Serendipidade e Transcendência Autores convidados

Michel Odent, quando perguntado sobre sua experiência com o parto na água, nos explicava que os nascimentos nas banheiras em Pithiviers – França nunca aconteciam por força de uma ideologia subjacente que determinava a água como um ambiente “superior” ao tradicional, ou que a ação sobre a gravidade poderia ter efeitos positivos sobre os esforços expulsivos ou o bem-estar do bebê. Odent explicava que apenas intuía que os efeitos relaxantes de um banho poderiam ser positivos para facilitar a descida e rotação do bebê, mas essa sensação de conforto era tão grande que no momento do nascimento as pacientes se negavam a sair de um lugar que lhes parecia tão tranquilizador e reconfortante. Por essa coincidência não planejada Michel Odent ficou conhecido por atender partos na água quando do início de seu trabalho revolucionário na pequena cidade francesa. Essa descoberta deu um forte impulsionamento aos “partos aquáticos” no mundo inteiro

Outras coincidências nesse terreno também ocorreram nos anos 80, quando uma pesquisa sobre a relação de vínculo entre mãe e bebê na Guatemala colocou os pesquisadores John Kennell, Marshall Klaus e o prof. Sosa diante de uma descoberta igualmente fortuita. Durante suas avaliações sobre a resposta materna e neonatal aos primeiros contatos mútuos perceberam que a presença de um acompanhante ao lado da gestante, dando-lhe apoio físico e psicológico, além de encorajamento e suporte emocional, produzia resultados positivos e comprováveis no recém-nascido e na própria mãe. Imediatamente suspenderam a pesquisa inicial e se aventuraram a estudar esta relação, que lhes pareceu mais instigante. A partir de um termo encontrado no livro “Breastfeeding, the Tender Gift”, de  Dana Raphael, surgiam as doulas, profissionais encarregadas de oferecer o acompanhamento carinhoso e qualificado para as mulheres em trabalho de parto. O encontro com estas evidências nos ofereceu uma parte fundamental para a grande revolução do parto que se iniciava.

 

O que Michel Odent e a dupla Klaus e Kennell tiveram contato foi com algo que hoje se chama “serendipidade”, um anglicismo que, adaptado ao nosso idioma, significa “o encontro de soluções fortuitas aparentemente por acaso; descobertas que ocorreram quando o foco da atenção do pesquisador estava em outro processo ou resultado”.

 

Segundo a Wikipedia o termo foi criado pelo escritor britânico Horace Walpole em 1754, a partir do conto persa infantil Os três príncipes de Serendip. Esta história de Walpole conta as aventuras de três príncipes do Ceilão, atual Sri Lanka, que faziam descobertas inesperadas, cujos resultados não eram exatamente aqueles que procuravam. Graças à sua capacidade de observação e sagacidade, descobriam “acidentalmente” a solução para dilemas impensados. Esta característica tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom especial, mas por terem a mente aberta para as múltiplas possibilidades. Isso não é nenhuma novidade na história das descobertas, bastando lembrar da frase “Eureka” gritada por um tresloucado Arquimedes (287 – 212 aC) ao observar seu corpo submergindo na água e tirando daí a ideia sobre a coroa do Rei de Siracusa. Mais ainda, a descoberta da Penicilina pelo médico inglês Alexander Fleming (1881 – 1955) ao observar o crescimento de fungos Penicilium notatum em placas de Petri que eliminavam culturas de Staphilococcus. Todas estas foram descobertas fortuitas e inesperadas, mas que brotaram de mentes que estavam atentas e abertas para o novo e o surpreendente.

Todavia, há mais o que se dizer sobre as descobertas de Michel Odent e de Klauss e Kennell. Se é verdade que seus achados podem ser considerados inesperados também é certo dizer que ambos se dirigiam para o mesmo ponto. Nas duas circunstâncias – os efeitos positivos da água no parto e o benefício da presença das doulas – os pesquisadores se aventuraram em um terreno muito mais nebuloso: os aspectos afetivos, psicológicos, emocionais e sociais do nascimento. Eles foram para além dos elementos físicos e mecânicos dos processos de parto e tangenciaram a transcendência.

O que sobressai no trabalho desses pesquisadores é o caráter inovador de suas perguntas. Basicamente, “que elementos podem conferir segurança e qualidade para o nascimento que não venham a interferir nos processos fisiológicos elaborados há milênios pelo processo evolutivo de nossa espécie?”. As respostas encontradas por Michel o aproximaram da tese do “Homo sapiens aquaticus” e a ideia de que nossa espécie que se desenvolveu e proliferou perto de mananciais de água por sua especial característica física. O crescimento cerebral avantajado determinava a necessidade de um sistema de arrefecimento de temperatura que só poderia ser conseguido através de um complexo sistema de glândulas sudoríparas, mas para isso era necessário perder os pelos e estar próximo da água, não apenas pela necessidade desta, mas também para a suplementação de ácidos graxos e iodo, amplamente encontrados nos oceanos. Com isso nossa espécie teria produzido uma atávica conexão com a água, o que se observa com frequência durante o trabalho de parto. A utilização dos efeitos relaxantes da água nesse momento se mostrou benéfica e passou a ser largamente estudada e utilizada no mundo inteiro como uma das opções para a assistência ao parto.

Por seu turno, Klaus e Kennell percorreram um caminho ainda mais longo ao encontrar o significado do suporte de uma pessoa compassiva durante os desafios físicos e psicológicos do trabalho de parto. Em verdade, eles encontraram o mais ancestral de todos os elementos da assistência ao parto: a presença constante de algum membro da comunidade a oferecer às gestantes o suporte essencial. A institucionalização do parto e a utilização de rituais de controle sobre o corpo das grávidas durante o parto no hospital jogou as mulheres ocidentais em ambientes frios, medicalizados, por vezes aterrorizantes e que as mantinham afastadas do contato com seus familiares. Esse isolamento incidia sobre suas emoções de maneira negativa, fazendo com que o ciclo MEDO-TENSÃO-DOR descrito por Grantly Dick-Read, na década de 40 do século passado, fosse ativado. Desta forma, o parto teria que ultrapassar não apenas os obstáculos mecânicos para a saída do bebê, mas os elementos de angústia, medo e desespero produzidos pela solidão a que as pacientes eram submetidas no ambiente hospitalar. Klaus e Kennell perceberam que a doula poderia ser a ponte que nos ligaria à ancestralidade do parto, oferecendo o apoio essencial que as mulheres tiveram desde que pela primeira vez pariram com a consciência plena dos seus significados.

serendipidade destas descobertas, se podem ser tratadas como “fortuitas”, também podem ser entendidas como portas que se abriram para uma percepção alargada do nascimento. Depois de muitas décadas procurando descobrir a essência dos elementos físicos, químicos, hormonais e mecânicos do parto era chegada a hora de se aventurar em uma busca muito mais complexa: os elementos inconscientes, afetivos, sociais, psicológicos e subjetivos que tornam cada parto um evento completamente diferente dos demais, nos obrigando a enxergar cada um deles como um processo único, inscrito nos imprints primitivos da constituição pessoal. Mas para isso, seria importante ter como princípio norteador, que nossa espécie se desenvolveu a partir da consciência de si mesmo e da relação íntima de nossas emoções com as respostas físicas. Desta forma, para auxiliar no nascimento e lhe dotar de segurança e qualidade, é fundamental que esses dois polos de atenção sejam supridos.

Ricardo Herbert Jones, MD

ReHuNa – Brasil