Slow movement, parenting, e outros privilégios. Coluna Humaniza-te

O mundo não é um lugar muito legal se observarmos as estatísticas e a totalidade.

É muito interessante escrever na plataforma de um país “de primeiro mundo” e viver num país de “terceiro mundo” colonizado pelo anterior.

Mesmo num país como o Brasil eu tive uma criação de “primeiro mundo”, as minhas referências são muito parecidas. Apenas há pouco tempo tive a oportunidade de vislumbrar a minha vida e os meus privilégios da forma que ela realmente foi. Principalmente na infância.

 

Eu não tive uma infância “slow”.  Desde música, dança, pintura, yoga, sempre que podia a minha família colocava-me em algo novo para me ajudar a despertar as minhas potencialidades. Digo, tenho muita sorte. Muitos privilégios que fazem de mim alguém que tem uma visão e postura diferenciadas na vida. Uma especialista de nada, uma opinadora profissional de quase tudo….

 

Mãe muito cedo e adepta de vários ideais, compactuei muito com o tipo de pensamento slow. Mudei-me da cidade grande, fui ter uma vida mais “frugal” lenta e em paz com a natureza. O que aprendi? Todo o ideal é muito lindo.

 

Mas a prática e dia-a-dia de seguir contra a maré de forma total para mim é utopia. E acrescento, é algo muito difícil principalmente se você ainda não tiver alcançado algum status na sua vida, ou não tiver quem o dê para você.

 

Sim, as crianças precisam de menos aulas de mandarim e mais brincadeiras, elas são seres que não podem ficar pulando etapas de aprendizagem, se não com certeza se tornarão adultos loucos. Mas …. e estes adultos que já estão “loucos” imersos na necessidade de oferecer o básico aos seus filhos?

Sinto-me um tanto imbecil se não falar acerca da necessidade que o mundo tem de mais pessoas despertas e atentas, com preocupações mais reais acerca do futuro.  A vida pode ser maravilhosa se você entrar num fluxo mais tranquilo, mas qual é o preço disso? Vejo os movimentos de “slow tudo” o tempo todo jogando na minha cara que eu deveria estar praticando yoga numa bela floresta quando a minha realidade são contas a pagar, roupas para lavar, comida para fazer, e um mundo onde a maior parte dos trabalhos obviamente não acompanham este estilo de vida. Ser autónomo demanda muito mais trabalho, uma vez que o mercado é extremamente competitivo e é para poucos, e ainda ouso dizer, pior para as mães.

 

Não digo que você não deva rever a forma como está a educar os seus filhos, a vida precisa que você se questione o tempo todo, se desconstrua e a maternidade grita isso a todo o tempo para você.

 

Só gostaria que soubesse que não existe o modelo ideal de vida dos sonhos, e que dentro das suas possibilidades, não se frustre, foque no caminho do bem, do que a faz sentir em paz. Mais importante do que ir devagar é ir com qualidade criando uma relação onde os nossos filhos sejam livres para manifestarem todos os potenciais que têm internamente.

Bom, isso é só uma reflexão.

 

Carinho meu

 

(Fotografia por Camilla Albano Fotografia)


Mãe de Lenin e Manuella, Doula, Terapeuta Corporal, Instrutora de Yoga com foco em Gestantes e Crianças, da Associação Internacional de Ecologia Feminina,desenvolve e aplica projetos na área, workshops e atendimentos individuais desde 2008.