Esse nome que lhe estava destinado… Ser Mulher

 

Colo vazio.

É uma expressão muito forte…

Lembro-me de a ter ouvido pela primeira vez no encontro Nascer em Amor (da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto), quando o Projecto Artémis foi convidado. Ecoou dentro de mim de uma forma diferente. Só agora percebo melhor porquê.

Não foi apenas sensibilidade de Mãe para Mãe pelos relatos de histórias de mulheres que perderam filhos durante a gestação. Não foi somente mais uma revolta passível de um activismo que me parece correr nas veias para causas injustas. Nem foi  pura e simplesmente empatia de conseguir calçar os sapatinhos de alguém e tentar imaginar o que pode ter sido passar por aquele sofrimento. Não foi pudor… não foi angústia… não foi tristeza.

Foi “simplesmente” memória. Memória corporal e espiritual.

Antes de eu nascer a minha Mãe deu à luz uma menina que nasceu morta. Já aqui contei parte da história mas podem vê-la de novo aqui. Sem sinais de parto ainda, mas com contas a rondar já os 10 meses de gravidez… a minha Mãe foi ao hospital mas mandada para casa 15 dias antes de dar à luz “a menina  que Deus tem”. É sempre assim que se refere a ela. E apesar do carinho que a expressão denota, sei que lhe revolve as entranhas ter visto escrito “nado-morto” e não lhe poder dar um nome. Esse, que lhe estava destinado, herdei-o eu, e com ele a sua memória. Física e imaterial também.

As Mães sabem quando algo está mal. A surpresa da morte, em vez da vida…

Os braços ágeis e velozes para acudir uma emergência qualquer, assim que ela nasceu, e a placenta verde, anunciaram-lhe logo que algo estava mal. Não foi ao funeral e não tem lápide onde ir chorar. À mistura com outras Mães que tinham nos braços os seus filhos, assinou termo de responsabilidade para vir para casa, pois não aguentava o colo vazio que lhe calhou. E como? Como é que se lida com uma ausência destas? Com as palavras que não chegam a ser ditas? Os olhares que não chegam a repousar no encanto de os ver crescer? Os futuros que não se imaginam? Os abraços e gargalhadas que se não dão… A fronteira entre a sanidade e a loucura deve ser diária.

Foi há 40 anos atrás… algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Muitas mulheres continuam a chorar em silêncio, desprovidas da dignidade que este luto merece.

Já é possível dar um nome mas não há lugares diferentes para estas Mães, que continuam a  ficar juntas das que têm bebé para cheirar, beijar e abraçar.

Quem me conhece sabe que sou perspineta, vivaça, com algum humor e energia a mais. Nos tempos modernos seria considerada uma hiperactiva, com toda a certeza. Ou talvez não. Mas vem isto a propósito de algo mais profundo que sei que tenho e com o qual não sei lidar. Uma tristeza profunda que me aparece às vezes sei lá bem de onde. Invade sem pedir licença e só não se instala porque… o caminho de libertação interior já é longo. São estados de alma tão avassaladores que a tendência é fugir deles em vez de os olhar de frente. Mas recentemente, tive um vislumbre do que seria, de onde vem… e para onde será que vai?! Mesmo sem perceber de forma consciente, a memória está cá e reconhece os momentos… e sei agora porque choro desconsoladamente quando conheço histórias de sofrimento no binómio Mãe – bebé. O nó na garganta… vem desta memória da minha irmã que não cheguei a conhecer mas que carrego comigo.

Enquanto pesquisava, um pouco à toa, sobre a perda gestacional, dei de frente com este documentário: O segundo Sol. “Só a tristeza sente empatia… a alegria não sente” ouve-se às tantas. Talvez esta minha tristeza, que eu tanto nego e repudio, com a qual não sei lidar, tenha um propósito. O de compreender estas histórias como se fossem minhas, porque na verdade o são, sem nunca antes o ter percebido.

Felizmente há oásis nos desertos. Não para matar a sede mas para ver a minha imagem na água límpida e deixar que ela revele mais uma verdade sobre mim.

“Quem sou eu?”, perguntei-me vezes sem conta desde que me conheço… tão normal sentir-me perdida, percebo agora.

Hoje deixo o meu abraço apertado, sem palavras, todo abraço, só abraço, a todas as Mães que perderam filhos, in útero ou fora. Atrevo-me a dizer que conheço a vossa dor.


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)