Tudo o que é sagrado na mulher, é temido, porque é mesmo muito poderoso. Entrevista

A Vera é coreógrafa, formadora e performer com o seu projecto Matridança. A nossa conversa focou o tema da Sexualidade Sagrada e foi absolutamente apaixonante conhecer esta visão criativa e mediúnica.
Não temos d
úvida  de que aqui, vive magia poderosa. Uma entrevista para ler de um só fôlego!

 

~  Conta-me um pouco da tua história… Para percebermos o que te trouxe a este trabalho com o feminino.

~ Bem, a história com o feminino vem assim quase… desde sempre. Sempre tive muito esta relação forte com mulheres.

Lembro-me mesmo na primária, por exemplo, de me reunir com raparigas. Naquela fase dos apalpões dos rapazes, nós fazíamos assim um grupo para irmos bater nos rapazes em conjunto, se houvesse alguma ofensa a qualquer uma de nós. Eu lembro-me desta situação de que havia um colectivo feminino, que havia esta união feminina.

E também uma sensação, desde pequena, de que havia um desequilíbrio entre aquilo que era considerado o feminino e o masculino que não me agradava. Portanto, os valores que eram atribuídos ao feminino e o seu papel secundário na história a mim não me convenciam, faziam-me sentir revoltada e desconfiada de que havia outra coisa.

Então, desde cedo, estive sempre à procura do porquê de eu sentir isso. Apesar de na altura não ter ainda informação nenhuma.

Na altura do secundário, por volta dos 13, 14 anos, é que eu comecei a perceber melhor os meus ideais, na fase da adolescência. E mesmo nessa altura, na forma como procurava o masculino, por exemplo, sentia-me sempre muito diferente do que normalmente se considerava “correcto”. No modo de abordar os rapazes, ou o que queria dos relacionamentos, era sempre um bocadinho diferente. Eu era muito aventureira, e por isso era vista de uma forma diferente.

Digamos que isto foi assim a abertura para o feminino.

A primeira vez que eu ouvi falar na palavra “Deusa” foi por volta dos 14, 15 anos, e foi logo algo que me ficou completamente gravado. A partir daí em tudo o que eu escrevia utilizava essa palavra. Isto muito antes sequer de se ouvir falar em Portugal do “Feminino Sagrado”.

Depois, nas artes… eu estive primeiro na António Arroio, onde fiz o curso de Ourivesaria em Metais e depois fui para o Ar.Co para escultura e desenho. Mas nessa altura já estava a dançar.

Na dança comecei com a dança oriental, que explora bastante toda esta relação do feminino. Depois conheci o Flamenco, que foi uma grande paixão, porque lá está, tem muito mais esta força masculina dentro da mulher, que eu sempre senti. E esta paixão pelo Flamenco levou-me para Espanha durante alguns anos. Fui para sentir o Flamenco.

Nessa altura ainda não estava só a dedicar-me ao feminino, mas na verdade já estava a trabalhar muitas coisas que viriam a estar presentes no meu trabalho actual, como as danças e rituais, que são uma área do feminino.

As danças e rituais foram desenvolvidas por mulheres desde há milénios. E eu já estava a trabalhar isso no meu corpo, mesmo que não tivesse essa informação tão consciente, já estava a trabalhar isso em mim.

Depois, em Granada (que foi onde eu estive em Espanha), também foi muito importante dançar na rua, fazer coisas na rua e viver de uma forma muito espontânea, muito livre.

Eu acho que a liberdade é assim uma coisa muito importante para as mulheres, e quando as mulheres sentem essa liberdade de serem quem são e de se sentirem livres acho que há muitas coisas que vêm ao de cima, muita transformação.

Lá também tive o privilégio de viver numa gruta, de limpar e ocupar uma gruta, de dormir dentro de uma montanha. Acho que isso também foi algo muito forte para mim. Foi muito marcante. Eu nunca dormi tão bem como então, era mesmo um sono profundo e silencioso. E acho que foi aí onde começou tudo.

Quando vim para Portugal já estava muito mais segura do que eu queria fazer. Depois foi uma questão de cada vez mais me ir aproximando desse meu percurso.

 

~ Tu usaste uma expressão que foi “o masculino dentro do feminino”, consegues explicar melhor?

~ Sim. Bom, não é um termo que eu costume utilizar, por acaso agora saiu-me, mas não é um termo recorrente meu.

Muitas vezes nós temos uma perspectiva dual de masculino e feminino, então precisamos de nos apropriar daquelas coisas que são consideradas área do masculino – como a aventura, a força, o lado guerreiro. Nós associamos essas qualidades ao masculino, mas não quer dizer que isso seja O Masculino em si. Isso já é outra conversa.
Quando começamos a perceber que nós temos essas qualidades em nós, aí podemos apropriamo-nos de outras das nossas facetas.

Agora, para mim, isso não é o masculino. Por exemplo, quando eu digo “a Deusa”, ou “a Grande Mãe”, um grande erro é pensar que Grande Mãe é Gaia, a Mãe Terra, e não é! A Mãe Terra é uma das manifestações da grande mãe. A grande mãe é cósmica, portanto, é tudo aquilo que nós vemos aqui, tudo aquilo que está para além do que nós vemos e ainda tudo aquilo que está ainda por se manifestar. Não é só a matéria ou aquilo que está a acontecer energeticamente, mas também é todo o potencial daquilo que ainda se poderá manifestar.
Aqui nós vemos que estas divisões de feminino e masculino não servem, porque todos estão na Grande Mãe, inclusive o masculino. É só um lado mais solar. O lado mais solar ou o mais lunar são formas de expressar esta dualidade em que nós muitas vezes dividimos potencialidades femininas e as colocamos no masculino.
“O masculino é que tem isto, então isto está fora de mim e tenho que ir à procura disto”, mas não está fora de mim, está dentro. Tal como no homem a mesma coisa.

~ “Feminino desconhecido”… soa tão místico… o que me podes falar sobre isso?

~ Eu comecei a usar a expressão Feminino Desconhecido quando estava à procura. Feminino Desconhecido é um termo que define uma busca à qual qualquer mulher se pode propor em qualquer momento. É o sentir que está à busca do seu feminino inteiro.
Então, o feminino desconhecido é desconhecido porque muitas de nós, temos que ser realistas, nascemos com um condicionamento que não nos permite sentir este feminino inteiro. Ele é desconhecido porque nós ainda não sentimos a sua inteireza. E não é para colocá-lo como um objectivo que está fora de nós, mas sim para percebermos que não é nada daquilo que nós normalmente associamos ao feminino.
É para sair mesmo da caixa.

Feminino desconhecido é um feminino fora da caixa. É desconhecido porque ainda não foi catalogado, não foi dominado, não foi subjugado por nenhuma teoria.

Mesmo o próprio feminino sagrado já é uma terminologia, já é uma caixa.
O feminino desconhecido é tentar abrir ainda mais, tentar ver o que é que pode vir agora também para o feminino sagrado antigo, que é aquele a que nós podemos mais facilmente aceder, é este feminino mais histórico, e ver o que é que poderemos trazer para este feminino. A totalidade disso seria o Feminino Desconhecido.

~ A mulher alquimista conhece-se a si própria através do seu corpo, do seu orgasmo, da sua sexualidade?

~ É interessante ver que entre alquimia e magia há uma diferença. Quando nós sentimos magia é algo que acontece à nossa frente de diferente, mas é algo muito mais imediato, enquanto a alquimia remete para um processo com algum tempo. É por isso que me revejo nesse trabalho da alquimia, porque sinto uma ligação com o tempo, com os ciclos, com tudo o que é cíclico. Uma ligação com tudo o que vai e vem e volta outra vez, como o ciclo menstrual e todas essas particularidades que estão muito no feminino. Esta espiral encarnada no nosso corpo, tem a ver com o tempo, por isso, para mim a alquimia é assim uma atracção muito forte.

Acima de tudo eu trabalho com este corpo no tempo, e portanto a alquimia tem a ver com isto.
Depois, é claro que também a alquimia tem a ver com tudo o que é líquido, néctar, elixir. Portanto, nós trabalhamos com a seiva da vida, que no feminino está muito presente, seja através da lua que nós temos todos os meses no nosso útero, seja através do sangue do parto, seja através da interiorização da menstruação (que é a menopausa) – nós alquimizamos o sangue e comemos a sintonizar-nos não com a nossa lua uterina, mas com a lua mais cósmica, planetária – tudo isto tem a ver com uma alquimia, com o nosso corpo e com a nossa sexualidade.

O orgasmo é um dos nossos super poderes, por isso não pode ser desconsiderado.

As mulheres têm vários super poderes, um deles é a menstruação. Nós na menstruação, com todo o ciclo menstrual, trabalhamos com a nossa intuição, trabalhamos com hormonas e questões mesmo fisiológicas que nos abrem muito mais à intuição, portanto, sentimos coisas diferentes no corpo, sentimos intensidades no corpo, sentimos a morte todos os meses. Esta proximidade com estes extremos da vida que a mulher tem, que são muito fortes, é um super poder. Se nós estivermos com consciência ali, se nós colocarmos a consciência e trabalharmos todos os meses com a nossa menstruação ou com a nossa gravidez, nós vamos chegar supostamente à menopausa num estado de alquimia bem visível.

Isto não é nada esotérico, é mesmo muito físico, muito fisiológico.

E, nestes super poderes, o orgasmo – e portanto a sexualidade feminina – é um super poder que sempre foi temido. As mulheres têm uma sexualidade selvagem, que supostamente – isto na visão masculina antiga – se não fosse um bocadinho contida tornava-se assustador!

Por exemplo temos no Nepal, a possibilidade de as mulheres casarem a sua sexualidade com árvores. Depois deste ritual elas, mesmo quando são casadas com homens, ficam à parte daquelas leis muito negativas que são aplicadas às mulheres viúvas, de serem renegadas ou obrigadas a imolarem-se. Como elas foram casadas com uma árvore, então aquelas mulheres têm uma protecção, isto também porque a sexualidade delas continua ligada a qualquer coisa. Isto demonstra antes de mais que a sexualidade feminina sempre foi muito mais ampla do que a sexualidade humana – não é só uma sexualidade entre mulher e homem. A sexualidade feminina liga-se às forças da natureza, e a árvore é uma manifestação desta força da natureza, portanto, se a mulher fica ligada a esta manifestação da força da natureza “está ok”, não há perigo que a sexualidade desta mulher trespasse, inunde e absorva a nossa vida.

Tudo o que é sagrado na mulher é também altamente temido porque é mesmo muito poderoso.

Por exemplo, as mulheres são o único animal que tem menstruação cíclica. Enquanto nos animais as fêmeas menstruam para atrair o macho e poderem acasalar e procriar, na mulher é o oposto. Na mulher a menstruação é um sinal de que em princípio, pelo menos nos primeiros dias, não vai acontecer procriação, é completamente permissível haver sexualidade sem ter em vista a procriação. A mulher humana é o único animal que demonstra isto!
E até que ponto é que isto não foi um processo alquímico humano que deu origem à nossa consciência? Porque nós sabemos que depois do sexo não somos as mesmas, não somos os mesmos, ficamos alterados, especialmente se estivermos no acto durante um bom tempo e nos deixarmos entregar. Isso altera-nos imenso a consciência.

Será que não foi esta sexualidade muito mais afinada e intuitiva na mulher? (não estou a falar ainda dos orgasmos múltiplos porque aí ainda acresce mais a esta possibilidade). Só esta possibilidade de saber que nós temos um ciclo e que naquela fase do ciclo podermos ter sexo sem procriar, apenas para finalidades extáticas ou para finalidades de consciência, ou mágicas, ou alquímicas, ou o que lhe quisermos chamar, isso é um poder. É um poder e está no corpo feminino.
Aliás, mais um, além de ser a mulher que carrega no ventre um novo ser, e o pare, e este é grande desafio.

Há muitas sociedades em que, tal como os homens quando vêm da sua primeira luta ou caçada são festejados e celebrados, a mulher depois de parir é celebrada. Aquela é a sua conquista.

Portanto toda esta luta da mulher a parir é uma conquista que todas as mulheres atrás de nós fizeram. Na nossa linhagem as mulheres, para darem origem a cada uma de nós, tiveram que fazer esta luta. E é uma luta pela Vida, ao contrário da guerra que é uma luta pela morte e pelo “poder sobre”.

A luta da mulher é sempre de dentro, o poder que está no seu próprio corpo.

~ Eu acho que depois de parir acabamos por perceber bem essa linhagem toda que nos antecede. Sem discussões ou explicações, sente-se…

~ Exactamente. O parto é uma das maiores aberturas para a mulher sentir que tem estes super poderes. Aliás, depois de parires, a primeira menstruação, se a mulher estiver sintonizada com isto, também é incrível. É como se fosse uma segunda menarca, ela sente mesmo que aquele momento é muito forte.

Todos estes momentos, a menarca, a menstruação, o parto, são sempre uma preparação que a mulher tem para a próxima etapa. Quanto mais a mulher atravessa cada etapa com consciência e com o poder de dentro, sem ser dominada ou sem ela própria querer controlar… – é um bocadinho esta dinâmica que é importante que a mulher perceba não só na menstruação mas também na gravidez, não é que mulher agora tenha que passar a controlar o processo, é o contrário, é mesmo esta alquimia entre abertura/entrega e entre o domínio de si, isso é o “estar empoderada” – então, cada etapa vai preparando a mulher para a próxima.

Nós sabemos quando parimos que a menstruação, ou a forma como nós vivemos a menstruação, torna-se muito semelhante à vivência que nós temos do próprio parto, há coisas que vêm muito semelhantes.

Então, nós percebemos que existe ali uma preparação através da menstruação. E a forma como nós vivemos os partos, depois tem muito a ver com a forma como nós vivemos a menopausa. E a forma como nós vivemos a menopausa é uma preparação para outra etapa, que é muito mal recebida na nossa sociedade, que é a morte.

As mulheres sempre foram também “parteiras da morte”, este é outro papel que a mulher precisa também de resgatar. Não só o parto da vida, mas também o parto da morte.

Como é que a morte pode ser respeitada também como uma abertura e como um poder de fazermos a passagem, de uma vida para a outra, sem nos. agarrarmos?
Não é que não haja medo ou que não haja emoções fortes. É como um parto, claro que vai haver! Mas é ver que faz parte desta ciclicidade que o feminino sagrado transporta.

~ A ligação com a própria menstruação pode ser uma forma de conexão com a própria sexualidade?

~ Como eu estava a dizer, através destes exemplos da mulher a casar-se com a árvore e da potencialidade da sexualidade para fins extáticos após a menstruação, a sexualidade feminina é muto mais do que o coito, do que o simples fazer amor ou acto sexual que normalmente se inscreve na sexualidade. Não estou a dizer que sexualidade masculina também não seja, mas agora estamos a falar da feminina.

Então, a sexualidade é muito mais ampla do que um acto, que é aquele que se considera de acto sexual. Tudo na mulher é sexualidade.

A menstruação é sexualidade porque nós para trabalharmos de forma positiva e holística a nossa menstruação nós vamos ter que tocar a nossa Yoni, vamos ter que sentir o sangue a escorrer na nossa Yoni, vamos ter que sentir que temos ou não temos vontade de fazer amor ou ligar-nos fisicamente a outra pessoa, logo, tudo isto vai-nos sempre remeter para a nossa sexualidade. É impossível fechar os olhos a isso.

É impossível tentarmos ver as coisas de forma linear. E o mais fácil é tomar a pílula ou fazer alguma coisa que nos retire desta ciclicidade… mas tomar a pílula é a mesma coisa que dizermos: “Não quero que haja primavera, verão, Outono e inverno. Tem que ser sempre primavera.

Imaginemos a consequência que isto traria para Gaia, o querermos que Gaia estivessem sempre na mesma estação em todo o planeta. Isto é surreal, é a mesma coisa que se pede às mulheres quando tomam a pílula. Ininterruptamente às vezes.

Eu tenho muitas mulheres que vêm ter comigo e que estão anos a fio a tomar, e que a questão não é terem tomado, é que nunca sequer houve nenhum indício de que isso pudesse ser transformador. Faz-se isso como se não houvesse consequência. O que me assusta mais é esta noção de “Ah, mas há consequência sobre isto?”, é claro que há!

Como é que nós vamos da nossa natureza cíclica para uma natureza linear sem haver nenhuma consequência? É impossível!

Por isso é que nas mulheres o simplesmente deixarem de tomar a pílula faz com que haja reacções como: “Eu finalmente sinto-me Mulher”. É tão simples! Não é que nós sejamos só biologia, mas a biologia é um designe que nos ensina coisas. E não há diferença entre biologia e sabedoria, as duas estão interligadas. Nós tornamo-nos mais sábias através da biologia, não é a biologia que nos limita ou nos condiciona a pensar de certa maneira. Há um ensinamento e nós vemos isso, nós vemos que a natureza é inteligente, portanto quando cortamos a nossa natureza interna, nós cortamos a nossa inteligência natural. Claro que podemos rodear-nos de inteligência artificial, mas se calhar não é assim tão fértil quanto isso…

~ Numa sociedade onde a menstruação é tabu, como ajudarias uma mulher a entrar em contacto com a sua menstruação?

~ Bem, primeiro seria esta questão da pílula, mas é certo que aqui podia ser um passo demasiado grande, ou não… mas eu daria esse impulso de a mulher experimentar três meses sem tomar a pílula e ver o que é que acontece.

Depois, na menstruação utilizar o mínimo de coisas que condicionem a sua própria menstruação. O melhor seria mesmo usar pensos reutilizáveis, ou panos (eu agora sou fã dos paninhos). Assim a mulher sente a menstruação mesmo. O Mooncup (copo menstrual) é interessante para algumas situações, mas também nos retira muitas vezes aquela sensação do sangue estar a passar pela nossa Yoni.

Também seria importante a mulher tirar dois dias da sua menstruação sem fazer nada. Sem receber informação de fora, sem ler, sem ver coisas na internet, sem estar “entretida”, digamos assim. Tudo o que surja de acção que seja uma acção que venha de si mesma e da sua parte mais interna – se quer ouvir música então a mulher canta, se quer ler a mulher escreve.
Nesses dois dias estar muito mais em pausa e nesta rendição positiva que a menstruação pode trazer. Isto seria o mais importante, e talvez o mais difícil para algumas mulheres. Mas, nem que seja um só dia! Um só dia já faz toda a diferença! Ou mesmo que a mulher tenha que fazer certa actividade que seja com outra consciência. Deixar tudo ser mais lento, no seu próprio ritmo.
Em relação aos filhos, nesses dias é importante ter alguém que possa ficar mais presente, ou então explicar. Eu já explico à minha filha “A mamã hoje está com o xixi vermelho, por isso deixa-me estar aqui mais sossegada”.
É nesse momento que nós podemos receber informação preciosa para o próximo ciclo. Era isto que as mulheres faziam, as mulheres sonhavam em conjunto, sonhavam a próxima lua. Então, o que é que nós fazemos sem sonhos? Não fazemos nada sem ter esta pausa para sonhar.

~ Há tradições que marcam as nossas iniciações como mulheres pela presença de sangue – na menarca, na primeira ralação sexual, no parto… e agora fizeste-me pensar também na menopausa como uma dessas iniciações – qual é a tua sensação sobre isso?

~ O sangue é um dos elixires do feminino.

Esta questão do sangue na mulher ser associada à vida e não à morte certamente fascinou mulheres e homens desde o início dos tempos.

Antes do sangue, o Corpo. Eu acho que o Corpo é mesmo o primeiro mistério, o primeiro UAU, que tanto o homem como a mulher soltaram quando viram o seu próprio corpo e quando sentiram este mistério que é o Corpo.
Temos um corpo. E é por isso que estamos aqui, não somos apenas espírito, não somos etéreos.

Esta questão de termos um corpo é uma relação essencial, e nós vemos isso num bebé. Um bebé quando nasce todo o percurso que faz até à verticalidade é um percurso de dominar, conhecer e explorar o seu corpo. Continua a ser sempre, mas esta primeira ciclicidade até à verticalidade é muito interessante. Até já há vários estudos de anatomia exponencial sobre os padrões de desenvolvimento, em que, por exemplo, vemos um bebé a mimetizar o desenvolver de vários padrões de movimento, que estão em nós e nos nossos padrões humanos de sobrevivência, do gatinhar até à verticalidade, enquanto nos animais, cada espécie possui geralmente um destes padrões de desenvolvimento específicos. Portanto, este mistério do corpo acho que foi das primeiras coisas que deve ter fascinado os Homens.

Logo a seguir vem a questão do sangue feminino ser um sangue sem mácula, ser um sangue que trás vida.

Esta ligação do sangue com a vida é tudo o que torna inteiramente sagrada a Mulher, e está presente em todas as etapas e todos os ciclos da sua vida, até na menopausa em que há esta reversão.

E digamos que na morte também, porque na morte, que é o parar deste sangue, também é um lado que está associado ao feminino. Por isso é que há este medo do feminino.

Estou a falar da morte aqui porque acho que é importante falarmos da morte, porque este é que é o grande tabu que, se calhar, está na sombra de todos os outros tabus relacionados com o feminino.
É esta relação com a vida que está intimamente ligada à morte.

É impossível só ter um lado ser ter a consciência do outro, por isso acho que é este medo da morte também que trás o medo do feminino, medo das iniciações femininas, medo do sangue feminino.

Este é um trabalho que nós temos que fazer também de abraçar a não-dualidade, porque acho que vai sempre parar a esta não-dualidade, no qual o masculino tem um papel muito importante de relembrar e trazer consciência a esta não-dualidade.

O sangue traz-nos sempre isso: O sangue é vida mas também é morte.

~ Estava a lembrar-me, enquanto falavas, que quando estava grávida eu tinha muito presente essa sensação de que estava a gerar uma vida, mas que de alguma forma aquele momento estava muito intimamente ligado com a morte. Acho que é uma sensação muito presente na gravidez. Acho que é algo que não se fala, mas está muito presente…

~ Sim, na gravidez e no parto. Na passagem do parto.
Aliás, a mim aconteceu-me que enquanto estava grávida parecia que não conseguia pensar para além do parto. É uma sensação estranhíssima. Parece que ali está qualquer coisa magnética que nos prende.

Nós sabemos que o parto é um portal. Um portal tem este magnetismo, está entre a vida e a morte.

A mulher quando tem um aborto também abre esse portal. Isso também é outra coisa importante de relembrar, que a mulher ao abortar de forma natural e espontânea, também está a abrir este portal. Por isso há muitas mulheres que a seguir sentem toda aquela plenitude que nós sentimos quando parimos – se não estiverem condicionadas a sentir só a parte negativa dessa experiência, a parte da lamentação, que também é natural – se não estiverem condicionadas a isso, muitas mulheres irão também sentir uma abertura para o desconhecido, que é o que o parto traz, muito nitidamente.

~ Sexualidade é uma forma de espiritualidade?

~ Eu não vejo separação. Para mim a sexualidade é muito mais ampla do que o acto sexual…

Se estivermos a falar do acto sexual, sim. A espiritualidade faz parte.
Nós como estamos aqui a falar de todo este mistério que é o Corpo, sim, o acto sexual faz parte desse mistério. Assim é impossível de negar, só um cego para não ver como é que o acto sexual está intimamente ligado com todo este mistério, não só com a parte de procriação, mas com a parte de não-procriação.

Nós temos esta possibilidade de ter sexo sem procriar, e há poucos animais que o fazem. Os golfinhos também o fazem por prazer, pelo menos é o que os cientistas dizem, mas na verdade nós não sabemos se é por prazer se é para transformar, expandir, alterar coisas na consciência.

Nós, mulheres que parimos, sabemos que as hormonas é que são A Deusa.
As hormonas fazem-nos coisas que resultam, sem ser necessário ir buscar nada exterior – se bem que isso também é uma prática utilizada – elas fazem esse trabalho de alterar completamente a nossa consciência, de nos levar para salas totalmente diferentes.

O acto sexual, com todas as hormonas envolvidas, tem este potencial de forma incrível. Principalmente na mulher que consegue suportar longos períodos de pico e desvanecimento e continuar. Até onde é que isto nos pode levar?

Por exemplo as Völvas, que eram as mulheres oraculares nórdicas, utilizavam também a sexualidade extática antes de lerem um oráculo. Portanto, isto já era conhecido na antiguidade, esta possibilidade de depois de fazermos amor durante um longo tempo – claro que isto não é numa “rapidinha”, não estamos a imaginar a Völva a “dar uma rapidinha” e depois a ir fazer um oráculo – nos abrirmos a outra consciência. Aqui nós percebemos que é uma sexualidade diferente, é uma sexualidade que aporta todo um estado de consciência, toda uma presença no acto diferente, só aí é que nós conseguimos realmente trazer outras coisas.

Nesta sexualidade extática o objectivo não é só ter prazer. É ter prazer, mas é ter um prazer cósmico, em que nos sentimos muito mais conectadas, não só com a pessoa que está connosco – até pode não haver pessoa nenhuma, a sexo connosco mesmas também é sexo. Então, esta sensação que a sexualidade nos pode abrir, nos pode conectar com algo maior do que nós, eu acho que já é conhecida desde sempre.

Outra coisa importante, falando de uma forma quotidiana e mais “realista” para algumas mulheres, nós temos várias mulheres sexólogas que investigaram os problemas mais comuns da sexualidade feminina – o não sentirem prazer, não terem tanta libido, etc – e vão dar sempre à mesma causa: A causa mais profunda da insatisfação sexual feminina é sempre uma desconexão com o sagrado. Por mais incrível que pareça não tem a ver com coisas “como se faz isto”, tem a ver com desconexão com o sagrado. Muitas vezes as mulheres deixam de ter interesse pelo sexo apenas por isso.

Pensam que é porque estão a fazer alguma coisa mal, mas simplesmente é porque não há esta não-dualidade entre espiritualidade e sexualidade na sua vida. Isto é um grande condicionamento, sentirmos que há uma separação e não conseguirmos trazer estas duas dimensões juntas no acto sexual.

Claro que isto para algumas mulheres parece gigante, ou impossível de atingir, mas não é!
Às vezes esta espiritualidade liga-se a coisas tão simples como a Beleza!
A beleza é uma manifestação que nos ajuda muito a sentir conexão com o sagrado, portanto, tudo o que tem a ver com ela nos ajuda. O nos rodearmos da máxima beleza na nossa estética, no acto sexual ajuda-nos a sentir naturalmente conexão com o sagrado.

Nós quando vemos algo bonito naturalmente abrimos o nosso coração e sentimo-nos inspiradas. Portanto a falta de beleza no acto sexual tira a libido das mulheres, tira a profundidade. Até pode trazer mais excitação no imediato, mas a longo prazo seca o sentir feminino.

Tudo o que nós podermos fazer para alimentar a beleza, alimenta a ligação ao sagrado…

Por exemplo os sentidos, que é uma coisa básica – muito presente no Tantra, no Yoga, em todas as práticas que se tentam ligar ao corpo – são importantíssimos!

Só nós aqui nestas vidas de prédios é que não vemos como os sentidos são as nossas portas para o céu. Se utilizarmos os nossos sentidos, tudo no acto sexual se transforma numa coisa muito maior, com este sagrado lá dentro.

~ A energia sexual mostra-se de forma diferente nos homens e nas mulheres?

~ A energia sexual é um lado da energia vital, pode ser um pouco ambígua, ela em si não tem género, é mercuriana. Depende do homem e depende da mulher.
Nós podemos dizer que o designe feminino, com esta biologia que eu estava a falar – que também nos traz sabedoria e que tem a ver com a menstruação – é diferente do designe masculino. Agora, não quer dizer que, quando eu estou num estado extático em que a energia sexual está lá, eu aí seja só mulher ou seja só homem, eu acho que aí não há tantas definições de homem e mulher. Quando nós falamos de designe masculino e feminino sim, realmente há diferenças que nos levam para uma coisa ou para outra.
E por isso é tão importante um homem abrir-se ao feminino.

Em todas as tradições, xamânicas, no Egipto, etc, é a mulher que é iniciadora do homem. Aqui vemos como a nossa educação faz tudo ao contrário!

Por isso é que é impossível não haver um trabalho alquímico! A nós ensinam-nos que vem o homem, o nosso primeiro homem, e ele é que nos vai ensinar tudo sobre sexo, ele é que nos vai desvendar os mistérios, ele é que nos vai guiar na sexualidade… e é o contrário! É o contrário! A mulher é que tem esta sabedoria de forma praticamente inata –
praticamente porque lá está, se a mulher for muito condicionada a não utilizar a sabedoria do seu corpo, e castrar a sua sexualidade, obviamente é difícil então a mulher ter esta intuição. Mas, é tão difícil para ela como para o homem, aqui é igual.

Agora, tradicionalmente, ou digamos espontaneamente, a mulher tem muito mais esta vivacidade sexual em si, e tem um ritmo muito mais holístico e muito mais ligado ao sagrado, o qual o homem deveria seguir. Portanto, nestas tradições é sempre o homem que deve seguir a mulher. Até porque as mulheres têm pólo receptivo na Yoni e no chakra da coroa, portanto as mulheres são muito mais abertas tanto à sabedoria da Terra tanto à sabedoria do Céu, por isso é que as mulheres podem atingir com a sua sexualidade formas muito mais além. O homem quer ir com a mulher para que a mulher possa guiar esta “nave” de sexualidade extática, a mulher é que é a condutora destas aberturas.

Agora, quando falamos de uma sexualidade mais mundana, é um bocadinho igual, homens e mulheres os dois terão coisas interessantes. Quando falamos de sexualidade que nos traz sabedoria, ou que nos traz intuição, a mulher deverá ser a guia.

~ Lembrava-me que as imagens que tenho dos Xamãs são sempre um pouco andrógenas…

~ Exactamente! E costuma-se dizer que a mulher veste-se de homem quando procura ter poder e o homem veste-se de mulher quando procura Deus. Aqui vemos que nestas práticas de travestismo em que o homem se veste de feminino está à procura da sua ligação com o divino, está a seguir o feminino. Na sexualidade é como se houvesse um reflexo desta sabedoria do homem seguir este ritmo e esta inspiração feminina.
Agora, o homem em si, o seu próprio designe, traz capacidade de resolver desafios, traz capacidade de ver a não-dualidade. O seu grande obstáculo é a racionalidade… mas tem esta potencialidade de ver as coisas de uma forma não-dual. Enquanto a mulher, como portadora do ciclo, anda sempre muito mais na montanha russa. O homem tem muito mais a capacidade de ver para além dos ciclos, se estiver alinhado, e se também se permitir sentir o seu lado mais oscilante. Por exemplo, eu agora converso com o meu companheiro e ele também já sente a lua cheia e a lua nova, e diz que sempre sentiu, mas que apenas não ligava à lua. O homem também precisa de aceitar a sua própria ciclicidade, apesar de ter a tendência para ver tudo de forma mais absoluta.

Outra coisa importante, pelo menos na questão da maternidade, hoje em dia há muito esta tendência de equiparar os homens às mulheres, de ver que os homens têm que fazer tudo igual às mulheres.
Eu pelo menos não sinto assim.
Eu sinto mesmo que os primeiros tempos da maternidade servem para a mulher dar tudo e aprender a ser mãe neste sentido de Dar. Agora, se o homem estiver a alimentar e a nutrir a mulher, aí sim cria-se um equilíbrio. Então cria-se este triângulo sagrado, em que temos a mulher a doar ao bebé e o homem a doar à mulher. Se houver esta dinâmica é muito mais estável do que o homem estar a tentar passar noites sem dormir.

Pelo menos para mim foi importantíssimo, a minha filha só passou a dormir noites mais seguidas a partir dos dois anos e meio, até lá acordava a cada duas horas mais ou menos, e para mim foi importantíssimo eu dormir com ela, o meu companheiro dormir bem noutro sítio, e ele estar disponível de manhã para mim com um sorriso, e a meio da noite se eu estivesse a entrar em colapso. Esta dinâmica para mim foi vital.
Se ele tivesse estado comigo a dormir mal ele ia transformar-se num monstro. Ele não tinha aquelas hormonas, ele não estava a passar pela mesma alquimia que eu, portanto ele não ia poder suportar da mesma forma que eu. E depois, quem é que eu ia ter de manhã para me ajudar? Ninguém! Quem me fazia o pequeno-almoço? Ninguém! (risos)
Esta coisa de equilibrar o masculino com o feminino tem muito que se lhe diga. É mais ver a interdependência de todas as coisas, deste designe e desta biologia. É claro que não temos que nos limitar a sermos mulheres e homens com o seu designe a todo o tempo, muitas vezes quando estamos nestas vivências fora da caixa, simplesmente somos fora da caixa, não somos homem nem somos mulher.

~ Matridança, o que é? O que significa o nome? Como surge?

~ Matridança já ia acontecendo, mas eu fui cada vez mais percebendo que tinha que lhe dar um nome…

Matridança vêm obviamente de matriz. É uma dança que dança a matriz inteira da mulher. Matri é um prefixo que também existe no Sânscrito, que a mim me evoca essa força da matriz feminina. Foi um nome que surgiu muito intuitivamente.

O objectivo da Matridança quando o criei, e que continua a ser, é o perceber como é que pode haver novamente um dança feita do feminino e do corpo feminino em que as mulheres dançam os seus corpo de forma livre, de forma consciente, de forma não condicionada.
Todo o trabalho da Matridança é um trabalho por um lado de descondicionamento de todas estas coisas que temos vindo a falar, de uma aprendizagem de como vivenciar o corpo, o sangue e o movimento, com a inteligência natural e espontânea que temos.
Por outro lado é também um trabalho de linguagens – onde temos o Butô; das danças rituais do feminino – com muito foco no norte de África e médio oriente, que é onde se preservaram mais coisas. Utilizando estas linguagens, mas em vez de ser só a soma das partes é mesmo o tentar que haja uma nova expressão com estes movimentos, que para mim são movimentos que sempre existiram ligados ao feminino.

Por exemplo, a vibração: vibrar na nossa pélvis ou vibrar os pés no chão, existe em vários sítios e todos estão relacionados com Shakti, com esta energia feminina que pulsa da terra. Tudo o que tem a ver com fazer vibrações altera o nosso corpo, e afina-nos na nossa energia feminina.

Outro exemplo, tudo o que tem a ver com girar: hoje em dia liga-se muito ao giro Sufi quando se gira ininterruptamente, mas na verdade esse giro, que até uma criança faz, é um giro primordial porque já existia muito antes de existirem as confrarias sufis, e existia por todo o lado. É um giro que nos faz entrar noutro estado de consciência, e que muitas vezes implica também o giro da cabeça, é mais selvagem do que o giro sufi, não é tão contemplativo, é mais entrarmos dentro de um tornado.

São expressões de movimento, ou técnicas, que fazem com que a mulher afine a sua biologia com estas forças da natureza.

~ Fala-me um pouco do processo iniciático de criação de personagens femininas bíblicas demonizadas. Como surge? Como foi o processo?

~ Isto surge quando eu comecei a fazer um trabalho mais profundo com a sexualidade. Curiosamente quando eu comecei esse trabalho também foi na mesma altura em que iniciei um trabalho espiritual mais intenso… ou mais desconhecido para mim. Inclusive estamos a falar por exemplo de medionidade, com o trabalhar de outras dimensões sem ser esta dimensão física.
Então, as duas investigações ocorreram ao mesmo tempo, e eu sinto que teve muito a ver com isso, que catapultou aqui uma série de coisas.

Primeiro foi o meu nome: “Vera Eva Ham” surgiu nessa altura, e surgiu intuitivamente, foi um nome recebido, não foi procurado por mim. E o nome “Eva” começou logo a criar aqui uma necessidade de eu aprofundar quem é esta Eva.

Tudo começou com a Eva. Começou com este trabalho de fazer toda esta investigação da história da Eva, da mitologia acerca de Adão e Eva.

E a seguir veio a Salomé. Que surgiu a seguir ao meu parto. Teve muito a ver com o mistério do sangue.
A Salomé é associada a uma sanguinária que manda cortar a cabeça de São João. Curiosamente este São João Baptista está em todo o lado sempre associado ao feminino, sempre associado à religião do feminino. Na bíblia quando se fala da religião inimiga nós já sabemos qual é, eles nunca falam da Deusa, mas nós sabemos que quando eles falam de quem adora os ídolos, eles estão a falar da religião da Deusa. Eu comecei a ver muito nitidamente a bíblia como uma forma muito propagandista de demonizar tudo o que tinha a ver com a religião da Deusa.
Portanto, todos estes mitos, a Eva, a Salomé e depois a Maria Madalena – que não são só mitos, alguns deles acredito que sejam mesmo reais – são formas de deturpar mitos que já existiam anteriormente de uma forma completamente diferente, na qual o feminino é tratado como lado sombrio, o que trás a desgraça.

O mito da Salomé tem muito a ver com o coração de João Baptista, que nós temos cá em Portugal com a ligação com as Moiras encantadas que vêm na noite de São João. Nessa noite de São João há toda uma possibilidade de fazer oráculos e de perceber a nossa abundância, a nossa fertilidade – isto agora, dantes não era só estas questões se iríamos ter filhos ou não – então, São João está sempre ligado ao feminino.
Isto foi a minha leitura da Salomé, esta imagem da mulher com uma cabeça a jorrar sangue, tem muito a ver com este decapitar do Ego, que nós temos com a Chinnamasta. Eu associei muito a Salomé a uma nova versão da Chinnamasta, que em vez de ser com a sua própria cabeça está com a cabeça do masculino, mas poderia ser a sua própria cabeça. É toda esta versão da Salomé como uma sacerdotisa da religião da Deusa em que houve uma ligação com o São João.

Depois, a Maria Madalena foi no ano seguinte, e foi natural ter que ir à Madalena que é das mais importantes figuras da bíblia, e que agora o ano passado já foi reconhecido o dia 22 de Julho como o dia de Maria Madalena. É uma figura que não é só a prostituta como muita gente continua a ver, mas sim uma figura que também foi líder do cristianismo.

O cristianismo arcaico foi desenvolvido tanto por Maria Madalena como por Jesus. Depois a história de como Maria Madalena foi transformada noutra coisa qualquer dá pano para mangas, mas tem a ver com a sexualidade, tem a ver com a negação da sexualidade feminina.

A mulher, na visão católica, só poderia ser uma coisa: virgem, santa. Por isso não é possível pensar que se poderia dar esta liberdade da mulher ter este papel de liderança espiritual, que nós sabemos que está no início do cristianismo. Há mesmo figuras embutidas em igrejas em Itália, ainda com imagens de mulheres a dar a missa, e nós sabemos que onde há fumo há fogo, e todo este querer calar do feminino é provavelmente porque o feminino tinha uma grande importância. E esta importância faz lembrar o quê? Faz lembrar a religião da Deusa!

Naturalmente houve uma necessidade de calar politicamente esta tendência que o feminino tem para a espiritualidade. Nós vamos à igreja e quem é que está lá? A maior parte são mulheres. Esta maioria feminina continuamos a ver até no Yoga (nos cursos de Yoga há um homem para 14 mulheres), mais uma vez, só não vê quem não quer.

~ O teu parto influenciou o teu processo de criação? Como?

~ Muitíssimo. O parto para mim foi muito importante porque eu também utilizei o sangue do parto, tal como nós utilizamos na menstruação, para limpar.

Durante a gravidez eu utilizei um Sigilo Mágico – por exemplo, tens uma intenção, reduzes essa frase só às letras consoantes que não estão repetidas, depois, com essas letras, fazes um desenho ou fazes uma unidade simbólica que tenha essa frase lá dentro – para poder parir de forma selvagem, extática, sem medo. Era este o meu objectivo. E utilizava o Sigilo tanto nas minhas meditações, como a fazer amor, como em outros momentos.

Depois, quando foi o momento do parto, este empoderamento foi tão forte, que sentia que já podia limpar tudo o que já não fazia parte de mim, já não fazia parte da minha história. Foi deixar mesmo morrer a antiga Vera e deixar nascer a nova Vera. Fazer isto, passar por isto e sentir isto de forma positiva claro que transformou tudo!

Acho que fiquei ainda mais consciente daquilo que quero e de que já estou a viver o meu sonho e que já estou a viver as coisas que quero para mim. O parto ajudou-me a sentir isso, a sentir mais força a viver os meus sonhos e a ser aquilo que já Sou.

Na relação com a dança, fiquei com muito mais vontade de avançar com o Matridança de uma forma mais coesa. Foi nessa altura que falei com a UNESCO, que quis que este trabalho fosse visto e reconhecido de outra forma. Também foi nessa altura que comecei a pensar em fazer formações mais extensas.
A parte da companhia também surgiu depois do parto, senti que era preciso juntar mulheres para fazermos um processo criativo para fazermos uma criação, com a minha direcção, em que cada mulher pudesse trazer a sua história.

É muito importante para mim que a companhia seja feita não só de profissionais da dança, mas de uma diversidade de mulheres: tem mulheres mais velhas, mulheres mais novas, mulheres que são professoras, apenas uma minoria é profissional da dança. São todas mulheres relacionadas com o seu corpo e com o seu movimento. Na minha visão da Matridança não é obrigatório uma mulher ser dançarina ou bailarina para poder criar, dançar e ir para um palco.

O primeiro trabalho da Matridança foi sobre a linhagem feminina, foi o ARCHÉ. A linhagem feminina é outro dos processos importantíssimos para uma mulher fazer antes de parir – ou quando o quiser fazer – que é esta investigação da linha de mãe para mãe para mãe. Este é um trabalho que a maior parte das mulheres também precisa de fazer, precisa de ir buscar informação que está escondida, destorcida e completamente negada. Claro que tem o lado de colocar as mulheres em contacto com coisas que não gostam, mas a verdade é que não é tanto saber as histórias da linhagem, às vezes são coisas mais subtis…

Umas coisa que acontece neste processo é começarmos a sentir uma força para além da nossa, nós com esta visão racional e separada ficamos muito sozinhas, ficamos no “Eu tenho que ter força, eu tenho que ter a minha energia”, mas eu não tenho! Então, com este trabalho começamos a perceber que não estamos sozinhas, temos uma linhagem por trás de nós que vai até à primordial – este foi trabalho do ARCHÉ, que foi feito neste primeiro espectáculo.

Para além de toda esta linhagem de mulheres que podem ter tido as suas tristezas, as suas desilusões de amor, desilusões de concretização pessoal, nós, se formos até à primordial, temos uma mulher que deu origem a toda a nossa linhagem, que o mais provável é que não tenha tido nenhuma destas feridas, portanto, ela é uma mulher inteira, é a personificação do Feminino Desconhecido que nos antecede. Quando nos ligamos a esta mulher, sentimos que temos uma força para além da nossa, sentimos que temos coragem e energia para fazer muito mais coisas do que quando pensamos que vem tudo de nós.

Curiosamente, a nível cientifico há descobertas paralelas. Fez-se uma investigação do DNA europeu que foi dar origem a sete mulheres, que são as sete Evas, que deram origem a toda a gente. Por isso, toda a gente que nós vemos aqui neste café (onde estamos a conversar) tem DNA que vem de uma dessas sete mulheres. E todas essas sete mulheres vêm da Eva africana, que essa é que deu origem a todos os DNAs. Isto não quer dizer que não tenham existido outras linhagens, mas aquelas foram as que sobreviveram mais ao tempo.

~ Como é que foi o teu parto?

~ O meu parto correu mesmo muito melhor do que eu poderia ter imaginado!

Eu tenho muito aquela perspectiva guerreira, eu preparo-me para o pior, eu não me preparo para o mar de rosas ou “aguinha com açúcar”! – aliás, eu quando estou a falar de espiritualidade também não estou a falar de aguinha com açúcar! Não estou a falar de estar aqui no “isto está tudo tão bem”, estou a falar de forças da natureza dentro de nós com que não é nada fácil lidar.
A nível da dor estava preparada para o pior. Preparei-me para o pior para que depois o que pudesse vir, se não fosse tão mau, fosse maravilhoso. E parece que resultou bem assim.
A minha gravidez foi bem suave, bem tranquila.
Depois, eu comecei a sentir moinhas, mais ou menos uma semana antes do parto, e todas as noites achava “vai ser hoje!”, mas não acontecia nada. Ia falando com a minha Doula, que me ia dizendo que era normal, que ainda não ia ser. Depois comecei mesmo a ter contracções mais regulares, nessa altura chamei as parteiras e a Doula para virem ver o que era. Eu estava bastante à vontade com elas, mas o engraçado foi que quando elas estavam lá a olhar para mim, não acontecia nada, começava a contracção e parava. Aí eu percebi que era mesmo importante ficar sozinha. Elas disseram que iam ficar ali ao lado que ainda ia demorar muito tempo. O meu companheiro foi comprar umas pizzas, eu deitei-me, mas mal ele saiu passados cinco minutos rebentaram as águas e começou tudo super intenso. E ainda bem que já estavam lá as parteiras, já estava lá tudo preparado.

Na parte mais das contracções eu estava muito no corpo, estava mesmo na partolândia. Mas eu lembro-me de pensar nas mulheres, e de como era possível eu não estar a sentir dor, esse foi o primeiro choque que tive. Não percebia como era possível eu não estar a sentir dor nenhuma! Depois, intuitivamente pensei que se não me estivesse a mexer daquela forma, se não estivesse ali às voltas sozinha, se calhar eu também estaria a sentir dor.
Aí tive muita consciência que o corpo, e a nossa ligação com o corpo, faz muita diferença em todas estas fases importantes da mulher, sendo o parto uma das mais importantes.
Eu só me lembro disto porque o meu companheiro me contou, ele diz que eu parecia um felino, grunhia, fazia sons, andava sempre de gatas.

Também estive dentro de água, mas senti que atrasou um bocadinho, as contracções ficaram mais lentas, e o que eu senti é que precisava de me mexer. Eu pari fora de água, foi mesmo importante o movimento na terra, que se calhar é mais o meu elemento para parir.

Eu penso muito que o cocktail de hormonas do parto equivale a pensares em usar uma droga forte e ires para o hospital. Ninguém pensa nisso! Porquê parir e ir para o hospital? As hormonas e todo o efeito é completamente alterador de consciência! Eu lembro-me de falar com a minha Doula e dizer-lhe “Eu de certeza que vou querer massagens”, qual quê! Eu não queria toque nenhum! O meu corpo subtil estava do triplo do tamanho!
O parto é esta sensação física de que não podemos fugir do corpo, e que se nos deixarmos levar por isso, é uma viagem maravilhosa.

~ Qual é a tua opinião sobre o parto na água?

~ Eu acho que todos os elementos – a terra, o ar, o fogo, a água, o éter – são importantes para um parto, por isso, a qualidade do sítio onde nós parimos é importante.

A água, sendo um elemento feminino por excelência, ter a presença da água é essencial. Mesmo não utilizando uma banheira, só utilizar a água ou saber que podemos utiliza-la é importantíssimo.

E acho que a importância do parto na água é paralela à importância da mulher resgatar o parto a si própria. E não com medo de parir, com medo que não haja controlo sobre o parto. Para mim é a mesma luta, é lutar por a mulher poder ter as condições que ela deseja para o parto, seja água, seja casa, seja estar dentro de um rio… acho que a mulher deve resgatar o parto para si.

 

Gratas a ti, Vera!!
Podes conhecer mais sobre o trabalho da Vera, absolutamente inspirador, AQUI, e AQUI.

(fotografias de Luis Conde)


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.