Entrevista com Olívia Augusta Entrevista

Editado a 08-11-2018: Esta parteira encontra-se em processo de certificação para poder exercer em Portugal segundo as recomendações expressas na Recomendação nº1/2012 do Colégio da Especialidade em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica da Ordem dos Enfermeiros.

 

~ A Olívia é parteira internacional, terapeuta e artista. Uma verdadeira Xamã!

Contando-nos a sua história fomos aprendendo sobre o mundo sagrado dos partos.
Convido-te a viajares também com ela através das suas palavras. ~

~ De onde surge o chamamento para seres parteira?

~ Eu com 17 anos terminei o secundário e entrei na faculdade para fazer o curso de estudos ambientais. Eu queria trabalhar com florestas, originariamente, a repor florestas destruídas.
Na mesma altura conheci um ancião Nativo Americano, um curandeiro. Ele tinha muitos aprendizes e ensinava pessoas que não eram nativos americanos a fazerem rituais de cerimónias.
Assisti a uma palestra dele e fiquei muito inspirada, a sentir que me faltava este pedaço espiritual. Fiz a minha primeira sauna sagrada com ele, e nesse momento decidi que queria mesmo aprender a ser curandeira com ele. Então, eu “ofereci o meu tabaco”, como sinal, para ser aprendiz dele. E fiquei com ele a estudar esse trabalho ritualístico.

Durante os primeiros meses eu tive a honra de acompanhar uma outra aprendiz do meu mestre, que estava grávida, e que decidiu parir na Maternidade La Luz, uma clínica e faculdade de parteiras na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

Eu estive no parto dela, onde toquei tambor e cantei com várias outras mulheres, para a apoiar. Vi-a dar à luz num banco, sentada, com a maior graça e beleza.
Nesse momento em que a vi dar à luz, apoiada por duas parteiras, uma de cada lado, eu percebi que Eu Sou Parteira, só tinha que me formar! E esse era um trabalho que eu podia fazer lindamente.

Durante mais cinco anos eu continuei o meu trabalho como aprendiz, fazendo investigação e aprendendo como fazer a sauna sagrada, a trabalhar com o fogo, a trabalhar com os sonhos, a trabalhar com ervas. Durante esses anos acompanhei várias outras aprendizes a darem à luz lá na clínica, e em outros lugares também.

Finalmente depois desses cinco anos, quando acabei o meu aprendizado, entrei na faculdade da Maternidad La Luz para me tornar parteira profissional.
Mas o desde o primeiro momento eu sabia que era este o meu trabalho.

~ O que te inspira como parteira?

~ A minha inspiração é a satisfação das mulheres e dos bebés.
Quando um trabalho é bem feito os resultados são imediatos.

Eu entro num espaço e tento perceber o que aquela pessoa precisa, e cada pessoa é diferente.
Algumas pessoas precisam de muito apoio físico, de massagens.
Algumas pessoas precisam de muita palavra.
Algumas pessoas só precisam de silêncio e um olhar…
O meu trabalho é entrar e sentir a pessoa, e tento dar-lhe exactamente o que ela precisa.

Se eu consigo fazer isso certinho os resultados são maravilhosos, o parto é maravilhoso, a mulher sente-se bem depois do parto, o bebé nasce e consegue mamar e não tem grandes dificuldades.

O resultado são mulheres que se ficam a conhecer melhor e se sentem criadoras poderosas. E também os bebés, felizes!

Esses resultados inspiram-me. Inspira-me sentir que estas pessoas vão viver uma vida melhor. Vão saber mais como Amar e cuidar dos outros.

Ao fim ao cabo eu estou a fazer o trabalho para que me senti chamada desde o início, com as florestas, porque estou a ajudar a criar pessoas que provavelmente não vão lá fora destruir o ambiente, que não vão magoar alguém sem motivo. Estou a ajudar a criar pessoas que são equilibradas. Para mim é o trabalho mais importante que eu podia fazer no mundo.

~ Relacionas muito o Ser Parteira com o cuidado do Sagrado Feminino?

~ Sim. Claro!!

Pois… talvez não seja tão claro assim para toda a gente…

Para muitas pessoas o trabalho de ser parteira é algo bem prático, bem físico.

Para mim parto é – não só, mas também – um ritual de passagem de uma Mulher que se transforma em Mãe. E é um momento em que, se a mulher está consciente, ela consegue dar um passo enorme na vida dela. Não só ser empoderada, mas encontrar mesmo a sua Essência, e perceber como é bom e como é poderoso Ser Mulher, e ter esse poder da criação dentro de si.

Para mim, o trabalho do sagrado feminino é isso:
É reconhecer que aquilo que a grande maioria da sociedade acha que é a nossa fraqueza, a nossa vergonha, o nosso sangue, é na realidade o nosso poder.
É reconhecer o Mistério.

Eu acho, pessoalmente, que não é preciso falar sobre todas as coisas secretas e íntimas da mulher pelo mundo todo! Eu pessoalmente preferia não ver anúncios de tampões na televisão… isso para mim é um tema íntimo, que eu gostaria de falar com as meninas e as mulheres ou uma a uma, ou em grupos. Não quereria sentar-me no sofá com o meu pai a ver essas coisas! Não é que eles não devam de saber que isso existe, não é isso! Obviamente que é importante para os homens das nossas vidas saberem os básicos e aprender a respeitar os mistérios sagrados da mulher – como todos nascemos da Mulher – mas também há “coisas dos homens”, que pertencem aos homens, que têm poder – e são também sagradas – sobre as quais as mulheres também devem ter conhecimento mas não precisam de saber todos os detalhes.

Eu acho que (essa talvez seja uma perspectiva que não é muito partilhada, mas, para mim) ao lembrar os nossos ancestrais é fácil ver que em quase todas as tradições indígenas no mundo, o parto e o sangue são propriedade do trabalho das mulheres e que não são expostos a todo o mundo, são momentos íntimos. É um momento íntimo.

São segredos que partilhamos.
São sabedorias que aprendemos e que são para ser cuidadas e protegidas.
São sabedorias que são para ser dadas às pessoas que estão prontas para ouvir e para aprender, e não é toda a gente…

~ És uma das fundadoras da Mother Health Internacional, uma Organização que apoia mulheres grávidas em zonas de desastre, de extrema pobreza…
Que trabalho! Deves ter vivido tanto… Contas-me um pouco da tua experiência?

~ Sim. Começou como Earth Birth ~ Renascimento da Terra, em 2007, eu e uma outra parteira americana.
Fomos para o Uganda pela primeira vez no último ano da guerra.
Era uma guerra civil de 23 anos – começada por várias pessoas, mas os rebeldes chamam-se LRA – Lord’s Resistance Army – durante a colonização de ingleses no Uganda, os ingleses separaram o país em dois: o Norte e o Sul.
No Norte era a tribo Acholi principalmente, que se ocupava maioritariamente de trabalhos de agricultura, e como militares, não recebia educação e era muito pobre.
No Sul, a tribo Luganda, educados para tomar conta dos ministérios, trabalhar com números, etc. Todo o dinheiro e poder estava no Sul e o Norte foi… meio abandonado.
Nessas tribos do Norte havia alguns fanáticos religiosos que achavam que Deus os tinha abençoado para fazer um golpe no governo do Sul – só que eles nunca conseguiam cruzar o Rio Nilo e chegar ao sul – e por 23 anos, Joseph Kony, que era o chefe da LRA (ainda é, agora ele fugiu para o Congo, mas ainda tem um exercito de rebeldes), fazia ataques atrás de ataques aos terrenos dos próprios povos, roubando mais que 20,000 crianças para fazer parte do exército, meninos soldados e meninas “mulheres” que eram partilhadas pelos soldados.

Foi uma das guerras mais horríveis que se pode imaginar. Destruiu a cultura, as pessoas, a floresta…

Finalmente, em 2007, foi encontrado petróleo no norte do país e a atenção internacional foi direccionada para lá, conseguiram empurrar Joseph Kony para fora, que fugiu para o Congo.

A comunidade estava ainda em terror quando nós chegamos lá. Encontrámos um hospital que era a três horas do local onde nós estávamos, e esse hospital estava lotado, lotado mesmo!
Lotado porquê?
Porque, nos anos 80 várias ONGS foram lá formar parteiras. Formaram parteiras com técnicas médicas dos anos 50 – por exemplo, deitar de costas, fazer episiotomia, monitorização contínua – mas não havia equipamento! Faziam episiotomia sem poder costurar, usavam gillete para cortar o cordão umbilical sem ter como esterilizar, e, como não havia muita facilidade de acesso às gilletes, o mesmo podia ser usado por centenas de bebés e muitos morreriam de tétano!

Muitas coisas loucas (chocantes)!

Ensinaram estas técnicas como “técnicas modernas”, e as parteiras passaram a fazê-las… as parteiras em casas de barro, com tecto de palha, sem luz, sem água corrente… deixaram de seguir as instruções práticas deixadas pelas avós delas – que funcionavam! – para usar estas “novas”, mas as técnicas (aliás antiquadas) da “obstetrícia moderna” não funcionam nestas condições. Simplesmente não funcionam!
As parteiras foram fazendo, e os resultados foram piorando, piorando, piorando…
O governo decidiu então que essas parteiras não deveriam mais ser responsáveis por dar apoio aos partos; e passavam a ser obrigadas a levar todas as mulheres a parir no hospital público. Hospital esse que tinha oito camas antigas, de metal, com ferrugem. Tinha talvez uma parteira a trabalhar de noite, às vezes nenhuma, durante o dia talvez umas três. Mais de 30 casos à espera no corredor, na sala de recuperação mais de 60 pessoas.
Não tinha mesmo como lidar com esta gente toda.
As mulheres, para serem atendidas, tinham que levar o seu próprio plástico preto para terem um lugar limpo para parir, e se ainda não fosse o momento, se o bebé não estivesse pronto para sair, elas ficavam no corredor, deitadas no chão, numa fila gigante! Muitas mulheres e muitos bebés morreram a dar à luz, porque não havia capacidade de atender tantas pessoas.

Eu fiz voluntariado neste hospital, e eu própria senti a pressão das outras parteiras, porque elas não queriam que algo de mal acontecesse comigo. Houve uma vez que sujei o meu vestido durante um parto, eu fiquei com um pouco de sangue no meu uniforme branco, e elas diziam-me: “Não podes! Vais apanhar HIV e vais dizer para toda a gente que apanhaste no nosso hospital! Não pode ser, o uniforme tem que ficar limpo!”.

Não era mesmo culpa delas, as parteiras no hospital também eram vítimas da guerra! Traumatizadas, há mais de seis meses sem serem pagas… e elas continuavam a ir trabalhar, ainda assim.

Nós decidimos que podíamos ajudar a resgatar a sabedoria das parteiras, que já existia, e juntar a essa sabedoria a informação que existe no mundo da parteira moderna, com conhecimento prático – que é possível aplicar, e que funciona no contexto destas mulheres.

Primeiramente fomos para a aldeia mais remota, a três horas da cidade onde existe o hospital, o Gulu. Fomos de Gulu a Atiak – que era a 30 km da fronteira com o Sudão – lá tivemos uma reunião com os anciãos e perguntamos se podíamos ajudar, que tínhamos a informação e a vontade de a oferecer, mas queríamos saber mesmo se eles queriam ajuda. Eles disseram “Sim.“, mas que precisavam de perguntar às parteiras, e pediram-nos para voltarmos em dois dias.
Quando voltámos havia 38 parteiras tradicionais à nossa espera a dizer

Por favor, venham trabalhar connosco! Nós realmente precisamos de ajuda. Não temos sabonete, não temos água corrente, não temos luvas! Precisamos de ajuda!”.


Começámos a fazer encontros semanais com esse grupo de parteiras, fomos fazendo partos juntas, ajudando-as, e as coisas começaram a mudar aos poucos. Era espectacular!


Depois de três meses elas disseram:

Bom, o que fazemos é muito bom, mas ainda assim, quando vocês não estão, temos que levar às mulheres para o centro de saúde, e não há ninguém lá. E se houver alguém lá, ainda assim temos que fazer quase todo o trabalho sem luvas, sabonete ou respeito… E não somos pagas! Queríamos um centro onde possamos levar as mulheres, e trabalhar com dignidade e apoio. Será que vocês conseguem fazer isso para nós?”.

Foi assim que saímos pelo mundo a pedir dinheiro a toda a gente – à nossa família, aos nossos conhecidos… – e formámos a ONG.

Recebemos a nossa primeira doação grande, de um doador privado dos Estados Unidos, que nos deu 20 mil dólares, e quase todo esse dinheiro foi assim gasto – para colocar o primeiro posto solar, que ainda está a funcionar. Assim começámos a construir!
Enquanto estivemos a construir, conseguimos alugar um espaço no centro do campo de refugiados e começámos a dar assistência a partos.
Num mês fomos aconteciam até oito ou dez partos por dia, nesse espaço alugado.
As parteiras tradicionais vinham com as clientes delas, da aldeia delas, e nós fazíamos tudo a quatro mãos.
Semanalmente fazíamos formação, e dizemos que a cada aula em que nós nos juntávamos era como para fazer uma panela de sopa, elas traziam ingredientes, nós trazíamos também ingredientes, e no final de cada formação tínhamos uma sopa deliciosa cheia de sabedoria.

Fomos construindo, construindo… Demorámos dois anos a terminar o centro, que é grande, tem quatro salas de parto, duas com banheira e duas com duche, e é feito em formato de uma flor de Lotus – fui eu que desenhei anos atrás, era um grande sonho meu fazer esse centro, que também reflecte a cultura local, onde todas as casas são redondas.


Acho que até terminarmos o centro aconteceram 1200 ou 1300 partos, desde então até agora devem de ter acontecido mais de 6000 partos no centro. Por mês fazíamos cerca de 300 consultas pré-natal. Conseguimos que numa área de muita mortalidade maternal, até à data, não houvesse nenhuma morte.
Agora temos também uma ambulância que em caso de necessidade transfere para o hospital. E também temos duas “ambulâncias moto”, que vão buscar as mulheres e as parteiras e trazem para o centro quando é hora de dar à luz.
Aos poucos conseguimos mudar os maus conceitos sobre gravidez e os cuidados de saúde. Isso fez com que conseguíssemos diminuir o número de partos prematuros – que quase todos acontecem por causa das infecções urinárias, que são muito comuns lá, por causa do calor e das mulheres não beberem muita água.
As coisas estão a mudar aos poucos.
Em 2011 juntamo-nos com outra ONG, que estava estabelecida no Haiti, que fez uma clínica pós-terramoto lá, mas a clínica estava a fechar por falta de gestão. Então eu fui ao Haiti e abri uma nova clínica, mudei tudo para o novo sítio, e trabalhei com as parteiras lá para envolver mais a comunidade e criar um modelo mais sustentável. Nesse momento tornámo-nos “Mother Health International“, uma ONG maior.

(Mural na sala de parto, Haiti)

Também temos voluntários do mundo todo e estagiárias a ir lá, principalmente ao Uganda. Parteiras formadas vão lá fazer estágios de três a seis meses, ficam lá a acompanhar e apoiar as parteiras tradicionais. Agora a clínica tem duas parteiras profissionais Ugandesas, Acholis, formadas por nós, que estão gerir a clínica. Elas apoiam os 54 parteiras tradicionais que formámos.
A clínica foi devolvida às mãos das pessoas locais.

~ Depois do Uganda escolheste Portugal? Não deixa de ser curioso!

~ Eu acho que não escolhi tanto Portugal! Eu escolhi o Brasil!
Queria muito voltar para o Brasil e fomos lá seis meses este ano passado, mas eu não estava a conseguir ficar lá legalmente e, no momento que fomos decidir se ficávamos ou não, eu tinha uma proposta de abrir uma clínica de partos numa ecovila que se chama “Piracanga“, um lugar bem lindo. Estava para abrir uma casa de partos que foi inspiração de uma antiga aluna minha, ela contactou-me a dizer “Eu fiz esta casa de parto para ti, para seguires o teu Dharma. Vai lá!”

Eu fui e era maravilhoso! – eu e a minha esposa – nessa hora houve o golpe… agora que Dilma não é mais presidente, o presidente actual é Evangélico, e acha que homossexuais são pessoas doentes, estão já a mudar as leis… então não sabíamos se conseguíamos voltar para o Brasil como família legal.

Chegámos a Portugal sem saber se iríamos ficar, mas cá logo senti um bem-estar, de não estar em perigo, de poder existir em paz. A minha esposa é Angolana-Portuguesa, nós casámos cá, então agora estamos no processo de pedir residência para eu e a minha filha podermos ficar cá e eu poder trabalhar legalmente.

Eu encontro neste país (Portugal) um lugar maravilhoso, cheio de pessoas prontas a mudar, e com muitas possibilidades.
Pessoas muito queridas e com bastante abertura!
Eu sinto-me bem cá! Até melhor do que me sinto no meu próprio país, os Estados Unidos da América, que não é um lugar fácil de estar (e neste momento nem vamos falar…) trabalhar como parteira lá é muito difícil.

Houve uma época em que havia bastante liberdade para conseguir uma licença de parteira tradicional (nos EUA), mas isso está a ser oprimido, e não é claro se essa licença vá existir sempre. Há muitas pessoas a lutar contra as parteiras lá, e a lutar contra a formação alternativa das parteiras. Por isso mesmo lá é difícil trabalhar como parteira. Em um terço dos estados não é legar trabalhar fora do hospital, é uma nova época de “caça às bruxas”.

Eu sinto-me muito abençoada de ter chegado aqui e ter encontrado um lugar que eu acho que dá mesmo para trabalhar! Que dá para empoderar as parteiras que já estão prontas a trabalhar, torna-las mais capazes, mais Sábias. Podemos talvez evitar aqui os problemas que estão a acontecer noutros lugares, onde as pessoas estão a correr muitos riscos fora do hospital – que não devem – por não terem mesmo recursos.

~ Na tua opinião como pode melhorar a situação do parto e gravidez em Portugal?

~ Eu não sou uma pessoa que se sinta muito chamada a bater com a cabeça na parede do governo por muito tempo, eu não tenho essa força vital de passar muito tempo a lutar e lutar, mas eu acredito que as parteiras e obstetras têm abertura para poder proteger mais o parto natural aqui.
Eu sei que há muitas mulheres formadas, e com licença, que têm desejo de sair do ambiente hospitalar e dar uma outra opção para as mulheres grávidas. Essas pessoas que sentiram a inspiração para ajudar e apoiar mulheres na sua vocação, mas entretanto entraram na faculdade e foram sugadas pelo sistema médico, passaram a acreditar que o corpo não funciona, que vai haver qualquer complicação, e que perderam a confiança no corpo… eu acho que dá para resgatar esses profissionais.

Eu não estou a dizer que parteiras tradicionais não deveriam ser formadas, porque que eu acredito que mais informação é sempre melhor do que menos. Para as pessoas que estão já ao serviço das mulheres é muito importante empoderar essas pessoas. Mas eu não defendo que pessoas que não têm formação e experiência suficiente corram riscos, é importante clarificar isso! Realmente se uma pessoa que não tem muita experiência decide assistir a um parto (em que pode parecer tudo normal, mas pode surgir algo inesperado), isso é basicamente uma questão de Ego, estar a achar que se consegue fazer algo mas para o qual não se tem capacidade… é colocar a vida dessa mulher e a vida dessa criança (e a tua própria vida em termos legais), em risco! Não vale a pena.

Por isso temos que trabalhar juntos. Há por um lado pessoas que têm capacidade para aprender mais e trabalhar legalmente, e pessoas que trabalham dentro do sistema e não sabem como sair que podem ser “resgatadas”, aí podemos começar a fazer diferença! Essas pessoas devem trabalhar em conjunto com parteiras tradicionais e também com Doulas, que podem partilhar uma outra perspectiva.

O sistema médico é muito bom a criar medo. Há muitas parteiras e obstetras que estão cheias de medo… que têm que tocar a sua própria essência, empoderar-se e saber/ acreditar que são capazes de fazer a diferença, que são capazes de apoiar mulheres. E nem sempre precisam do “sistema completo”.
O hospital é um lugar óptimo quando há emergências, quando há doenças, e é muito importante que tenhamos esse recurso. E gostava que o hospital não descriminasse quem procura a sua ajuda, seja em que momento for. Todas as pessoas deveriam receber apoio e isso ser valorizado:

“Que bom que chegaste a tempo!
Que bom que percebeste o momento em que era necessário vir, trazer esta mulher e este bebé e salvar-lhes a vida!
Que bom que vieste para o hospital quando percebeste que a situação ia para além das tuas capacidades!”.

É para isso que o hospital existe. Temos que aproveitar o hospital nos momentos certos, e seria ideal que as equipas do hospital colaborassem para o interesse das mulheres e bebés.

O meu trabalho hoje em dia é muito focado em orientar os profissionais a saberem quando é esse momento, a saberem distinguir quando são capazes, e, para poder evitar complicações, saberem reconhecer quando não são capazes e precisam mesmo de outra ajuda, porque esses momentos acontecem.
E sim, cá em Portugal eu acho mesmo que é possível essa aprendizagem se desenvolver.

~ Eu sou super curiosa com pequenos rituais. Tu trabalhaste quase pelo mundo todo, tu conheces (e se é que é possível partilhar) alguns desses pequenos rituais ligados à gravidez e ao parto?

~ Hummm… pequenos rituais… Algo muito simples: a defumação.


Eu adoro a defumação! Agora há estudos que estão a provar que é algo científico, o fumo de algumas ervas ou madeiras tem uma frequência que limpa energias negativas, mata bactérias e as leva para fora. É algo simples e que adoro fazer, defumar/ limpar o espaço quando eu ajudo num parto.
Mas não só o espaço. Eu ensino que profissionais de parto, pessoas que apoiam o parto, deveriam queimar essas ervas e limpar/ defumar-se a si mesmo, antes de apoiarem alguém.
Porquê?
Todos nós temos a nossa vida, talvez haja contas inesperadas, uma discussão com o marido, algo pode ter acontecido na nossa vida, e que levamos para o nosso trabalho, para o parto, vamos carregadas de todas essas energias.
Para mim, para dar um tempo e espaço para este ritual, o que eu gosto de fazer é tirar os sapatos e pisar a Terra – pode ser um pequeno quadrado relva – e defumar-me.

Posso usar incenso, pau santo, lavanda ou salvia e deixo que os meus pés me ajudem a ancorar na terra.
Imagino que tenho raízes, que me ligo com a Terra e com todas as coisas. E todos os pensamentos, tudo o que está dentro de mim e que não me serve naquele momento, que não serve a mulher que eu vou servir, vai descer para a terra e ser transmutado, ou vai ser apanhado com o fumo e vai com o vento.
Eu imagino que a minha aura, a minha energia, se vai fortalecer. Eu vou fechar essa energia boa dentro de mim antes de me aproximar de alguém.
Vou usar e receber essa energia boa para limpar o espaço de todas as coisas que aconteceram lá anteriormente, para que a mulher que vou cuidar tenha um espaço livre para a sua energia vital. Eu aproximo-me dessa mulher deixando todos os meus dramas fora da porta, para a poder servir melhor.

Isto é algo que eu ensino sempre aos profissionais. Qualquer terapeuta que toca nas outras pessoas se pode esquecer que não é só o limpar a energia depois, para não absorver dos outros – que também é importante – mas é também o chegar limpo, para estar completamente presente.

Há outra coisa que eu gosto muito de fazer. Um ritual nativo americano para os companheiros – eu trago poucas coisas específicas de outras culturas, mas há uma que às vezes fazemos para a bênção da mãe, no final da gravidez em vez do chá de bebé/ babyshower – a Benção da Mãe.


Os rituais de bênção da mãe são inspirados num ritual nativo americano no qual criamos uma linha energética de protecção. Então, enquanto estamos a fazer mimos à mãe – fazemos banhos de flores nos pés, pintamos a barriga, fazemos coroas de flores, massagens e coisas assim – todos os homens, ou as pessoas que se identificam como “protectoras”, se juntam, fora, com tigelas de farinha de milho, e criam uma protecção, proferindo palavras de poder, como: “purificar”, “abençoar” e “proteger”, e fazem uma linha sem quebras, como uma barreira simbólica, que protege o espaço simbolicamente, e fisicamente, enquanto nós mimamos a mãe no centro.
É algo muito positivo porque as pessoas se sentem super úteis, aprendem que são capazes de cuidar da mulher.
É algo de que eu gosto muito.

~ A tua especialidade são casos como partos pélvicos e de gémeos – casos que na nossa cultura indicam quase sempre uma cesariana na certa.
Como surge este interesse?
O que podes partilhar sobre este tipo de partos?

~ O primeiro parto de gémeos a que eu assisti foi na escola, eram gémeos de surpresa. Ela até tinha feito ecografias! Uma bebé estava em cima da outra e não dava para ver.
Quando a primeira bebé nasceu a minha professora disse logo: “Este bebé parece-me muito pequenito, vai lá ver”. – e um dos bebés estava pélvico! Nasceram os dois saudáveis, o parto foi óptimo. E eu fiquei muito inspirada a acreditar que não eram situações de alto risco, era mais uma forma de normalidade.

O meu primeiro parto pélvico, sozinha, aconteceu no meu primeiro ano de trabalho como parteira nos Estados Unidos. Era um VBAC ~ parto vaginal depois de cesariana. A primeira cesariana foi feita por posição pélvica. Ela veio ter comigo para fazer um parto natural. Eu diagnostiquei com 36 semanas que estava pélvico por apalpação, quando o disse à mãe a reacção foi: “Não me digas isso! Eu não quero ouvir isso”.
Eu prescrevi homeopatia e exercícios.
No dia antes da próxima consulta, com 37 semanas, a bolsa rebentou e começou o trabalho de parto, foi um parto super rápido e fácil, na água, e o bebé nasceu pélvico.
Eu fiquei super inspirada para aprender mais.

O Uganda tem uma das maiores percentagens de gémeos do mundo, e muitas vezes partos pélvicos! Eu já tinha estudado muito, mas aprendi mesmo com a prática, a dar assistência a partos.
De facto, a maioria das vezes, por exemplo com gémeos em que cada um tem o seu saco amniótico, as complicações são poucas! As “complicações” são coisas que temos que saber como navegar, mas não é nada do outro mundo, são coisas que também se vive com um parto de um bebé só.
A maioria das complicações vem com a antecipação dos problemas. Passar a gravidez inteira a dizer a uma mãe que ela é “alto risco”, que tem que fazer mais ecografias, que tem que assegurar isto ou aquilo, isso produz uma “doença psicológica”, faz com que a grávida não se sinta nada “normal”, e no final transforma-se uma antecipação de um problema num problema de facto!
A minha realidade é que, a maioria das mulheres que eu servi com gémeos foi em lugares onde não havia nenhuma ecografia e ficámos a saber por apalpação e pela medição da barriga, e apoiamo-la a ser mais saudável, a comer melhor, a beber mais água, a tomar mais vitaminas, e a verdade é que quase todas as mulheres – se não apanharem nenhuma infecção urinária por desidratação – seguem a gravidez quase até às 40 semanas.

(Arte feita com uma barriga de gémeos)

Eu por acaso não tenho encontrado o parto prematuro como algo comum entre mulheres grávidas de gémeos saudáveis. Quase sempre se há uma dificuldade é outra, por exemplo cansaço do útero, hemorragia (que tem que se saber trabalhar bem com hemorragia e preveni-la). E nos partos pélvicos, que também há muitos nas gravidezes gemelares, a realidade não é muito complicada. Para a maioria das mulheres, especialmente se elas já tiveram uma gravidez com posição pélvica, é possível que a sua pélvis esteja feito para parir assim!

As complicações vêm quando o processo está a ser apressado, as pessoas ficam muito stressadas e querem “puxar” qualquer coisa que não é suposto puxar, ou estimular a mulher a fazer força antes de ter a dilatação completa.

É um parto que requer mais experiência, mais paciência, mas se sabes como lidar com esses desafios, quase sempre consegues um parto saudável, com um bebé saudável.
A realidade com o posicão pélvico é que a grande maioria, entre 36 e 38 semanas, dá para virar o bebé com facilidade, não é algo muito complicado. É preciso saber como fazer, mas é basicamente ajudar o bebé a fazer uma cambalhota. Mas se não dá – há vários motivos para não dar, por exemplo, a mãe não ter suficiente líquido amniótico (que é uma coisa que também dá para melhorar bebendo mais água); talvez o formato do útero não deixe; talvez o cordão umbilical esteja curto ou enrolado e não permita virar – nesses casos é preciso ouvir o corpo da mãe e do bebé e quase sempre dá para fazer um parto vaginal pélvico.

Eu acho que já fiz (dei assistência) a mais que 40 partos pélvicos, mais de 30 partos de gémeos, e sinto-me muito confiante com esses casos, e também capaz de apoiar outros profissionais a aprender e ajudar a não ter tanto medo.
Realmente é só um mudar de perspectiva, uma “lavagem cerebral”, mais uma coisa para ter medo… mas são coisas que são variações do normal, e que o corpo consegue fazer. A mulher consegue, e a parteira o obstetra também conseguem.
Não é complicado, mas é preciso chegar ao parto com outra mentalidade e abertura. Gostaria de ser convidada a apoiar obstetras nos hospitais aqui, fico com muito vontade e completamente disponível para apoiar esses tipos de parto a acontecerem vaginalmente.

~ A placenta. É muito importante no teu trabalho, certo? O que se pode fazer com ela?

~ Primeiramente eu acredito muito que é necessário deixar (o bebé ligado à placenta) tempo suficiente para o bebé receber todo o volume de sangue que tem dentro da placenta.
Há alguns equívocos aqui, muitas pessoas dizem que a placenta só pulsa por alguns momentos, alguns minutos, mas eu já testei mais de 3 mil placentas, e eu sei com certeza que a placenta continua a pulsar por mais de quatro horas! O mais que eu já vi foram oito horas.
Continua a pulsar mesmo! Do lado da placenta, bem longe do bebé, se tocar lá vai sentir ainda a pulsação.
Para mim isso é a coisa mais importante: deixar o bebé receber todo o volume de sangue.
Nos primeiros minutos, o sangue que recebe vai só para os órgãos principais – para o cérebro, pulmões, coração – mas, o outro sangue que ainda vem nas primeiras horas vai para alimentar todos os órgãos secundários – os rins, fígado, intestinos – que também é muito importante para começar uma vida bem forte!
Por norma, eu não corto o cordão em menos de três ou quatro horas, esse é o meu mínimo, mas eu advogo muito o parto Lotus, se as pessoas estiverem interessadas.
Se houver esse interesse eu faço uma forma de “parto Lotus moderado”. Há pessoas que dizem que Lotus é deixar a placenta ligada ao bebé até que o cordão caia naturalmente, para mim isso não faz sentido uma vez que a placenta pára de dar alimentação ao bebé cerca de quatro a oito horas depois do nascimento. Eu corto o cordão quando todos os vasos se fecham sozinhos, e isso acontece por volta das 12 horas. Nessa altura pode encontrar-se um local no cordão que é completamente durinho, como um pedaço de pau, que dá para cortar sem golpear – isso para mim é parto de Lotus. E assim é possível recolher ainda a placenta fresca e aproveita-la para medicina.
Para pessoas que não querem mesmo saber nada da placenta eu ajudo-as a enterra-la, fazemos um ritual de agradecimento por esse milagre que o corpo fez de produzir um ambiente e criar uma criança por dentro, onde podemos talvez plantar uma árvore de fruto por exemplo, no local.

Se as pessoas querem aproveitar a placenta para medicina, há quatro preparações que dá para fazer:

Há uma preparação fresca. Idealmente usa-se ¼ da placenta fresca. Eu corto pedaços da carne da placenta, talvez do tamanho de uma moeda de um euro. Dependendo do tipo de parto, se foi muito duro ou não, se a mãe perdeu sangue ou não muito, faço entre sete dias e dez dias. Corto sete pedaços e junto com fruta congelada, tipo morangos, framboesas, amoras, deixo congelado em sacos já prontos, e a cada dia fazemos um batido.
Não tem gosto da placenta, nem dá para ver a placenta! Parece mais uma fruta vermelha.
Eu já vi milagres a acontecer depois deste batido! Pessoas, até depois de cesariana, dentro de uma hora depois de tomar o batido estavam a tomar duche, a cantar, como se nada tivesse acontecido. É mesmo algo que dá uma dose de reforço de tudo o que a mulher acaba de perder.
Para todas as mulheres também ajuda muito a estabilizar a amamentação, equilibra as hormonas, ajuda na recuperação geral.
Se uma pessoa está aberta, isto é o ideal, eu gosto muito de fazer sete dias de placenta fresca.

Depois, dá para fazer preparação homeopática, preparação de tintura ou preparação por encapsulação.

Encapsulação é quando a placenta é seca, moída e colocada em cápsulas. É uma preparação tradicionalmente chinesa, não é o meu método preferido, eu faço se as pessoas realmente querem. No mundo do parto, actualmente é a forma mais na moda, mas eu acho que o processo de fazer as cápsulas não preserva as hormonas e as vitaminas da placenta tão bem como a tintura.

A tintura para mim é a melhor das preparações e a que eu mais gosto de fazer.
A tintura é uma preparação na qual se lava a maioria do sangue e se preserva a carne da placenta dentro de um álcool, por norma eu uso um Brandy ou um Whisky, o um álcool que a mulher goste, e tem que assentar por seis semanas na escuridão, sendo virada quase todos os dias para deixar o álcool beber todas as medicinas/ propriedades terapêuticas, vitaminas e hormonas da placenta. Depois dá para coar e ficamos com um litro da melhor medicina possível para essa mulher e para esse bebé. Para utilizar com o bebé é preciso tirar o álcool, colocando duas ou três gotas em água fervida, e deixar o álcool evaporar. É possível dar na primeira vez em que o bebé vai ficar separado dos pais por exemplo, porque a placenta é uma energia de união.
Eu tenho clientes que usam e as crianças tem sete, oito… 10 anos, usam algumas gotas da tintura quando a criança está desequilibrada, e dizem que funciona lindamente.
Para a mãe dá para usar para repor todas as coisas que ela perdeu, para fortalecer o sistema, “reorganizar” as hormonas depois do parto, ajuda a prevenir a depressão pós-parto, ajuda a facilitar a amamentação. Dá para guardar para mais tarde facilitar fertilidade, tratar TPM, ou para guardar ainda para mais tarde para tratar sintomas da menopausa.

É uma formula das hormonas DO corpo da Mulher feito PARA o corpo dela.
É uma maravilha.
Eu gosto muito da medicina da placenta.

Para além disso também faço arte.
Faço carimbos de placenta.


Às vezes desenhos e amuletos com o cordão umbilical para a mãe guardar.
Há também um preparado das membranas que dá para fazer, ou secas ou curadas em sal. Para feridas que não curam dá para tirar o sal da membrana e coloca-la por cima como uma película curativa e facilitar a cura – é uma tradição chinesa que eu aprendi mais recentemente.

A placenta é mesmo uma maravilha!

~ E é pena não se valorizar mais a placenta!

~ Olha, não é tanto assim! No hospital até aproveitam o cordão umbilical para usar no vaso principal em cirurgias de coração.
Não se fala nisso, mas é verdade! É o vaso mais forte, mais resistente do que qualquer outro que existe, e é humano!

~ Qual é a tua opinião sobre parto na água?

~ Eu adoro parto na água, claro. É a minha primeira especialização, eu entrei na faculdade já a querer especializar-me em parto na água. Mas de facto eu não acredito que o parto na água seja para toda a gente.

Eu não gosto do pensamento que parto na água é superior, eu acho que isso desvaloriza os partos lindos que acontecem também fora de água.

Eu acho uma forma maravilhosa de alívio da dor para algumas mulheres, e também maravilhosa para assumir qualquer posição. Se a barriga está muito pesada, se o corpo está muito pesado, dá para estar em qualquer posição imaginária!

Eu também dei à luz dentro de água, numa posição tipo super homem! Uma perna para trás, um joelho subido… uma posição que realmente não dava para assumir fora de água! Mas, na minha experiência, eu não queria estar dentro de água durante o trabalho de parto, eu queria sentir as dores em actividade, eu queria dançar, eu queria mexer-me. Eu acho que a intuição corporal do momento é uma coisa que tem que ser honrada.

Para algumas pessoas durante o trabalho de parto é uma maravilha, para outras não.
Algumas pessoas dão à luz dentro de água e outras não. E as duas são iguais e valiosas e as duas são certas.
Mas eu acho que é bem importante haver, como uma opção.

~ Tu fazes mais trabalhos, principalmente artísticos, para alem de seres parteira, certo? Todos muito ligados ao feminino! Contas-nos mais?

~ Eu comecei a pintar murais quando tinha 14 anos e adorava! Eu tinha a sorte de ter pais que me apoiavam a desenvolver actividades artísticas, compravam-me tintas e deixavam-me pintar. E assim começou.
Eu estive sempre ligada ao sagrado feminino e foquei a minha arte na mulher, na mulher grávida, no corpo da mulher, no poder da mulher.
Hoje em dia liguei-me não só ao parto mas também à cura das pessoas, à transformação, e parte disso é criando espaços sagrados.

Eu sempre disse que se não fosse parteira seria designer de interiores porque eu adoro criar espaços que sejam um ventre, onde tu entras no espaço e te sentes logo bem.
Dentro desse conceito, ter uma imagem que te inspira é sempre importante.

A maioria dos meus murais são focados nas mulheres, mulheres grávidas, mas não exclusivamente, também já fiz vários para salas de meditação.
Hoje em dia, principalmente eu faço arte para casas de parto, ou pessoas que trabalham com mulheres. Ou na parede ou numa tela.

Isso para mim é uma parte da minha essência. Eu não me sinto só parteira, sinto-me uma pessoa para quem um dos trabalhos importantes é ser parteira, mas se eu não pintar também não me sinto completa. Eu preciso de criar arte.

Também gosto de pintar pessoas!
Faço henna.
Faço pinturas sagradas no corpo. Ou, também na gravidez, faço pinturas na barriga para celebrar a gravidez, celebrar a mulher, celebrar o feminino.
Todas essas coisinhas fazem parte do meu trabalho, fazem parte de mim.

~ Eu vi que fazias uma coisa que me deixou curiosa… os belly chains.

~ As missangas do ventre. É bem ligado com o sagrado feminino!

Faço workshops onde cada mulher faz as suas missangas, e para mim é um momento para ensinar, empoderar, onde realmente ela faz um amuleto para si própria. É uma medicina dela para ela.
Também posso fazer por pedido, claro, eu conecto-me com as cores e os números sagrados que têm algo a ver com a pessoa, e crio uma missanga.

No fundo é um colar que cerca o ventre, e que ajuda a mulher a sentir-se ainda mais linda.
Ajuda a mulher a sentir-se mais empoderada.

A maioria das mulheres sofre com problemas de auto-estima.
Todas nós temos dias em que não nos sentimos lindas, e as missangas lembram, que, ainda que nua, sem maquilhagem, tu tens essa beleza em ti.
Até hoje não conheçi nenhuma mulher que não se sinta ainda mais linda com uma missanga do vente! O que ouço é: “Eu tiro a minha roupa e fico contente de me ver no espelho!”. É algo que traz uma valorização da beleza.

Também fazemos workshops com adolescentes, com meninas que estão a entrar na fase sexual da vida, que começam a sentir o seu poder como mulher, que estão a descobrir como lidar com atracção, e ajudamo-las a valorizarem-se. Aí as missangas fazem-nas sentir que só alguém que merece pode cruzar aquela linha, pode toca-la.

Ajuda (as missangas do ventre) a relembrar as mulheres que realmente o que temos dentro de nós, nos nossos lugares íntimos, no nosso ventre na nossa vagina, é o nosso território sagrado, e as pessoas que não merecem, que não nos valorizam, não deveriam nunca tocar.

~ Para terminar, podes-nos falar do teu projecto “Nascer no Mar”?

~ Esse projecto “Nascer no Mar“, que nasceu no Brasil, era para ter lugar na Bahia, só que acabou por não acontecer porque o sítio era muito isolado, então tentámos mudar a ideia para cá.
Quando mudámos para cá também não foi possível, uma vez que não conseguimos ainda encontrar o sítio certo – que será uma praia – que tenha privacidade, que seja um sítio onde seja possível as mulheres virem com as famílias e ficarem hospedadas…

(Escadas para uma sala de meditação, onde se pode ler “Love In Every Step”, Amor em cada passo.)

A ideia é um retiro de oito semanas, durante o verão. Aberto para várias famílias.
Durante essa altura fazemos o retiro – não só para grávidas, mas também para profissionais da área do parto – para aprenderem mais sobre parto na água.

Estamos a contemplar essa ideia para este ano, só que ainda não temos o sítio, mas este projecto e algo que é uma paixão minha e que quero muito poder realizar.
Eu continuo a procurar um lugar, com uma casa de apoio onde seja possível realizar aulas de dança para grávidas, aulas de yoga, aulas para as profissionais, e também para os partos que vão acontecer.
Como é uma coisa do Mar, temos que confiar no clima, na natureza, as coisas são planeadas para os partos acontecerem no mar, mas vai haver momentos em que na hora a mulher vai decidir que não quer dar à Luz no mar, nesse momento precisamos de uma casa de apoio para montar uma banheira para ela poder realizar o parto na água, e na mesma trazermos baldes de água salgada para encher a piscina.
Tem também que ter recursos práticos, como por exemplo ser a meia hora do hospital.

Enquanto este projecto não avança, estamos a começar outras coisas. Estamos a fazer aulas de dança, para fertilidade, gravidez e menopausa. São aulas de dança e movimento sagrado. E também aulas de dança para mães com bebés no sling.

Começará também a Iniciação/ Empoderamento das sacerdotisas modernas, e é um curso que é desenhado para empoderar mulheres conscientes, com todas as ferramentas e práticas que elas precisam, para tomarem controlo do próprio destino delas.

~ Estamos deliciadas, inspiradas, várias vezes de respiração suspensa durante esta entrevista, outras tantas comovidas!
Gratas a Olívia! Muita gratas! ~

Podes conhecer mais sobre o seu trabalho AQUI, AQUI e AQUI.


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.