Perda Gestacional Autores convidados

Ser Mãe

Ser mãe vai muito mais para além do acto de dar à luz. Ser mãe é engravidar, é ver um teste positivo, é ter um ser por mais minúsculo que seja a depender de nós para evoluir, é sentir sem muitas vezes o sentir, porque senti-lo não implica que já se mova, sentir que o temos cá dentro simplesmente porque o nosso corpo se modifica.

Ser mãe é tudo isto… Mas isto é ser mãe sem ver, sem sentir o cheiro, sem pegar no colo. Depois passamos a ser mãe de pegar no colo, de sentir o cheiro, de ouvir chorar e muito mais, quando damos à luz. Mas se ser mãe é tudo isto, porque é tão complicado entenderem que há mães que nunca viram os seus bebés e nem por isso deixam de ser mães????

Texto por Sandra Cunha, Presidente da A-PA

 

O dia 15 de Outubro é assinalado em diversos países como o Dia da sensibilização para a perda gestacional e morte Neo – natal.

Em Portugal, este dia ainda não é reconhecido como tal, contudo a Associação Projecto Artémis, procura sensibilizar a sociedade para a importância deste dia.

A Perda Gestacional é vista na nossa sociedade como um tabu, é um tema do qual não se fala, e que muitas vezes a realidade das sequelas psicológicas e a dor pela qual estes casais passam não é conhecida da população em geral. Na maioria dos casos estes pais sofrem em silêncio. Um silêncio aterrador que se inicia no momento em que recebem a notícia da perda do seu bebé e permanece pelo silêncio a que a sociedade os obriga. 

A Associação Projecto Artémis, é uma instituição sem fins lucrativos que tem como foco de trabalho o apoio a casais que perdem bebés durante a gestação.

É nossa missão:

– Chamar a atenção para a problemática da Perda Gestacional no nosso país. 
– Oficialmente, conseguirmos que seja reconhecida por todos como um problema real. 
– Honrar e celebrar a luta árdua que milhares de portuguesas enfrentam para dar à luz o seu filho. 

– Quebrar o tabu envolto na ignorância / desconhecimento de um problema diário .

– Dignificar o sofrimento e dar-lhe voz.

 

No nosso país as lacunas em torno da perda gestacional tem início desde logo nas instituições hospitalares e no sistema governamental onde estas instituições estão inseridas.

Ora vejamos:

  1. Os dados estatísticos existentes no que se refere às perdas até às 22 semanas de gestação (considerado clinicamente abortos espontâneos) estão inseridos no Relatório anual das complicações das interrupções da gravidez. Facto que consideramos que minimiza as perdas gestacionais, bem como que desrespeita estes pais que perderam os seus bebés sem vontade própria;

  2. Os dados estatísticos existentes em relação às perdas gestacionais após as 22 semanas de gestação são dúbios. Os últimos existentes referem-se a 2015 e indicam 489 perdas gestacionais.

  3. Os pontos anteriores baseiam-se no registo efetuado pelos hospitais, quando no próprio relatório da Direcção Geral de Saúde indica que nem todos os hospitais responderam quando lhes foi solicitado esses números.

  4. Nas nossas instituições hospitalares, em muitos casos, estas mães são internadas nas mesmas enfermarias/quartos que parturientes em situação de parto normal, são confrontadas com bebés recém-nascidos durante todo o seu internamento, o que demonstra um total desrespeito por estas mães.

  5. No site do Sistema nacional de Saúde, o decreto de lei nº 113/2002 de 20 de Abril que se refere à Dispensa do certificado médico em caso de morte fetal, está inserido na legislação da Interrupção Voluntária da gravidez, o que nos leva mais uma vez à inclusão destas situações no local errado, mostrando a desvalorização sobre a perda gestacional.

  6. Nas instituições hospitalares não é prática comum a disponibilização do serviço de psicologia a estes casais, muitas vezes o mesmo é apenas disponibilizado em casos de perda no 3º trimestre, e mesmo assim leva meses a verificar-se o início do acompanhamento.

  7. Nem sempre a notícia é dada a estes pais da forma mais humanizada, é em muitos casos, principalmente nas perdas de 1º trimestre, desvalorizada a perda deste bebé por parte dos técnicos de saúde, verbalizando inclusive em diversos casos frases desumanas o que cria revolta mais acentuada nestes pais.

Posto isto, e considerando que a A-PA para além do serviço que presta junto destes pais, tem como responsabilidade promover a melhoria no acompanhamento e sensibilização junto da sociedade em geral, identificamos as seguintes recomendações que consideramos que de alguma forma poderão ajudar a que estes pais tenham um melhor acompanhamento e que estas perdas sejam respeitadas e valorizadas como tal.

Recomendações:

  1. Existir dados estatísticos fidedignos, e um registo obrigatório por parte das instituições hospitalares em qualquer idade gestacional em que a perda ocorra

  2. Os números relativos às perdas não serem inseridos no Relatório anula de Complicações nas interrupções da gravidez, mas sim num relatório referente apenas às perdas gestacionais

  3. A legislação estar inserida no site do SNS num local associado à gravidez e não às IVG.

  4. Nas instituições hospitalares estas mães serem colocadas em quartos apenas com outras mães na mesma situação, quando necessitam de internamento

  5. Os técnicos de saúde serem sensibilizados para um acompanhamento e abordagem mais humanizada, independentemente da idade gestacional a que a perda ocorra

  6. Ser disponibilizado um acompanhamento do serviço de psicologia de forma mais regular e imediata a estes casais, independentemente da idade gestacional em que a perda ocorra

Estas são algumas recomendações que consideramos urgentes, e que será um primeiro passo para que estes casais possam vivenciar o seu luto com mais respeito e dignidade.

Acreditamos que esta é uma causa não só destes pais mas da sociedade em geral, assim sendo contamos com a sensibilidade de todos para quebrar o silêncio que teima em existir em torno da Perda Gestacional.

 

Associação Projecto Artémis

A Associação Projecto Artémis ( A-PA), fundada em 2005, tem por objectivo promover a prestação de cuidados de saúde materna, de âmbito físico e psicológico, nomeadamente por meio de aconselhamento e apoio clínico e psíquico, a mulheres vítimas de situações clínicas de aborto e/ou morte fetal e respectivos companheiros, bem como promover e fomentar a reabilitação e recuperação física e psicológica dessas mulheres e respectivos companheiros ou agregados familiares.