Expectativas e realidades Grito na Lua Negra

Querida filha, tens agora 24 meses, dois anos…

Aos 24 meses eu pensava que já teria algum tempo para mim, tranquila. Tempo para dormitar nas tuas sestas, para ler ou cozinhar. Serias mais independente, ficarias a brincar sozinha mais tempo, mesmo sem recurso a tv (algo que evito). Julgava que já terias um ritmo de sono bem definido, que serias mais fácil de adormecer… Que continuaria a ser difícil deixar-te para ir trabalhar, por ficares a chorar, mas que seria mais fácil colocar-te na cadeira para viajar de carro, por exemplo.

Antes de ser mãe pensamos que sabemos tudo, cada vez sinto mais isso, meu anjo.

Eu sempre quis amamentar mas acreditava que havia “leite fraco” e “leite bom”! – É incrível como é mais fácil acreditar no que a sociedade nos diz do que seguir a sábia natureza…

Que mãe não é capaz de amamentar o seu filho? Não é lógico isso acontecer!

Não é fácil, não!!! É das coisas mais difíceis. E não é só difícil enquanto estamos ambas a aprender sobre a maternidade, nos picos de crescimento ou nos saltos de desenvolvimento… Continua a ser difícil quando tudo está aprendido e estabelecido.

Nós, mulheres, sentimos a influência da lua nos nossos ciclos, mais tarde irás perceber, mas sei que já sentes. É claro que tu, e todos os bebés, não são ou estão sempre iguais.

Há alturas em que não comes, outras que comes tudo menos os pratos principais, outras que comes “este mundo e o outro”. Claro que quando comes menos procuras mais mama. Ou quando estás mais cansada, com sono e aborrecida. Nenhum dia é igual.

Cada vez mais, sinto que a minha energia te influencia… quanto mais agitada ou cansada ou nervosa estou, mais impaciente ficas, mais colo pedes, mais atenção exiges.
Outra situação que eu achava incorrecta – e, mais uma vez, por pura ignorância e imposição da sociedade – era o dormir com o bebé. Se há coisa que aprendi, minha querida, foi que, se queria dormir algo tinha mesmo de fazer co-sleeping! ! Foi graças ao fantástico pediatra Carlos Gonzalez e à Constança Cordeiro Ferreira que percebi que o ideal para ti era estar comigo, ao meu colo, junto ao meu peito e à minha pele. Somos “mamãs canguru” por isso o teu lugar seguro são os meus braços.

Ser mãe é mesmo isto, estar disponível para ti independentemente de todo o mundo que me rodeia, do meu estado de espírito, do meu cansaço.

A dada altura eu o teu pai combinámos que passaria a ser ele a adormecer-te. Andava tão cansada nessa fase…

Ainda hoje penso se foi a decisão certa. Fico insegura. Culpo-me porque deveria estar lá para ti.

Há noites em que choras e ficas a olhar para mim, mas rapidamente acalmas no colo do papá e a vossa relação melhorou imenso desde que começou a ser ele a adormecer-te. Já chamas por ele quando ele não está. Aliás, deixaste (quase) de chamar por mim. Perguntas sempre pelo papá. Isso deixa-me feliz, tranquila. Ele também fica. Até porque agora brincas imenso com ele. E cada vez mais adoras essas brincadeiras.

Mas, no meu íntimo, sei que me culpo por colocar-me em primeiro lugar. Tenho de aprender a confiar… A confiar em mim, nas minhas decisões… Até porque sei que para estares bem eu tenho de estar bem mentalmente, ter disponibilidade para ti. E ando muito melhor assim. Fico feliz com a tua nova ligação ao papá. Muito mesmo! E acho que é uma forma bonita de ele se envolver na “maternidade”.

Tenho eu de aprender a relaxar, continuar a explicar-te o que faço, e porquê, para que saibas que importas e que valorizo o que sentes. Aprender a confiar em mim acima de tudo, em vários aspectos da minha vida.
Outra situação que já esteve bem e agora tem sido difícil é a tua transferência para a cadeira do carro. Deves odiar. Ou melhor, adoras o meu colo, porque com o pai não há stresse. Agora comigo… É o “fim do mundo em cuecas”. Ou tentas escapar e entrar sozinha para te esgueirares para os bancos da frente ou, então, desatas a chorar e berrar e não consigo colocar-te. O que tenho de fazer é respirar. Mas é difícil controlar-me, às vezes fico nervosa porque estou cansada e quero ir para casa. Ou porque stresso porque é hora de ir trabalhar. Mas lá vou tentando. Entro para o carro contigo e dou-te maminha. Podes até adormecer mas acordas sempre que te deito. Há alturas que um boneco, uma tosta, um balão são suficientes. Noutras nada resulta. Recorro ao que menos gosto… Dou-te o meu telemóvel e ponho um vídeo com música, e lá resulta. Tenho esperança que há-de chegar o dia em que ficarás de livre vontade.

Tens-me ensinado que preciso de te escutar, respeitar o teu tempo e as tuas necessidades. Que temos de fazer as coisas conforme as nossas vontades e sonhos porque a vida é simples se assim o quisermos, se formos sinceros com o que realmente o nosso ser e alma necessitam.
Por isso,

Grata


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.

  • Vladimir Urquia

    Grata pela tua partilha :* aprendi imenso na tua partilha tão sincera. Ass.: Branca Barbosa <3

    • Cátia Brandão

      Grata ❤