Não tem “Cara de mãe” Coluna Humaniza-te

Ultimamente tenho vivido um processo de mudanças muito intensas, e, para pessoas de fora, talvez um tanto bruscas. Tenho convivido com uma rotatividade enorme de pessoas, que sempre se espantam ao saber que tenho dois filhos. Não trocamos palavras profundas nem longas conversas pessoais, são pessoas que me olham e dizem que eu não tenho “cara de mãe”.

Isto me fez indagar o quanto estamos presos a um estereótipo materno cultural fortíssimo, ao qual inclusive eu me aprisionei, quando tive o meu primeiro filho, e do qual estou em processo de libertação de há dois anos para cá.

Este estereótipo vai das coisas simples, como a forma de nos vestimos ou o que falamos; a coisas mais complexas, por exemplo na forma como nos relacionamos com a pessoa que está ao nosso lado.

Depois de ter um filho é difícil a mulher não mudar a sua aparência. Dizem que naturalmente nos aproximamos de personagens mais próximos e conhecidos – como nossas mães e avós – ou talvez repetindo protótipos de “perfeição” – da mãe que gostaríamos de ter tido quando crianças.

Eu não queria ter a mãe que eu tinha.
Eu não queria ser a mãe que eu fui.
Eu não queria ser a mãe que eu tenho sido.

Mas a verdade é que todas – a minha, a tua, eu mesma – deram o seu melhor. Eu dei o melhor de mim, no momento em que o estava vivendo.

Eu só queria poder dizer a quem é mãe, que nalgum momento vai ter que olhar para este “personagem”, que a maternidade te convida a conhecer. Esse personagem que você criou, esse ideal de perfeição que você nunca vai atingir. Queria dizer que quanto antes olhar para ele, mais fácil vai ser ver as dores e aceitar que existem coisas na vida que não podem ser seguidas, imitadas, reproduzidas… não há um modelo certo a seguir. O único termómetro que existe para sabermos se agimos ou não da maneira correta, é sentir se estamos em paz. A aprovação de outras pessoas não traz felicidade.

A paz que eu não tive quando tentava ser algo que não sou…
Podemos copiar o “personagem da paz”, mas ele não dura, ele corrói, ele te domina e, se não se quiser olhar para ele, e ve-lo como é… aí esquecemos quem somos de verdade.

A maternidade traz isso…

Talvez por ser um momento em que o nosso altruísmo está mais exacerbado, e seja na necessidade de total dedicação dos primeiros tempos… talvez seja aí que nos perdemos.
Mas, essa volta que a vida dá, é para te mostrar que podes ser a melhor versão de ti própria, e na verdade, talvez só assim se encontre A verdade.

Eu sinto que tenho encontrado a minha verdade me afastando daquilo com que eu não sei lidar, e não consigo, buscando minha força e independência interna e externa… e é incrível, porque é quando isso começa a ser real, e se nota, e é o meu reflexo, é aí que dou por mim a ouvir… que “não pareço mãe”.

Sou mãe, sim, mas a maternidade não sou eu. Ela faz parte de mim, mas não me define. Ser mãe não me cobra, hoje em dia, mas me presenteia, e isso foi galgado após olhar as dores de tentar viver um personagem que não sou.

Os novos tempos que vivemos, de compartilhar tudo, nos permitem ter acesso à possibilidade de desconstruir as nossas referências e curar nossos passados e projeções.

Perdoa a tua mãe que não largou tudo na vida dela para cuidar de ti.
Valoriza-a.
Perdoa a tua mãe que largou tudo na vida dela para cuidar de ti.
Valoriza-a.
Perdoa a tua mãe que não soube como te dar carinho, pois não teve.
Valoriza-a.
Perdoa a tua mãe que te deu “carinho demais”, e te mimou ao ponto de te sufocar.
Valoriza-a.
Perdoa a tua mãe que não aguentou viver um casamento sem amor.
Valoriza-a.
Perdoa a tua mãe que aguentou “por ti” viver um casamento sem amor.
Valoriza-a.

Separa a mãe que tiveste, da mãe que querias ter. A mãe da tua amiga, que sempre parecia mais fixe que a tua.

Nunca estamos satisfeitos com o que temos até o perdermos? Talvez. Talvez até NOS perdermos em nossas projeções.
Depois de tanto nos perder, nos encontramos finalmente, se nos colocarmos no lugar do outro.

A vida ensina. Conhece-te a ti mesma e sê tu mesma!

A “cara de mãe” talvez seja sua, mas a minha não é, e para mim, tudo bem.

Carinho meu,
Uma ótima semana!

~ Gláucia Figueiredo

(imagem de Belle Verdiglione)


Mãe de Lenin e Manuella, Doula, Terapeuta Corporal, Instrutora de Yoga com foco em Gestantes e Crianças, da Associação Internacional de Ecologia Feminina,desenvolve e aplica projetos na área, workshops e atendimentos individuais desde 2008.