Pés na água, coração no Mar Escrita de Raiz

Onde tens tu raízes, mulher?“, dizia o homem que me achava demasiado eslava para ter nascido em Portugal.
Sempre de cabeça no ar, menina“, ouvi repetir a minha mãe, metade da minha vida.
Disse-me em tempos um astrólogo que, com a quantidade de água que tenho no meu céu, e equivalente escassez de terra, é de espantar que eu tenha coluna vertebral. “Como consegues sequer caminhar!?
Ele não sabia, mas eu não caminho… – por alguma razão as sereias não têm pernas – eu fluo. Escorrego por aí…

Antes de ser mãe não acreditava assim tanto no valor de “ter raízes” ou de viver “com os pés assentes na terra”… não me soaram nunca a necessidades básicas, nem a vantagens.

Sou feita de água. Muita água. E na verdade as suas qualidades mutáveis, nunca constantes, atraem-me.

Sou apaixonada pela mudança, curiosa pelas diferenças, atraída pelos desafios.
O chão firme debaixo dos meus pés, a previsibilidade, a rotina… matam-me a magia. Fico com falta de ar perante um plano a longo prazo. Nada me aborrece mais que uma semana pre-definida ou até um dia inteiro de horários marcados. Não uso relógio e só numa percentagem muito pequena da minha vida tive de acordar com a ajuda de um despertador.
É verdade.

Sou feita de muita água.

Viajei muito. Viajo sempre.
E foi sempre que a minha vida começava a “ganhar chão” – regularidade, segurança – que senti o impulso de mudar.
A vida é para fluir, não é? Não sei de que são feitas as margens do teu rio mas as minhas promovem a fluidez… não há espaço para águas paradas.

Até que… veio a gravidez… a sereia apaixonada pelas ondas e pelo fundo do mar procura um ninho, faz uma piscina (literalmente) e… decide parar.

Parar.
Pela primeira vez na minha vida, quis, verdadeiramente, parar.
Porquê?
Não foram medos de perder o controlo (sei tão bem o quanto é ilusório), ou sequer de me perder (tão perdida então como agora). Mas necessidade de reduzir estímulo e de eliminar distrações, afinal, a viagem maior – a mais extraordinária, surpreendente, reveladora, exigente – acontecia ali, entre o meu colo e a minha mama.

E é aqui, no ser mãe, que valorizo a raiz, porque sinto o chão que me foge… como nunca senti antes.

Aqui tenho um misto de necessidade de segurança primordial, e de sensação de estar de pés atados.

Sim, é um misto de prazer e pavor este início da maternidade – para mim foi.

Estou deitada na cama, amamento o meu filho enquanto dorme. Sim, até enquanto dorme. E já não sei. Já não sei onde ele termina e começo eu.
Passaram já quatro anos desde que ele saiu de mim, mas parece ainda tão ligado quanto quando estava lá dentro.
O meu filho expira o ar que inspiro eu. É o segundo “tum” do tumtum acelerado do meu coração. É o espelho do que vai dentro de mim, mostra-me cada emoção mais forte que sinto, mesmo antes de a conseguir verbalizar, e salva-me. Todos os dias me salva.
Salva-me do afogamento em águas de pressa, de stress, de longas listas de “afazeres”. Salva-me de me esquecer de mim, e entrega-me à magia das joaninhas que procura (e que já brincam nas flores). Somos tão ligadas que ele me avisa, mesmo quando eu sou tímida de o admitir, sobre as pessoas mais negativas para mim; e apaixona-se perdidamente pelas que me fazem sorrir.
Às vezes não sei se é ele ou eu, que acorda de noite com pesadelos, de manhã, rabugento… não sei.

Sabes, somos todos náufragos, nestas águas agitadas… e a minha âncora é ele.

Finalmente a menina de cabeça no ar, a menina água, a sereia escorregadia como um peixe… agradece as qualidades de Estar. Sentar. Ser. E crescer raízes.

Com tanta viagem onde sossega o coração… mãe d’água?
Sossega aqui.

Sou feita de muita água, é na escrita que ganho raízes.


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)