Entrevista com Antonella Vignati Entrevista

~ A Antonella é Naturopata no Centro do Bebé, Educadora Perinatal e Conselheira de Aleitamento Materno. Foi mãe d’água e refere a maternidade como A Revolução da sua vida.
Acredita que cada mulher tem na sua mão o poder de salvar o Planeta!
Como? Lê connosco, e conhece mais sobre esta mulher/ mãe inspiradora! ~

~ Há uma frase muito bonita, da Violeta Parra, que diz “Que as flores do meu jardim sejam as minhas enfermeiras“. Quando é que te rendeste ao mundo das plantas, à Naturopatia?

~ Muito cedo, porque foi algo que herdei da minha mãe. Ela interessava-se muito pelo assunto, e tinha imensos livros de Fitoterapia em casa, de cariz bastante científico, não divulgativo. Além disso, eu nasci nos anos 70, e naquela altura em Roma, ainda havia boas ervanárias. Eram daquelas a antiga, com frascos e gavetas cheias de plantas secas, que se vendiam ao peso em saquinhos de papel. E com pessoas bem formadas e competentes a trabalhar lá dentro.
Era assim que a minha mãe nos curava. Tenho ainda em casa muitos destes livros, com as folhas já amarelas.
Mais tarde, na Universidade, o contacto com este mundo perdeu-se um pouco. Mas por volta dos 33, 34 anos percebi que o mundo das plantas podia ser uma profissão – porque até esse momento eu não tinha essa ideia, achava que fazia parte de mim, sim, mas eu tinha sido formatada para estudar letras – e mudei todo o meu percurso e a minha vida.

Até aí tinha sido tradutora e professora de italiano, tinha feito todo um percurso académico na área das Letras. Decidi começar desde o zero, e formei-me em Naturopatia.

~ Portugal, onde entra na teu percurso de vida?

~ Portugal foi uma casualidade. Aos 23 anos, quando estava na Faculdade, fiz um pedido de bolsa de estudo para o Brasil, mas por motivos burocráticos e protocolos terminei vindo a Lisboa com uma bolsa (na altura era a “Comett”, mais tarde foi chamada de “Leonardo”). Cheguei a Lisboa para ficar seis meses e foi claríssimo para mim que depois de terminado a bolsa quereria voltar. Então, fui a Itália apenas para discutir a tese de licenciatura, e voltei de novo, sem saber o que vinha fazer cá.
Desde então já passaram 22 anos!…

~ Quando sentiste que querias usar a Naturopatia na saúde feminina?

~ Foi na maternidade, que foi uma revolução enorme para mim!

A maternidade transformou-me completamente.
Foi uma coisa tão forte, tão forte que eu percebi que havia muito trabalho para fazer para acompanhar as mulheres, não só neste processo, mas em todos os outros também.

Na realidade a maioria de nós, mulheres, não chega lá com a estrutura e conexão emocional de que precisa. E isso está relacionado em como nos afastámos do conceito de “feminino”, no passado, e precisamos de uma nova reestruturação e revolução.

Foi na maternidade que comecei a colocar tudo em questão, ou seja, em como eu tinha chegado primeiro à gravidez e depois ao parto daquela forma.

Poucas coisas tinham sido tão claras e persistentes na minha vida como a convicção de não querer filhos. Sempre fui “alérgica” a crianças. No avião, na praia, nos cafés, na bicha para a caixa do supermercado, sempre que me calhasse alguma família por perto, fugia a sete pés, invocando Herodes.

Cresci com a frase da minha mãe nos ouvidos:
Não acabes como eu” – ou seja, sem independência económica, sem terminar os estudos, com duas filhas – uma das quais por acidente aos 21 anos – com um marido ausente.

Fui tão obediente que fiz tudo ao contrário da minha mãe: estudei, especializei-me, trabalhei, viajei, mudei de país, casei (tarde) com um homem muito atento e presente, e nunca tive uma gravidez indesejada.

Eu não andava – flutuava, a um metro do chão, aérea, despistada, álgida, quase imaterial, e sobretudo independente. Até que um dia comecei a sentir-me inquieta por reparar que a minha mobilidade era reduzida: só sabia viajar para fora e para cima de mim própria. Porque tinha pavor de ir para dentro e para baixo, para os poços escuros e obscuros do meu Ser mulher, fêmea, terrena.
Só aí, a ideia de poder um dia ser “madre”, de deixar crescer dentro de mim outro ser, e de ter que o expulsar pela vagina, deixava-me doente. Era repugnante, e eu tinha terror daquilo.
A natureza estava profundamente errada. A humanidade aguardava formas mais modernas, limpas e civilizadas de se reproduzir.
O problema é que nunca gostei de ter medo. Sempre que tenho muito medo de alguma coisa, atiro-me de cabeça para ela; é a minha principal forma de crescer. De alguma forma, durante todo um processo, longo e doloroso, cheguei um dia a intuir que no Ser Mãe havia muita coisa de que eu tinha medo, mas da qual precisava muito para crescer.
Ainda consegui viver a minha gravidez de forma limpa, asséptica e independente. Barriga pequena, nenhuma queixa, muito desporto, nenhuma preparação para o parto nem para a maternidade.

Mariquices”- pensava eu, a deusa, que era a primeira no mundo a ter um filho na barriga, e que tinha determinado que a sua vida não ia mudar de forma alguma, só por ter um filho!

Portanto, como o parto foi em altura de exames de avaliação contínua do segundo ano de Naturopatia, na mala que levei para o hospital tinha uma data de livros e apontamentos que eu achava que ia estudar entre uma contracção e outra (risos) ou depois do parto! Isto só para dar uma ideia de como eu cheguei lá! (risos).
Claro que quando o meu filho nasceu o choque foi terrível: diretamente proporcional ao grau de obtusidade emocional que me caracterizava.

O parto veio logo mudar a pessoa aérea, despistada, imaterial e independente que eu era. Nada de limpo, asséptico, civilizado. Perdi o controlo e transformei-me num animal. Animal fêmea, a gritar, a morder, a parir.
Cheia de medo, claro.
O pós-parto foi um inferno. Tive imensa resistência interior em perceber que o nascimento do meu filho me estava a mudar profundamente e para sempre.

Esta resistência gerou imenso sofrimento, mas também – espero – me ajudou a crescer.
Desde então o meu olhar sobre o feminino mudou radicalmente.

Antes, eu só sabia pensar com a cabeça, e achava que ser uma mulher realizada passava por anular ou negar os aspectos “sujos” e “incómodos” da feminilidade. O sangue, a terra, os ciclos, os úteros que geram e parem e perdem os filhos, a dor, o êxtase, tudo isto não passava de percalços num percurso linear de A para B.
Agora, costumo dizer que tudo o que eu sei nesta vida, devo-o a esses percalços.

~ Sentes que falta uma estrutura, ou até uma “educação feminina” hoje em dia nas mulheres?
Como nos afastámos tanto da nossa essência?

~ Parece-me que foi um caminho que toda a humanidade fez: afastar-se das raízes. E depois, muito desse afastamento começa na infância, onde é feita a construção da identidade feminina. Hoje, as meninas são bombardeadas por estereótipos de género muito fortes. A própria comunicação, por exemplo; os contos de fadas para meninos e os para meninas; os brinquedos… que são terríveis e altamente desempoderadores!

As meninas são aquelas que vão ao shopping, fazem compras e fazem as unhas, e os meninos inventam coisas e vivem aventuras.
Este tipo de mensagens está a chegar às crianças de uma forma muito forte e dura.

Depois vem a puberdade. Quando este processo se inicia, começa também uma fase de ajustamento da maturação do eixo hipotálamo – glândula pituitária – ovários. As raparigas podem demorar anos em começar a ter um padrão menstrual individual “normal”, regular, e sem grandes sintomas adversos associados (sangramentos abundantes, síndrome pré-menstrual, dores menstruais, acne, etc). Mas quem, hoje, deixa que este processo faça o seu curso? Basta olhar à nossa volta, quantas mulheres conhecem com o historial do problema menstrual X que fez com que a mãe a levasse ao ginecologista, o qual receitou Y (normalmente qualquer tipo de contracepção hormonal “muito ligeira”) que de facto ajudou imenso e que ainda toma desde há 10-15 anos?
O que é que a “solução Y muito ligeira” faz ao “problema X”? É simples: anula o ciclo menstrual! E isto é vendido como “regular os ciclos menstruais”.
A rapariga continua a ter sangramentos todos os meses (ou não, existe contracepção hormonal que elimina também este “incômodo”) que não são menstruações, mas simples sangramentos que acontecem na semana de interrupção da toma. Os sintomas que a incomodavam desaparecem, deixando porém absolutamente intacta a sua causa. E é incrível que, mesmo com toda a “parafernália” que há na Internet, ainda exista tanta desinformação sobre este tema. Quase nenhuma mulher sabe o que a pílula faz no seu corpo, ninguém coloca isso em discussão. E creio ser este o primeiro passo para a desconexão profunda: a pílula. Anulando o ciclo menstrual, anula também o ciclo psicológico e a fisiologia feminina é completamente “achatada”. Portanto, a partir do momento em que estamos com um corpo completamente guiado por mecanismos externos, é muito fácil perdermos a conexão mente – corpo.

Assim entramos na puberdade e seguimos pela vida adulta: sem vestígio dos nossos normais mecanismos biológicos. E totalmente desconexas da nossa ciclicidade, e de alguma forma, de nós próprias.
Com isto, não estou a sugerir que as meninas (e mulheres) que sofrem de transtornos menstruais que lhes trazem grandes incómodos, deviam simplesmente aguenta-los sem nada fazer. Mas existem abordagens diferentes que podem ajudar a ultrapassar essas questões, em pleno respeito pela fisiologia feminina e ajudando a promover saúde a todos os níveis.

~ E quando explicas tudo isso às mulheres, qual é a reacção normal?

~ Quando, por exemplo, vejo uma mulher por volta dos 35 anos que já está a tentar engravidar há anos, sem sucesso, e embora sem causa médica aparente, a primeira pergunta que eu faço, porque a assumo logo é “Durante quantos anos tomou a pílula?“ E, normalmente, a resposta, é 10, 15 anos, 17 anos. Não se pode “bater no ceguinho”, porque o que está feito, está feito – eu provavelmente no lugar dela tinha feito a mesma coisa – mas a maioria das mulheres que já pensou no assunto assume que é um processo que precisa de ser mudado.
Mas muitas mulheres vêm-se num beco sem saída, porque precisam de um método de contracepção e não vêm outras alternativas além da pílula (ou do DIU, ou do anel). Ninguém gosta do preservativo, sobretudo o homem, o que já diz muito sobre o estado da nossa emancipação. E ainda é muito divulgada a ideia de que os outros métodos alternativos são muito inseguros e têm uma margem de erro enorme. Então continua-se a pensar que a pílula é um “mal menor”.

~ Era aí mesmo que queria chegar… fala-me do Método de Fertilidade Consciente, que além de ser uma excelente ferramenta para sermos conhecedoras do nosso corpo, é ainda um método contraceptivo…

~ Pois! A base científica deste método é que devia ser ensinada às crianças na puberdade, ou seja, fazê-las compreender o ciclo menstrual desde perto. Não é só aquela aula teórica sobre as hormonas, mas sim que cada mulher pudesse fazer um “mapping” concreto do seu próprio ciclo. A fertilidade consciente é um método que se baseia na observação de três sinais de fertilidade, que são as temperaturas, muco cervical e a posição do colo do útero.
Só as temperaturas, por elas próprias, só nos avisam que já ovulámos e que já é tarde demais! (risos), por isso não funciona usarmos apenas isso.
Mas as temperaturas devem ser acompanhadas pela observação do muco cervical, e pela auto-palpação da textura e da posição do colo do útero. E são estes três sinais juntos que nos conseguem dizer se já ovulámos, se ainda não ovulámos, ou se não ovulámos.
Assim, ajuda-nos em ambas as direcções: se quisermos ter filhos, damos mais atenção aos dias mais férteis; se não quisermos filhos, adoptamos uma janela de segurança à volta desse período mais fértil. Nesse período “mais crítico” ou usamos métodos contraceptivos, tipo barreira, ou adoptamos outras estratégias, e assim ficamos seguras de que não engravidamos. Há muitos mitos sobre o método de fertilidade consciente porque é confundido com o método do “ritmo”, assente apenas no cálculo das datas – por sua vez com base na ideia de que a ovulação acontece sempre no dia 14, o que é altamente falível. Ainda, muitas mulheres acreditam na possibilidade de uma segunda ovulação. Esta é um mito, não existe, graças a deus, só ovulamos uma vez por ciclo! (risos) O que acontece é que se aplicarmos este método sabemos que às vezes a nossa ovulação se atrasa. Se nesse mês tivemos mais stress, que pode ser um stress pontual – como uma mudança de casa, ou de trabalho, qualquer coisa – isso pode atrasar a ovulação, ocorrendo essa num dia que não era suposto. E é assim que nascem os mitos que nos fazem duvidar destes métodos contraceptivos naturais.

Mas na verdade, o FAM (Fertility Awareness Method), se usado correctamente, tem a mesma eficácia que a pílula. Claramente o uso correcto é o pressuposto fundamental da eficácia de qualquer método. Se uso mal o preservativo, ou se guardo a caixa no carro estacionado em pleno sol em Agosto, talvez esse método acabe por ser inseguro. Se um dia me esqueço de tomar a pílula ou vomito depois de a tomar, também não vou estar protegida. O FAM precisa de um pouco mais de empenho para conseguir ter um uso correcto, mas também não é nada do outro mundo.
De qualquer forma, independentemente da necessidade de usar contracepção ou não, os profissionais de saúde deviam ter a obrigação de promover a educação menstrual veiculada pelo FAM. Deviam transmitir as bases da fisiologia feminina às suas pacientes, e apresentar uma atitude positiva em relação às funções sexuais e reprodutivas.
A fisiologia do ciclo menstrual devia ser realmente ensinada a todas as meninas (e meninos, claro), para que elas pudessem compreender o que está a acontecer nos seus corpos, e como cuidar de si próprias, para evitar queixas menstruais que são frequentemente evitáveis. E abraçar este aspecto da suas experiências femininas, em vez de sofrê-lo como uma espécie de “maldição”.

A menstruação, na ausência de uma patologia subjacente, não precisa de ser um evento cheio de desconforto, como parecem indicar todas as piadas e “memes” que circulam sobre o assunto. Embora alguns problemas menstruais tenham causas complexas que não respondem a simples alterações dos hábitos e do estilo de vida, os profissionais que tratam mulheres com queixas menstruais comuns deviam sempre ter uma abordagem multifatorial, que incluísse a educação sobre possíveis melhoras a partir do estilo de vida.

Porque numerosos fatores influenciam o ciclo menstrual, incluindo o estado nutricional, o peso corporal, o exercício físico, os níveis de stress, as atitudes e crenças sobre a menstruação, e a exposição a fatores ambientais.
Otimizar estes aspectos pode muitas vezes restaurar o equilíbrio fisiológico e emocional.

~ Que te diz a tua experiência e estudos em Nutrição e Dietética Humana e Macrobiótica, sobre a relação da alimentação com a fertilidade/ infertilidade?

~ A alimentação é um aspeto fundamental do estilo de vida e pode ter uma influência direta ou indireta na fertilidade, considerado que:
– A exposição ambiental a toxinas de vária natureza (metais pesados, xenoestrogénios, e outros disruptores hormonais) é frequentemente ligada à dieta;
– Deficiências nutricionais específicas podem afetar a qualidade espermática e o ciclo menstrual;
– A sobrecarga constante dos órgãos digestivos e excretores tem uma série de consequências nefastas sobre qualquer aspeto da saúde, incluída a saúde do aparelho reprodutor e do sistema endócrino.

O maior estudo sobre a relação entre fertilidade e alimentação (o Harvard Nurses’ Health Study) tem de facto comprovado que existem seis vezes mais probabilidades em conceber nos casais que seguem uma determinada dieta.
Especificamente, as mulheres que têm os menores problemas a nível de ovulação, são as que seguem uma dieta com baixo índice glicémico, pobre em proteínas animais e rica em proteínas vegetais, gorduras monoinsaturadas e hidratos de carbono complexos.

~ Quais são as patologias mais comuns que tratas em Naturopatia? E quais são aquelas em que aplicas outras áreas que dominas (como a Moxibustão Japonesa, a Acunpunctura e a Fitoterapia)?

~ Os casos mais comuns que tenho são a disfunção menstrual, que se pode manifestar em ovários poliquísticos, amenorreia, dismenorreia, síndrome pré menstrual e claro, infertilidade. Esse é o grande eixo central quando se tratam mulheres.
A base com que trabalho e aqui, no Centro do Bebé, é o aconselhamento nutricional e a naturopatia, sobretudo a nível de fitoterapia, e vou acompanhando a evolução de cada caso, às vezes com Acupuntura e Moxa japonesa, se houver possibilidade de uma certa frequência de encontros.

~ Qual é a diferença entre Naturopatia e Fitoterapia?

~ A Naturopatia é um conceito vago que pode englobar muitas técnicas, como a Fitoterapia, a Massagem, Técnicas de Depuração, Homeopatia.
Onde eu estudei, para além das bases biomédicas – como anatomia, fisiologia, química, etc – existiam quatro pilares de base: Medicina Tradicional Chinesa, Osteopatia, Homeopatia e Fitoterapia.

Cada um se especializando nas áreas com que mais se identifica.
Para mim é a Fitoterapia ocidental (e não chinesa), a Acupunctura e a Moxibustão japonesa (que tem um efeito diferente da chinesa), e depois claro, o aspecto nutricional, que estou a levar para a frente a nível universitário porque o considero absolutamente fundamental.

~ Já que falas em Fitoterapia Ocidental, sentes que na nossa cultura portuguesa existe pouco conhecimento e manuseio das nossas plantas autóctones neste sentido?

~ Eu diria que já não existe.

Com o afastamento do campo, a sabedoria tradicional perdeu-se, e claramente foi assim por toda a Europa. Para mim faz sentido que as plantas e os recursos naturais que usemos sejam os mais próximos, dentro do possível.

Existem plantas na tradição da Medicina Ayurvédica, ou originárias da Asia, que são tão eficazes que vale a pena introduzir aqui – no caso da Fitoterapia Chinesa, ela é muito eficaz, mas quando um produto vem da China é difícil ter a certeza se passou em todos os testes e parâmetros de qualidade, por isso, colocando na balança e considerando que existem plantas ocidentais tão eficazes, tão menos caras e mais próximas de nós, faz sentido que usemos as ocidentais.
A Medicina Chinesa no Ocidente funciona com “fórmulas”, ou seja combinações magistrais de plantas, que são quase sempre em forma de comprimidos – porque ninguém aqui faria como os chineses, que fazem as suas decocções ou chás complicadíssimos com sabores horrendos, para tomar três ou quatro vezes por dia – e isto é cómodo para o terapeuta, porque a fórmula já está feita e com certeza que é uma combinação ideal de plantas, porque nisto a medicina chinesa tem uma enorme tradição. Ora, a forma como se estuda fitoterapia chinesa é idêntica à forma como se faz o diagnóstico, no sentido que as ações terapêuticas das plantas são analisadas à luz de conceitos como Yin, Yang, Qi, etc. Portanto, se vamos consultar a Matéria Médica Chinesa para saber mais da planta X ou Y, aprendemos que elas “nutrem o Yin” ou “movem o Qi”. Isto não me ajuda muito se eu quero saber se por exemplo esta planta é compatível com a medicação convencional que uma pessoa toma.
Já a Fitoterapia ocidental é a mãe da Farmacologia moderna, e é estudada em termos de ações terapêuticas à luz da fisiopatologia, da bioquímica, da farmacognosia.
A Fitoterapia Ocidental por outro lado tem também uma grande tradição empírica e popular, e é por isso que ainda é muito associada a mezinhas ou cházinhos ineficazes.

~ Ora, também tu és uma Mãe de Água (tiveste um parto na água)! Porquê o parto na água?

~ Pouco depois do nascimento do meu primeiro filho, escrevi um relato de parto que terminava assim:

“Por razões ainda desconhecidas, há alguns milhões de anos, algumas criaturas marinhas abandonaram a água, fixaram-se na terra e desenvolveram patas e caudas em lugar das barbatanas.
Nós descendemos delas.
As que ficaram na água continuam desde então a chamar por nós – é por isto que Ulisses teve que pedir para ser atado ao mastro do navio.
Eu quando estou cansada ou triste, procuro o conforto atávico da água, onde tudo volta ao seu estado ancestral, porque as nossas células nunca esqueceram de onde vieram.
Da próxima vez que der à luz (ou nascer) quero que seja lá, quero voltar a casa”.

E assim foi, com o meu segundo filho.

Para mim a água tem um significado muito pessoal. Eu criei-me na água, porque sou de uma zona de Itália perto do mar e na minha infância passava entre três a quatro meses na água!
O Mar Mediterrâneo é mais quente, tranquilo, e com uma energia muito feminina – ao contrário do Oceano Atlântico que me parece frio e ameaçador. Nunca me acostumei a ele, apesar de adorar as praias portuguesas – o mar, em Itália, tem outro tipo de aconchego.
Essa relação com a água para mim é mesmo visceral.

Quando comecei a debruçar-me sobre a fisiologia do parto, e o efeito que a água podia implicar no trabalho de parto, fiquei fascinada. Mesmo no primeiro parto, que não foi na água, a dado momento fui para o chuveiro para receber água morna nas costas e aliviou-me tanto, que percebi que se houvesse um próximo teria de ser na água. O mais importante para mim não era que ele nascesse na água, mas sim que eu pudesse gerir a dor e estar em contacto com o meu meio, ou seja, a minha “casa”.

Queria liberdade e queria sentir-me totalmente segura dentro de um aconchego familiar que eu precisava, tanto que coloquei sal marinho na água. O bebé terminou nascendo na água, porque era assim que tinha de ser.

~ De que forma achas ser importante a humanização do parto?

~ A forma como nascemos é muito importante na nossa saúde futura, a curto e a longo prazo. É o que a ciência nos diz hoje, graças aos estudos sobre saúde primal – que estuda a influência na saúde, de tudo o que acontece, desde a concepção até ao fim do primeiro ano de vida – sabemos que o parto é talvez a etapa mais importante deste processo.

Por outro lado, a saúde psicológica também começa aqui.
Desumanizar o parto equivale a mais trauma, mais alienação, e mais desconexão para toda a sociedade.

~ Fizeste a formação de doula com o Michel Odent.
Qual foi a mensagem mais relevante que retiraste da oportunidade de estar com uma pessoa que teve, e tem, tanto peso na humanização do parto?

~ Da parte dele senti uma grande confiança na fisiologia do processo.
Claro que as complicações e contra indicações existem, e ele tem a grande vantagem de ser obstetra e de perceber à primeira vista quando há alguma complicação que precisa de uma intervenção (e esse olho clínico não são todos os obstetras ou parteiras que o têm como ele).
Outra grande mensagem que ele transmite com eficácia, é a importância da humanização, aliás, como ele diz, “mamiferização” do parto!
Realmente, ele é um orador tão bom e os conteúdos são tão fascinantes que uma pessoa não se cansa de o ouvir!

~ Porque decidiste formar-te como CAM (conselheira de aleitamento materno) e educadora perinatal?

~ O que eu sinto em Portugal é que existe um tipo de “gap” entre o mundo das medicinas alternativas e o mundo da maternidade.
Porque não estão mais em comunicação?

Muitas mulheres começam a interessar-se pelo mundo das terapias naturais precisamente na gravidez ou no pós-parto. Começam a ter vontade de se medicar menos, de comer produtos biológicos, de ter um estilo de vida mais saudável. A amamentação é a base futura de uma boa saúde do bébé, é a nossa primeira alimentação.

Como já expliquei, o meu primeiro pós-parto não foi fácil, por várias razões, entre as quais constava o peso de não ter com quem partilhar certas angústias – ou os princípios que inspiraram certas decisões. Cheguei a ouvir de uma amiga (médica), a “pérola de sabedoria” de que o meu bebé de três meses “mamava demasiado”, porque tinha sempre fome, e isso se devia ao facto de eu ser vegetariana e o meu leite não ter proteínas suficientes!! Ao contrário, foi um alívio tão grande falar por telefone com Conselheiras de Aleitamento Materno que me deram imensa confiança, alívio, e sugestões sensatas…
É fundamental existir acompanhamento no pós parto, porque o isolamento é notável nesta fase. Quando me ofereceram o primeiro livro da Laura Gutman, foi como uma revelação para mim. Alguém finalmente punha palavras a tudo aquilo que eu estava a sentir. E aí percebi que a maternidade é um universo, e senti uma grande necessidade de criar pontes.

~ E a presença do pai?

~ No meu caso foi importante falar e partilhar não só experiências, mas também muitas leituras, com ele.
Para ele, também, a paternidade representou um enorme percurso de mudança e de crescimento pessoal.
Eu tenho sorte…

Acho que depende muito do homem que escolhemos ter ao nosso lado, mas de forma geral sinto ainda que os homens estão muito formatados e resistentes a mudanças de paradigma em relação ao processo de gravidez, ao parto… É muito típico ver mulheres a quererem tomar determinadas opções, e não as levarem avante “porque ele não quis”.

~ Para terminar gostava muito que comentasses esta frase que está no teu site “Acredito que se a mulher conseguir viver os seus ciclos vitais de acordo com a sua natureza e assumir um papel na sua própria saúde, ela é capaz de salvar o planeta”.

~ Porque uma mulher conectada a si própria e à sua natureza é uma mulher poderosa.

Quando a mulher está empoderada e consegue viver a vida de uma forma consciente, arrastar os outros e mudar o entorno à sua volta – e não vice versa – ela é capaz de mudar o mundo.

Não é preciso ser mãe para tudo isso, é simplesmente existir de uma forma orgânica.
Essa sabedoria só existe quando conseguimos olhar para dentro, e temos de querer ter este acesso.
É a mulher fazer uma revolução dentro de si, e a partir daí tudo começa a acontecer.

~ Gratas pela entrevista inspiradora, pela partilha de sabedoria e história de vida!
Se quiseres conhecer melhor o trabalho da Antonella podes ver aqui: Centro do Bebé ~


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.