Uma mulher de cada vez Campanha uma piscina de cada vez / Escrita de Raiz

Quando eu era criança era segredo.
Na minha adolescência, entre as minhas amigas, para as minhas tias e na realidade da minha mãe – era segredo.

Não me falaram nem uma vez sobre isso na escola, e nas festas do pijama também não. Não foi nunca tema que os rapazes dominassem, não constava dos livros nas prateleiras da sala da minha mãe, e nem mesmo na biblioteca da vila consegui encontrar alguma coisa sobre o assunto. Era segredo.
Os filmes não falavam nisso (pelo menos não os que eu via), as músicas também não. Não falavam. Nem os padres ou os médicos, não falavam.

Demorei tempo a ter acesso a esta verdade, e o segredo – se é que alguém o tinha – foi sempre bem guardado de mim.

Cresci. O meu corpo mudou. Apaixonei-me, descobri os prazeres do sexo (não necessariamente por esta ordem), mas ainda assim o segredo não era meu. Não era para mim esta magia, e mesmo a ciência que ela encerra se mantinha de mim afastada…
Namorei, estudei, trabalhei, viajei… e o véu translúcido da magia do feminino começou a levantar-se para mim…

Len.ta.men.te.

Descobri o caminho do sexo ao sagrado sem tomar nenhum atalho. Caminhei longos anos perdida nas ideias de culpa, de pecado, de proibido, de submissão, de sujo, de perverso, de fetiche, de dor… (e não caminhava sozinha… tantas caminhavam comigo).
Durante décadas tudo à minha volta parecia alimentar a ideia de que a concepção não podia acontecer sem pecado, e o parto não era sem dor.

O segredo mantinha-se.
Era segredo.

Engravidei e não me falaram, não me disseram o quanto era miraculoso o meu estado, e para que transcendência estava destinada.
Não me diziam.
O parto. O parto foi-me apresentado como um “mal necessário”, algo que se deseja rápido e indolor (já que prazeroso não podia ser). Algo entre o assustador e o constrangedor, visceral e sujo, que se pode passar meia adormecida – olhos fechados para a dor.

Não sabia mais nada.
Na minha vida demorou. Durante anos não mo disseram. Mas ainda assim eu descobri.

A semente crescia dentro de mim, e, fosse ou não por mão desse pequeno ser que eu alimentava, o segredo começou a revelar-se… deixei de ter receio. Via já para além do medo – que aliás pertencia mais a outros que a mim – e às imagens de vulvas abertas e águas por vezes manchadas de sangue – já não virava o rosto. Os sons da mulher que paria já não me assustavam. E essa tal “hora pequenina”, expressão que todas repetiam mas sobre a qual ninguém falava muito, começou a deslumbrar-me: “afinal o que acontece? Onde se sente? Como funciona? Que parte do corpo se altera? De que maneira?” – perguntava tudo. E foi assim… nas minhas investigações… que descobri o segredo!

Foi esse segredo que me permitiu ter um parto natural, na água, absolutamente transformador. Foi esse segredo que juntou várias mulheres que pariram e que viram parir assim, para fundar as mães d’água!

Sabias que foi assim que nos juntámos? Não juntas por um segredo que se deseja manter mas antes unidas para o podermos gritar mais alto, até que todas (e todos!) o conheçam!

“… Descobrimos o segredo mais bem guardado: que o parto não é dor, que o parto é amor. E que a água nos ajuda a trazer os nossos filhos a este mundo de uma forma mais suave, mais amorosa. É isso que desejamos a todas as mulheres, a todos os nascimentos e a todos os bebés.”

Nas mães d’água há um sonho…
Que todas as meninas, jovens mulheres, mães e anciãs, que TODAS conheçam este segredo.

Sonhas comigo?

 

~ Nas mães d’água criámos uma campanha que ajuda a divulgar esta mensagem, que não desejamos manter secreta, participa e partilha-a! Para que todas possam saber! ~
#umaPiscinaDeCadaVez

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(Imagem de Patricia Ferreira)


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)