Mulheres de Liberdade ~ Luana Hansen Coluna Humaniza-te

A paz não vem necessariamente de atitudes passivas. A violência que é infligida às mulheres, desde sempre, não vai acabar se ficamos somente nos mantras, incensos e rezas, a imposição de nossa força se faz necessária hoje mais do que nunca.

Para mim, hoje, no Brasil, um dos maiores exemplos femininos de libertação, resistência e empoderamento é a Luana, esse é um breve histórico e entrevista com ela.

Exposta à realidade periférica de São Paulo desde tenra idade, transformou seus desafios em rimas, e as violências sofridas em músicas de protesto, as quais representam não só sua vida, mas a de todas nós, de uma certa maneira.

Alvo de preconceito e machismo dentro da cena do Hip Hop nacional, foi repreendida por ser lésbica em uma época onde isso “não vendia”. Foi expulsa do grupo de que fazia parte, mas não desistiu, sem apoio do movimento, ela estudou, criou um estúdio próprio e desenvolveu carreira a solo, desta vez para expressar tudo o que vivia sem o filtro da opinião de ninguém.

Nos últimos três anos conseguiu alavancar sua carreira, trazendo o feminismo para o rap – o feminismo visível na vida de quem o vive e pratica. Tendo-se tornado uma referência ela não só canta como é convidada e propõe debates por todo o Brasil, pela causa das mulheres em geral.

~ O que é o feminismo para você?

~ Eu acho que a princípio é eu existir, sabe? O que me dá respeito, o que me faz ser importante de verdade. É eu viver todo o dia e lutar por aquilo em que eu de fato acredito. O feminismo é isso que me deu tanto, que me ensinou muita coisa, que me fez muitas vezes acreditar que eu era capaz de ser mais do que o que me era imposto pela sociedade.

O feminismo me faz muitas vezes me sentir mulher, me sentir importante – isso para mim é o feminismo.

~ Qual impacto dele na sua vida?

~ O feminismo é algo que me move. É o que me mantém, é o que me estabiliza, é o que me traz hoje – junto com a música – a ter meu alicerce, são os meus dois alicerces de viver, sabe? É o que durante um tempo era o meu diferencial, mas hoje eu sinto que é a minha vida. Eu o aplico no meu dia-a-dia – mesmo! – e em situações que às vezes não tem nada a ver, em gif na internet… em vídeo… eu consigo aplicar esse “viver Feminista” em várias situações, e entender ele de várias formas, e muitas vezes discordar de alguns que eu vejo, e aprender com outros.

~ Conhecer o feminismo te trouxe liberdade? O que é liberdade para você?

~ Sim, tanto que, é uma palavra que eu tatuei na minha pele, “Liberdade”, acho que são duas palavras que eu colocaria muito no meu corpo: Liberdade e Capacidade.
O feminismo me deu essas duas coisas.
Saber que eu posso ser muito mais além e que eu posso ser a dona. Eu lembro que quando eu era criança, sempre minha mãe perguntava: O que você vai ser quando crescer? Eu sempre falava que eu ia ser dona… Ela falava: dona?; Eu falava: É! Vou ter uma empresa e eu vou ser dona dessa empresa!; Minha mãe sempre falava: você não quer ser empregada; E eu: Não eu quero ser dona!
E hoje eu entendo isso, sabe?

Com o meu trabalho, as minhas coisas, o feminismo me deu isso: Eu ser dona da minha própria vida, eu ditar minhas próprias regras.

Como eu disse antes, eu não estar no lugar onde a sociedade me coloca – afinal eu sou a mulher negra, lésbica e periférica que até então foi educada pelo estado, porque eu sempre estudei em colégio público – e hoje eu sei exatamente quem eu sou e onde eu quero chegar, como diz a Glória Groove: “Eu sou a dona da porra toda“.

Liberdade para mim é amar, porque tudo o que eu faço tem amor. Eu acredito mesmo que o que eu faço vai mudar o mundo, sabe? Que vai mudar as pessoas, que de verdade – não é utopia! – de pulguinha em pulguinha, de pessoa em pessoa, eu vou mudando alguém.

Eu acredito que quando a sua mãe escuta a música (a minha, da escritora), quando alguém escuta a música e fala “Ah eu choro, ouvindo” é sinal que de alguma forma eu consigo eternizar aquilo e fazer uma mudança, movimentar algo na corrente contrária.

~ Existe diferença no feminismo negro? Qual?

~ Todo mundo pergunta isso para mim, eu acho que existe. Quando eu estive nas mesas de feminismo eu percebi que muitas vezes que eu era a única mulher negra. Muitas vezes as pessoas queriam falar pelo povo negro e pelo povo indígena – eu não sinto só falta do povo negro eu sinto falta de mulheres indíginas sendo representadas – mas hoje as pessoas falam que eu sou uma representante do feminismo negro, eu só defendo aquilo que eu sou… Eu não tenho como defender outro feminismo, eu entendendo, eu leio mas eu sei qual é o meu lugar, eu tenho espelho, eu sei que as pessoas vão me olhar como uma mulher negra, e que se eu não fosse, de alguma forma as coisas comigo seriam diferentes, qualquer outra pessoa tem um outro tratamento que é perceptível num simples olhar… Mas aí eu vou desconstruindo as coisas, e acredito e respeito muito o feminismo negro, porque eu já estive em muitos lugares onde só eu era negra, ou só eu e mais alguém (aquela cota, sabe?) então isso faz com que nós, mulheres negras, tenhamos muitas vezes que falar, que impor, que dizer…

… mas eu acredito que no fundo todo mundo luta pelo mesmo ideal, que é destruir o machismo.

E que muitas vezes tem esse recorte de classe, quando se trata de violência, existem dados que provam que existe um recorte de violência muito maior quando se trata da mulher negra, diminuiu o índice de violência contra a mulher branca, quanto a mulher negra aumentou… Esse recorte infelizmente existe na sociedade e existe no feminismo, e isso me faz entender a real importância da existência do feminismo negro, porque muitas vezes a gente não está nos lugares, ou porque muitas vezes o meu trabalho é muito mais conhecido por estar no movimento gangster do que muitas vezes estar num movimento de um feminismo eu nem conheço…. Palavras que eu nem conhecia, e às vezes eu conheço ouvindo de outras pessoas, e eu falo: Ah é isso? Ah existe isso… Porque eu estou no feminismo mais underground, que muitas vezes é esse feminismo negro, é esse transfeminismo, é à margem mesmo…

~ Qual o seu objetivo?

~ É conseguir alcançar algo todos os dias – mesmo nas dificuldades – estar criando, produzindo coisas novas. Meu maior objetivo é criar um CD que esteja com fácil acesso em todas as redes, trabalhar mais com o meu produto, atingir cada vez mais lugares e pessoas, e talvez ir para fora do Brasil – como agora, eu estou vendo que a minha música está atravessando fronteiras, barreiras e oceanos – meu objetivo é viver de música, que eu acredito, militando, sendo quem eu sou de verdade. Esse é o meu maior desejo, continuar estudando – eu gostaria de verdade de me formar como produtora musical – e poder passar para outros, eu gosto muito de compartilhar tudo o que eu aprendo. E dar voz – dar voz não… Isso eu aprendi com a Linn da Quebrada e nunca mais esqueço:…

Dar voz não, dar OPORTUNIDADES – porque eu não posso dar voz para ninguém, as pessoas já têm voz própria – eu vou dar oportunidade, dar a chance às vezes de gravar… de dar um empurrãozinho para pessoa continuar… E a minha maior gana hoje em dia acho que é aprender cada vez mais, porque quanto mais eu aprendo mais eu consigo lutar para derrubar o sistema.

 

Para conhecer o maravilhoso trabalho da Luana aqui estão suas mídias sociais:
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Para contato para shows, eventos e palestras email: producao.luanahansen@gmail.com

Encerro com o link de uma música que para mim é um hino maravilhoso e um despertar para o momento em que vivemos:

 

Carinho meu,
Gláucia Figueiredo

(Fotos : @fridasphotosvideos)


Mãe de Lenin e Manuella, Doula, Terapeuta Corporal, Instrutora de Yoga com foco em Gestantes e Crianças, da Associação Internacional de Ecologia Feminina,desenvolve e aplica projetos na área, workshops e atendimentos individuais desde 2008.