as mulheres e as doulas lá também se debatem com uma série de problemas, mas o terreno está muito mais conquistado.

Marina – Não é um sistema perfeito mas está muito à frente do nosso, portanto.

Sara – Sim! Eles têm problemas, como? O parto em casa é uma opção do sistema nacional de saúde, sim, em teoria! Mas há muitos “Trusts” (é o nome que eles dão aos hospitais) que na hora H, quando a mulher telefona, dizem que não têm ninguém naquele momento para ir a casa, e dizem a mamã que tem de ir para o hospital. É muito frequente. Por isso não é perfeito, não. Inglaterra não é o Santo Graal do parto, mas há coisas nas quais cá em Portugal, ainda estamos a anos de luz. Algo que aprendi com o curso lá é que, por já existirem uma série de coisas estabelecidas, não é um ambiente tão defensivo. São os teus direitos e pronto,

Marina – Que interessante esta tua escolha de palavras. O ambiente cá é “defensivo”, tens toda a razão.

Sara – Sim. Lá é óbvio!

Marina – Faz toda a diferença isso que estás a dizer!

Sara – A minha mentora não fazia ideia e ficava louca quando eu lhe contava certos episódios de cá. E sempre a apresentar alternativas, que simplesmente não são viáveis cá. E é todo um caminho fazer o transporte para cá dessa formação no Reino Unido. Fiz então a formação de doula em Março de 2014 e em Dezembro fundei a Associação.

Marina – Eu lembro-me de te conhecer num dia que íamos ter uma reunião com o novo Chefe de Serviço dos Médicos no Hospital de Setúbal (uma reunião também com o Enf. Vítor Varela), em Dezembro de 2014 precisamente, e tu estavas neste caminho, e prestes a criar a Associação, este “projecto” é um desejo/ vontade só teu, ou de mais pessoas?

Sara – Lá está, nada é por caso, foi uma conjuntura: tirar o curso de doula, sentir estes movimentos a surgir – as Mães d’Água, que são muito importantes… – e quando a petição atingiu as 4000 assinaturas… (pausa)… porque eu juro-te, sou muito sincera, eu pensei “As pessoas querem, querem mas em Portugal ninguém faz nada” mas quando aquela petição atingiu os 4000 apoiantes eu pensei “Ah Portugal!!!” (risos) Fiquei tão orgulhosa, sabes?

Marina – E tantas outras que entretanto surgiram. Como a do Pai assistir à cesariana e a do Pai não ser contabilizado como acompanhante…

Sara – Sim! Eu acho que foi isso, acho que a acontece quando estamos prontas, foi o que eu senti. Acho que foi esta conjuntura e depois, lá está, não só como mulher mas como doula, sentia uma grande frustração de barrar com um sistema que “é assim porque é assim e acabou”.

Marina – Onde é preciso estar com uma postura defensiva.

Sara – Pois! E surgiu a Associação. Eu e mais duas amigas, a Rita Sá e a Fátima Marques, estávamos sempre a falar de partos. (risos) Como as mulheres fazem. (risos) Uma associação que surgiu um pouco dessa ideia: vamos mudar!! E mudar numa perspectiva também de mulher para mulher. Porque das coisas que mais nos incomodava, e falávamos muitas vezes sobre isto, é que parece que toda a gente tem uma opinião sobre o que as mulheres precisam: os médicos têm uma opinião sobre o que as mulheres precisam; os enfermeiros têm uma opinião sobre o que as mulheres precisam… – eu acho que às vezes até as doulas têm uma opinião sobre o que as mulheres precisam – mas eu acho que nunca ninguém perguntou às mulheres o que é que elas queriam e precisavam! Foi muito por aí.
Uma associação para dar voz às mulheres na questão do seu corpo e do seu parto. Dar voz directamente, sem tradutor e interpretações.

Em reuniões de trabalho da Associação, brincamos muito e dizemos “O que é que a D. Alzira do 3º andar quer?“. Não é o que o Director de Saúde acha, ou o que é o que obstetra inteligente recomenda, ou o que é o colégio americano de obstetrícia diz: “O que é que a D. Alzira do 3º andar quer?” – isso é muito mais importante!

Marina – E que é diferente de mulher para mulher.

Sara – A D. Alzira, a D. Constança ou a D. Joana.

Marina – E tudo é válido, não é? Porque o que estas mulheres precisam é de ser ouvidas.

Sara – Tudo é válido! É muito por aí. E o que se sentia – e que eu acho que ainda se sente mas o discurso está um pouco mais moderado – é o dogma. Havia muito dogma da parte medicalizada mas também, às vezes, do parto natural.

Marina – Como se fossem extremos. E como em tudo, é preciso um equilíbrio.

Sara – Como se fossem extremos, como se uma mulher que quer uma cesariana é horrorosa; ou uma mulher que quer um parto em casa é horrorosa. Obviamente que não é toda a gente que faz este tipo de julgamentos, não quero criar aqui controvérsia.

Marina – Sim, mas esse é o perigo dos fundamentalismos!

Sara – Exactamente! E eu compreendo que muitas vezes para se quebrar padrões se tenha que ir para o outro lado oposto, mas isso é a fase da adolescência, agora é preciso evoluir para uma coisa mais madura de… Vamos ouvir-nos, respeitar as filosofias, e que as mulheres tenham direito a fazer aquilo que elas sentem! É por este motivos todos que surge a Associação. Para entrar em diálogo com todas as partes envolvidas. Profissionais, casais…

Marina – E porquê 18 de Dezembro, dia da Doula? Foi um acaso?

Sara – Foi por acaso!! (risos de espanto) E eu só percebi isso este ano.

Marina – Estás a gozar? Brutal!

Sara – Juro! Foi dia 18 de Dezembro, uma 5ª feira, porque era o dia que dava jeito às três ir à Conservatória.

Marina – E nunca repararam na coincidência?

Sara – Não, porque acho que é o Dia da Doula, mas no Brasil, porque a “Semana da Doula” é em Março (e que eu sei bem porque a Conferência das Doulas em Inglaterra a que vou é sempre nessa altura), e foi este ano que a Mariana Torres da Associação comentou ser no Dia da Doula.

Marina – Muito interessante! Que bela coincidência.

Sara – É giro olhar para trás e ver.

Marina – E o nome? Queriam algo que fosse directo e não uma metáfora, porquê? Isso foi discutido?

Sara – (risos)

Marina – Se é que foi discutido…

Sara – (risos) Foi tudo um bocado acidental! Nós estávamos as três na Conservatória e este era o nome: Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto. E eis que a senhora pergunta:

“E qual é o nome?” (risos) E nós,

“Então? É este?! Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto.” E a senhora riposta,

“Sim, mas isso é o que vocês fazem. Qual é o nome?” – E nós ficámos a olhar umas para as outras, rimos e perguntámos:

“Pode ser Tenda Vermelha?”. E assim ficou. Temos o nome registado assim: Tenda Vermelha – Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto.

Marina – Tenda vermelha? Porque…

Sara – Sim! Por causa daquele livro, Tenda Vermelha, que nós lemos todas juntas e que trocámos palavras, fizemos partilhas, trocámos impressões… enfim, foi todo um processo.

Marina – E trata do quê, esse livro?

Sara – A Tenda Vermelha é um livro da Anita Diamant em que ela põe em causa uma história da Bíblia. É muito bonito, o livro, fala muito do mundo das mulheres nos tempos bíblicos, do antigo testamento. A tenda vermelha era o sítio para onde as mulheres iam quando estavam menstruadas e durante três dias, na Lua Nova, descansavam, não tinham que trabalhar, estavam umas com as outras. Só podiam entrar as mulheres ou os rapazes que ainda estavam a ser amamentados. Era o local também onde aconteciam os partos… é um símbolo do feminino antigo. E lá ficou no registo: Tenda Vermelha – Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto.

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(Imagem de Lieve Tobback)

Marina – Muito bonito!

Sara – Mas acho que se nos chamássemos Tenda Vermelha, apenas, não sei se teríamos tido a mesma credibilidade, pelo menos no início. Ou se nos chamássemos “Sacerdotisas da Rosa Branca”… “Sagrado Feminino Gaya”, “Shakti”… acho que não nos levariam a sério.

Marina – Compreendo!

Sara – Portanto, essa parte foi consciente termos um nome institucional e directo. Fomos à Associação registar e tínhamos tres meses para arranjar as outras seis pessoas dos Órgãos Sociais. E nós confiámos que iam aparecer… (risos)

Marina – E apareceram! Sem grande dificuldade, presumo.

Sara – Olha que não, principalmente porque ainda não havia trabalho feito. As pessoas até eram empáticas com a causa mas nós eramos três mulheres e uma página de facebook. Tínhamos criado uma Associação que queria mudar o paradigma do parto em Portugal. E nem toda a gente se envolve, há outras coisas a chamar por elas. Mas a equipa certa lá se foi formando. E ainda bem!

Marina – A verdade é que tudo isto… a Associação, as Mães d’Água, implica tempo, não é?

Sara – Sim.

Marina – E entre a idealização da Associação e do seu papel e depois a realidade… há diferenças ou nem por isso? Consegues dar exemplos concretos? Por exemplo, que tipo de pedidos de ajuda vos chegam mais? Explica-nos o que é, hoje em dia, o trabalho da Associação. Quais são os pedidos mais frequentes?

Sara – É um pouco cíclico. Quando tivemos uma campanha sobre violência obstétrica (Sombras do Parto), nesse dia recebemos 25 emails sobre violência obstétrica. Era um pouco o nosso call to action – quebrar o silêncio.

Marina – Mais uma vez, dar voz…

Sara – Sim! E houve muita gente a contactar-nos. Nós temos vários pedidos. Eu diria que… cerca de 60% o assunto é violência obstétrica. Também recebemos pedidos relativamente a parteiras e parteiros que atendam em casa, (razão pela qual achámos por bem fazer a adenda ao Plano de Parto tipo da APDMGP, acrescentando as perguntas a fazer às parteiras e coisas a considerar para guiar os casais no planear do seu parto domiciliar. E também perguntas sobre coisas concretas relativamente a escolhas de parto. Onde encontrar equipas mais centradas nos casais, etc.)

Marina – A sério? Ou seja, no momento pós parto.

Sara – Pós parto ou mulheres que tiveram uma primeira má experiência e querem prevenir numa segunda vez. Nós antes recebíamos muitas perguntas que fomos respondendo com informações que criámos na página. Por exemplo, criação do Plano de Parto base, Condições a garantir para um Parto em Casa e até fizemos um pedido online aos parteiros e parteiras que nos quisessem autorizar para constar numa lista que depois pudéssemos enviar às pessoas. Profissionais que estivessem acreditadas. E a par disto, acrescentámos também o Plano de Parto para Parto em Casa. Este documento tem uma série de perguntas aos parteiros(as) para os Pais poderem fazer, para se situarem e poderem perceber quem têm à frente… porque é tudo tão novo.

Marina – Como é que isso surgiu?

Sara – Primeiro houve aquela afirmação pública do Francisco George (médico, actualmente na Direcção Geral de Saúde) que era preciso combater o parto em casa (e o “parto aquático” (ironia), fico logo a imaginar uns mergulhadores com umas barbatanas!) Nós achámos que não dava para ouvir aquilo e a Associação não se pronunciar sobre este assunto é portanto lançámos aquela nota que é a nossa posição sobre o parto em casa. Faz referência a vários estudos sobre o parto em casa, como é feito em outros países, e a nossa posição é que é preciso regulá-lo e não combatê-lo. Porque esta questão faz lembrar a do aborto, quando era ilegal, as mulheres morriam quando o faziam em “vãos de escada”, neste momento que é legal… morreram zero! E estatisticamente somos o país da Europa com a menor incidência de recorrência ao aborto como contraceptivo, o aborto recorrente.

Há muito partos em casa que decorrem com segurança e respeito em Portugal, mas também os há onde isso não acontece e a Regulação desta questão ajuda não só os casais, como os profissionais que o praticam. Agora a grande pergunta é: quem vai regular o Parto Domiciliar? É preciso ter muita calma e tacto nesta questão. Porque se vão ser decisores políticos que nunca assistiram a um parto em casa, têm dentro da sua cabeça um modelo de que o parto é algo inerentemente perigoso, a regulação vai restringir mais do que ajudar. Esse processo deve ser feito em conjunto com as mulheres, a sociedade civil, e claro, com os profissionais que o praticam, conhecem as especificidades de um parto domiciliar, e vivem na pele as dificuldade de trabalhar num sistema em que podem praticar mas não têm o mínimo apoio. Porque nestas coisas é incrível como, quer no aborto quer nas questões do parto, toda a gente se acha no direito de opinar e legislar sobre o corpo das mulheres e o que elas decidem fazer! Se as mulheres não estiverem neste processo, nesta discussão sobre a regulação, então não estaremos no bom caminho.

Marina – Sem consultar a D. Alzira e a D. Constança…

Sara – Sem consultar a D. Alzira, exactamente!! (suspiro) Enfim… Portanto, fez-nos muito sentido lançar essa nota sobre o parto em casa. Estás águas turvas do parto em casa, sinto-o como doula e como mulher, se quiser ter outro filho, são muito difíceis de navegar.

Marina – Então essa lista de perguntas que vocês criaram serve para dar segurança aos Pais.

Sara – Sim! Lançámos as perguntas para os parteiros e parteiras para ajudar a capacitar os casais. Assim, é possível clarificar tudo, de parte a parte e ficar tudo esclarecido para toda a gente. Mais? Temos perguntas sobre como fazer uma reclamação, pedidos de esclarecimento se é ou não violência obstétrica, temos o site das “sombras do parto” onde consta um teste para saber se foste vítima de violência obstétrica e uma guideline de passos seguintes, com uma minuta descarregável.

Marina – No fundo, o vosso site e página de facebook foi “angariando” temas que vos foram chegando e que pareceram pertinentes para dar resposta mais imediata e ficarem também para consulta. É isto?

Sara – Exacto! E só o facto de estar disponível já abre a cabeça para outras coisas…

Marina – E também dão apoio mais directo nalguma circunstância?

Sara – Sim! Por exemplo, dificuldade em registar o bebé. Damos orientação sobre como fazê-lo. Temos recebido imensas queixas de Pais que dizem não poder entrar nas cesarianas.

Marina – Ainda?

Sara – Sim! Mesmo findos os três meses que os hospitais tinham para se organizarem… Com as desculpas mais estranhas: “Temos de fazer obras“; houve um hospital que alegou o prazo ter sido alargado; ou então o caso de uma obstetra que diz “Ah, sim… mudou mas eu não concordo“. (!!)

MarinaWhat?

Sara – Sim. E pronto, lá está… ao fim de X pedidos temos uma carta descarregável com o despacho anexado no mesmo documento para os casais levarem.

Marina – Temos realmente um sistema que nos obriga a ser defensivos…

Sara – É verdade! Sim senhora. Recentemente, com uma grávida que acompanhei, estávamos a rever as coisas e ela dizia-me… “Opá, Sara! Nós parecemos malucos. Nós vamos cheios de leis. É plano de parto, é despacho… nós parecemos malucos!” (risos) É um bocado triste, não é? Eu sonho com o dia em que isso já não seja preciso.

Marina – O dia em que seja óbvio!

Sara – Sim! Para que nos possamos ocupar de outras coisas.

Marina – É cansativo só de ouvir, quanto mais viver esses momentos…

Sara – É cansativo e é violento lidar com isso!

Marina – Vou arriscar dizer…  é como se assumíssemos que as pessoas vão agir de má-fé, infelizmente. Mesmo que seja inconsciente. E há também o factor de grupo. Se fores apenas um a pensar diferente numa equipa.

Sara – Exactamente! Até porque, este sistema também é violento para os profissionais, os que estão dentro! É interessante que, durante o primeiro ano da Associação aprendemos muito a sistematizar, a tornar a informação disponível… sobre violência obstétrica, parto em casa… Este ano de 2016, foi muito o ano dos profissionais. E não foi por acaso. Houve profissionais de saúde que se fizeram sócios e que nos contam o lado deles, o quão difícil é pensar diferente e fazer diferente, e ao mesmo tempo também partilharam as coisas boas, há coisas maravilhosas a acontecer e também é preciso olhar para elas e reconhecê-las. Tem sido este o caminho.

Marina – Esse trabalho de bastidores é feito por quem? Quem é o grupo de trabalho?

Sara – Temos uma equipa multidisciplinar. Temos uma interna de obstetrícia, Enfermeiros Especialistas em Saúde Materna e Obstetrícia , Doulas, enfermeiros e claro… nunca queremos deixar de ter… mulheres. E temos!

Marina – A cidadã comum.

Sara – Exactamente! E eu espero que nunca mude. Se não vamos ficar um microcosmos do que acontece cá fora. É preciso haver “a D. Alzira do 3º andar”, no fundo! (risos)

Na APDMGP temos sociológos, uma bióloga marinha, jurista, investigadora, gestora de comunicação. É um grupo que divide tarefas e do qual tenho muito orgulho. Muito orgulho! Todos dão a sua opinião, revêem os documentos. São pessoas extraordinárias. Primeiro é preciso dizer que somos todos voluntários, ninguém ganha um tostão e as pessoas investem do seu tempo e dos seus recursos, às vezes. É um trabalho de coração. Aliás, como vocês, nas Mães d’Água. Tu sabes…

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(imagem de Rute Raposo)

Marina – Entretanto, o vosso II Encontro Nascer em Amor, está aí à porta, desta vez inserido no ENCA (European Network of Childbirth Associations), já a 18 de Fevereiro. Queres falar um bocadinho do programa deste ano?

Sara – Este ano tem uma coisa especial, nós o ano passado juntámo-nos à ENCA (o European Network of Childbirth Associations), e fomos a Berlim, em Abril, onde apresentámos as fotografias das “Sombras do Parto” porque o tema era a violência obstétrica. Todos os anos há um país que organiza este evento e como nós não sabemos calar a boca… e dissemos que podíamos organizar o próximo… (risos)

O nosso Encontro este ano tem uma particularidade, há um estudo que é o OptiBIRTH, que vai ser apresentado no nosso evento. Este estudo aborda a temática de parto vaginal após cesariana, oestudo já foi publicado numa revista científica em Novembro de 2016 e apresentado à comunidade médica, mas também tem de ser apresentado até ao fim de Fevereiro ou Março a um grupo de laypeople, pessoas normais, digamos assim.

Marina – Leigos?

Sara – Sim, exactamente. E contactaram o ENCA para no próximo encontro deles poderem apresentar. O que é ótimo, claro, e muito enriquecedor para Portugal, e para este Encontro, mas como já tínhamos o nosso encontro planeado para Janeiro, perguntámos se era possível juntar as duas coisas pois organizar duas conferências uma a seguir à outra não faria sentido. E disseram-nos que não haveria problema. Como tal, faz parte do programa, a apresentação pública dos resultados deste estudo sobre as vantagens do parto vaginal após cesariana.

Marina – Um tema que é tão polémico, ainda por cima.

Sara – Exacto! Portanto, o tema é Melhor nascimento para todos. Temos um primeiro momento sobre a escolha do lugar do parto que vai ser o Mário Santos a falar, onde vamos aproveitar para falar sobre o parto em casa e as diferentes perspectivas europeias – Todos europeus, todos iguais? Vamos ver que não… Todos europeus, todos diferentes. Se pegarmos por exemplo na escolha do local de nascimento, o parto em casa está legislado de forma diferente de país para país. Não se tem as mesmas salvaguardas, as mesmas leis, as mesmas coisas.

Marina – Ser europeu só para o que convém…

Sara – Sim! Depois temos então a apresentação dos resultados do OptiBIRTH. E a seguir a Beverley Beech, da AIMS (Association for Improvements in the Maternity Services), que em inglês quer dizer “objectivos” e que é uma organização que existe há mais de 50 anos em Inglaterra para melhorar os serviços maternos prestados. Elas são todas velhotas, são tipo nós daqui a… muito tempo! (risos) A AIMS já faz muita coisa há muito tempo, são umas activistas espectaculares… são voluntárias… têm vários livros escritos que vendem, aceitam donativos… e o lema delas é: “Estivemos lá para a tua Mãe, estamos cá para ti, ajuda-nos a estar aqui para as tuas filhas.” A AIMS é uma entidade que inspirou muito a nossa Associação. E a Beverley Beech é uma das fundadoras, é uma grande gaja, “rija” mas super fofinha. Muito inspiradora. É uma pessoa com muita garra mas ao mesmo tempo… ela foi oradora no último ENCA, estava a falar de violência obstétrica e começou a chorar, emocionada, com as coisas que dizia. E como activistas, acho que nunca podemos perder esta parte que nos conecta uns com os outros, não podemos deixar que as coisas se banalizem. Tem que sempre nos tocar e fazer mexer qualquer coisa! Por tudo isto e muito mais, convidámo-la para ser oradora, para nos falar da cultura do parto no Reino Unido e nos contar o percurso da AIMS. Como é que é isto de ser activista há 50 anos? E o que é que mudou? Para tu veres, elas quando começaram faziam campanha para todas as mulheres terem direito a uma cama no hospital… porque não havia camas para todas.

Marina -Wow!!

Sara – Depois temos a Dra. Graça Gonçalves, da Amamentos, que vai falar de “Melhores começos – recebendo o bebé”, mais dedicado ao pós-parto na perspectiva do bebé. E depois um pequeno workshop sobre plano de parto, o que implica e não implica. Um plano de parto é pessoal e intransmissível, não podes simplesmente ir à net e imprimi-lo. É um trabalho de casa. Um plano de parto deve começar com uma folha em branco. E é o teu plano de parto…

Marina – Parece-me um programa muito interessante!! Eu vou, claro! Vai saber a pouco… Obrigada por esta conversa tão boa, cheia de partilhas lindas.

Foi uma tarde e conversa muito agradáveis. A Sara é muito espontânea, extremamente bem-disposta e apesar dos temas por vezes pesados, as suas entoações aliviavam o ambiente.
Promete voltar a ser entrevistada, desta vez para conhecermos melhor a sua faceta de doula, bailarina, doula-bailarina e actriz em palcos para mais pequeninos.

Por hoje, bastou-nos ter falado da “D. Alzira do 3º andar”, que começa a ter uma voz cada vez mais activa e só quer parir em paz.

Junte-se a nós no II Encontro Nascer em Amor. As Mães d’Água vão lá estar. Como Mães e como mulheres que querem ajudar a mudar o paradigma do parto em Portugal. Mais informações do evento aqui.

saravaleblessfoto

(imagem de Bless)


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)