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Entrevista 5 de Maio ~ #DiaInternacionalDaParteira, com Barbara Harper!

~ A Barbara Harper é uma Mulher Inspiração! Mãe d’água, Parteira, autora de livros, activista pelo parto na água,
Fundadora da Waterbirth International  (o maior e mais importante movimento pelo parto na água no Mundo!)… Desde que foi mãe que não parou de viajar e aprender, de abraçar e oferecer a todas (e todos!) por TODO O MUNDO a mensagem:
“Parto na água, melhor para a mãe, mais suave para o bebé”.

Esta mulher – com uma generosidade e sentido de missão incríveis – já veio a Portugal várias vezes (temos muita sorte!) e entre cursos de formação em parto na água para profissionais de saúde, visitas a hospitais, workshops sobre parto suave para casais e Doulas e abraços (muitos abraços!) tem-nos ajudado a fazer magia! É nossa madrinha, nossa Mãe Água, nossa INSPIRAÇÃO!!

Ainda não a conheces? Ela vai estar em Portugal de novo já durante este mês de Maio (neste evento AQUI).

A nossa campanha #umaPiscinaDeCadaVez, como não podia deixar de ser, é feita de mãos dadas com a Waterbirth Internacional! (Vê mais sobre a nossa campanha e como podes contribuir AQUI).

E agora sim, neste dia Mundial da Parteira, apresentamos com muito prazer a nossa querida Barbara Harper, uma entrevista:

 

~ Como é que o parto na água entra na sua vida?

~ O parto na água surgiu trazido por uma cliente com quem eu estava a trabalhar como enfermeira numa clínica, uma clínica holistica. Ela chegou e quis mostrar-me um parto na água, porque ela se ia preparar para parir na água, e eu fiquei intrigada. Ela mostrou-me uma revista, havia uma imagem de um tanque de vidro com uma mulher dentro e o bebé estava a flutuar entre as pernas dela, com o cordão umbilical. Eu olhei e fiquei: “Como é que funciona? Eu nunca ouvi falar nisto!” Eu já era enfermeira há 12 anos, e já tinha estado em muitos partos em hospital, mas nunca tinha visto algo tão intrigante e tão belo.

Eu perguntei se me podia emprestar a revista, levei-a para casa, mostrei ao meu marido e disse: “Eu acho que devia investigar isto, porque se de facto funciona – e eu comecei a pensar logo na fisiologia – eu acho que podemos ter outro bebé“. O meu marido andava a pedir um bebé e eu disse: “Não! Um chega. Eu já tive um bebé e não vou passar por essa experiência degradante de tortura e abuso outra vez” – que foi o que sofri no hospital, e era o parto típico na América em 1978. Ele leu o artigo e diz: “Boa! Vamos para a Rússia ter um bebé!” porque era daí o artigo, era sobre o Igor Tcharkowky, na antiga União Soviética.

Eu fui pesquisar, fui para a biblioteca médica e não consegui encontrar mesmo nada escrito sobre o assunto, isto foi a primeira coisa a ter alguma vez sido publicada nos Estados Unidos, mas eu não conseguia largar a ideia, estava intrigada.

Chamei a tal mulher: “Eu gostava de falar consigo“, ela apresentou-me a uma parteira, e essa parteira apresentou-me a outra parteira, e ESSA parteira estava no norte da Califórnia a escrever um livro sobre parto na água – e ela só tinha assistido talvez a uns 20 partos na água mas estava a escrever um livro sobre isso. (E eu ainda sou amiga de todas estas pessoas, 33 anos depois!)

~ Barbara Harper com o seu segundo filho, bebé d’água, 33 anos depois. ~

Foi assim que descobri o parto na água.
E eu consenti em ter outro bebé. Fiquei grávida na noite em que essa mulher (a que me mostrou a revista) pariu – o bebé dela nasceu em casa, na água, e eu fiquei acordada a noite toda à espera que ele me ligasse a dizer se o bebé tinha nascido em casa, ou se ela tinha ido para o hospital – porque o parto domiciliar não era comum nessa altura – e, enquanto eu e o meu marido esperávamos, fizemos um bebé! (Há melhor coisa para nos manter ocupados?) Por isso o meu filho e o dela têm exactamente nove meses de diferença, e são amigos. Foi um início interessante.

Durante a minha gravidez fui a França, fui à Inglaterra para ver os sítios que já estavam a fazer partos na água, para que eu pudesse ver partos assim, falar com pessoas, entrevistar pessoas, e… eu consegui.

EU CONSEGUI!

Eu fiquei convencida depois de apenas duas semanas em França, e quis gritar em planos pulmões:
“Oiçam todos, nós CONSEGUIMOS fazer isto! Isto é fácil! Isto é fantástico!”
E é uma possibilidade, e é completamente normal para nós.

Na minha pesquisa, na biblioteca médica, na biblioteca de antropologia, eu encontrei referências a parto na água que vinham de culturas e civilizações muito antigas. E no departamento de antropologia encontrei um livro que foi escrito nos anos 60 que defendia que nós – nós, seres humanos – na nossa evolução passámos um período pela água. Que na realidade evoluímos das árvores, os macacos descendo para as planícies, onde era demasiado quente e que fomos para o oceano onde estava mais fresco, e começámos a apanhar conchas e a abri-las e a alimentar-nos de mariscos. E que é por isso que precisamos tanto de iodo, e outras coisas que estão nos mariscos. Isso intrigou-me, chamava-se “The Descent of Woman” (The Classic Study of Evolution, por Elaine Morgan).
Foi tão incrível que sempre que eu pensava, “Estão e isto? E aquilo?” a resposta vinha, apenas, era como se fosse o universo a dizer:
Aqui tens! Aqui está um buffet e nós vamos dar-te tudo o que necessitas para seguir com este tema.

Quando conheci o Igor Tcharkowsky, depois de o meu segundo filho ter nascido em casa, na água, ele disse-me que fomos seleccionados, apenas algumas pessoas no planeta receberam a mensagem sobre o parto na água, e que todos recebemos essa mensagem ao mesmo tempo, eu disse:
De onde veio a mensagem!? – e ele disse:
Sirius, a estrela do grande cão (ou estrela canina) – eu fiquei:
Está a falar a sério?!

Eu tive que ir ver, eu não sabia de que estava ele a falar – ele estava a falar em Russo, e eu pensei que talvez tivesse entendido mal… mas conversávamos com um intérprete que falava muito bem inglês, e ele disse que todos recebemos a mensagem ao mesmo tempo, de que tínhamos de trazer isto de volta ao nosso planeta, para salvar a humanidade – eu não contei isto a muitas pessoas (de maneira nenhuma!) porque não quero que as pessoas pensem que sou louca, mas isto foi o que ele me disse!
E eu pensei que ele era louco, sim! Mas depois… eu conheci as pessoas que ouviram falar sobre isto, e todas na mesma altura, e começámos: “Quando ouviste falar nisto?” e tudo aconteceu no mesmo período de três meses, no início do ano de 1980, e eu não queria acreditar!

Isso foi uma espécie de introdução espiritual ao parto na água.

Na noite em que o meu filho nasceu… Eu preparei-me para este parto usando a técnica de “rebirthing“, usando a minha respiração, trabalhando com uma Parteira muito espiritual que nessa altura já tinha ajudado algumas outras mulheres a parir na água, estudando textos, estudando escrituras, trabalhando mesmo o meu lado espiritual. Criando laços com o bebé, fazendo aulas de natação pré-natal – nadei muito no oceano, e durante a gravidez tive um encontro com um golfinho, o golfinho nadou à minha volta, e foi como se me enviasse mensagens, como se me “irradiasse” (ou coisa assim!) com as suas vibrações sonoras. Por isso senti-me muito ligada ao oceano.

No dia do parto eu não conseguia encontrar o meu marido, eu não conseguia encontrar a Parteira, não conseguia encontrar a pessoa que vinha limpar, nem a harpista que vinha tocar Harpa ao vivo no meu parto. Não conseguia encontrar ninguém! Não havia “bips” nem telemóveis naquela altura, e eu até cheguei a ir de carro procurar o meu marido na praia. Não conseguia encontrar ninguém… já estava pronta a fazer tudo sozinha. E senti:
Bom, talvez seja isto que Deus quer que eu faça“.

Deixei algumas mensagens, o meu filho Samuel nasceu logo após a meia noite, a 27 de Outubro, e a minha Parteira não recebeu a mensagem antes das dez da noite. Eu comecei com contrações por volta do meio dia, e eu acho que estava a aguentar, eu acho que estava pronta mas um pouco tímida para fazê-lo sozinha, porque quando ela chegou…

Eu entrei na água e era tão diferente, era… era como entrar no oceano e simplesmente poder flutuar.

Eu tinha construído a minha própria piscina, em PVC, as bases da loja de ferragens, cola, parafusos, material para cama de água (comprei uma cama de água, cortei-a e enrolei à volta da estrutura, antes disso pus carpetes muito grossas para lhe dar corpo, e depois enrolei o material da cama de água por cima. Mas o que não calculei foi o peso da água, porque a água pesa quatro kilos por galão… não sei quantos litros são um galão, mas são alguns… de qualquer modo, era pesado, era mesmo pesado, tinha 300 galões de água ali!). Bom, então, eu entrei, o bebé saiu muito rápido, e o meu marido não tinha entrado na água, a minha Parteira tinha. Depois do bebé sair, e da placenta sair, cortámos o cordão, passei o bebé para o pai, eu saí da água e a Parteira começou a ver-me, se tinha rasgado algum coisa, e eu ouço um pingar: “Ping, Ping, Ping”, ouvi um pingar e sentei-me (e por falar nisso, eu não rasguei nada, nadinha!) e de repente toda a piscina se desmontou! 300 galões de água por todo o quarto, foi como um tsunami a subir e a descer a parede e a sair pelo hall…! O meu marido, simplesmente, calmo, segurou o bebé, levantou-se e abriu a porta do quarto e deixou a água escorrer para o jardim. Foi uma confusão! E ali mesmo eu olhei para a minha Parteira e disse: “Se vamos fazer isto eu tenho de criar piscinas de parto! Porque esta não funcionou!”. E também lhe disse…

… a minha vida tinha mudado! Aquela noite (do parto) mudou a minha vida! E eu tinha mesmo de dizer a todas as mulheres no planeta que isto era possível.

Foi assim que começou!

Depois eu regressei à Rússia… foi quase como se o Igor Tcharkowsky me tivesse dito que fui escolhida. Que fui uma pessoa escolhida para levar esta mensagem.

Entre o meu parto e a altura em que fui a Moscovo eu já tinha ajudado cerca de 15 mulheres a parir na água, na minha casa (e algumas em casa delas), e já tinha dado o meu primeiro seminário sobre parto na água, com base na informação que eu tinha reunido em França. Uma dúzia de parteiras e enfermeiras vieram a esse seminário na minha sala, com bebés ao colo, e a dar de mamar. Elas avançaram com a mensagem e começaram a fazer partos na água, e treinaram pessoas e continuaram! Isto foi em 1985.

A partir daqui eu nunca mais olhei para trás, eu disse:
Como podemos fazer isto acontecer?
Eu falei com pessoas, recebi doações, fiz reuniões – convidei o meu Quiropratico, uma enfermeira, as parteiras da área, alguns casais que tinham parido na água – tivemos um grande encontro de pessoas que já tinham parido na água, a partir de algumas parteiras que conhecia. Fizemos fotografias, fizemos picnics (tal como as mães d’água fazem! Como vocês!) e criou-se um momentum. E eu nunca deixei o momentum morrer, era uma… podemos dizer que era uma obsessão, mas também uma missão.

Era uma missão deixar que toda a gente do planeta soubesse, ouvisse falar e tivesse o direito de escolher algo que é tão
bom assim.

Comecei a dar mais seminários, a aparecer na televisão, a escrever e a publicar artigos, a convidar pessoas de outros países para virem e ficar em minha casa, a viajar para outros países, a estudar.

A minha primeira palestra profissional foi no Royal College of Midwives, em Londres, em 1988 (ou 1987). Na plateia estava uma mulher do Ghana, África ocidental, e quando eu mostrei algumas imagens em slides e falei sobre a minha preparação, ela levantou o braço e diz (com um sotaque inglês lindo):

Gostava de dizer que no Ghana as mulheres dão à luz no oceano.” – assim mesmo! Eu disse,
A sério? Podemos falar?

As pessoas começaram a aparecer. Como uma tarde em que eu estava sentada debaixo de um enorme carvalho a ouvir um nativo americano de 96 anos, chamado Avô Samu (da tribo Chumash – ele tinha um intérprete, e falava na sua língua nativa) que começou a falar de quando era menino e via mulheres a parir – porque o parto era um momento sagrado, e só as mulheres podiam estar presentes, mas as crianças pequenas também podiam – ele dizia que havia um momento quando as mulheres desciam a praia, na costa da Califórnia, e construíam um abrigo com ramos de Salgueiro, e era a “cabana de parto”. E os homens criavam um tambor, faziam um buraco na areia, criavam um tambor e começavam a dançar, com um tambor, ele dizia que havia sempre tambores. E o bater do tambor era como o bater do coração, era exactamente o bater de coração do bebé, porque cada pessoa ali presente estava ligada ao bebé, porque esse bebé significava que a tribo continuava. Por isso toda a gente, em toda a comunidade investia neste novo ser humano que era trazido. E a mulher ia para a sua cabana, ele agachava-se e entrava – era como um “sweat lodge” – e saia e ia para o oceano, e os golfinhos nadavam por perto. Ele disse que ela nadava e que quando saía tinha nos braços um bebé com um cordão branco a descer pela barriga dela – foi assim que descreveu o cordão umbilical. Toda a gente olhava para mim e dizia, “Sabias disto?!” O intérprete chorava por a história ser tão bonita. Isto foi uma confirmação, apenas uma confirmação do universo de que: “Sim, as mulheres faziam isto há 100 anos atrás“. Se ele tinha 96… e se isto aconteceu a 1985 ou 86, isso quer dizer que aconteceu quando ele tinha cerca de quatro anos de idade, na passagem do século. Foi tipo: “Oh meu Deus! As mulheres davam a luz no oceano no Ghana. Pariam no oceano em Santa Barbara, na Califórnia! E os golfinhos eram as testemunhas, faz-nos mesmo pensar na ligação entre tudo isto“.

Por isso eu não podia nega-lo, eu estava sempre no sítio certo, sempre a fazer a coisa certa, sempre na altura certa. Era uma coisa de dar arrepios. Não foi fácil, tenho de admitir, houve dificuldades. Houve dificuldades financeiras, houve… eu fui presa por ser parteira sem licença, fui processada… – aconteceu que um bebé não sobreviveu um parto… e eu tive de enfrentar todas essas coisas.

Mas eu quis continuar ou parar e arranjar um emprego?
Eu não conseguia parar, nem uma única vez. Nem uma. Mesmo durante tudo isso!
Uma coisa levou à outra, o meu escritório cresceu – começou por ocupar o espaço de um guarda fato no meu quarto, para ser um armário na cozinha, depois na sala de jantar, depois todo o quarto de hóspedes, depois toda a nossa garagem foi transformada em escritório, depois numa casa inteira, depois um prédio de escritórios.
Quando chegámos a 2007 eu já tinha produzido quatro grandes conferências mundiais sobre parto na água, tinha publicado o meu livro, produzido dois filmes, e preparava-me para a conferência do “Gentle Birth World Congress” (conferência mundial pelo parto suave). Empregava já 22 pessoas e tinha cerca de 300 voluntários. Eu fui de prestar serviço – nesse primeiro ano que disse que o Waterbirth International foi criado – para fornecer informação actualizada sobre parto e nascimento na água.

A nossa missão é fazer com que todas as mulheres tenham a opção, e a possibilidade de escolher ter o trabalho de parto e o parto na água, se isso for o seu desejo. Fazer do parto na água uma opção disponível em todos os países no mundo – essa é a nossa missão!

Eu posso dizer que, com 102 países no mundo que oferecem parto na água, nós chegámos a um ponto em que organizações como as mães d’água podem tomar conta! E VOCÊS podem ser o exemplo, e o centro de recursos, e o centro de treino de profissionais para parto na água em Portugal!

A associação de parteiras da Galicia, e várias outras organizações com quem trabalhei em Espanha oferecem informação sobre o parto na água. No México – trabalho com eles; no Canadá – trabalho com eles; na Venezuela, Argentina, China, Tailândia, Vietname, Nova Zelândia, Australia, Malásia, em todo o lado… Polónia, Reino Unido, todo o lado onde vás:

Ah, queres parto na água? Ok, isso soa muito bem.” – é normal, e em alguns sítios é um pedido completamente natural e rotineiro. E é isso que vai acontecer aqui em Portugal – vai simplesmente ser aceite. Vocês vão chegar às massas, mulheres suficientes vão pedir e exigir parto na água. Vai haver pessoas suficientes informadas para perceber a verdadeira fisiologia do parto, e que não há nenhum risco para o bebé no parto na água.

~ Os bebés não podem engolir ou aspirar a água, é fisiologicamente impossível! ~

Quando a verdadeira fisiologia for revelada e compreendida completamente, as pessoas vão instalar piscinas de parto em todos os hospitais do mundo! Pode não acontecer durante a minha vida, mas vai de certeza acontecer durante a tua.
Por isso, é uma possibilidade!

~ Pode falar sobre os benefícios do parto na água para a mãe e para o bebé?

~ Gostavas de fazer o trabalho mais difícil que já fizeste na tua vida flutuando numa piscina de água quente?

É um trabalho duro, não necessariamente fisicamente (mas sim, fisicamente também), mas é um trabalho transformador. Estás a transformar-te, a virar-te do avesso, cada célula do teu ser está envolvida neste processo, é necessário render-se, deixar que o bebé venha. Não podes controlar, e é quando tentas controlar o processo que as coisas não correm bem.

~ O maior benefício é que a água é um veículo de transformação. Podes mover-te na água, avançar, atingir estados mais profundos de consciência. ~

O que queremos, num parto?
Queremos permitir que as hormonas do parto fluam, sem interrupções: occitocina, prostaglandina, estrogenio, as endorfinas do prazer e da transcendência, as catacolaminas da excitação, e o desenvolvimento da prolactina (que ajuda a produzir o leite materno).

Tu e o teu bebé têm uma união simbiótica de carne e sangue, e hormonas, e pensamentos, e células – a água permite que o processo de “deixar acontecer” (não resistir, confiar, render-se) seja suave e sem interferência.

Quando treino parteiras e médicos por todo o mundo, eles aprendem que:
Eu não tenho de puxar o bebé! Eu não tenho de fazer o parto! O bebé nasce por si.

A água foi-nos dada como uma benção para que possamos ver isso! Nós conseguimos ver, fisicamente e espiritualmente, que o bebé tem um programa no cérebro que diz: “Eu sei Nascer. Eu sei o que fazer, o meu cérebro faz-me mover de um determinado modo na pélvis da minha mãe, e quando eu me movo, ela move-se.” Porque mãe e bebé são interdependentes, e a água permite esse movimento, abre a porta para que o bebé não tenha restrições.

~ As pesquisas e estudos provam que a mulher que tem o trabalho de parto e parto na água o faz em metade do tempo que a mulher que faz o trabalho de parto e parto numa cama. ~

O que também é uma benção da água, e que Deus quis que nós víssemos, é que os bebés que nascem na água não têm outro sítio para onde ir senão para aqui! (põe as mãos no peito) aqui mesmo! Neste espaço sagrado, sagrado, sagrado, que existe para que o seu cérebro se desenvolva. O cérebro, o corpo, o sistema respiratório e neurológico, este espaço é vital para que tudo se desenvolva. Nós não temos a capacidade de gestar um bebé até que ele saiba andar, falar, e alimentar-se a si próprio, por isso parimos um ser humano imaturo, com um cérebro imaturo, mas este espaço, onde tens o teu bebé, este santuário da vida, é seguro, é um sítio onde o bebé sabe estar.

imagem de parto de Roberta Martins

~ Num parto na água o bebé sai da água e vem suavemente para este espaço de santuário (o peito da mãe), de segurança, de calor, de protecção, de nutrição, e pode então finalizar o desenvolvimento do ser cérebro. ~

Por isso, apenas esta benção, para as mulheres, é uma grande, grande parte do que faz estes bebés calmos, centrados e focados.
O meu foco sempre foi o bebé, eu tive um parto na água para o meu segundo filho porque queria que essa criança fosse calma, centrada, equilibrada, e que fosse recebida com amor, que sentisse e experienciasse paz/ harmonia, para que cada célula do seu corpo gritasse:
Aaaaah! Eles reconhecem-me! Eu sou um ser completo, espiritual, que veio num corpo para cumprir uma missão neste mundo. E esta pessoa a partir de quem eu vim reconhece em mim o sagrado, aqui mesmo, agora.

Esta é a benção da água. Porque esses bebés vêm para aqui (para o peito da mãe), as mães olham para eles, e fazem “Aaaah“.
Isto acontece quando a mãe é suportada, no seu espírito e no seu corpo. Quando ela pode libertar este novo ser e recebê-lo, dar-lhe as boas vindas e dizer: “Tu pertences aqui” (no peito da mãe, nos seus braços, no seu colo), não “tu pertences-me“, mas “tu pertences aqui“! E a água permite esta transição suave.

Eu sempre achei que as pessoas também deviam morrer na água. Apenas puder flutuar e ser sustentado, exactamente do modo como viemos a este mundo… Eu falei com um hospício e eles fizeram uma experiência com pessoas em fase terminal, e todas as pessoas que tiveram esta experiência de flutuar na água perto da sua morte disseram: “é assim que quero morrer” – é transformador!

Sim, eu posso dar-vos uma lista de tudo o que provámos e investigámos, mas as investigações só falam do que podemos ver, e o nascimento é tão mais do que aquilo que podemos ver, ou sentir, ou ouvir, é um evento a um nível muito mais profundo, é o que temos neste planeta de mais profundo. Todos chegámos a esta planeta por uma mulher, todos nascemos de um corpo feminino – todos, cada um de nós, seja homem ou mulher, veio desse processo de crescimento e transformação – é um milagre!

~ Porquê parto na água nos hospitais?

~ Nós começámos uma experiência, culturalmente, todo o planeta, pouco a pouco, se envolveu neste pressuposto de que a ciência pode tornar o parto mais seguro. Eu já estive em 61 países, para ensinar, para aprender, para partilhar, e para ver os países que têm os melhores índices de saúde materna e neonatal, e a única coisa que estes têm em comum são parteiras!
E as parteiras sempre estiveram lá, desde 1700, nunca deixaram de existir parteiras. Mas esta “experiência cultural”, que começou depois da I Guerra Mundial, era fechar as “casas de parto”, eliminar as parteiras, construir hospitais, tornar tudo asséptico, tudo clínico – produto da mente – e institucionalizar o processo do nascimento e do cuidado ao recém-nascido, separando as mães dos bebés. Havia a unidade neonatal, o bloco de parto… as mães nem sequer viam os seus bebés, por vezes, na Rússia, só 10 dias após o parto! As pessoas separavam os bebés das mães por rotina, e diziam: “Oh, nós temos de ter a certeza de que eles sobrevivem“. Por isso eles interrompiam este processo miraculoso que Deus criou! E punham-no nestas instituições, e depois as delegações de saúde, os governos, as cidades concordavam: “Bom, nós temos de cuidar do nascimento, porque estes são os nossos novos cidadãos“, e a gravidez tornou-se um perigo, e uma doença, que tinha de ser tratada, e investigada, e curada por meio de cirurgia e parto com intervenção médica.

Na Malásia há um livro, é um livro pequeno e verde, que todos os médicos recebem, e que tem os 63 passos necessários para fazer um parto, e se saltares um passo que seja podes ser punido. Os passos são todos sobre a medicalização e des-humanização do parto. Eles deixaram de o fazer de modo humano para tentar torná-lo mecânico, para prever quando o bebé vai nascer, para olhar para o corpo da mulher como uma máquina que pode produzir este produto chamado “bebé”, para tratar o sangue e placenta como lixo, como algo estranho.

Não é uma coisa boa!! Não! Não é mesmo! Então, nesses 63 passos estão todas as coisas que podemos fazer ERRADO…

Quando estava na sala de reuniões, a falar com médicos num hospital – no Hospital United Family, em Pequim, na China – eu dei um seminário e eles trouxeram os seus melhores médicos, e sentamo-nos juntos durante três horas, eles fizeram perguntas e eu respondi, baseada não só na ciência mas na minha experiência e nos princípios do parto suave, e nas práticas do nascimento suave. Na fase de conclusão desta discussão o principal obstetra olhou para mim e disse:
Bom, segundo as suas respostas, é muito claro para mim que nós temos estado a fazer tudo errado. – eu disse,
Eu podia pedir desculpa por isso, mas não há necessidade, porque tem razão, é a verdade e tem agora o poder de mudar isso, e pode mudar tudo sem gastar um cêntimo, porque é antes de mais uma mudança de filosofia.

Esse hospital em Pequim mudou, fizeram pequenas mudanças no início, e sim, começaram com parto na água; sim, começaram a por os bebés no santuário (pele com pele com a mãe); sim, deixaram que as mulheres se levantassem da cama e se movimentassem; deixaram que as mulheres bebessem durante o parto (mas ainda não estão preparados para que elas comam também).

~ Por isso… “Porquê parto na água nos hospitais?” ~
Porque já criámos, em escala global, a instituição que cuida das mulheres e dos seus bebés, e agora tudo o que precisamos de fazer é transformá-la. O que temos de fazer é transformar as mentes e os corações, e os espíritos das pessoas ali, lembra-las da sua humanidade, de que elas também nasceram de uma mulher. E…

… se elas não tiveram a oportunidade de estar nesse “santuário”, que é o peito da mãe, ajudá-las a processar e a perceber que o processo de parto influência QUEM SOMOS como seres humanos.

Quando perceberem isso vão mudar as suas práticas.
Por vezes acontece que choram, por vezes sentem-se culpados, e alguns pedem perdão, outros deixam de exercer e seguem outra carreira, porque não conseguem viver com o facto de terem, provavelmente, provocado dano em mulheres e bebés. Quando vêm os verdadeiros direitos humanos do nascimento e da experiência de parto é difícil para eles continuar. Para alguns, outros processam e percebem.

~ Por isso… “Porquê parto na água nos hospitais?” ~
Porque pode ser integrado em cada unidade de saúde, em cada país, em cada cidade, em cada vila, em cada hospital do planeta! Se pudermos suportar o sistema de saúde que temos, construído na importância da instituição, numa compreensão e sabedoria da fisiologia da mãe e do bebé, podemos!

E ramificar. Criar um bloco de parto no hospital onde não há monitorização, não há avaliação (e isto só para gravidez sem risco); depois criar uma casa de parto do outro lado da rua, em frente ao hospital; depois no final da rua do hospital… dar pequenos passos, e começar com essa instituição que existe, criando ramos, pode ser feito!

~ Quais são as principais resistências ao parto na água que encontra?

~ Bom, quando eu vou ensinar num hospital eu não encontro resistência nenhuma. As pessoas comovem-se e choram:
Eu quero fazer isto! Isto é surpreendente!
A resistência vem das pessoas que não estão esclarecidas, que não sabem. A resistência vem daquelas pessoas – incluindo mulheres que pariram com epidural ou por cesariana eletiva – que dizem:
O meu bebé está óptimo. Olha para ele. Não há nenhuma relação entre o parto e a consciência no ser humano, nenhuma. E tudo isso que dizem é uma treta“. Essas são as resistências. Elas vêm de um espaço de profunda Desconexão.

Muitas pessoas, que vivem desconectadas da sua vida espiritual e da sua essência interior, pensam:
“Que tem o mundo para me dar?”

Mas os bebés que estão conectados pensam:
“Que tenho eu para dar ao mundo?”

 

Na “arena” do parto acontece assim, com frequência: “Eu não quero parir com dor, tenho medo. Tenho medo de me deixar ir. Tenho medo do processo. Tenho medo das consequências. Tenho medo de ser mãe. Tenho medo de ser responsável. Tenho medo. Tenho medo. Tenho medo…

É o medo que impede o parto na água, é o medo que cria resistências, é só isso! O MEDO é a barreira! E o medo e o Amor não podem coexistir.

Por isso, quando sentes esse espaço, ou rodeias essa mulher (esse hospital, ou clínica, ou casa…) com amor, então o medo tem de sair. E é por isso que funciona, que é um sucesso. É por isso que temos visto mudanças enormes.

É uma possibilidade, uma opção, tu escolhes. Mas por favor olha para a ciência, examina o teu próprio coração, olha para o teu parto – quando as pessoas dizem,
Eu não posso olhar para o MEU parto…!
Sim, podes! Está no teu sistema endocrino, está nos teus tecidos, na tua fascia, nas tuas células, na tua mente, no teu coração, no teu espírito… sim, TU PODES examinar o teu próprio parto!

Por isso, e embora eu não fale sempre assim frente a uma audiência 🙂 a mensagem passa, eu não sei Como ou Porquê, é simplesmente Quem Eu Sou.
E quando acontece… como aqui em Portugal, no Hospital Garcia de Orta, havia pessoas a chorar na plateia, parteiras/ EESMO, porque elas foram tocadas no seu espírito. Essas pessoas são tocadas porque entendem a sua própria humanidade. E sim, a resistência desaparece quando o medo sai.

~ Visita ao Hospital Garcia de Orta ~

~ Como sente que os profissionais de saúde olham para o parto na água, agora, em Portugal?

~ Basicamente, como Martin Luther King disse, temos de nos centrar, de nos enraizar e conectar com a Fonte, por outras palavras – ele era pastor, por isso fala em rezar, mas – encontrar o centro, a raiz, e conectarmo-nos, e voltar a um espaço onde estamos na nossa Felicidade. E quando estamos no nosso espaço de Felicidade/ realização/ gratidão e benção, toda a gente quer juntar-se a ti, porque parece um sítio óptimo para se estar!
Vai haver uma altura em que os profissionais de saúde de Portugal se vão juntar e dizer “Não” ao abuso diário, físico, emocional e espiritual, de que são vítimas as mães e bebés. Vai haver um dia em que os profissionais de apoio ao parto do Egipto, do Irão, da China… – de todo o lado! – quando eles vão perceber a fisiologia e tudo isso e vão dizer “o que é demais, é demais”!

~ Visita ao Hospital Beatriz Ângelo ~

Mas NÓS, as pessoas fora desse contexto, temos de criar espaço para que eles o possam fazer. Temos de nos reunir assim, assim mesmo (como num picnic), mas com a intenção de ficarmos no nosso espaço de Felicidade e bem estar para que essas pessoas se possam juntar a nós. E convida-los, convidar… para os encontros, para as conferências, para os workshops, para os sítios onde possam sentir a sua própria humanidade e transformação. E eu vejo isso acontecer por todo o mundo, em todo o lado.
É uma altura incrível que vivemos! Absolutamente incrível!
Está a acontecer ao nível das corporações, ao nível ambiental, está a acontecer nos hospitais… vai haver uma altura em que estes profissionais vão agir!
Mesmo há dias (no curso de certificação em parto na água) eu vi! Havia grupos a perguntar:
Como implementamos parto na água?” – eu dei as minhas respostas “fazemos isto, fazemos aquilo”, e eles estavam a tomar a responsabilidade! Profissionais de outros hospitais (não só do Garcia de Orta, onde aconteceu a formação).
Todos estavam entusiasmados.
Não havia barreiras.
Podemos juntar-nos.

~ Visita ao Hospital da Póvoa do Varzim ~

Contei a história do médico que me disse que levavam os bebés para longe das mães e que os mantinham afastados por 12 horas, para ter a certeza de que eles estavam bem, e que eu disse:
Aaaaah! Vocês têm de PARAR com isso imediatamente! Estão a fazer mal a estas mães, estão a fazer mal a estes bebés! Vocês têm de ir buscar estes bebés e entrega-los de volta às suas mães já! Estão a estragar a vida destas crianças e destas mães para sempre! Parem!” – disse assim mesmo! Ele olha para mim e diz,
Ok…” – este médico era o dono do hospital, o obstetra principal, e eu falei assim.

Por vezes a nossa paixão tem de ser libertada, como diz o Martin Luther King “O tempo para fazer o bem é sempre o certo.” ~ BH (imagem de Barbara Araujo)

~ Acredita que é possível curar a memória do parto, a memória que vive no corpo da mãe e do bebé, de um parto que não correu da melhor maneira?

~ Sim, nós podemos transformar tudo, onde tenha havido distúrbio, trauma, ruptura – pode ser reparado. É necessária consciência, é necessário amor, é necessário espaço… é preciso remover o medo e substitui-lo… podemos substituir os nossos pensamentos. O AMOR pode substituir o medo por uma simples escolha nossa, basta um pensamento.
Eu trabalho com mulheres o tempo todo e digo: “Escolhe a Felicidade. Escolhe a alegria. Eu escolho a alegria.

Conhecemos a mente humana melhor hoje do que em qualquer outro momento da nossa História. Sabemos como trabalhar e resolver trauma, o que podemos fazer ao nível das palavras, e ao nível físico – sacro-cranial, libertação do tecido fascia, Reiki, acupunctura – todas as ciências orientais, a meditação o hipnose… nunca tivemos tantas ferramentas como agora, para trabalhar com mulheres em trabalho de parto, e depois de um parto traumático. Quanto mais ajudamos as mulheres e bebés a passarem por isto, mais as pessoas vão escrever sobre isso, mais vídeos sobre isso vai haver.
Eu prevejo que em 10 anos toda a nossa medicina vai começar pelo trabalho energético primeiro.
Sim, onde há dano, pode haver reparação/ Cura.

~ Que palavras quer deixar para os que têm ainda dúvidas e resistem à ideia de parir na água?

~ Os estudos, a investigação e pesquisa provam-no – 100 mil mulheres aceitaram ter os seus partos estudados, está documentado – a água proporciona um parto MAIS FÁCIL para a mãe, e MELHOR para os bebés, sem dúvida!

~ Três palavras que definam o parto na água?

~ Calmo, poderoso, paciente.

 

~ Hoje é Dia Mundial da Parteira, e aqui fica a nossa homenagem, a partilha desta conversa Uau, inspiradora, mágica, transformadora, com uma parteira absolutamente única! Gratas, Barbara Harper! Que se sigam muitos anos a fazer este trabalho! ~


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.