Entrevista a Mariana Torres Entrevista

Foi para medicina achando que não ia escolher ginecologia/obstetrícia mas não se arrepende da sua escolha. Empatia e informação são palavras chaves na sua prática profissional, e adora partos na água.

 

És médica interna de ginecologia e obstetrícia, certo? O que te fez escolher essa especialidade?

Sim, estou nos últimos meses do internato de ginecologia/obstetrícia, no 6º ano da especialidade. Em relação à escolha da especialidade é engraçado porque eu sempre disse que nunca seria ginecologista. O meu pai é ginecologista e o comentário que ouvi toda a minha vida foi: “vais para medicina para seres ginecologista como o teu pai, não é?!”. O facto de, para as pessoas, eu não ter escolha, incomodava-me. Todo o curso pensei que ia para Cirurgia Geral ou Ortopedia.

Mas… quando foi o momento de escolher, acabei por escolher Ginecologia/Obstetrícia! Foi o estágio do Ano Comum (que é o primeiro ano de trabalho após terminar Medicina) de onde eu saía mais feliz e com imensa vontade de voltar no dia seguinte. Não me arrependo nada, continuo a ser feliz!

 

O que pensas ser mais importante no cuidado à mulher grávida?

Empatia, nunca esquecer que aquela pessoa à nossa frente é um Ser Humano, com os mesmos direitos que qualquer um de nós e que ninguém quer o melhor do seu filho do que a sua mãe (salvo raríssimas excepções). Acho que quem nunca se esquecer disto, prestará sempre um bom cuidado à mulher grávida.

 

Já auxiliaste partos naturais?

Sim mas não foram a maioria. Em meio hospitalar há quase sempre qualquer coisinha… romper a bolsa, uma ocitocinazinha para acelerar e, claro, a epidural. Cerca de 70% dos partos que acontecem nos hospitais são sob analgesia epidural e em alguns hospitais quase todos os partos são acelerados com ocitocina. As intervenções são muito frequentes e rotineiras.

 

E partos na água?

Sim! São os meus preferidos. Em 2015 fiz um estágio na Maternidade do Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte no Brasil. É um hospital público com 12 000 partos por ano (em Portugal a maior maternidade tem menos de 4000 por ano) e que se destaca por prestar cuidados baseados na evidência científica, com respeito pelas opções das mulheres. E nesse hospital quase todos os quartos tinham chuveiro e banheira. Acompanhei alguns partos na água e quase todas as mulheres estiveram dentro da banheira mesmo que o bebé não tenha nascido na água.

É incrível a tranquilidade que estar dentro de água transmite a todos.

 

Qual a diferença nestes partos?

A calma.

A mulher a flutuar entre as contrações. É essa a imagem que me ficou na memória: olhar para os braços da grávida a flutuar entre as contrações, completamente relaxados.

 

Sentes maior procura por estes partos?

Nos últimos anos tem havido maior divulgação desta opção e por isso surgem mais pedidos quer no hospital onde trabalho quer na Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP). No Hospital Garcia de Orta (HGO) existe um projecto para iniciar a imersão no trabalho de parto que acredito estar nos finalmentes para ser implementado. E depois da imersão, com a experiência da equipa e com mais evidência que surja para convencer os profissionais mais cépticos, acredito que chegaremos ao parto na água.

 

O que pensas que é necessário mudar no nosso sistema de saúde relativamente ao apoio oferecido aos casais durante a gravidez e no parto?

Tempo. Falta tempo para ouvir e explicar.

Na Bloom|Birth&Baby fico quase sempre 1 hora em cada consulta. Para saber as novidades desde o último encontro, ver os exames feitos nesse intervalo, escrever tudo no livro da grávida e nos meus registos, medir a barriga, ouvir o bebé e todos os outros procedimentos habituais da consulta. Conversar sobre o que é esperado nas semanas seguintes, o que poderá ser recomendado fazer, tirar dúvidas… Isto é impossível num hospital público ou na maioria dos hospitais privados. Nos públicos há falta de recursos humanos, as agendas estão sobrelotadas, há frequentemente 2 ou 3 mulheres marcadas para a mesma hora. No privado é importante o lucro, rentabilizar o tempo daquele profissional e os seguros de saúde pagam pouco aos profissionais. Há consultas em que o médico recebe menos de 15 euros…

Em relação ao parto… também é falta de tempo e um acumular de medos. O parto é um processo demorado e os profissionais andam cansados. Nenhum hospital público funcionava se os médicos e enfermeiros deixassem de fazer horas extra. E fazer horas extra aumenta o cansaço e diminui a paciência… E depois, os medos… quando um parto corre mal (e a maioria das vezes não é por erro de ninguém) é muito difícil ultrapassar o medo que aquilo volte a acontecer. Por isso tenta-se identificar o que se pode fazer diferente na vez seguinte e passa-se a fazer sempre diferente. Mesmo que isso signifique que a maioria das mulheres não precisaria daquilo. E depois é o medo de que no dia em que se faça algo diferente, algo muito terrível aconteça… que se deixe a mulher parir noutra posição e haja uma distócia de ombros e seja mais difícil resolver, que não se faça episiotomia e rasgue mais do que podia, que se aceitem as escolhas da mulher e ela se arrependa e meta a culpa no profissional.

Faz muita falta formação em responsabilidade na obstetrícia: de quem é a última palavra e quem tem responsabilidade sobre o que acontece.

 

A médica obstetra deveria falar com o casal, durante a gravidez, sobre o plano de parto? Porquê?

Sim, o plano de parto idealmente devia ser discutido com o profissional que acompanha a gravidez e com a equipa que estará presente no parto. Discutido no sentido de serem esclarecidas dúvidas e não no de pedir autorização para alguma coisa, claro. Por mais que a grávida se informe por outras vias, o profissional de saúde pode ter um papel importante e mais activo para esclarecer a fisiologia do parto, os riscos e benefícios de cada procedimento ou alguma situação clínica específica da grávida que possa influenciar o parto. Existem também alguns mal entendidos sobre o funcionamento das instituições, sobre o parto em si e as indicações das várias intervenções. Mas considero o plano de parto uma ferramenta muito útil para a grávida transmitir as suas preferências.

 

As mulheres vão cedo demais para as maternidades/hospitais? Se sim, quais as implicações que podem trazer ao nosso sistema nacional de saúde?

As mulheres vão quando sentem vontade de ir e isso eu acho bem.

A questão é quem as recebe. Se ainda é cedo para se ficar no hospital, o profissional tem que ser capaz de explicar isso. Explicar o que a mulher ganha por ir para casa e o que perde por ficar lá. O problema não é as mulheres recorrerem ao hospital. Prefiro que lá vão 1000 vezes e esteja tudo bem e elas vão tranquilas para casa do que 1 delas ficar em casa com dúvidas e ansiosa. O problema é quem as interna no hospital sem motivo para isso. Porque depois de estar num bloco de partos, é difícil ter-se alta ainda grávida… na maioria dos casos vão ser induzidas no dia seguinte quando se verifica que o trabalho de parto não avançou (ou então ainda pior, vai ser feita cesariana porque o colo não dilatou).

 

Que conselhos darias a uma mulher/ casal grávida?

Informação! As mulheres devem informar-se, saber o que é normal na gravidez e parto, conhecer um pouco das intervenções mais frequentes e quais as suas reais indicações. Devem rodear-se de gente que confiam e escolher bem o local do parto. Nenhum lugar infelizmente é uma garantia de respeito pelas opções. Mas há lugares onde há uma maior probabilidade que outros e, talvez, se mais mulheres escolherem esses lugares, os outros se questionem do porquê e tentem mudar as suas práticas.

 

O empoderamento da mulher muda a sua visão do parto?

Sim, sem dúvida.

A atitude perante o parto é completamente diferente se a mulher perceber que ela é que é o centro, que ela é que tem o poder de escolher.

 

“Slow Birth Movement”? Acho que nos dias que correm há uma urgência em parir. “Tem uma hora pequenina!”. Eu desejava isso antes de ser mãe. Depois de parir, a minha visão mudou. Sinto que devemos escutar e respeitar o nosso corpo e bebé e deixarmo-nos libertar. O que vi é uma pressa constante para que as mulheres tenham os filhos rapidamente: partos induzidos que se transformam em partos mais dolorosos para a mulher. Somos números e há pressa nos profissionais. Como médica o que achas mais eficaz para a mulher e para o bebé?

O que acho mais importante é haver respeito e informação adequada. O que é um parto bom para uma mulher é um pesadelo para outra. Eu, Mariana, sei o que quero no meu parto. Mas aceito que outra mulher possa querer algo diferente, algo com outro tipo de intervenções. Os partos induzidos são um exemplo disso. Concordo que existe alguma pressão para induzir e acelerar os partos da parte dos profissionais e que a informação que é passada nem sempre é a adequada à situação clínica. Mas também sinto que há uma desinformação do que é o “tempo de um parto” e que a expectativa da mulher nem sempre corresponde à realidade. Se o nosso objetivo é termos mulheres felizes com a sua experiência de parto, é importante percebermos qual o seu parto ideal: é sentir tudo e deixar passar o tempo que for necessário ou será que prefere por exemplo fazer uma epidural e acelerar o parto para conhecer o seu bebé mais rapidamente? Todas as escolhas têm riscos e benefícios. Esperar ou não esperar, acelerar ou não acelerar, tirar a dor ou não tirar.

Cabe à mulher reflectir e informar-se e aos profissionais informarem e respeitarem.

Qual a diferença entre parto natural e parto induzido?

No parto natural as coisas geralmente acontecem gradualmente, dando tempo à mulher de adaptar-se a cada fase e sensação nova. No parto induzido, as contrações surgem de repente e geralmente são logo mais frequentes e intensas. Além disso sabemos que a indução do parto aumenta o risco de algumas complicações, por isso só deve ser aconselhada quando existe um motivo real para se acelerar a chegada do bebé.

 

Há então riscos no parto induzido?

Há riscos em tudo. Tudo o que fazemos na vida tem riscos e benefícios, todas as nossas escolhas. Agora, é importante pesar esses riscos e benefícios. Por vezes, os benefícios da indução do parto superam os seus riscos e aí a escolha mais sensata é mesmo induzir. Mas sim, o parto induzido aumenta o risco de alterações dos batimentos cardíacos do bebé por as contrações serem muito frequentes e intensas e também o risco de ruptura uterina (ainda que o risco absoluto seja muito baixo). Além disso, existem os efeitos secundários da medicação usada, como diarreia, febre, arrepios, hipotensão… A decisão de fazer a indução do parto deve ser bem ponderada pelo profissional de saúde e pela grávida. Mas repito, há situações em que a indução do parto é o caminho mais seguro para mãe e bebé.

 

Que procedimentos deveriam ser adoptados nas maternidades por serem​ benéficos ao bebé?

Ui, tantos… deixar o parto fluir sem intervenções desnecessárias, liberdade de movimentos durante o trabalho de parto, depois de nascer deixar o bebé no colo da mãe em contacto pele a pele, não cortar o cordão cedo demais, fazer os procedimentos dolorosos sempre que possível com o bebé a mamar para se acalmar, não retirar a confiança da mãe na amamentação e ajudá-la com informação atualizada. Acima de tudo, deixar os bebés em paz e tratá-los como Seres Humanos.

Porque isso não acontece?

Hábitos… As rotinas sem fundamento também existem na pediatria. Os mitos sobre a amamentação e as regras sem nexo de horários também abundam. Mas eu acredito que ninguém o faz por maldade, simplesmente aprenderam assim e não sabem que pode ser diferente. Ou então sabem que pode ser diferente mas têm medo das consequências de fazer diferente e é mais fácil fazer igual a todos, há menos críticas… Enfim… é um caminho longo mas estamos cada vez melhores.

 

O parto a quem pertence?

À mulher que está a parir, sem dúvida alguma.

 

Estamos muito gratas à Mariana por ter dispendido um pouco do seu tempo para as Mães d´Água. Uma mulher e médica, no mínimo, inspiradora. 


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.