[Relato de parto #36] Natacha Santos Relatos

Talvez eu recupere da experiência que foi trazer o meu filho ao mundo lá para 2033.

Todos os dias olho para ele e custa-me acreditar que haja momentos na vida tão perfeitos. Escrevo este texto para nunca me esquecer dos pormenores (talvez isso aconteça lá para 2083), para as minhas pessoas queridas a quem ainda não contei como foi, e sobretudo para que fique relatado, e público, aquilo que nos aconteceu.
Fartei-me de ler sobre partos, ver vídeos e documentários, e parece-me que nunca é demais saber de mais um, porque a experiência de cada mulher que opta por se expor contribui e contribuiu para o que eu decidi (no que estava ao meu alcance) que o meu parto seria.

 

Então aqui fica o meu bocadinho de “mãe natureza”, que espero que inspire alguém, como tantas histórias de partos felizes me inspiraram a mim.

No dia antes de o Diogo nascer a minha barriga ficou mais arrebitada que nunca. No dia do parto o umbigo estava a apontar para baixo. Lembro-me de comentar isso com a minha mãe e ela concordar. Tínhamos andado a ouvir meditações e hipnopartos no youtube e eu estava incrivelmente relaxada. Aprendi no workshop de preparação para o parto que quanto mais tempo estivermos no nosso ninho, mais oxitocina se liberta e mais depressa o trabalho de parto avança.
Assim fiz.
Comi uma tigelona de guacamole e pensei se deveria “carregar no chili”, para dar um empurrãozinho ao bebé… não foi preciso.
Às 39 semanas o meu filho lia-me os pensamentos. Se antes ele começava a pontapear esfomeado no momento em que eu preparava uma refeição, nessa altura bastava-me pensar em comer guacamole e o Diogo começava um festival de “breakdance“.
Costurei a fronha que me faltava para terminar de forrar o sofá, enfiei a almofada lá dentro à (tanta!) força e transpirei tanto, que tenho a certeza que foi isso que me fez entrar em trabalho de parto.
Fui à casa de banho e senti um “duplo-clique” na minha barriga, que me fez parar por um segundo, mas continuei com a minha vidinha.
Mal eu sabia que as águas tinham rebentado.

Eram 14h30 quando me sentei no chão e a minha mãe tirou as últimas fotografias à barriga. Nesse momento senti água a sair e disse-lhe “Não vais acreditar…” e então começou a aventura.
Começou uma maratona de pensos higiénicos, mas pouco mais do que isso, porque eu achei que só daí a muitas horas é que mais alguma coisa aconteceria. Só telefonei ao Faneca para o informar e disse-lhe que não precisava de vir para casa. Também mandei uma mensagem a uma amiga que vinha a caminho para nos visitar a dizer que não se assustasse mas que o Diogo estava a caminho. Podíamos lanchar juntas na mesma e relaxar, que isso só ajudaria.
Mas, meia hora depois comecei a ter umas contracções ligeiramente dolorosas, que desciam até às virilhas.
Às 15h15 elas pareciam-me tão frequentes que achei melhor começar a cronometrá-las.
Às 16h00 apercebi-me de que na teoria estava em trabalho de parto, embora as contracções fossem suportáveis. – Tinham-me dito que as contracções de trabalho de parto não nos permitem manter uma conversa, mas eu conversei com a senhora do Birth Centre ao telefone, que me disse que era melhor pôr-me a caminho.
Liguei ao Faneca a dizer que viesse para casa “Depressinha, faz favor“.
Depois, seguiu-se um estado “intoxicação alimentar”, em que se me deu tal volta à barriga que eu não sabia se corria para o lavatório ou para a sanita.
Liguei à minha querida Andreia, que é parteira, e me disse que tudo isso era “normal”.
Relaxei e respirei.
A minha mãe preparava tudo e tirava fotografias.
O Faneca chegou às 16h30 e chamou um taxi.
A minha amiga chegou para lancharmos, mas qual lanchar qual quê!?, ao fim de 10 minutos estávamos todos metidos no taxi.

Antes mesmo de sairmos eu tive uma contracção a sério. Uma contracção que me fez gemer e que sobretudo me tirou toda a força das pernas. A minha perna direita teve um espasmo e eu pensei “Ora aí está! Agora estou lixada que vai ser meia hora disto metida num carro.

Os longos 40 minutos que passámos no taxi não foram tão maus como eu imaginei. Ir sentada aliviou-me completamente as pernas, que eu insistia em relaxar e concentrei-me em não seguir o impulso constante de me contrair toda e fincar os pés no chão do carro.

Relaxar as pernas e a cara.
Respirar.

Quando chegámos ao hospital estar em pé tornou-se impossível e a cada contracção que se seguiu eu tive de me apoiar em alguma coisa, sem nunca largar a almofada que levei comigo. Foi ao taxi mal saímos, foi à parede do elevador, foi aos balcões das recepções…
Água pelas pernas abaixo, inglês e português alternado, e o meu filho – o meu filho que não sabia o que lhe estava a acontecer, não leu livros nem aprendeu a lidar com a dor – estávamos juntos, estávamos juntos desde há nove meses e estaríamos mais unidos do que nunca naquela coisa primitiva que nos estava a acontecer.

Quando chegámos ao quarto e eu pedi à parteira para usar uma das piscinas ela disse que sim.

Pediu-me que fosse fazer chichi, verificou o batimento cardíaco do bebé e depois quis examinar-me, mas eu simplesmente não conseguia estar deitada de costas, a não ser entre contracções. Toda eu era um bicho. Não permiti que ninguém me tocasse. Todos à minha volta tendiam a afagar-me, mas aquelas festinhas pareciam lixa e desconcentravam-me completamente.

Pus-me de joelhos em cima da cama sem que ninguém mo sugerisse. Pedi que levantassem o encosto da cama e abracei-me a ele.

Também foi sem aviso que saiu de mim um som que eu não reconheci, como se um animal de grande porte tivesse entrado naquele quarto e estivesse também em trabalho de parto. Lembro-me de pensar que aquilo só podia ser eu, e lembro-me de sentir que o meu corpo estava a fazer tudo sozinho.

Lá ao longe tudo me pareceu tão irónico, especialmente porque a janela do quarto tinha uma vista panorâmica sobre o Tamisa e o Parlamento.

O Big Ben marcava 18h15.
Eu tinha numa mão o tubo de “gas and aire“, na outra a mão do Faneca.
Estava tão feliz quanto incapaz de o verbalizar.

Continuei aquele exercício de relaxamento. Quando a parteira me examinou disse “Estás pronta! De certeza que queres usar a piscina?“, ao que eu me lembro de dizer que sim.
Ela pôs-se a correr e disse-me que me apressasse também.
“Corremos” (porque me recusei a sentar na cadeira de rodas) dentro do possível, a minha mãe de máquina fotográfica na mão, o meu amor a amparar-me a queda quando tive uma contracção no corredor.

Meti-me na piscina ainda com menos de um palmo de água.
Ajoelhei-me.

Duas parteiras à procura do batimento cardíaco do meu bebé, sem sucesso. Alguma coisa dentro de mim me impedia de sentir medo. Tinha comigo as duas pessoas com quem mais queria partilhar o parto do Diogo, e sei que foi por isso, por ali estarmos os quatro tão unidos, que eu me mantive tão calma e tão feliz. Tinha a certeza de que o Diogo estava bem.

Larguei o gás porque me estava a desconcentrar, e numa das tentativas de encontrar o batimento do coração do Diogo…

… pus-me a flutuar de lado, sem nunca largar a mão do Fanequinha. Foi aí que descobri o paraíso. Não me lembro de as contracções se terem tornado menos frequentes, mas pelos vistos foi o que aconteceu. Lembro-me de a dor diminuir de tal forma que entre contracções toda eu flutuava naquela água quente. Quando sentia a contracção a chegar voltava a pôr-me de joelhos. As parteiras deixaram-me fazer o que quisesse e senti um bem-estar profundo quando uma delas me disse “Ouve o teu corpo“.
Ouvi.

O meu bebé estava a ser espremido, e era nele que eu falava entre contracções (urros).
Bebi garrafas e garrafas de água.
Respirei. De repente voltei a sentir o Diogo, e dessa vez era obviamente a cabeça dele a descer.

Eram 19h14 quando apareceu o “bebé faneca”, todo braços e pernas, e mãos e pés. Nadou pouco, porque eu trouxe-o logo à superfície, olhei para ele e ele para mim e assim ficámos até ele soltar um chorinho e só aí eu ser capaz de dizer
Olá meu amor! Tu nasceste, querido?

~ Natacha Santos

(Podes conhecer mais sobre a Natacha AQUI)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.