“O Sagrado Feminino tem a cor do sangue” Entrevista

“A Mulher Selvagem é a origem do feminino, é intuição, vidente, ouvinte atenta, coração leal, a força da Vida/Morte/Vida, é tudo aquilo que nos faz seguir em frente quando estamos prontas a desistir.”

ClarissaPinkola Estés in, Mulheres que correm com os Lobos

Vamos iniciar esta aventura e conhecer esta mulher maravilhosa!

 

Olá Marta. Conheci-te em aulas de Pilates num ginásio e reencontrei-te, tempos mais tarde, num workshop de meditação. O que mudou em ti desde esses tempos?

Muito mesmo . Comecei a dar aulas de aeróbica no início dos anos 90 e desde então o trabalho com o corpo estendeu-se muito para além do exercício físico. Foi, sobretudo, a partir do momento em que fui mãe pela primeira vez, em 2001, que senti que o meu corpo tinha que abrandar de ritmo e procurar outras formas de trabalhar a saúde e foi aí que tomei contacto com o Método Pilates pela primeira vez. Foi uma suspresa tão agradável que fiquei rendida, desde então, a este Método criado por Joseph Pilates, por conseguir criar um estado de equilíbrio pleno e de uma consciência corporal incrível. A minha segunda gravidez em 2003 marcou definitivamente a minha despedida do mundo do fitness e do exercício físico intenso e abri as portas para um admirável mundo novo que me dava em simultâneo a força. a flexibilidade, a respiração, a consciência, o alinhamento e, acima de tudo, uma mente muito focada e calma para tudo (numa altura em que, com dois bebés, o esgotamento físico e mental era tremendo). Depois de inúmeras formações na área do Pilates e Yoga cheguei à terceira gravidez, em 2010, com uma disponibilidade física e mental que nunca tivera antes e isso abriu ainda mais as possibilidades de trabalho com o universo da ginástica respiratória, da meditação, do mindfulness corporal e do trabalho em exclusivo com o Corpo Feminino, na sua vertente holística…e aqui estou hoje com a sensação de que ainda tenho imenso que aprender!

 

Em que consiste o teu espaço/projecto The Element Studio?

O The Element Studio nasceu em 2012 em plena Baixa do Porto, num momento em que eu e o António, o meu marido e também professor de educação física, sentimos vontade de dar um passo importante nos nossos percursos profissionais e pessoais.  Foi , acima de tudo, uma necessidade de “maioridade”, de “sair de casa dos pais” (neste caso dos Heath Clubs) e de termos uma espaço/casa íntima, onde pudessemos receber e trabalhar de forma calorosa e muito personalizada todos aqueles que nos quisessem conhecer. É um espaço que vai crescendo connosco, criando e recriando formas de trabalhar o corpo, desde Pilates, Yoga, Movimento Natural, Mindfulness Corporal, Meditção, Consciência Pélvica na Mulher, Pré e Pós Parto entre outros, sempre com uma visão muito elástica e integral do movimento corporal que se interliga inevitavelmente a uma perspectiva de criar saúde activa e consciente em cada um de nós.

 

O feminino assume importância na tua escolha profissional?

Acho que desde sempre . Lembro-me de pequenina de querer ser bailarina e de gostar imenso de princesas e de bonecas. Fui sempre muito “girly”! Mas recordo-me também desde muito cedo de me preocupar com as questões de discriminação de género e dos abusos que as mulheres sofriam, em especial o seu corpo. Isto foi sempre um tema presente na minha vida e hoje, se estou profundamente dedicada pessoal e profissionalmente a esta temática, devo a este caminho longínquo que, por alguma razão – quase que sinto como missão – o do resgate da nossa condição essencial feminina. É, por isso, a seguir à maternidade, o meu principal caminho de vida.

De que forma respeitas em ti o Sagrado Feminino?

É com muita gratidão a todas as Mulheres que observo actualmente a este Renascimento do Sagrado Feminino, impulsionado quer por grandes movimentos eco-espirituais, como Starwak, quer por tantas Mulheres escritoras, artistas, pensadoras, médicas, sacedortizas, como Clarissa Pinkolas Éstes, Christiane Northrup, Barbara Moor, entre tantas outras, Finalmente, a Matriz Feminina foi devolvida ao plano do sagrado, da celebração, da deificação, depois de milénios profundamente silenciada pela vergonha do corpo da Mulher e pelo medo do seu poder partilhado em igual com os homens, de sociedades patriarcais sustentadas por uma estrutura religiosa de Deus Pai Todo Poderoso…Isto influenciou toda a nossa História nos últimos 7000 anos!

Logo, o meu respeito por esta nova “Aurora” é de uma reverência enorme por cada Mulher que, depois de uma período de muita escuridão, desconhecimento dos seu corpos e de tanta vergonha, medo e submissão, se permite entregar a esta (re)descoberta de toda a sua Sacralidade Feminina. Para mim o Sagrado Feminino está presente em toda a vivência quotidiana e não em algo transcendental, etéreo, escondido para lá das nuvens. Está presente nos ciclos da Natureza, nos ciclos da Lua, da Mulher, na sua Fertilidade, Sexualidade, na sua Morte. Está na Terra e não apenas no Céu distante. Está no Corpo e não apenas num Espírito Santo imaculado.

O Sagrado Feminino tem a cor do sangue e tem formas redondas de um Útero Colectivo que tudo cria, recria, nutre e acolhe, numa espiral contínua de tempo e espaço, desde o simples quotidiano até às grandes celebrações colectivas de Mulheres ou mesmo no silêncio de cada caminho tão individual.

Fotografia de Chanel Baran

 

Ele está presente durante a gravidez e no parto?

Este “Novo Sagrado Feminino” está presente em todos os percursos da vivência sexual da Mulher: a Gravidez e o Parto serão porventura o culminar em apoteose dessa grande celebração sagrada do feminino: é o fruto do ventre sagrado, aquele que irá garantir a continuidade da espécie, aquele que faz nascer a Mãe dentro de cada Mulher e que faz com que cada uma de nós descubra o Amor Incondicional.

 

 

“A cosmologia judaico-cristã que informa a civilização ocidental encara o corpo feminino e a sexualidade feminina de Eva como responsáveis pelo declínio da espécie humana. Durante milhares de anos, as mulheres foram rebaixadas, maltratadas, queimadas na fogueira e acusadas de todos os malefícios, única e simplesmente por causa do seu sexo.”

Dra Christiane Northrup, In, Corpo de Mulher. Sabedoria de Mulher

Desenvolves algum tipo de trabalho com mulheres, que explore o seu Sagrado? E com grávidas?

Aqui no The Element Studio, desenvolvemos programas específicos para Pré Parto, onde para além dos movimentos escolhidos para cada grávida, há um trabalho de ligação profunda com o bebé. Desde a primeira aula, através de métodos respiratórios específicos. Já o programa Pós-Parto, inclui imenso trabalho de reabilitação pélvica e postural. Trabalhando o Corpo, movimenta-se a Energia e a Energia circulando provoca ligações entre outros planos de consciência que irão abrir caminho a esse (re)descobrir da sacralidade dos corpos.

 

O que mudou em ti, como mulher e profissional, desde que iniciaste o teu resgate?

Desde muito cedo, como já referi, que senti esta vontade de mergulhar nesta mágica dimensão do feminino e recordo com muito carinho a minha primeira menstruação e de como foi tão celebrada quase em festa pelas mulheres da minha família (apesar de me sentir embaraçada com tanta festa). “Agora já és Mulher”, dizia solenemente a minha mãe e avó, como se fosse um passaporte para um mundo muito especial, cheio de mistério e magia – e esta atitude das mulheres da minha vida de então, mudou para sempre o sentido da bússola do meu caminho: o do resgate do feminino, nas suas múltiplas dimensões. Hoje, mais do que nunca, com as partilhas que faço com mulheres fantásticas que tenho a honra de conhecer e trabalhar, em especial nos últimos 5 anos, o resgate da minha essência feminina é um processo que não terá fim nesta vida, acredito; a complexidade da psique colectiva feminina terá ainda de passar por várias gerações futuras de Mulheres para que a sua essência seja resgatada definitivamente – só agora despertámos!

 

E os ciclos menstruais? Que importância assumem?

A nossa natureza cíclica é uma das expressões concretas da nossa sacralidade enquanto fêmeas humanas. O sangue menstrual, a gravidez, o parto, a amamentação, a menopausa e a morte são momentos do nosso grande macro ciclo da vida que, tal como as estações do ano, as fases da lua e as marés, tem uma profunda interligação nos micro ciclos mensais, quase uma derivação da lei hermética ” assim como em cima, é em baixo”, assim como no macro ciclo solar e lunar, assim o é nos corpos das mulheres…

A natureza cíclica que compreende toda a expressão da sexualidade feminina desde a menarca até à pós-menopausa assume, desta forma, uma importância fulcral no resgate do Sagrado Feminino, devolvendo toda a consciência do funcionamento dos seus corpos e da sua ligação aos grandes Mistérios da Vida e da Morte.

 

Como podem o Yoga e Pilates ajudar no resgaste do Sagrado Feminino?

Há várias formas de trabalhar a energia nos corpos. O Movimento, a Respiração e a Consciência são das mais directas e trabalhadas diariamente no The Element Studio. Quando eu respiro junto com o movimento com consciência, isto é, quando tenho a mente completamente focada e atenta aos detalhes de cada movimento e coloco a respiração no sítio onde quero que a energia desbloqueia tensões, a energia é deslocada pelo corpo, fornecendo inúmeras informações ao cérebro e aos sistemas corporais, aumentando a consciência corporal. Quanto melhor eu conhecer todos os detalhes do movimento do meu corpo e toda a capacidade respiratória de cura mais consciência plena de mim eu obtenho. O Pilates e o Yoga trabalha muito a cintura pélvica, os músculos, os ossos e a energia do primeiro e segundo chacra, a zona de criação por excelência. Daí que seja uma forma directa de poder trabalhar o corpo físico para que ele seja um saudável reservatório de emoções e de criatividade. Há outras formas de arte corporal, com a dança e as artes orientais, que têm este poder de despertar a consciência de que temos um corpo ao nosso serviço, ao serviço do conhecimento, da saúde, da cura e da partilha colectiva sem reservas.

 

Vi na tua página que facilitas Rodas de Mulheres. Qual a importância das mesmas para nós?

 

Sim, há pelo menos 5 anos que organizo encontros de Mulheres aqui no The Element Studio. E é maravilhoso ver que cada vez mais mulheres se organizam para partilhar, de Norte a Sul do país, os seus dilemas, saberes, amores e desamores, entre todas. É curioso que o próprio conceito de “Roda” ou “Círculo”, que se vai tornando muito corrente no nosso vocabulário feminino, é a forma mais “democrática” de reunir em grupo, pois todos estão à mesma distância do centro e poderão de forma igualitária dar e receber da mesma forma. Se pensarmos na forma como as cadeiras e as mesas das escolas estão dispostas em relação à do professor, percebemos logo que, desde tenra idade, nos colocam em posição de desvantagem, em linha hierárquica, barrando na maioria das vezes a possibilidade de participação dos alunos mais tímidos que estão no fundo da sala. Portanto, a disposição em círculo, em roda, permite que cada uma de nós se sinta acolhida de igual forma. E tem sido, tremendamente gratificante para que as Mulheres encontrem de novo um espaço de conforto, limitado ao género no bom sentido, em que podemos falar “das nossas coisas”, enquanto tomamos chás e bolinhos.

Um pouco como as mulheres ancestrais ou as que vivem em comunidades mais rurais e que partilham os afazeres e as lides do campo e domésticas, como a cozedura do pão comunitário ou os bordados, actividades colectivas femininas. Aí, as mulheres cantam, contam as suas histórias, escutam os ensinamentos das mais velhas e apoiam-se mutuamente.

Infelizmente, as cidades afastaram-nos muito uns dos outros e, por vezes, nem sabemos os nomes dos nossos vizinhos da frente. Isto está a ter consequências negativas para o equilíbrio da necessidade básica de pertença a um grupo, a primeira necessidade básica de ser acolhida por uma família mais alargada que nos vai sustentando ao longo da vida. É o chacra raíz que está a ser profundamente desequilibrado…

 

Imagina que uma mulher te procura a pedir ajuda… Quer recuperar a sua essência.. Conhecer-se… O que lhe proporias?

O trabalho que facilito aqui no estúdio vai no sentido de resgatar em primeiro lugar o corpo físico, isto é, promover o máximo de consciência corporal, através do movimento, da respiração e do equilíbrio muscular e articular do seu corpo. Cada corpo é único e é a partir dele, da matriz material da nossa essência, que se poderá trabalhar os outros corpos, as outras dimensões, para chegar à essência de cada um. É muito comum no Oriente que as práticas de auto-conhecimento, de auto-cura e de meditação estejam sempre aliadas a um programa de exercícios físico, para precisamente fazer “mexer” a energia no corpo, para que ela aceda a outras ” portas”…  Assim, as Mulheres que me procuram desenvolvem sempre um programa de treino intensivo corporal, em especial em torno da cintura pélvica, com aberturas da anca, alongamentos com força e respiração perineal; a partir daí, é só deixar fluir as mensagens que o corpo começa a emitir para a consciência e, é incrível, ver certos aspectos da vida a mudarem, sempre que se permite que o corpo “fale”..

 

Contaste-me que o teu filho mais novo quase nasceu na água. Queres partilhar a experiência connosco?

..Foi uma experiência maravilhosa! O Parto sempre me fascinou enquanto momento auge da sexualidade feminina. A hormona ocitocina que é libertada no corpo durante o trabalho de parto, talvez na dose máxima alguma vez sentida durante toda a vida, exerce uma poderosa re-ligação ao corpo selvagem, intuitivo, da fêmea humana, quando é permitida à Mulher senti-la de facto. O meu primeiro parto, em 2001, foi uma cesariana com anestesia geral, por recomendação médica, por o bebé estar em posição pélvica. Na altura, o Hospital de S. João no Porto, tinha este protocolo, onde me foi explicado que a anestesia geral, pela rapidez do processo cirúrgico, seria a única opção para dar vazão à quantidade de grávidas na mesma situação que, entretanto, afluíram naquela Lua Nova de Março. Chorei e revoltei-me com o meu corpo, frustrada por não conseguir seguir o percurso natural que tanto desejava sentir. No meu segundo parto, em 2003, apesar de todas as indicações para outra cesariana, por haver uma prévia recente, consegui apresentar à equipa da Maternidade Júlio Dinis uma série de artigos científicos americanos sobre a possibilidade do Parto vaginal após uma cesariana. Tive que assinar um termo de responsabilidade e o parto decorreu durante 40 horas, dentro dos protocolos estabelecidos na época: algália até ao momento expulsivo, manobra de Kristeller, ocitocina sintética, anestesia epidural, episiotomia, extracção do bebé por ventosa, litotomia total ( 180 graus) e total imobilização das pernas e braços com cintas. O parto foi natural, mas extremamente controlado, violento e muito traumatizante para mim. De qualquer forma, ainda não tinha perdido a esperança de, numa terceira gravidez, sentir o meu corpo soberano no parto, sem tanto sofrimento e controlo. E eis que, em 2010, soube da existência de uma sala de Parto Natural no Hospital de S. João no Porto, mesmo ao lado de minha casa, onde uma equipa de enfermeiras parteiras conseguiram criar um espaço maravilhoso, íntimo, com bolas de ginástica, bancos de apoio, música e uma grande banheira de água morna à minha disposição. A maior parte da dilatação foi passada dentro desta banheira e era como se entrasse nas nuvens: as dores fortíssimas quase desapareciam sempre que mergulhava naquelas águas mágicas. E sim , poderia ter tido o meu terceiro rapaz dentro da água, pois havia permissão para tal. Mas, quis o destino que o meu corpo escolhesse o elemento terra e dei à luz na posição que o meu corpo entendeu, sem episiotomia e sem ocitocina, pele com pele e com toda a sabedoria de uma fêmea com milhões de anos de caminho…

Bom, com esta experiência poderei dizer que serei uma “quase” Mãe d’Água mas, sem dúvida, que é uma das formas mais suaves, calmas e naturais de dar à luz!

 

Fotografia de Chanel Baran

“O feminismo é a articulação das antigas e ocultas culturas e filosofia baseadas nos valores que o patriarcado rotulou de ” coisas de mulheres”, como a igualdade universal, a forma não violenta de resolução de problemas e a cooperação com a natureza, uns com os outros e com as outras espécies.”

Sonia Johnson

Podes saber mais sobre a Marta e o The Element Studio aqui.

 


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.

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