[Relato de parto que sonhava na água, mas… #5] Susana Barreiro Salgueiro Parto Com Água / Relatos

Escrevo este relato no dia em que celebramos seis meses de ti, e dedico-o às minhas Doulas do coração, que não podendo estar presentes no parto em si, estiveram nos momentos chave (e estarão sempre no nosso coração).
Quero agradecer às minhas Doulas, às minhas parteiras, ao meu marido e à minha mãe pelo apoio incondicional.

O Parto
Desde o início até ao final esta gravidez foi muito intensa e sui-generis. Passando por vários sustos, com bastante tempo de repouso forçado, com um pessário a “segurar” o colo do útero e a bebé, com medicação e com a incerteza de chegarmos a uma gravidez de termo. Estávamos ansiosos por chegar às 37 semanas.
Quando este objectivo se concretizou só havia uma certeza, que me acompanhou a gravidez toda – a Maria Rita ia nascer em casa. Eu estava muito tranquila em relação a isto. De alguma forma sempre acreditei que chegaríamos ao final e, ali estávamos nós, com um bebé saudável e uma gravidez de termo.

Voltei a falar com as parteiras, porque esta questão ficou de parte durante uns tempos, e começámos então a delinear as coisas, para que tudo acontecesse em casa.
O Tiago, meu marido, comprou a piscina e todos os acessórios para tentarmos que a Maria Rita nascesse na água.

As últimas semanas de gravidez foram mais ou menos tranquilas, com uma enorme constipação minha e umas dores musculares pelo meio, mas lá conseguimos ir uma vez à praia a passear os quatro (com os meus outros dois filhos), como não fazíamos há meses.

Ao contrário das outras duas gravidezes, os pródromos começaram mais cedo (ou eu estava mais atenta aos sinais), e por volta das 38 semanas comecei com algumas contrações, “moínhas”, nada de especial.

No domingo antes da Maria Rita (MR) nascer, durante a hora de almoço, tive várias contrações ritmadas e até comentei com o Tiago se estava preparado para ser pai nesse dia. 🙂

Falso alarme!

Na 2ª feira comecei a perder o rolhão mucoso, as “moínhas” continuavam e sabíamos que estava para breve conhecer a nossa baby número três.
Durante essa semana todos os dias ao anoitecer tinha contrações com alguma regularidade (não “monitorizei” os intervalos, mas sei que eram regulares) mas que acabavam por desaparecer quando ía para a cama e descansava.
Nessa quarta-feira feira em que a MR nasceu o processo foi semelhante, comecei com contrações ao final do dia… para mim nada de novo! Fui para a cama adormecer o “bebé” do meio e esperar adormecer também, e as contrações acalmarem.

Há alguns dias que não falava com a parteira e às 23h, estava eu na cama, recebo a seguinte mensagem dela:
“Tudo tranquilo? Feelings?”
Ao que eu respondi que sim, tudo tranquilo que estava com algumas contrações que de vez em quando se tornavam um pouco dolorosas e que o rolhão continuava a sair, mas nada de novo. No dia seguinte iria ter nova consulta de avaliação na maternidade e tinha também acabado de combinar com a outra parteira um encontro para depois da consulta.

Continuei na cama a tentar adormecer, mas as contrações desta vez não estavam a deixar.
Levantei-me, fui à sala ter com o meu marido e disse-lhe que não conseguia adormecer.
Estivemos um pouco na conversa e voltei para a cama para tentar de novo. Pois, não consegui, e estar deitada tornou-se insuportável depois de uma contração dolorosa.

Voltei para a sala, cerca das 23:45, já com bastantes dores, e pedi ao Tiago para “monitorizar” as contrações: aconteciam de minuto a minuto!!!!
Enviei sms à parteira. Quando ela ligou, cerca das 00h, eu já não conseguia falar. Parteiras a caminho de casa.
O Tiago ligou para a minha mãe para ajudar e vir tratar dos meninos, caso eles acordassem.
O Tiago começou a preparar a piscina e a ajudar-me com massagens durante as contrações. Entre contrações coloquei panelas com água no fogão e fui colocar as lentes nos olhos (no nascimento do bebé do meio pediram para eu tirar os óculos e fiquei com a sensação que não o tinha visto em condições).
Voltei para a sala e debrucei-me sobre as costas do sofá, que era a posição que me aliviava. Lembro-me de olhar para as horas no telemóvel (eram 00:23), e pensar que a minha mãe já deveria ter chegado.
Saí das costas do sofá e coloquei-me de joelhos no chão, e apoiada no assento do sofá.
O Tiago continuava na azáfama de encher a piscina e eu decidi ir para a banheira, aliviar a dor com o chuveiro porque estava a ficar muito doloroso.
Entrei na banheira, tentei deitar-me… não dava, a banheira era demasiado estreita, tinha que ficar de pé.
A minha mãe chegou por volta das 00:30 e ficou a ajudar-me com o chuveiro na zona lombar mas eu, que estava de costas para ela estava a sentir uma dor/ pressão enorme na sínfise púbica e pensei:
Eu não aguento mais!“. Nesse mesmo instante o meu pensamento de Doula disse-me:
Ainda não é possível estar na fase de transição, é muito cedo!” e nesse mesmo instante uma vontade avassaladora de fazer força surgiu.

Disse à minha mãe que ia fazer cocó (é sempre um pouco constrangedor falar nisso, mas acontece) e depois disso parece que disse:
Mãe, ela vai nascer!
Nisto, virei-me coloquei o pé direito no bordo da banheira e fiz força novamente e cá estava a cabecita da Maria Rita a espreitar. Lembro-me da minha mãe chamar o Tiago e perguntar o que devia fazer ao que respondi que “só” tinha que a apanhar…

… Nova vontade de fazer força e aqui estava a nossa baby Ritinha, segurada pela avó e pelo pai – acho que não podia ter nascido melhor – às 00:41, com 39 semanas e 2 dias.

No mesmo instante chegou uma das parteiras que verificou que estava tudo bem com a MR e que ma deu para os braços…

… Um momento mágico, intenso e maravilhoso, ter a minha filha guerreira e tão ansiada no meu peito. Era linda, perfeita e nasceu de um modo prefeito, num momento perfeito.

Fomos todos para a sala, para eu me deitar um pouco no sofá e esperar que a placenta nascesse também. Eu levei a Maria Rita ao colo com ela ainda ligada à placenta, que ainda estava dentro de mim. Deitei-me com ela no meu peito e a placenta nasceu também no seu tempo.

Os manos foram acordados para que conhecessem a mana e foi mais um dos momentos altos da noite.
O cordão foi cortado por mim, não sei quanto tempo depois da placenta ter nascido, e a Maria Rita mamou logo que assim quis.

Enquanto eu fui observada pelas parteira, no quarto, para estar mais reservada, a Maria Rita ficou no peito do pai em pele com pele e esteve sempre tranquila.

Períneo integro e útero operacional” é o que se gosta de ouvir depois de uma experiência tão gratificante como esta.

Os manos foram com a avó o resto da noite e nós ficamos os 3, na nossa cama e a desfrutar deste novo serzinho que já fazia há tanto parte da nossa família, e de quem agora conhecíamos o rosto.

Assim foi o nascimento da Maria Rita, perfeito, e que ainda hoje nos enche a alma e o coração quando é recordado.
Hoje, com seis meses feitos, é uma bebé deliciosa, palradora, tranquila e que ilumina a nossa vida!

A gravidez da Maria Rita foi tempo de conexão a mim, ao meu corpo, a ela.
Foi tempo de acreditar, de fé.
Foi tempo de relativizar e descomplicar. Foi tempo de família, união e amor.
Foi uma grande aprendizagem.
Houve momentos de grande tensão, de muitas incertezas, de grandes sustos, mas no final vencemos as duas, aliás, os cinco!
Hoje estamos mais fortes do que nunca, e que continuemos assim por muitos anos.

~ Susana

 


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.