Entrevista a Janet Balaskas Entrevista

Conversamos com a Janet Balaskas, criadora do conceito de Parto Activo e grande impulsionadora de mudança no cenário de Parto desde a década de 80. Vamos ouvir as suas ideias?

 

Como surge na tua vida este trabalho voltado para o cuidado da gravidez e do Parto?

Surgiu quando eu fiquei grávida pela primeira vez e comecei a explorar o que era o parto. Nessa época o parto era altamente medicalizado no Reino Unido, todas as mulheres pariam no hospital, deitadas de costas. Eu fiquei horrorizada com o que encontrei. Isso fez-me pensar – de certeza que há aqui algo de errado! Porque é que somos os únicos mamíferos que precisam de tanta ajuda e intervenção com um processo biológico que é instintivo e natural? Tem de haver uma outra forma!

Parir não é uma doença – porque é que nós precisamos de toda esta interferência médica quando não existem problemas e a mãe é saudável?

Pedia-te que começasses por explicar um pouco os princípios do parto activo.

Num parto activo a própria mãe está empoderada para comandar o seu parto. Ela é livre de se movimentar, de adoptar a posição que a faz mais confortável, de respirar no seu ritmo natural e de seguir o que o seu corpo lhe diz. Ela tem a paz e a privacidade para seguir os seus instintos sem ser perturbada.

 

Quais os benefícios do parto activo?

Estar numa posição vertical permite a ajuda da gravidade, o que torna muito mais fácil a descida e posicionamento do bebé e também facilita o trabalho que o útero tem de fazer. Como as mulheres tendem a inclinar-se para a frente há menos resistência ao trabalho do útero, logo a dor é muito menor. Existe também um melhor fluxo de sangue para o útero e o bebé, portanto há mais oxigénio e hormonas que são trazidas pelo sangue. Isto significa contracções mais eficientes e um menor tempo de trabalho de parto.

A abertura da pélvis também é muito maior dando mais espaço para o bebé descer e nascer mais facilmente.

O parto activo é mais seguro para o bebé, com muito benefícios para a sua saúde tanto a curto como a longo prazo, e é empoderador para a mulher. Inclui todas as vantagens de apego e vinculação que a natureza pretende.

Falas sobre a mulher ouvir os seus instintos durante o parto. Como ajudas as mulheres a “conectarem-se” com os seus instintos?

Eu acredito que as mulheres grávidas beneficiam muito com a prática de Yoga especialmente desenhado para a gravidez. Isso ajuda em muitos níveis, incluindo relaxamento e consciência corporal. O instinto já lá está, e tudo o que as mulheres precisam de fazer é aprender a relaxar e a confiar no que sentem no seu corpo – o Yoga é ideal para isso. Ajuda a praticante a “ficar no corpo” que é onde o instinto está.

 

Quando falas na importância das hormonas, não só para regular o processo de parto, mas também para a vinculação entre a mãe e o bebé, surge-me a dúvida se o deixar esse processo hormonal decorrer naturalmente não irá ajudar a evitar depressões pós-parto… o que pensas sobre isto?

Depressão pós-parto é um assunto complexo que pode ter muitas causas. Certamente que ter a vantagem das hormonas de um parto natural e da amamentação irá imbuir a mãe e o bebé de amor e hormonas maternais, e irá promover bem estar e apego. A depressão que é causada por parto traumático pode ser prevenida dessa forma.

Depressão inexplicável, ou depressão que já existia antes do parto, pode precisar de aconselhamento profissional ou terapia. Na minha experiência normalmente existe uma razão para a recém-mãe estar deprimida, que pode estar mergulhada na sua história de vida, mas que normalmente pode ser ajudada conversando com uma pessoa experiente. Se uma recém-mãe estiver deprimida, independentemente do parto que tenha tido, é urgente procurar ajuda e apoio e não esperar que passe por si.

 

Trabalhas com a gravidez e o parto há mais de três décadas, acompanhaste muitas mudanças na forma como se nasce no Reino Unido? Como foi acontecendo esse processo de mudança?

Sim, no geral as coisas mudaram para melhor – Parto Activo transformou-se num termo comum e há em todo o Reino Unido muitas casas de parto lideradas por parteiras que estão desenhadas para o Parto Activo. Mas há também muitos sítios em que as coisas não mudaram muito e existe um grande problema de falta de parteiras, bem como falta de entendimento sobre o que as mulheres precisam para parir facilmente. Aprendi que a mudança acontece muito lentamente, especialmente em instituições como hospitais, onde existe uma hierarquia de profissionais, convenções e mentalidades que são difíceis de mudar. Mas esta é uma revolução que está a acontecer por todo o mundo e que acontece Parto a Parto, por isso não devemos ser desencorajados por isso. Devemos continuar a trabalhar com uma mulher de cada vez.

 

 

Qual é a tua opinião sobre parto na água?

Uma piscina de parto é um instrumento que todas as grávidas de “baixo risco” deviam de ter disponível. É uma grande ajuda no trabalho de parto intenso e pode ajudar a mãe a relaxar e a sentir-se livre no seu corpo. É inesquecível o alívio e o relaxamento ao entrar na água quente, e assim o tempo passa mais depressa antes da mãe estar pronta para parir (Falo por experiência própria).

Algumas mulheres utilizam a piscina para relaxamento e alívio da dor no trabalho de parto e saem da piscina para a expulsão. No entanto muitas mulheres permanecem na piscina para a expulsão, e é comum que o nascimento seja fácil e extasiante.

Eu acho que a utilização da água é uma parte natural de um parto activo. Nós aprendemos isso nos primeiros tempos em que as mulheres, livres de se movimentarem no trabalho de parto, pareciam tão instintivamente atraídas para o chuveiro ou a banheira. Foi daí que surgiu a ideia para uma piscina mais profunda, específica para o trabalho de parto e parto.

Algo que tu queiras acrescentar para terminar? Alguma mensagem para as nossas leitoras?

Quer sejas uma mulher grávida ou uma profissional que trabalha com parto, junta-te a nós no workshop nos dias 28 e 29 de Outubro em Lisboa.

Iremos entrar em todas estas questões em profundidade. Adorava conhecer-te, trabalhar contigo e inspirar mudança para as mulheres em Portugal.

Ficamos a aguardar pelo workshop para conhecer mais e melhor as ideias de Janet sobre o Parto Activo.

Muito gratas pela conversa.


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.