O feminismo que diz: “deixem-nos ser mães!” Entrevista

~ Entrevista com Mariana Falcato Simões ~

~ A Mariana é Doula, Activista de Parto e da Vida, e Mãe d’Água.
Comecei a nossa conversa sabendo que o nosso Mundo precisa de Mudança, saí com a certeza de que nós vamos conseguir – amorosamente e persistentemente – vamos conseguir faze-lo.
Ela inspira-me Liberdade! ~

~ Se pudesses escolher um episódio da tua vida que seja significativo para te teres tornado activista do parto humanizado, qual seria?

~ Hummm… eu acho que no fundo eu sou uma activista, de alma e coração, de várias causas, pelo exemplo dos meus pais. Portanto, à partida, a educação que eu tive, e a vivência dos meus pais deram-me esta atitude de não me calar, de me questionar, de pensar, de não dar as coisas como dado adquirido. E essa atitude veio desde sempre, aliás, eu olho agora para a minha filha, e ela já vai no bom caminho! (risos)

Mas, em relação ao parto, sem dúvida que o activismo virá da primeira formação que eu fiz. Foi uma formação em Sintra com o Ricardo Jones, a Ana Cris Duarte – que na altura ainda não era parteira, era doula – e a Angelina Pita, que é psicóloga, e organizada pela Catarina Pardal. Na formação estiveram quase todas as doulas formadas em Portugal na altura (entre elas as fundadoras da Associação de Doulas de Portugal). Eu, dessa formação, numa penada só, fiquei a conhecer uma série de gente da humanização do parto.
E fui lá ter completamente por acaso!
Eu tinha-me despedido porque sim, porque achava que não estava feliz e que não era por ali. E tive uma amiga que me disse: “Eu não sei porquê, mas tu tens que ir a esta formação” (ela nunca mais fez nada na área do parto, era professora de yoga e fazia aulas para grávidas), a mãe dela fazia preparação para parto e elas iam as duas ao curso. E eu fui também!
Eu fiz uma série de descobertas nesse curso, assim a mais importante de todas era que o parto não era como eu imaginava – não era o parto, o parto era super fácil, natural e perfeito, mas…

… parir em Portugal, não era como eu imaginava.

Eu imaginava que a grávida se apresentava no hospital, paria, e ninguém a importunava.
Pensava que era tudo fácil e respeitado.
Descobri que não.

Muitas das pessoas que participaram nesse curso tinham tido histórias muito más dos seus primeiros partos, e tinham encontrado este caminho numa busca de “explicações”. Pela desgraça que lhes tinha acontecido tinham sentido que não podia ser só esta a realidade e tinham ido à procura de outras alternativas e encontraram a humanização. – Eu, graças a Deus, encontrei a humanização ainda antes de pensar em engravidar. – Eu aprendi com essas más histórias, com a inspiração que era aquela equipa do Brasil (e com o que já se fazia no Brasil! Isto foi em 2007, mas no Brasil já tinham um longo caminho na humanização, enquanto que nós estávamos a começar a falar do assunto) e foi essa formação que me deu este rumo.

~ Quando decidiste ser Doula, foi nessa formação?

~ Sim, foi nessa formação. Eu apaixonei-me pelo tema e percebi aí que, dos vários papéis que existiam ali à volta do parto, o que fazia mais sentido para mim, e o que eu queria era ser Doula. Queria acompanhar a mulher, dar-lhe ferramentas para aproveitar este evento e potenciar-se ao máximo.
E encontrei, realmente, na gravidez e no parto, um dos grandes eventos em que a mulher se permite ser mimada, se permite ter tempo. E isso para mim brilhou de uma maneira especial.

Tu perguntas-me de “ser Doula”, mas acho que encontrei outra coisa aí, que só percebi uns anos mais tarde, que foi o Meu activismo feminino. Eu aí encontrei o “meu feminismo”.
Eu sempre fui feminista obviamente, acreditava na luta feminista, mas havia coisas que não me faziam muito sentido… eu não as sentia – como por exemplo, aquela coisa de termos que trabalhar muito, de estarmos equiparadas aos homens, aquilo não me fazia muito sentido – o feminismo fazia-me sentido, mas não era bem “aquilo”.
Descobri então esta vertente que era o feminismo de Ser Fêmea.

O que é que é ser fêmea? Nós já não sabemos muito bem do que é que andamos à procura – que é uma coisa um bocado tonta – e ainda por cima eu tinha uma mãe activa, super trabalhadora, super profissional (foi aí que eu fui educada, no valor pelo trabalho), e permiti-me descobrir esta vertente do que é ser fêmea, do que é ser cíclica, do que é ter tempo para estar, ter tempo para alimentar os nossos filhos, o gerar, o criar. E isso tocou-me de uma forma incrível, percebi que este é que era o feminismo que me fazia sentido e que eu queria defender.

O feminismo de “deixem-nos ser mães!”. Nós não vamos produzir menos, mas deem-nos tempo! Deem-nos condições para termos uma gravidez descansada e para aproveitarmos a gravidez, condições para estarmos em casa com os nossos filhos enquanto eles ainda precisam de nós – eles não vão precisar de nós até aos 18, mas se calhar dois, três anos, se tivéssemos apoio era super positivo as crianças poderem contar com a sua mãe!

Termos tempo de reforma quando estamos em casa, termos descontos. E esse activismo de “deixem-nos ser fêmeas, verdadeiramente fêmeas” fez-me enveredar por este mundo da humanização, e fiz cursos e comecei a estudar como doula.

Um feminismo não de oposição, mas de valorização.

Na altura comecei também a despertar para um caminho espiritual e comecei a entender exactamente isso, nós não estamos a opor-nos a nada.
Porque é que nós nos estamos a equiparar aos homens? Não faz sentido nenhum! Não somos iguais, nunca vamos ser (e, eu pessoalmente, nem quero!)
A minha luta não é essa, a minha luta é para potenciarmos as melhores características de cada um de nós, e vamo-nos complementar e fazer um mundo melhor, com homens e com mulheres. Isso é que me faz sentido, a inclusão, e o perceber os papéis que cada um está a desempenhar – que quer desempenhar – quais são os seus dons, e potenciar isso mesmo.


~ Falavas nos dois/ três anos mínimos que um filho precisa de uma mãe, isso no fundo vai criar uma base de sociedade diferente. Não é só um activismo feminista, é um activismo social, não é?

~ Sim! Neste momento, já só me considero activista e ponto. Há uma série de coisas que mexem o meu coração. Eu agora vejo-me a trabalhar muito na área da educação, também, e sinto mesmo que assim vamos à raiz!

Se nós tivermos uma gravidez de ouro estamos a dar uma boa saúde emocional, mental e física às crianças que nascem.
Se nós dermos um bom pós-parto estamos a dar uma boa experiência – tanto à mãe como ao filho – e a ajudar a criar laços afectivos.

Quando olhamos ao “emocional e afectivo” ajudamos a criar crianças estáveis e fortes emocionalmente, com uma boa autoconfiança. Daí ser importante nos dois/ três primeiros anos termos tempo para a criação da personalidade daquele ser.
São os anos de ouro!
Aos 18 anos nós já não vamos fazer nada, podemos ter conversas sérias, mas já não conseguimos fazer nada.

Então, realmente, são sementinhas! Dificilmente se eu plantar um maracujá irá nascer uma pêra. É tão simples quanto isso.

Acredito que sim, que se dermos atenção às mães e aos pais, se dermos apoio às nossas crianças, vamos criar uma sociedade que vai ser mais amorosa, que vai ser uma melhor sociedade. Vamos criar um mundo melhor.

~ Como te descreverias como Doula?

~ O meu blog era: “A Doula Tola” (Risos)

Eu considero que não sou uma Doula muito técnica. Claro, no princípio estudei muito, estudei tudo, e tinha as coisas mais na ponta da língua. Agora não é essa a minha postura. Há Doulas que são mais técnicas e há mulheres que procuram Doulas mais técnicas (e se uma mulher que me procura quer essa parte mais técnica, claro que tenho forma de lhe fazer chegar essa informação), mas acima de tudo eu acho que a minha grande ferramenta é a empatia, é perceber o que é que é preciso, quando é que é preciso. Depois, muitas das vezes, nos meus acompanhamentos nem é preciso! As mulheres estão a viver as suas gravidezes tão bem que não precisam de nada.

Eu costumo dizer que os meus melhores acompanhamentos são num serviço de “Speed Doula”. Eu faço muitos acompanhamentos de amigas (porque eu onde vivo, em Vila Real, tenho muito poucas mulheres que me contratam) e depois acaba por não ser um verdadeiro acompanhamento, é aquela coisa “in between”. Como estão muito longe de mim eu também não consigo fazer o acompanhamento presencial a essas amigas, então encontramo-nos para almoço, e está feito! E parece que tudo se resolveu naquele almoço, que tudo ficou falado, tudo ficou esclarecido. Eu não sei como, não sei porquê, mas funciona!

Claro que já fiz outros acompanhamentos, e acompanhamentos mais profissionais, que são acompanhamentos ao longo da gravidez toda, e em que se usam outras ferramentas.

Mas, na verdade eu acho que o trabalho (da doula) é empoderar aquela mulher, é ela não precisar de mim como Doula!
Não há interesse nenhum em eu estar muito presente. Se ela não precisa de mim como Doula, o meu trabalho foi bem feito!

É ela viver convicta na sua gravidez, empoderada, fazer o que lhe dá gozo, curtir a gravidez, e, obviamente, saber que tem alguém que a acompanha se ela precisar, se ela tiver dúvidas, se ela tiver um momento mais em baixo. Ela sabe que eu estou ali. Mas eu acho que o empoderamento é a questão principal.
Depois, o que eu sinto em relação às questões mais técnicas, mais informativas, ou mesmo psicológicas, que vão surgindo, é que se há coisas emocionais e psicológicas que surgem durante a gravidez que limitam de alguma maneira o teu processo, elas têm que ser tratadas e faladas, para tu conseguires ultrapassar essa questão, mas não é naqueles nove meses que vais resolver toda a tua vida! A tua relação com a mãe, a tua relação com o pai, a tua relação com o teu próprio parto, a tua relação com o teu companheiro… isto é uma avalanche de questões. Claro que podem surgir, e se forem limitativas tens que falar delas, vais aproveitar essa questão que aflorou na tua gravidez, mas não vais andar a escarafunchar à procura de coisas “porque tem que se resolver não vá o parto correr mal por causa disso”. Não! Desejavelmente tiveste uma vida toda em que foste conseguindo resolver um ou outro nó, e vais continuar a tua vida toda a resolver outros, e o parto, se possível, vai ser uma altura super importante para tu também desatares mais uns nós, mas não vais procurar questões que não interessam.

~ Dizias que acompanhas muito amigas porque em Vila Real não tens uma carteira muito ampla de mulheres que recorram a uma Doula. Achas que é difícil aceitar o acompanhamento de uma Doula fora dos grandes centros (e mesmo nos grandes centros)?

~ Eu conheço muito pouca gente que viva exclusivamente desta actividade, existem algumas, poucas, e são de grandes centros.
Sim… se calhar nos grandes centros têm mais trabalho porque há mais mulheres… Eu não faço ideia se vai dar ao mesmo ou não.
Aquilo que eu conheço “cá em cima” é que as mulheres não querem pensar sobre o assunto, não põem sequer a hipótese, desconhecem – ou do pouco que conhecem, acham que não lhes interessa – têm muitos pré-conceitos, muitas ideias que acham “Não é para mim porque não vou parir em casa.”; “Não é para mim porque…”.
Mas de uma maneira geral eu acho que é uma actividade que está em crescimento. (Espero eu…)
Claro que também é desejável que os serviços melhorem…

Ainda que uma Doula, na minha opinião, seja sempre a cereja no topo do bolo.
Eu tive dois partos, tive duas Doulas, tive sempre a Doula a acompanhar-me e digo a todas as pessoas que acho que é mesmo a cereja no topo do bolo.
Tu podes ter 20 pessoas ali, mas a relação que tu crias com a tua Doula é muito importante.

Agora, também é desejável que os serviços tenho uma qualidade que muitas mulheres, estas tais mulheres que não sentem necessidade de ter uma Doula… – ainda agora aconteceu uma amiga que eu ia acompanhar, que entretanto decidiu que quer só estar com o marido! Se o serviço for tão bom que ela se sente capaz e com vontade de estar na sua intimidade de família, óptimo! O problema é quando vais para um serviço, e não sabes muito bem para o que vais… e isso é mais problemático.

~ O que é que te inspira como Doula?

~ As mulheres! As mulheres são incríveis! (E os homens também…!)
Realmente eu tenho uma enorme crença que todas as mulheres conseguem parir “no matter what”! E acontece, mesmo ao ver alguns acompanhamentos mais difíceis – com histórias de vida difíceis, e situações e alturas da vida difíceis… e que ainda assim vejo que é possível!
Eu por exemplo pari o meu segundo filho em casa, e a minha mãe estava com uma doença terminal em minha casa, e não era uma questão.

Para nós mulheres, quando é para fazer, é mesmo para fazer! Nem todas claro… Mas se olharmos de uma maneira geral, nós temos uma força tão incrível, temos uma capacidade de andar para a frente, de continuar o caminho – depois temos aquelas altura do mês que estamos muito tristes e que o mundo é um lugar horroroso (risos), somos cíclicas lá está!

Como Doula, no trabalho de parto tu vês a mulher a superar-se, e isso é ganhar crença na humanidade!
Mesmo!
Se elas conseguem fazer isto, se eu consegui fazer isto, nós conseguimos tudo! E é incrível!

Eu adoro estes movimentos das mulheres, quando as mulheres se juntam fazem coisas incríveis! Agora, nem sempre nós conseguimos, por muitas razões, porque temos imenso trabalho, porque estamos a tomar conta dos filhos, porque temos horários, famílias… então, nem sempre surge esse ímpeto.
Por exemplo nesta altura, tu vês a marcha das mulheres contra o Trump a nível mundial, e olhas para aquilo e não tens dúvidas nenhumas que se nós continuarmos com aquele nível de energia, eu nem sei onde é que ele vai parar!

Nós somos mesmo uma força criadora, uma força geradora.


~ Os teus dois partos foram muito diferentes um do outro?

~ Não, foram muito parecidos. Foram muito rápidos. Foram gravidezes curtas. Foi tudo rápido!

No primeiro eu ainda consegui ir para a banheira. Foi tão rápido que não consegui encher a piscina de ar mas consegui encher a banheira de água e entrar.
No segundo parto foi tão rápido que eu, pelo sim pelo não já tinha a piscina cheia de ar, mas não a consegui encher de água! E pari antes de encher o que quer que seja de água.
Foram em casa, foram perfeitos como é o parto.

Para mim foi um grande choque o primeiro parto ser rápido. A minha expectativa de parto era o vídeo da Naoli Vinaver, o “Birth Day”, em que ela entra em trabalho de parto, vai passear com a família, come um feijoada, depois toma banho… não sei quanto tempo é que aquilo dura, mas dura! E a minha expectativa era essa! O meu parto na minha cabeça demorava 24 ou mais horas, o meu fotógrafo ia de Lisboa (imagina!) e eu ia passear para o parque de Vila Real (o problema é sempre a expectativa) depois eu pari em quatro horas.
Foi um parto que, para primeiro parto, não teve a duração comum.
A Naoli diz que já houve muita gente a dizer-lhe “você estragou o meu parto”, precisamente por causa da imagem que o vídeo deixou nelas.

Do meu nascimento, ou seja, o parto da minha mãe, eu não tinha referência porque a minha mãe foi muito anestesiada, o parto foi muito medicalizado, eu não sabia como tinha sido. E eu fiquei a sismar naquilo: “Porque é que o meu foi tão rápido?”. E obviamente também a trabalhar a minha expectativa, porque eu queria um parto em que pudesse sentir tudo, estava inspirada também pelo filme “Parto Orgásmico”, queria sentir o processo todo.

O segundo parto foi igual. Percebi então: “Sou eu!”.
Eu podia ter 20 que iam ser todos assim, é a minha forma de parir. Eu tenho os partos que se deseja a toda a gente, com “uma hora pequenina”.
Tenho esses partos, mas a verdade é que eu nunca fiz “toques”, por exemplo. Eu nunca soube qual é que era a minha dilatação, eu não faço ideia se no dia antes eu “já estava com 3cm”, ou se não tinha centímetro nenhum, não sei, eu nunca tive essa informação. É completamente diferente de uma mulher que lhe fazem um toque e ela tem 1cm, e ela começa logo na expectativa de que vai parir no dia seguinte. Eu nunca tive isso.
A realidade é que a característica dos meus partos é a rapidez. “Speed Doula”, eu disse! (risos)

~ Consegues pôr por palavras a sensação de veres um bebé nascer?

~ Hummm… acho que não consigo passar para palavras a minha sensação de ver um bebé nascer porque acho que é sempre muito diferente. Depende muito da mulher, depende do processo que ela passou até chegar ali, depende do parto, depende da história dela. Há uns que me emocionam mais, há outros que me fazem rir.

Mas a minha visão do parto é a de que somos um canal. Nós estamos a receber uma alma, e todo o nosso ser vai dilatar durante o parto para receber aquela alma. E eu sinto isso durante o parto. É a chegada!
Visualizar aquela mulher como um feixe de energia que está a dilatar para por ela poder passar uma alma.
É uma coisa tão bonita. E é o que eu sinto que acontece verdadeiramente.

Eu só acompanhei partos em casa – mentira, agora já acompanhei um parto no hospital de Vila Real. Que também foi muito bonito – mas, quando elas estão a fazer vocalizações, tudo está aberto! A boca está aberta, o coração está aberto, a vagina está a abrir. Tudo é um canal! E realmente é muito bonito!

~ O teu envolvimento com as mães d’água, como começa?

~ Acho que fui eu que me ofereci!
Eu não pari em Setúbal, mas já pertencia à Associação de Doulas de Portugal. Nunca pertenci à HUMPAR – que era a associação na altura que trabalhava na humanização do parto – mas participei no congresso, e na verdade já nos conhecíamos todas.

Desde 2007 que eu tinha muito presente esta questão do activismo pela humanização do parto, mas nunca tinha “funcionado”, nós nunca tínhamos chegado a lado nenhum. Éramos “as loucas”, éramos “as freaks”, éramos “as hippies”… não conseguíamos chegar a lado nenhum – era incrível! É que nem sequer às mulheres nós conseguíamos chegar, assim em massa – fazíamos
congressos, fazíamos encontros e éramos sempre as mesmas caras.

Quando apareceram as Mães d’água, surgiu uma coisa incrível, que ainda não tinha acontecido até à altura, que foi o facto de o movimento surgir pelas mulheres! – não surge pelas Doulas, nem pelos enfermeiros, surge pelas mulheres!

Logo que surgiu cresceu, exponencialmente, porque é uma necessidade que as mulheres entendem muito bem.

As fundadoras (do movimentos Mães d’água) são mulheres que sentiram na pele as vantagens de um parto respeitado, e com acesso à água, portanto defendem isso até ao tutano. Sentem que têm de se lutar para que outras mulheres possam ter aquela hipótese.
A Inês Anjo na altura escreveu um texto muito sentido que dizia “Se te tirassem a epidural tu não ias lutar porque tinhas direito a ela? A mim tiraram-me a minha epidural...”

É realmente uma coisa que lhes vem das entranhas. O movimento tem, desde o início, a força das mulheres, é transversal – já não são só “as freaks”, é apoiado por toda a gente – e por essa razão (não sei se por um bocadinho de moda do parto na água também) alastrou, foi um movimento que começou muito activo.

Eu acho que mandei um email a dizer: “o que possam aproveitar do meu “know how”, do meu conhecimento, aproveitem! Acho que é um movimento super válido e gostava muito de poder contribuir.
E foi assim que eu entrei para mães d’água. Eu não sou fundadora, as fundadoras foram (maioritariamente) mães que pariram em Setúbal.

~ Qual é o teu sonho para o Parto em Portugal?

~ O meu sonho para o parto em Portugal é que o parto esteja nas mãos das mulheres, e aí cabem todos os partos.
Não é um sonho para “o parto”, é um sonho para “Os Partos”, para que cada parto seja aquilo que aquela mulher desejou. Que seja uma vivência única dela, e respeitada, claro.

Aqui cabem todos os tipos de parto! Não me interessa se é em casa, se é no hospital, isso são questões geográficas.
O que me interessa é que aquela mulher possa descobrir o poder que ela tem.
Que possa confiar no seu corpo.
Que possa perceber que o seu corpo gera uma criança a partir de uma pequenina célula, que o seu corpo produz leite para amamentar aquela criança, que o seu corpo tem um poder imenso quando estamos a parir.
É a magia da vida!
Tudo está certo!
Só tens que conseguir olhar para dentro, olhar para o teu coração, olhar para as emoções que estás a viver, perceber quais são as tuas vontades – o que é que está a ser respeitado ou não.

Eu acho que isso vai revolucionar o mundo!
As mulheres descobrirem a força que têm;
fazerem-se ouvir (que é igualmente importante para os homens, mas não sei qual é o evento que pode determinar isso);
saberem-se respeitar;
saberem respeitar-se umas às outras; terem orgulho na mulher que está ao lado – que tem a mesma força.
Isso é mais uma peça revolucionária no mundo.

Tu saberes que há partos que são desrespeitados, num serviço qualquer, e saberes que lá pelo meio há mulheres, ouvires descrições violentíssimas feitas por mulheres, dói muito!
Não consigo entender.
Claro, são as histórias das pessoas, mas não é aceitável. Não é por aí… não é esse o caminho que eu quero trilhar, quero trilhar o outro, ao lado.
Quero trilhar o caminho para que as mulheres tenham orgulho nas capacidades das suas irmãs. E que todas nós todas juntas possamos empoderar-nos umas às outras.
Às vezes, até estão a ser fofinhas para a mãe, mas a conversa é assim: “oh mãezinha, a mãezinha não quer epidural? Olhe que daqui a nada vai precisar!”. Aquela “mãezinha” não tem cinco anos – eu não faço isso com os meus filhos de cinco anos! Eu dou-lhes as hipóteses, eles escolhem e arcam com as consequências – tu estares as tratar as “mãezinhas” como crianças que não são ouvidas, não são tidas em conta, e tu sabes sempre mais do que ela, ainda não está lá! Pelo menos não é violência…

~ Porquê o parto na água?

~ O parto na água porque – voltando ao tal activismo que não estava a fazer com que saíssemos do mesmo sitio há anos, da humanização do parto, em que as doulas defendiam que queriam acompanhar dentro dos hospitais, os enfermeiros defendiam outra coisa… cada um defendia a sua ideia (sendo que todos defendíamos a humanização, obviamente…) –

… o parto na água tem uma coisa espectacular, que é o ter em si a possibilidade de abolir imediatamente uma série de intervenções, de uma penada só, simplesmente porque não são possíveis.

Não é possível por exemplo fazer uma episiotomia a uma mulher que está dento de água.
Uma mulher que está dentro de água não tem epidural.
Uma mulher que está dentro de água não pode ter uma manobra de kristeller (fisicamente não é possível! Bom… imagino que se calhar algumas pessoas ainda se iam esforçar…)

Mas, na verdade, há outra coisa importante, que é: a opção de parto na água vai trazer novas necessidades de formação para as equipas. Vai ter que haver uma actualização, as equipas vão ter que ir adaptando a sua prática, e com isso – tenhamos fé – irão trabalhar cada vez melhor, pelo facto de estarem a ter formação contínua dentro desta metodologia.

Mais, a piscina é uma fronteira, é o perímetro do espaço da mulher. Finalmente, consegues ter um espaço privado para a mulher estar a parir.
Com luz, sem luz, não sei… se calhar não vai ser perfeito nos primeiros tempos… mas a mulher deixa de estar escancarada numa mesa obstétrica para cada pessoa que entra ter o panorama global.
Os toques também se tornam mais difíceis, passas a ter que te molhar, a ter que te debruçar sobre a piscina.
Todas estas intervenções vão, no mínimo diminuir (ainda que não desapareçam, talvez, algumas).

É por isso que eu sinto desde o início que este movimento tem aqui uma série de coisas geniais:
Tem a força das mulheres;
Tem esta metodologia (que na verdade é só uma metodologia, não é um fim em si).

Há muito a moda de “ahh parto bom é parto na água”.
Não! Parto na água é uma metodologia, é uma abordagem não farmacológica ao alívio da dor – também não precisamos de o por nos píncaros, se não passei pela piscina, ok, tudo bem, não pode ser o objectivo final do parto passar pela piscina, também não faz sentido – mas na verdade esta metodologia, esta ferramenta, pode ser um salto quântico na qualidade do atendimento ao parto em Portugal.

~ Fala-me do teu projecto Lua de Alecrim?

~ A Lua de Alecrim também é activista! (Risos)
A Lua de Alecrim foi fundada para aglomerar os cursos que nós já íamos fazendo, e que estavam todos essencialmente relacionados com o Parto (Preparação para o parto, educação perinatal com o Ricardo Jones…) a certa altura sentimos necessidade de ter algo formal, com uma figura jurídica.
Depois, como estamos em Vila Real, a Lua de Alecrim foi evoluindo para outras coisas – porque, lá está, lá não há muita gente que me “compre este peixe” – então, a Lua foi evoluindo para outras coisas, mas estes temas continuaram sempre a ser abordados.

Já conseguimos, com a Barbara Harper, por exemplo, uma coisa que há muito tempo queríamos, que era organizar cursos dentro dos hospitais. Ou seja, sempre tivemos cursos para Doulas, profissionais de parto ou público em geral, mas um dos meus objectivos era poder vender a formação aos hospitais, e poder ser uma formação interna dos hospitais mas dada por profissionais internacionais. Com a Barbara Harper já conseguimos chegar aí, e foi muito boa a participação. [Foi a formação de Parto na Água no Hospital Garcia da Orta (nós só produzimos, a formação foi organizada pelo hospital).] Essas formações são sempre organizadas fora de Vila Real. Em Vila Real abrimos o tema da educação e das crianças, começamos por organizar actividades para crianças (como campos de férias por exemplo) mas lá está, o objectivo último também é activista! Também é mudar um bocadinho o paradigma de como olhamos para a criança, de como vemos o seu desenvolvimento, e em última análise o paradigma escola – o que é que se está a fazer, o que é que nós queremos que seja feito.
Lá temos organizado actividades directamente para as crianças, já organizamos também um seminário para a comunidade (professores e pais). Este ano vamos organizar o segundo seminário. E temos aí mais umas coisas que espero que saiam ainda em 2017. Porque 2017 vai ser O Ano!

~ Gratas pela inspiração desta Mulher Activista que grita Liberdade!
Desejamos o melhor para este maravilhoso ano!

Podes seguir mais sobre o trabalho da Mariana AQUI, e AQUI ~


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.