[Relato de parto #38] Catharina Didelet Parto Com Água / Relatos

As 40 semanas eram a 2 de Janeiro – aniversário do meu parceiro. Estávamos entusiasmados com a data, até porque eu e a filha mais nova dele – a Hali – fazemos anos no mesmo dia em Agosto e dizíamos: “Era muito giro se numa casa de 4 pessoas só houvesse 2 dias de aniversário”.
Estou a viver nos Estados Unidos, e o “sistema” de saúde cá é muito diferente do português. E foi um grande choque quando descobrimos que, se o David nascesse cedo, ainda em 2016, o parto custaria um terço do que se nascesse em 2017. Assim se foi toda a serenidade da minha gravidez!  Em cima disto, o meu parceiro tinha uma viagem de trabalho de 10 dias na Europa, a partir de 6 de Janeiro.

Estávamos assim cheios de vontade e esperança que o David nascesse ainda em 2016, até porque estava cá a minha família de visita. Mas como me disse uma das parteiras na consulta das 36 semanas:

“Imagina que há um incêndio. O que é que o teu corpo vai fazer?
O mais seguro para o bebé: vai guardá-lo dentro de ti até ser seguro nascer. Quanto mais nervosa estiveres, mais o teu corpo vai achar que há um incêndio
e o teu bebé vai ficar onde é mais seguro”.

Acordei a 31 de Dezembro e chorei… não havia qualquer sinal de trabalho de parto, o David ia nascer em 2017!

A 5 de Janeiro tivemos mais uma consulta em que explicámos à parteira a ansiedade em que estávamos por causa da viagem do Mikey, que podia no máximo ser adiada até dia 8. E ela deu-nos um “cocktail” (*) que induz o parto, caso o corpo esteja preparado para que o bebé nasça: “Vão para casa, conversem, se decidirem tomar o cocktail avisem-me que amanhã sou eu que estou de serviço”.
Fomos para o lago ao pé de casa, onde íamos passear todos os dias no último mês da gravidez, e conversámos… decidimos que tínhamos de cancelar a viagem do Mikey e planificámos o impacto financeiro de perder o trabalho e como pagar o parto. Ao fim da tarde mandei uma mensagem à Judy, a parteira, a dizer: “Decidimos não tomar o cocktail. Vemo-nos segunda na consulta das 41 semanas, a não ser que o nosso bebé decida sair entretanto.”

E assim se apagou o incêndio… Às 3h15 dessa noite as águas rebentaram.

Pensei deixar o Mikey dormir mais um pouco, mas as primeiras contracções foram logo tão fortes, que o acordei. Fomos contando o tempo entre contracções, tentava dormitar entre elas, mas nem 10 minutos tinham de intervalo. O Mikey acalmava-me e ajudava-me a respirar quando vinham as contracções. Meti-me no duche em casa 3 vezes, deixava a água quente correr, ora nas costas, ora na barriga, e as contracções ficavam mais curtas e doíam muito menos. Era maravilhoso! Estava ansiosa de poder ir para a piscina de parto.
Por volta das 6 da manhã ligámos para a linha 24h da Casa de Partos. Era a Judy de serviço, como já sabíamos. Parteira muito experiente, fez mais de 2000 partos. Disse-nos para esperar até as contracções estarem com 2 minutos de intervalo. Entretanto a minha mãe e a Hali acordaram e vieram ter connosco ao quarto. A Hali começa a cronometrar as contracções, enquanto o Mikey aproveita para tomar duche e começar a preparar coisas, a minha mãe agarra-me a mão. E é ela que me aperta a mão quando eu tenho uma contracção, em vez do inverso – se me apetecesse rir na altura, tinha-me rido! Mas pelos vistos tive sentido de humor, nalguns momentos… era 6 de Janeiro, Dia de Reis para nós, chamado Epiphany Day nos Estados Unidos. A Hali contou-me depois que às tantas, a meio do trabalho de parto, a chamei e digo-lhe: Hali… I’m having an epiphany!
Quando vinha uma contracção tinha imenso calor, destapava-me e abria o robe; quando passava tinha frio, enrolava-me toda tapada. Frio… foi uma sensação que me acompanhou no parto que não esperava.
Comecei a ter vontade de fazer força e a dizer isso ao Mikey. Ele ia gerindo a comunicação com a parteira. Acho que tanto ela como ele acreditavam que o meu trabalho de parto ia demorar, por ser primeiro filho. Tenho mesmo muita vontade de fazer força… a minha mãe – que teve 2 filhos também de parto natural – começa a reforçar “ela quer fazer força, vocês têm de ir embora”, o Mikey a dizer “não vamos ter este bebé em casa” e eu respondo: então liga à parteira e diz que TEMOS de ir!!!!

Chegámos à casa de parto às 9h30 e a Judy ficou pasma quando me observou: dilatação completa. “Catharina, estás pronta. Faz força se quiseres”. A piscina ainda estava a encher e eu só queria ir para dentro da água e perguntava: quanto tempo falta para a piscina encher? Uns 20 minutos… Uff… ok… devo conseguir aguentar 20 minutos.

Fomos para dentro de água… fiquei a flutuar por uns breves minutos, a desfrutar da serenidade e conforto da água. As contracções eram muito fortes e muito seguidas, tinha de continuar e focar-me no parto. Achei que não ia conseguir. Achei que com toda a força que estava a fazer, ele já devia ter nascido. Seria muito grande e íamos acabar no hospital com cesariana certamente.

A Judy e a Sarah, enfermeira, dizem que está quase, que estou a fazer um trabalho fantástico. A Sarah é particularmente doce, a Judy muito serena e tranquila. O Mikey está sentado atrás de mim, eu apoiada nas suas pernas, praticamente flutuo na água, ele puxa as minhas pernas quando há uma contracção. Dizem-me “já se vê a cabeça, está quase, queres ver?” e põem um espelho dentro de água para eu ver. Com o que sentia pensei que já se visse metade da cabeça e na realidade só se via um bocadinho de cabelo e cabeça – talvez do tamanho dum alperce. Digo irritada e zangada: “Não quero o espelho, não quero ver. Que desilusão!”
E foram mais três ou quatro contracções, e subitamente cabeça e corpo deslizaram para este mundo e, sem eu dar conta de tão rápido que foi, tinha o David nos meus braços. Quentinho, peganhento, e a chorar suavemente. Rodeado de amor e coberto de beijos.
Eram 11h11.

Ficámos na piscina uns minutos a adorar o nosso bebé e a trocar mimos. A Judy cortou o cordão umbilical. O Mikey foi secar-se, enquanto a Sarah tratava do bebé, e a Judy me tirava da água. Depois de limpo e primeiras verificações de saúde, o David esteve pele com pele no peito do pai, ao meu lado na cama, enquanto a Judy tratava de mim. Ao fim duns minutos o David já estava ao meu colo, e passado pouco experimentámos maminha: um sucesso.

A meio da tarde fomos para casa. À saída, a Judy e a Sarah dizem-me que fui fantástica, eu respondo que acho que gritei muito. O Mikey, que teve os seus primeiros três filhos em meio hospitalar, diz-lhes: “Se tiverem algum pai ou casal com dúvidas em relação a parto na água, eles que me liguem. Isto é fantástico!”

Tive exactamente o parto que queria, mas completamente diferente do que imaginava.

 

O David faz hoje um ano. Continua rodeado de amor e beijinhos. E mama, muita mama!

 

PS – Para além do óbvio, e por isso desnecessário, agradecimento de alma ao meu parceiro, um especial obrigada às minhas amigas, parceiras de luta nas Mães d’Água, mães inspiradoras, e doulas oficiosas:
– à Micas por, numa ou duas “conversas de café”, me mostrar que há outra forma de trazer os nossos bebés ao mundo e por me fazer ver e acreditar que o meu corpo tinha tudo o que era preciso para um parto saudável e belo;
– à B por dar o “exemplo” no parto na água e partilhar a sua linda experiência, o que não me deixou dúvidas sobre o que queria. E por muito mais coisas que não se conseguem escrever.
(*) este cocktail usado pelas parteiras tem óleo de rícino, manteiga de amêndoa, um pouco de champanhe, e mais 2 ou 3 ingredientes que não me lembro, porque nunca os chegámos a misturar!