A criança não vem apenas para ser ensinada, mas principalmente para ensinar! Entrevista

ENTREVISTA #DiaInternacionalDaFamilia 15 de maio ~ Lisa Joanes e Nuno Campos

~ Lisa e Nuno são pais de quatro filhos (um parto na água e um com uso da água durante o parto), amantes de viagens e praticantes de homeopatia. Um casal inspirador, uma lufada de ar fresco na visão da Parentalidade! Adorámos! ~

Joana (J): Nuno, queres partilhar como sentiste a transformação do homem em homem/ pai, e falar um pouco de ti?

Nuno (N): Eu fui pai pela primeira vez com 22 anos, era novo e foi uma grande mistura de sentimentos e emoções, pois era o nosso primeiro filho. Nessa altura, tudo isso fez-me pensar mais na vida, na forma profissional que ia ter de começar a viver – arranjar um emprego, começar a trabalhar – toda essa estrutura. Foi a passagem do rapaz que ainda queria sair à noite e divertir-se com os amigos, para tentar encontrar uma estrutura familiar. A nível emocional, quando tens o primeiro filho toda a tua vida muda. Não só a nível de estrutura, mas em termos de dedicação a outro ser, a outra luz que está ali na tua vida.

Sou pai de três princesas e um príncipe e marido da Lisa. Temos partilhado imenso, viajado muito com os nossos filhos e nesse sentido tentamos sempre passar uma mensagem um pouco fora dos padrões habituais.

Nitidamente, enquanto sociedade em que o sistema antigo já não funciona, estamos todos em fase de transição e nós fazemos parte dessa transição. Por exemplo, nós viajamos muito com os nossos filhos para diferentes lugares no mundo e por muitos meses. A maior parte das pessoas acha que é dificílimo e não é. Este é apenas um exemplo simples, em que precisamos de dar um passo em frente e não um passo atrás.

Joana (J): Para ti Lisa, como foi sentir chegar o momento da maternidade?

Lisa (L): Tal como o Nuno disse, éramos muitos jovens… Ele tinha 22 anos e eu 24. Vivíamos em Itália e a maternidade surgiu quando ninguém pensava nisso. A minha menstruação atrasou e ambos decidimos fechar os olhos, durante um tempo, de modo a escutar o nosso coração e ter certezas do que queríamos. E, apesar de sermos jovens, sentimos que iria ser maravilhoso. A minha primeira imagem foi ver-nos vestidos de branco e com um bebé no meu colo também embrulhado numa cor branca. E foi com essa paz que soube que ia correr tudo bem… E, realmente, todo o processo foi e é maravilhoso e mágico!

(J): Imagino que os quatro partos foram experiências diferentes, queres partilhar?

(L): Pela minha experiência enquanto mãe, durante todo o estado de gravidez, não é apenas a mãe que transmite emoções para o bebé… o bebé, enquanto ser que já é, também transmite a sua energia para a mãe. São duas energias que estão juntas e se influenciam mutuamente! Assim, em todas as quatro gravidezes que vivi, experienciei emoções diferentes (e algumas semelhantes, claro), vontades diferentes, energias diferentes… E, realmente, todos os meus filhos são crianças distintas e os próprios partos também o foram. Apesar de sermos os mesmos pais, a maturidade é diferente, a energia também, apenas o amor que se sente por eles é igual.

O primeiro parto foi no Hospital de São Francisco Xavier, em 2005. Nessa altura, a mulher tinha de passar o tempo de dilatação numa sala com outras mulheres, que também estavam no mesmo processo. Os pais tinham de sair da sala cada vez que houvesse a necessidade de fazer qualquer tipo de verificação numa das mulheres, pelo que a mamã ficava sozinha. A expulsão em si era feita numa sala de partos, pelo que, nesse momento de expulsão, e mediante a existência de um médico disponível, a mulher era levada numa maca para essa sala… A India foi-me tirada logo após a expulsão. Acho que nem lhe pude dar um abraço ou senti-la no meu colo. Nas primeiras duas horas eles levavam os bebés para serem limpos e porque a mãe tinha de descansar no recobro – esta era a visão na altura. Quando a vi, fui inundada por uma sensação enorme de amor puro. Um amor tão grande, tão transcendente, que fiquei acordada a noite toda só a olhar para ela!

O segundo parto também foi no Hospital de São Francisco Xavier, em 2008, mas eles já tinham feito algumas mudanças. Existia então uma ala à parte, a mulher, se fosse “aceite” (se houvesse “vaga”), já tinha direito a estar numa sala sozinha e fazer todo o parto na mesma sala, na mesma cama. O pai também podia estar presente, tendo apenas de sair para intervenções como o toque. Já não foi um médico que “fez o parto”, mas sim uma enfermeira-parteira, bem experiente e doce. Nessa altura eu estava mais formatada pelas ideias convencionais que sugerem a epidural e a episiotomia (e não conhecia outras hipóteses)… Assim, quando a enfermeira me sugeriu que eu apenas colocasse os pés para cima e fizesse força, segurando-me com as mãos nas barras laterais da cama, eu hesitei, por momentos, mas apesar das minhas dúvidas de então, foi maravilhoso e natural! Ela mostrou-me uma forma mais natural de parir, dentro de um meio hospitalar! Assim nasceu a Serena, que não teve de ficar sem mãe por duas horas (como acontecia aos bebés três anos antes). Só a limparam num instante, ao meu lado, e foi logo colocada no meu peito, no meu colo, para conforto e alegria de ambas!

A terceira gravidez foi praticamente passada a viajar na Ásia, na Tailândia, onde conheci uma senhora sueca que me fez pensar no tipo de parto a que temos acesso em Portugal. Ela disse-me que há 30 anos que a Suécia já não oferece um parto medicalizado como o nosso, em que a mulher tem de estar deitada e todo o processo é contra-natura, contra a lei da gravidade. Na Suécia, o médico é um “auxiliar” da mulher e ajusta-se a qualquer posição que ela escolha para parir, e não o oposto. Essa informação fez-me pensar, porque nesta gravidez sabia que queria algo diferente, só ainda não sabia bem o quê.
Isto foi em 2010. Foi ela que me falou da acupressão na mão e dos pontos nas costas que o pai poderia pressionar para aliviar a mulher durante as contrações. Quando voltei a Portugal, comecei a procurar por informação diferente em relação ao parto. E foi assim que tudo começou a fluir… É maravilhoso verificar que, quando estás aberta, o Universo conspira sempre a teu favor!
Uma grande amiga, que eu não via desde os tempos da secundária, encontrou-me pelo facebook. Ela tinha tido uma bebé na água, em meio privado com a Dra. Radmila! Mais, falou-me que também a sua irmã tinha já feito a dilatação na água em meio hospitalar, no Hospital de S. Bernardo, em Setúbal! (Em 2010, havia um acordo entre enfermeiros e médicos desse hospital, apenas a dilatação poderia ser feita dentro de água, a expulsão tinha de ser fora). Uauu, tudo fluía e as informações estavam a vir até mim… Eu e o Nuno fomos a esse hospital, falámos com o enfermeiro Vítor Varela e preenchemos um protocolo. Pude escolher como iria querer o parto e até mesmo a música, entre outros pormenores, enfim (risos) era uma mudança total para mim e foi tudo mágico!

Nesse parto, a avó do Nuno deu-me uma Rosa de Jericó, que eu deveria manter no quarto, ao meu lado. Esta rosa era usada antigamente para ajudar a mulher no processo de dilatação. Ela começa a erguer-se, a expandir, a dilatar… e quando está totalmente aberta, corresponde ao momento em que a mulher também atinge os 10 cms de dilatação. Assim, ela ajuda tanto a mamã como informa a parteira do momento da expulsão. Existe uma espécie de sinergia entre a planta, o ambiente do quarto e a mulher. Alguns dias depois, quando a rosa seca, significa que o teu útero também já está totalmente contraído. É lindo!

O parto da Yasmin correu muito bem, sempre com a ajuda do enfermeiro Leandro. A dilatação foi dentro de água, com o Nuno sempre a pressionar os tais pontos nas costas (acupressão) a cada contração que eu tinha; a expulsão foi já em terra firme.
Foi incrível sentir o quanto a minha mente já estava preparada e diferente da minha primeira gravidez (onde, com o medo da dor, com a cabeça cheia de relatos dolorosos e por falta de informação, a cada contração que tive, eu contraía-me). Agora, sabia que tinha de fazer precisamente o contrário, tinha de ajudar o meu corpo a parir, ajudá-lo a dilatar… A cada contração tinha de focar a minha atenção na musculatura pélvica, fazendo-a dilatar. Isso é o certo, ajudarmos o nosso corpo, estarmos com ele, sermos um! Parte de nós mesmas e não do trabalho de alguém exterior! E outra coisa é certa, quanto mais rapidamente ajudarmos o nosso corpo a dilatar, mais rapidamente o processo termina.

Na última gravidez, em 2012, já o Hospital de Setúbal tinha um novo acordo entre enfermeiros e médicos: O processo de parto já podia ser feito, integralmente, na água! No dia do parto, e porque sabia que apenas poderia entrar na água com os quatro a cinco dedos de dilatação, andei, literalmente, a descer e subir escadas no Hospital de Setúbal. Depois foi tudo muito rápido, eu entrei na água e em apenas 20 minutos o Moisés nasceu.

A água é realmente um meio maravilhoso. Ajuda o teu corpo a descontrair e acelera as contrações, diminuindo o tempo entre cada uma.

Durante a expulsão, o enfermeiro Vítor disse-me que podia colocar as mãos e ajudar o meu filho a sair e foi aí que tive a alegria de sentir uma orelhinha bebé!
E cá estão todos eles, todos saudáveis.

(J): Sentiste diferença no pós-parto?

(L): Senti, sem dúvida! Nos dois primeiros partos levei epidural, apesar de no parto em si, já não estar sob o efeito desta. A episiotomia a que foi submetida no primeiro parto (não por necessidade, mas por escolha do médico em si), teve efeitos dolorosos tanto física como psicologicamente. Lembro-me de que, quinze dias depois do parto, só de recordá-lo chorava, isto porque o corpo ainda sentia um processo de dor, uma espécie de trauma. Ganhei um queloide na cicatrização do corte e penso que ainda hoje consigo sentir exatamente onde este foi feito! No segundo pós-parto a recuperação foi imediata só pelo facto de não ter sido “cortada” e “cozida”! Nos últimos dois pós-partos a recuperação foi ainda mais maravilhosa, pois todo o processo na água deixa recordações carinhosas e agradáveis na nossa memória.

Enquanto mulher, eu senti-me respeitada e realizada. Todo o processo em si fez-me conhecer uma força brutal. Mostrou-me o quanto conseguimos focar e dominar o poder da mente e do pensamento, se não nos perdermos na “dor” e no medo.

O hipotálamo e a hipófise emitem determinados estímulos para as glândulas endócrinas, induzindo-as a libertar em excesso ou por defeito determinadas hormonas, o que influencia toda a nossa estrutura e inclusivé a do funcionamento de certos órgãos. Sem dúvida que havendo uma boa preparação, a mulher é capaz de tudo e adquire um poder enorme, não um poder egóico, mas um que já lhe pertence naturalmente, apenas anda adormecido.

(J): Nuno, qual é para ti o papel do homem no processo de gravidez de uma Mulher?

(N): O pai é uma força extra para a mulher, pois ela precisa de todas as forças do mundo naquele momento. O pai representa essa motivação, o estar presente e ajudar nem que seja por apenas dizer “faz mais força”, ou “agora relaxa”, ou o simples segurar na mão daquela pessoa que tu amas, com quem tens vindo a partilhar toda uma vida e que agora está ali, contigo, naquele momento tão especial. Esse é o maior contributo que o pai pode dar.

(J): De que forma os diferentes estados de cada gravidez influenciam a vida e personalidade dos nossos filhos?

(L): Sendo hoje mãe de quatro filhos, posso afirmar que em todas as minhas gravidezes vivi estados diferentes. E se eu hoje olhar para os nossos filhos, esses estados estão manifestados neles, na personalidade diferente de cada um, na maneira distinta como reagem e lidam com as situações do dia-a-dia.

Na homeopatia, por exemplo, quando estudamos um bebé, nós vamos muito à gravidez da mãe. Desde o momento da conceção, à gravidez em si e ao parto, tudo é fundamental para entendermos o estado do bebé. E muitas vezes é incrível como o medicamento que melhor cobre o estado que a mãe descreve sobre a sua gravidez, corresponde ao medicamento certo para o estado da criança. Determinadas patologias ou sintomas que a criança tem nas fases iniciais da sua vida, conseguem ser cobertas por esse medicamento. Tem sido fantástica esta experiência.

Voltando aos meus filhos, na primeira gravidez, por exemplo, apesar de todo o amor que se gerou, eu ainda oferecia uma forte resistência ao masculino, com medo de me entregar. E realmente a nossa primeira filha é uma menina com essa resistência ao masculino. No parto dela, e quando já estava em pleno processo de expulsão, estive meia hora à espera da troca de turnos entre médicos, para poder ser levada na maca para a sala de partos. Meia hora à espera de poder parir apesar de já sentir a cabecinha dela meio de fora! Meia hora numa sala fria, onde ninguém tem propriamente atenção ou “cuidado” com as tuas necessidades… Tudo era mecanizado e tu és apenas mais uma no meio de tantas. Por isso contrai-me a cada contração, pois ainda nem estava na sala de parto, não tinha médico, não tinha nenhum auxiliar, nem sabia se “poderia” a bebé nascer ali, no meio de tantas regras. Assim, a cada contração que devia servir para ajudar a bebé a sair, eu contraía-me, empurrando a bebé para dentro.

E ainda faço mais questão de partilhar esta experiência, para permitir que outros pais percebam a importância do parto (e o quanto fica gravado no subconsciente) não só para a mãe mas também para o bebé.

O parto é de tal forma marcante que, nos primeiros três anos de vida desta minha primeira filha, a India, cada vez que ela vestia ou despia uma camisola de gola mais apertada, sempre que a gola ficava “presa” na cabeça dela, ela automaticamente entrava em modo de pânico, de uma forma muito reativa e desproporcional ao momento… como se não fosse sair… tal como a experiência que ela deve ter tido naquela meia hora durante o parto em que eu a contraí, em vez de a deixar sair! E tal não aconteceu a nenhum dos meus outros três filhos. Voltando um pouco a esse parto, como já referi antes noutra pergunta, foi-me feita uma episiotomia só porque o médico que entrou nesse turno quis (nunca me perguntaram a mim se eu queria e, aliás, a própria enfermeira perguntou ao médico se ele achava mesmo necessário!). E deixo aqui um conselho para todas as mulheres. Apesar do medo que todas temos de rasgar o períneo, esse rasgar é mais natural do que o corte que é feito pelo instrumento metálico que os médicos usam. Assim sendo, é muito mais fácil de cicatrizar, porque o corpo está mais preparado para cicatrizar um processo natural do que um corte artificial. E eu, ainda hoje sinto esse corte.

(J): Como sentes a informação do parto natural, humanizado, empoderado em Portugal?

(L): Sinto que a informação não é passada. Infelizmente, tudo está instituído para que só o que é convencional é que está disponível e ao alcance de todos. Informações sobre outro tipo de procedimentos, por exemplo sobre parto na água, não estão disponíveis nem se fazem circular com tanta facilidade. Depois, para as que já ouviram falar de qualquer coisa, existem sempre muitas dúvidas por esclarecer, como a do afogamento do bebé ou deste engolir água… Assim, muito por falta de informação, a maior parte das mulheres no momento de parir, vai para o hospital, ponto.

(J): O que achas que é preciso mudar para haver espaço e liberdade para o parto humanizado?

(L): É preciso muito do trabalho que as Mães d’água estão a fazer para permitir criar um movimento e fazer chegar a informação, de modo a ser possível institucionalizar e regulamentar um leque de possibilidades. Basicamente é preciso difundir a informação.
Da mesma forma que é preciso alargar os horizontes em tantos outros sectores da nossa sociedade, como é o caso da medicina, da educação, etc. – Por exemplo, no nosso país, só existe um sistema reconhecido de medicina, só existe uma opção de tratamento em meio hospitalar e nos centros de saúde. Se houvesse mais informação e espaço para as outras possibilidades de cura, mais os utentes beneficiariam, mais seriamos livres para escolher os métodos que ressoam connosco, como por exemplo alguns mais naturais e que não recorram ao uso de medicamentos químicos. O mesmo se verifica na educação… Vivemos num sistema muito académico, muito competitivo, baseado num sistema de notas, um sistema muito pouco virado para as emoções, para a auto-descoberta daquilo que nos preenche verdadeiramente. Fazemos todo o percurso académico e, no fim, tantos de nós não sabem ainda quem são nem o que querem para as suas vidas. E eu observo isso em clínica. Hoje, enquanto homeopata, recebo muitos casos de ataques de pânico, ansiedade e depressões… porque, na verdade, a base emocional das pessoas foi pouco valorizada e respeitada desde criança e hoje em dia as pessoas não sabem como gerir toda a tortura e competição psicológica que sentem em muitas empresas ou outros trabalhos. Felizmente, os pais de hoje já estão mais abertos e sensíveis a estas e outras questões, porém também há pouca informação e acesso a outros sistemas educativos. – E é a mesma situação no parto e na saúde, é preciso difundir e alargar o leque de possibilidades de maneira a que chegue a todos.

(J): Em que momento surgiu a homeopatia?

(L): A homeopatia surgiu na minha primeira gravidez. Eu estava a dar aulas de ginástica em Itália e o médico de lá disse-me que eu tinha de parar. Aí, e porque não queria ficar dependente de ninguém, decidi ir estudar outra vez. Inicialmente tinha escolhido nutrição, mas foi já em Portugal que ouvi falar de homeopatia. E, quando cheguei a casa, sem ainda saber o que era, pesquisei e encontrei um curso cá, que também tinha as disciplinas de naturopatia, dietologia e de nutrição, tudo de uma forma mais natural, para além de anatomia e fisiopatologia, áreas que eu também gosto. E lá está, todo o Universo vai-te levando exatamente para onde tens de ir… Quando percebi que a homeopatia consegue curar a um nível mais profundo do que apenas o lado físico, fiquei fascinada. A homeopatia reequilibra a nossa energia vital e o nosso sistema imunitário, o que permite curar todas as dimensões do ser humano, ou seja, cura o lado físico, psicológico, bem como os bloqueios emocionais, o que nos possibilita mudar a postura e atitude que temos na vida.
Assim, a homeopatia foi-me fascinando cada vez mais e após cinco anos de estudos em Portugal e em Londres, fui estudar para a Índia, em Auroville, onde estive por cinco anos, com o Nuno e os nossos quatro filhos. Lá exerci num centro de saúde e numa clínica privada com uma outra médica alemã, que já lá vivia há cerca de 20 anos – Aliás, eu e o Nuno somos os representantes internacionais de Auroville em Portugal. – Mais uma vez repito que, quando estamos abertos, tudo vai fluindo… Eu fui para Auroville apenas a pensar na homeopatia e acabou por ser uma experiência muito enriquecedora, não só para mim, como também para o Nuno e para os miúdos. Aqui as pessoas buscam uma vida espiritual pelo que se experienciam intensas aprendizagens, quer a nível individual, quer enquanto família numerosa. Auroville, e toda a viagem em si, abriu-nos a outros detalhes e a outras formas de cura, de estar e de pensar. E agora, em breve, vou editar um livro, um guia prático que oferece um caminho natural para a saúde física, psíquica e espiritual (porque só faz sentido tratar o nosso “todo”). As ferramentas vão desde a medicação homeopática para situações de emergência, fórmulas naturais e práticas que as pessoas podem aplicar em casa usando plantas, como cataplasmas ou compressas, tanto para adultos como para os mais pequenos, e ainda com exercícios de reflexão e de meditação. O meu propósito com este livro é sensibilizar as pessoas para esse “todo” que somos além desta “casca” física em que vivemos. Por isso, além de toda a cura natural, abordo a energia do pensamento, de como esta nos influencia. É importante percebermos que o cérebro grava a mensagem de pensamentos que repetimos vezes sem conta. Estes ficam gravados no nosso subconsciente e tornam-se em padrões mentais, em reações automatizadas.

(J): Contem-me como é viajar para determinados lugares do mundo com quatro crianças?

(L): Sempre foi uma experiência maravilhosa! Houve cinco anos que passámos entre Portugal e a Índia, mas também já viajámos pela Tailândia, Grécia, Sri Lanka, Malásia, México… Tal como o Nuno dizia no início, é muito mais fácil do que se imagina. Viajar com os miúdos é sair da rotina e poder ganhar tempo para crescer e amadurecer verdadeiramente ao lado dos nossos filhos… A rotina da maior parte dos pais é um constante stress contra o tempo, desde o acordar de manhã a correr, vestir os filhos a despachar, distribui-los na escolas, conduzi-los ainda para as atividades extracurriculares no final do dia, sem falar que os pais voltam já cansados de um dia inteiro de trabalho… Ou seja, onde está a partilha familiar? É fácil de perceber que viajar com as crianças é muito mais agradável do que esta realidade.

Viajar com os filhos nunca é limitativo mas fortemente enriquecedor. As viagens por si só ajudam-nos a travar novos conhecimentos, a alargar os horizontes. A vida rotineira passa, voa e eu sinto que não a vivemos de verdade.

Vivemos em função do tempo mas sem tempo de viver. Seguimos pela vida em modo automático, como se fossemos robots, sempre a cumprir as funções e os deveres estipulados, mas condicionados ao pouco tempo que sobra para o que verdadeiramente importa para cada um de nós.

Neste momento, agora que estamos em Portugal a desenvolver o projeto da Casa das Artes e Ofícios (um projeto ganho em orçamento participativo da Câmara Cascais), optamos por ter três dos nossos filhos em homeshcooling e a mais velha numa escola de sistema Waldorf. Mas aconselho que todos os pais viajem com os seus filhos, porque vos enriquece e une enquanto família. As experiências que viverem juntos só fortalecerão os vossos laços. Quanto às crianças, estas ganham independência, outro senso de maturidade, outras bases e experiência de vida. E, ao contrário do que as pessoas pensam, não é preciso ter muito dinheiro para fazer estas viagens com os filhos. Basta estarmos atentos às nossas escolhas, hábitos e prioridades.
Nós não fumamos, não bebemos, não costumamos comer fora nem em excesso, pelo que, cortando aqui e ali, conseguimos juntar o “pézinho de meia” necessário para os bilhetes de avião e para a estadia. Além disso, como ficamos a viver uns meses seguidos em países de baixo custo, acabamos por poupar imenso comparativamente com os gastos e o nível de vida que temos no nosso país. Já fizemos as contas e, realmente, mesmo com as passagens para seis pessoas, sai muito mais barato viver lá do que cá.

(J): Nuno, falaste que os filhos mudam a nossa vida. Sentes que essa mudança pode ser fluida, em vez de ser o “ fardo” que muitos pensam…?

(N): Acho que essa visão só está relacionada pela forma como a tua alma está preparada para essa entrega. Pode haver pais que não estão ou nem querem estar preparados e preferem abdicar dessa nova etapa da vida.
Basicamente, ou preferes continuar com a tua rotina, ou abres os braços a essa nova luz, mudas o teu estilo de vida e passas a ter uma vida mais de dedicação e de partilha. É preciso haver essa predisposição.

(J): O que te ensinam os teus filhos?

(L): No meu caso, são precisamente as crianças que me inspiram a ter mais tempo para viver, para sentir a vida e a alegria de a viver. E quando digo “viver”, não é no sentido de apenas “existir” a cumprir o que dita a rotina convencional: ter um trabalho, uma casa, carro e família.

“Viver” é poder escutar o que nos pede verdadeiramente o nosso coração, a nossa essência. As crianças ensinaram-me isso mesmo: a recuperar a minha essência e a reconectar-me com o que eu sinto dentro de mim. E quando nos conectamos com o que sente a nossa essência, é tão mais fácil e gratificante libertarmo-nos dos medos ditados pela mente.

Sim, porque todos nós temos a capacidade e a necessidade de dar mais ouvidos à nossa voz interior, mas deixamo-nos “existir” com os medos, receios e os “ses” que circulam na nossa mente. Quando autorizamos esses receios a falarem mais alto do que as vontades e os sonhos, aprisionamo-nos a meramente “existir” em vez de verdadeiramente ser e viver.

Viajar com crianças não é limitativo nem difícil, a mente humana é que é.
Quando uma criança nasce na nossa vida, ela não vem com o intuito de ser alguém que nos impeça de ser livres ou felizes. Ela não nos impede de nada, antes pelo contrário, a criança contribui, e muito, para o nosso desenvolvimento pessoal. Através dela, e a cada momento, aprendemos exatamente os ensinamentos que a vida tem reservado para nós. É como se a criança fosse um guru espiritual.

Um Guru senta-se e dá-nos conselhos gerais, fala-nos sobre a vida e elucida-nos sobre conceitos.
A criança, com toda a sua energia e espontaneidade, ensina-nos conselhos específicos de uma forma prática. Ela fala, chora ou ri, sem filosofias. Ela vive o momento de acordo com o que sente. Vive o aqui e agora, sem passado, sem futuro, apenas na simplicidade de cada eterno momento.

Muitas vezes o que acontece é que os pais de uma criança projetam os seus próprios sonhos para a criança. Ambicionam o que ela vai ser quando for grande baseado naquilo que eles gostariam de ter sido e não foram. Mas ser pais de uma criança não significa projetar os nossos sonhos e aspirações pessoais para o nosso filho, muito menos influenciá-lo a ser “como” nós achamos que tem de ser, como nós queríamos de ter sido! Porém, a criança nasce através da mãe mas não lhe pertence. Ao deixar de ser bebé começa a expressar as suas escolhas, que em muito chocarão com as nossas. Mas, e como em qualquer relação, ocorrem trocas.

A criança não vem apenas para ser ensinada, mas principalmente para ensinar! Está aberto a isso, não queiras o principal papel para ti!
Se és mãe ou pai ajuda e guia a tua criança… dando-lhe espaço e a oportunidade de descobrir quem é ela de verdade. Está atento, observa-a, mas não a julgues. Compreende-a mas sem a criticar. Não lhe cortes as asas nem os sonhos. Não libertes para ela as tuas frustrações e raivas. Observa-a e observa-te. Muitas das situações que mais te perturbam revelam-se apenas como um espelho de ti. Está atento mas não tentes impedi-la de cair ou de errar. Cair e errar fazem parte da aprendizagem individual de todos nós. Deixa o teu filho ser quem é. E quando ele cair, não lhe apontes o dedo nem digas que “já sabia!” ou “tinha razão!”. Estende-lhe apenas a mão, como faz qualquer bom amigo!

~ Tão gratas a esta visão do que é uma Família! Parabéns!! ~

Lisa Joanes: website, facebook.


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.