Entrevista com Patrícia Lemos Entrevista

Sabes o que é a educação menstrual? Já ouviste falar de fertilidade consciente?
Esta semana vamos conhecer uma mulher que desenvolve um trabalho inspirador nestas áreas!

A Patrícia Lemos é Educadora para a Saúde Menstrual e para a Fertilidade, Terapeuta Certificada em Fertile Body Method®, Fundadora do Círculo Perfeito® e Membro da Society for Menstrual Cycle Research – U.S.A.

~ Fala-nos um pouco de ti. 

Não tenho muito para dizer sobre mim, na verdade… Sou uma mulher comum. Tenho uma filha pré-adolescente, sou casada, tenho um trabalho que adoro, uma vida simples e tento manter o sentido de humor.

~ O que te motiva? 

A educação, porque é através dela que mudamos o mundo, e a constante mutabilidade e evolução das coisas.

~ O que fazes profissionalmente?  

O meu trabalho tem duas vertentes que se tocam: sou hipnoterapeuta e educadora menstrual e para a fertilidade. Os pontos comuns nestas duas vertentes do meu trabalho são em termos do acompanhamento de gravidezes (para gestão de ansiedade, fobias de parto, agulhas e outras, controlo alimentar, etc.), na preparação para o parto (e cesariana) com hipnose e no acompanhamento de casos de Procriação Medicamente Assistida (neste momento, em semi-stand by há cerca de um ano e meio).

 

~ O que faz uma educadora menstrual? 

Uma educadora menstrual providencia informação sobre o ciclo menstrual, educa para a saúde reprodutiva do ponto de vista hormonal e para a manutenção e gestão da fertilidade. Em breve, o Círculo Perfeito chegará também a meninas, em formato workshop, e a mulheres em peri e pré-menopausa.

~ Que tipo de pessoas te procuram? Com que objectivos? 

São essencialmente mulheres em idade fértil mas com perfis muito distintos. As que querem deixar a contraceção hormonal, as que querem melhorar a saúde menstrual e reprodutiva, as que querem engravidar, as que estão a ser seguidas por infertilidade. Porém, 2016 foi um ano surpreendente: a maioria das mulheres que me chegaram eram muito mais novas (abaixo dos 28anos) do que o habitual até então. Quero acreditar que são sinais de mudança 🙂 Também recebo meninas (trazidas por mães) e em breve haverá workshops destinados a estas faixas etárias mais jovens, no seguimento do lançamento do meu livro “The Goddess in You” (Abril 2017).

~ A “fertilidade consciente” é um método contraceptivo? 

A fertilidade consciente, ou o método natural de fertilidade (MNF) como prefiro chamar-lhe, é um método contracetivo, não hormonal, que decorre do cruzamento e interpretação das fases do ciclo através de vários indicadores de fertilidade.

Algo que devia ser ensinado às meninas desde a sua primeira menstruação para poderem tomar decisões conscientes relativamente à sua saúde sexual e reprodutiva. Parece difícil, e “pouco seguro”, só porque está na ponta diametralmente oposta àquilo que aprendemos e ouvimos durante a vida inteira, mas é preciso desmistificar o método, para que não seja visto como algo que exige um esforço extraordinário e que precisas ser muito letrada para o pôr em prática. Vejo muita gente a complicar e isso afasta a possibilidade de se democratizar uma ferramenta tão útil e pedagógica. Qualquer mulher, com uma vagina, útero e ovários, pode aprender o método. Isto não é rocket science (risos). Tem regras, porém, como tudo.

O método tem a vantagem de poder ser utilizado para dois objetivos distintos: para não engravidar (contracetivo) e para engravidar. É ainda uma forma de auto-diagnóstico, no sentido da saúde, uma vez que possibilita uma visão abrangente dos ciclos menstruais – quando aprendemos a ler os gráficos, conseguimos entender o que se passa connosco, o que possibilita uma ação dirigida à origem do problema no sentido de restabelecer o equilíbrio da nossa saúde reprodutiva.

~ Qual a maior diferença entre esse método e os “mais conhecidos”?

A maior diferença é o facto de não recorrer ao uso de hormonas artificiais e de “trabalharmos” com a informação e feedback que o corpo nos dá.

É uma mudança grande de paradigma, porque em geral somos ensinadas a silenciar o corpo, e o segredo do método (MNF) passa por o Escutar. Para isso temos de aprender a sentir e a observar.

O sentimento de “urgência” de muitas mulheres quando começam o método é prova do quão difícil é mudar o chip: “Então e agora? E o que é que acontece? Já não devia ter acontecido isto ou aquilo?

Estamos cheias de pressa, e o corpo da Mulher tem um Tempo…

~ De que forma respeita a mulher? 

Esta é uma “tricky question” porque, antes de mais, precisamos perguntar-nos o que é isso de “respeitar a mulher”.

Se acreditarmos que esse respeito decorre da não interferência externa e farmacológica no organismo, sim, respeita-a porque não interfere, não altera nem silencia o funcionamento do corpo.

Por outro lado, se “respeitar a mulher” passar por aceitarmos o que cada uma escolhe para si, porque o que considera útil e adequado em determinado momento da sua vida fértil, entramos noutros caminhos… É como o parto. Sabemos que as vantagens de um parto natural, por via baixa, respeitado, ultrapassam em muito as de uma cesariana, porém, é preciso que a mulher esteja pronta (i.e. educada) no sentido de reconhecer essas vantagens, caso contrário, “forçá-la” a um parto vaginal pode ser uma violência.

As mulheres deixaram de ouvir o seu corpo. Temos mais informação, mas esta nem sempre é a melhor informação. Temos mais opções, mas estas nem sempre são as mais respeitadoras do funcionamento do corpo. Porém, a noção de corpo também tem de ser entendida como um todo: um misto de corpo físico e emocional – e é esse conjunto que precisa ser respeitado.

Costumo dizer “cada uma no seu tempo e no seu caminho“.

Os contracetivos hormonais continuam a ser (e devem continuar a ser) uma opção disponível para mulheres que ainda não se questionaram se haverá outra forma de gerir a sua fertilidade.

Para além disso, convém lembrar que o método natural de fertilidade NÃO oferece proteção para IST’s pelo que a não existência de parceiro fixo exigirá sempre a utilização de um método extra de proteção, como o preservativo (masculino ou feminino).

Portanto, lato sensu, qualquer método que seja escolhido em consciência, com plena informação dos seus colaterais, de forma adequada às necessidades específicas e histórico pessoal e clínico, respeita a mulher que o toma por decisão própria.

~ Este método é para o homem? Achas importante a participação/ conhecimento do homem neste método? Porquê? 

A grande vantagem de se optar pelo método natural de fertilidade é a via de comunicação que se abre ao casal, no sentido da intimidade, de redescobrir a sua sexualidade, de se reinventar. Estamos focados na penetração e a sexualidade não é (só) isso. É quase como se tivessemos abandonado o erotismo nos relacionamentos em troca de um “porn mecânico”.

Este método ajuda-nos a redescobrir o erótico na relação, o que é fantástico, tendo em conta que muitas mulheres referem baixa líbido (principalmente durante a toma dos contracetivos hormonais) e Portugal tem uma taxa de disfunção sexual feminina a rondar os 70%!

Um homem que conhece os ciclos da sua parceira pode ainda cooperar nas alturas em que ela não consegue cooperar consigo própria. Mulheres com TPM forte, por exemplo, podem ganhar muito em incluir o seu companheiro nestes processos de auto-descoberta para que não se sintam isoladas ou um alien no pré-menstrual dentro da própria relação…

~ Como podemos fazer um mapa de ovulação? 

Através do cruzamento dos indicadores de fertilidade, que são sinais que o corpo nos dá, em como está disponível e recetivo.

Durante a maior parte do tempo o nosso corpo tem interesse zero em receber organismos estranhos – aliás, quando se abrem essas brechas, quando contraímos agentes patogénicos, vírus ou bactérias, ficamos doentes – mas quando estamos prestes a ovular, o nosso muco altera-se, no sentido de dar espaço à entrada de “terceiros”, para que possamos ser fecundadas. O colo do útero também se abre. Dominar estes dois indicadores é essencial para detectarmos a nossa fase fértil e de ovulação.

Digo também muitas (muitas!) vezes que “o nosso corpo é uma máquina extraordinária de eficiência“. Têm-nos sido vendido o contrário, infelizmente…

~ O nosso período ovulatório, que nos pode dizer enquanto mulheres? 

Estamos férteis seis dias por ciclo. SEIS! O óvulo depois de libertado tem uma viabilidade de 12 a 24horas. Os outros cinco dias, desses seis, são os que antecedem a ovulação, uma vez que, em condições ideais, o esperma consegue sobreviver em ambiente uterino até cinco dias – o que significa que se tiver relações sexuais desprotegidas numa 2ªf e ovular numa 5ªf por exemplo, posso perfeitamente engravidar. Importa por isso saber reconhecer esta fase do ciclo para não perpetuarmos a ideia de que é possível engravidar fora da janela fértil (o que em si é um contra-senso: se não estamos férteis não podemos engravidar) ou “por acidente”.

Para além disso, a ovulação é essencial à produção de progesterona ovárica. E a progesterona tem um papel crucial para a manutenção de uma boa saúde cardio-vascular, óssea, mamária, tem um efeito tranquilizante, anti-inflamatório, etc. Não precisamos dela só quando queremos engravidar.

Para lá do físico, temos as dinâmicas psico-emocionais do ciclo. A ovulação, e o período que imediatamente a precede, é uma fase de abertura ao mundo, de conversas, de vontade de ver e ser vista, de estar com amigos. Quando percebemos o impacto das diferentes assinaturas hormonais das fases do ciclo, e que se polarizam, a vida fica mais fácil, aprendemos a dizer “não” e a conhecer e respeitar o nosso Tempo interior.

~ Qual a percentagem de sucesso deste método comparativamente aos “mais usados”?

O método natural de fertilidade oferece, com uso perfeito, taxas de eficácia próximas da pílula, mas implica um compromisso da mulher de aprendizagem e utilização de métodos barreira, ou formas alternativas de se relacionar sexualmente, na janela fértil. Digamos que o mais complicado aqui é, como sempre, a falha humana – daí o método não ser ideal para mulheres/ casais que não estejam devidamente comprometidos com ele.

~ Achas que as mulheres conhecem os seus ciclos? 

Começo a sentir que há um esforço nesse sentido mas, na maioria dos casos, a resposta é um “não”, muito redondinho.  Há mulheres que acham que se não tiverem ciclos sempre com o mesmo número de dias, são irregulares, e não é bem assim.

Não somos relógios suíços, nem o ciclo menstrual é uma coisa que nos acontece por acaso. O ciclo é biofeedback direto e puro: se estás stressada, comes mal, não dormes, mudaste de fuso horário, perdeste ou ganhaste muito peso, estás de luto, estás doente ou medicada, etc. o teu ciclo “regista” isso e depois conta-te essa estória, “em suaves prestações diárias de fluxo menstrual” ou “indo de férias” para voltar só quando estiveres de volta ao equilíbrio 🙂

~ De uma forma muito sucinta explica-nos como conhecer o ciclo? 

Antes de mais, compreender que o ciclo menstrual se compõe, ele próprio, de dois ciclos: o ovárico e o uterino. O primeiro dia de menstruação é também o primeiro dia de ciclo – Tudo começa quando acaba, como todas as coisas na vida – não é lindo, isto? (risos)

Há uma primeira fase, até à ovulação – onde intervêem hormonas como a folículo-estimulina, a hormona luteinizante e o estrogénio (para o amadurecimento de folículos nos ovários e libertação do óvulo maturado nesse ciclo); depois da ovulação, o resto do ciclo é dominado pela progesterona. Em simultâneo, o útero vai respondendo a estas alterações hormonais, fazendo crescer o endométrio (revestimento uterino) que, se não houver fecundação, é expulso, dando origem aos nossos dias menstruais.

Quando tomamos contraceção hormonal, o ciclo ovárico fica interrompido – e tendo em conta que o revestimento uterino serve para receber um óvulo fecundado, se não há libertação de óvulo, esse revestimento também vai ser desnecessário (e daí a história dos fluxos menos abundantes e menos dores durante a contraceção hormonal).

Tenho no meu site um ebook de download gratuito, sobre indicadores de fertilidade – é uma introdução à literacia corporal e um bom princípio para quem quer seguir este caminho, sem complicar!

~ Qual a importância, para a mulher, de saber e conhecer o seu corpo? 

Estamos longe do tempo em que os médicos de família acompanhavam várias gerações numa mesma família e sabiam tudo sobre nós, as nossas mães, as nossas tias… Os nossos médicos, hoje, estão cheios de trabalho e com pouco tempo. A maioria quando nos vê, mal se lembra de quem somos sem ajuda da ficha e invariavelmente a pílula surge como panaceia para todos os males de que se sofre (acne, dores menstruais, ausência de menstruação, períodos irregulares, quistos nos ovários…).

Conhecer o nosso corpo é uma ferramenta de auto-gestão da saúde, crucial quando somos mulheres.
O Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia emitiu um comunicado em 2015 sensibilizando mulheres, técnicos de saúde, médicos e a população em geral, para um novo entendimento: olhar o ciclo menstrual como o 5º sinal vital.

Através do nosso ciclo, conseguimos perceber qual o nosso estado geral de saúde. Podemos assim solicitar mais e melhores respostas aos nossos médicos. Acredito que só assim poderemos esperar gerações vindouras com uma melhor saúde reprodutiva do que as atuais.

Para além disso, uma mulher que se conhece tem o mundo em Si. Instaura políticas de auto-cuidado, gere a vida com gentileza, expressa a sua sexualidade, e não há como não ser feliz assim, o que, faz-nos a todas, que convivemos com ela de perto, mais felizes também e, se atentas, igualmente mais cuidadosas connosco.

~ O que é ser Deusa?

Nos últimos anos, democratizou-se esta coisa das deusas. De repente, somos todas deusas – o que é ótimo – mas acho que precisamos esclarecer o que cada uma de nós resgata para si deste epíteto…

Para mim, ser deusa é ser autoridade em causa própria.

O que quer isto dizer? Que há um trabalho interno que me leva a conhecer-me, às minhas capacidades e limitações, às minhas qualidades e ao meu lado sombra, e que aceito isso como o todo que Sou, avaliando a possibilidade de evoluir e melhorar com esse ponto de partida.

Quando consigo “ver-me inteira”, aceito também que decido por mim e conduzo a minha vida de acordo com as minhas escolhas e o que faz sentido para mim. Responsabilizo-me por mim.
Como consequência, não me ofendo nem amofino com as escolhas, opiniões ou atitudes das outras, pois sou também capaz de reconhecer a deusa delas/ nelas, e que não tem por que ser igual à minha. Porque isto de sermos todas irmãs entre mulheres que pensam, fazem e escolhem igual é muito fácil, mas uma tremenda falácia que não nos leva mais longe, e acabamos onde começámos, em “quintinhas”. Um desperdício de deusas (risos).

O livro que escrevi para meninas – em colaboração com a Ana Afonso que o ilustrou maravilhosamente – intitula-se “The Goddess in You“.

À primeira vista é um livro sobre saúde menstrual e ciclos, mas a utilização de 13 deusas gregas nas mandalas – com as suas características e frases em discurso direto – tem por objetivo ajudar as meninas a entender que não somos melhores que as outras, muito menos por sermos sempre “bem comportadas”, certinhas, com vidas lineares. A vida não é uma feed de instagram, cheia de momentos felizes e filtros de cor. A vida, nós, e tudo no mundo, está em constante mutação. O ciclo menstrual é isso que nos ensina. Então, as deusas surgem no livro como forma de sensibilizar estas futuras mulheres para a importância do auto-conhecimento e da auto-aceitação, da mutabilidade de Si própria, e, depois, da aceitação e respeito pela Outra.

Uma deusa é isso. Uma mulher que se conhece, que se aceita e que reconhece na Outra aquilo que noutras circunstâncias ela também poderia ter sido: não há receita melhor para a tolerância, para a gentileza, para o humor (esquecido por tantas!) e para acabar com as más-línguas 😉 (risos)

 ~ Qual a importância da menstruação? 

A menstruação é um bom indicador a ser utilizado para cruzar com os restantes em termos de saúde menstrual: a cor, o fluxo, o número de dias, a consistência… Tudo conta. Do ponto de vista emocional, o período menstrual é um fim e um princípio. É uma oportunidade de nos ligarmos à terra/ Terra. De abrandar. De baralhar e dar outra vez.

~ A lua influencia os ciclos femininos? 

Há muitas mulheres que me chegam com um conhecimento pormenorizadíssimo das suas menstruações, e fases da lua, mas ainda assim desconectadas do corpo. Outras que acham que têm de ovular na lua cheia e menstruar na nova. Às tantas, abandonamos a prisão dos 28 dias e das lamelas de pílula, para nos agarrarmos a outras coisas… A mente humana é assim: precisa de referências e de estórias para se sentir segura.

A lua é um tema que trato apenas no nível três do Círculo Perfeito, porque tenho aprendido, nestes anos de trabalho com mulheres, que temos de começar pelo princípio. Para muitas, que não eu neste momento, o princípio é a lua, que influencia o campo-magnético da Terra, as marés, as colheitas, logo, os corpos das mulheres e as suas menstruações. Para outras, é o ponto de chegada. Para outras ainda, não será nunca uma variável na equação (e ela não deixará de ser uma “deusa” por isso 😉 ).

Em termos concretos, e porque nunca dissocio a terapeuta da mulher no que faço, o meu trabalho começa e acaba no corpo (físico e emocional) e a lua só importa na medida em que a mulher a reconhece como referência (exatamente como acontece  com Deus, por exemplo).

(Fotos gentilmente cedidas por Patrícia Lemos, podes conhecer mais sobre o seu trabalho AQUI).

 


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.